Annos de Prosa; A Gratido; O Arrependimento
Camilo Castelo Branco
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Annos De Prosa
Romance
por
Camillo Castello-Branco
A GratidãO
Romance
O Arrependimento
Romance
PORTO. Editor, Antonio José da Silva Teixeira. Rua da Cancella Velha, 62 1863
Typographia de Antonio José da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62 1863
Annos De Prosa.
Annos De Prosa.
Discurso Proemial.
Altissima é a missão do escriptor, e a do romancista principalmente. O mestre Ignacio da cartilha velha, amoldurada ás necessidades do seculo, é o romancista. Mal hajam os sacerdotes das letras derrancadas que vendem peçonha em lindos crystaes, e desfloram as almas em luxuriante florescencia da sua primavera. O mau romance tem afistulado as entranhas d'este paiz. Não ha fibra direita no coração da mulher que bebeu a morte, e--peior que a morte--algumas dezenas de gallicismos no que por ahi se escreve e copia. O anjo da innocencia foge de certos livros, como os editores de certos authores. A candura virginal de uma menina de quinze annos é a cousa mais equivoca d'este mundo, se a menina leu cousa em que os pedagogos do coração a ensinaram a conhecer-se, antes que a experiencia a doutrinasse.
Para cumulo de infortunio, Portugal é um paiz onde se está lendo muito.
Acontece aos estomagos famintos, quando se lhes depara alimento bom ou mau, assimilarem-n'o com tamanha sofreguidão, que o encruamento do bôlo, e o marasmo são inevitaveis. Assim e por igual theor, quando os Lucullos e Apicios das letras expõem á voracidade publica as suas iguarias estragadas, a fome de aprender a vida nos romances locupleta-se com tamanha intemperança, que o resultado e as dispepsías espirituaes, tormento de angustias vomitivas, que fazem descer o coração ao lugar do estomago, e subir o estomago ao lugar do coração.
Eu tenho assistido a esta deslocação de visceras com lagrimas nos olhos, enxutos para tudo o mais. Muitas vezes tenho perguntado ás velhas se isto assim era no tempo d'ellas. Faz dó vêr a consternação com que algumas expedem um gemido, unisono com o assobio da pitada! Compunge vêr rolar a lagrima preguiçosa do olho desvidrado d'outra, que se recorda da honestidade com que foi amada pelo seu quinto amante!
Ha cincoenta annos que as senhoras não liam romances, por uma razão cujo descobrimento me custou longas vigilias:--não sabiam lêr. Algumas, rebeldes á vontade paternal, conseguiam soletrar e escrever á tia uma carta em dia de annos, copiada do _Secretario portuguez_ de Candido Lusitano. Os paes aceitavam com repugnancia aquelle abuso de intelligencia, e castigavam a filha, forçando-a a um trabalho litterario semanal: escrever em cada segunda feira o rol da roupa. Este systema penal tinha só a vantagem de tirar ao vicio os enfeites da intelligencia, reduzindo-o á essencia bruta de sua nudez primitiva. Já não era pouco para exemplo e edificação das almas. O melhor moralista será aquelle que despir o delicto do coração das galas que lhe veste o desejo, e o cobrir de farrapos repulsivos.
Por esses tempos, e nos dez annos sequentes, os propagandistas da corrupção tentaram exercitar o seu maleficio, vertendo para pessima linguagem portugueza novellas francezas, que transpozeram as fronteiras no couce da bagagem do Junot.
Em 1814, a immoralidade, até esse anno sopeada pela impertinente virtude das novellas, taes como _A virtude recompensada_ e o _Escravo das paixões_, quebrou as ferropeas, e despejou do regaço dissoluto a versão de _Tom Jones_, o _Sophá_, o _Candido_, e quejandas faúlas incendiarias, que pegariam nos corações, se a manteiga e o paio das tendas não esfriassem a força comburente d'essa droga, que acirrava os paladares anthropóphagos d'aquelle festim de 1793.
Bemdita e louvada seja a ignorancia! Os romances francezes, até 1830, encontraram as almas portuguezas hermeticamente calafetadas. Ate esse anno infausto, a mulher era o anjo caseiro, a alma da despensa, a providencia da piuga, e sobre tudo, a femea do homem, qual Jehovah a fizera d'uma costella do mesmo.
O salão era um como trintario cerrado, onde, a espaços, uma gosmenta matrona espirrava, e a sociedade, a cabecear de somno, surgia estremunhada, dizendo: _Dominus tecum_. A menina casadeira não se erguia de ao pé da mãi. O noivo mirava-a de longe em fellina beatitude; e, no auge da sua casquilha audacia, piscava-lhe a furto o olho, onde reslumbrava a paixão.
Não havia então d'estes homens mulherengos, que alambicam a parlenda assucarada, coando por ouvidos incautos o veneno do estilo, que é o mais corrosivo de quantos ha na toxicologia do amor. A mulher actual é quasi sempre victima da rhetorica requentada do romance, que esteril peralvilho lhe encampa como cousa de sua alma. Algumas conheço eu que resvalaram ao abysmo da perdição pela rampa de um adverbio euphonicamente intruso n'um periodo arredondado. Este sortilegio da linguagem, que enfeitiça e dá quebranto ás mulheres, é apanhado no romance. O coração de certos individuos acha-se, muitas vezes, a paginas tantas de tal novella. Sem figurinos e romances, não haveria corpos apresentaveis nem espiritos insinuantes.
Muita gente se espanta das gloriosas aventuras de alguns sujeitos pyramidalmente tolos. Eu não. Tal ha que se vos afigura mazorro d'alma, e, não obstante, ao lado de mulheres, dispara descargas de phrases amorudas que é um pasmar. Asneira, dita em nome do coração, não ha uma só que não seja laureada. Cada Petrarcha lorpa tem, a final, o seu capitolio.
A mulher, por via de regra, é de seu natural tão boa, sensivel e generosa, que chega a recompensar a pertinacia do homem que, primeiro, a nauseou: o segredo d'este paradoxo está na influencia contagiosa da tolice. A mulher que fez chorar o tolo, e viu rebentar lagrimas de uma cabeça de granito, cuida que fez o milagre de Moysés na rocha de Horeb. Alliciada pela serpente da vaidade, succumbe como Eva.
Que mudanças!
D'antes o caixeiro principiava sempre a carta de namoro por: _Meu amado bem!_ Agora já diz: _Anjo!_ ou _Seraphim!_ Era d'antes a phrase sacramental do exordio: _Vêr-te e amar-te foi obra de um momento._ Agora não é raro encontrar d'estes arrojos: _Amar e morrer é meu destino!_
E, depois, o maleficio do romance não está sómente no plagiato irrisorio; o peior é quando as imaginações frivolas ou compassivas se entalham os lances da vida phantasiosa da novella, e crêem que a norma geral do viver é essa.
Em quanto a mulher estuda sómente a phrase que applica, bem ou mal, quando a enlouquece a vaidade de parecer o que não é, bem vai. Dá-se um exemplo: A apaixonada de um amigo meu, ao recebêl-o, pela primeira vez, em sua casa, no patamar da escada, antes de deixar-se beijar a mão, estendeu o braço direito em magestosa attitude, deu á frente a regia altivez de uma Phedra de aguas-furtadas, e disse em tom cavo e solemne: _Juraes levar-me ás aras?_ O meu amigo, que balbuciava um prefacio de longo estudo, soltou um frouxo de insolente riso, e desceu as escadas, por não poder com o espectaculo da dama corrida do insulto. Eis-aqui uma que os romances de Arlincourt salvaram; quantas, porém, perdidas por guardarem as phrases ridiculas para o final?...
Grande mal é o identificar-se o espirito ás visualidades do romance. Quando a leitora se ri das crendices da sua infancia e dos absurdos principios que lhe apoucaram o imaginar e o voar do espirito, vem-lhe os enfados, o escutar as mentiras do coração que se emancipa, o crêr que a vida passada foi apenas um vegetar do vulgo, e que o viver da alma assim, será como o do arbusto bravio que dá flôres sem aroma, e fructos sem sabor.
Seja, outra vez, bemdita e louvada a ignorancia de nossas mães, e nossas irmãs, e nossas esposas!
A vida caseira, esta deliciosa monotonia, que a poucos é já saborosa no viver intimo, requer muita estupidez, muito somno a toda a hora, um estomago exigente e forte, muita digestão soporosa de substancias pesadas.
Esta bemaventurança ha-de restaural-a a ignorancia supina, não hão-de ser as palavrosas theorias de Michelet ácerca do _amor_ e da _mulher_. Comecem os paes de familias por circumvalarem suas casas de um cordão sanitario contra a peste do romance, que não se abonar com a promettida pudicicia d'este, e de outros com que o author, coração aberto a todas as chimeras, e de entranhas lavadas, tem querido enxertar no tronco carcomido da humanidade toda a casta de virtude.
Vou lembrar um alvitre, cuja adopção poderia ser momentosa na regeneração dos costumes.
As reliquias das velhas virtudes portuguezas, se as ha, acham-se nos velhos, que beberam ainda as escorralhas dos seios puros do seculo passado. O Porto, de preferencia, graças á força refractaria da sua organisação, encerra boas quatro duzias de archontes dignos da Grecia antiga. Fôra facil eleger de entre estes--(abstenho-me de os nomear, porque a modestia n'elles dóe de insoffrida como ulcera em lombo de muar, e não é raro responderem ao elogio com o couce)--eleger d'entre estes, digo, uma corporação censoria, encarregada de examinar os livros, que giram no mercado, e referendar os que a juventude feminil podesse lêr sem deterioramento da innocencia. D'esta arte, os anciãos não restringiriam a sua egoista virtude á missão balda de condemnarem o vicio da mocidade inexperiente. O exemplo dão-no optimo; a doutrina é a que nós sabemos; mas não os devemos desquitar de se constituirem entulhos contra a torrente do vicio, desviando-a de levar ao regaço das futuras esposas e mães o romance peçonhoso.
Pelo que, d'aqui já sotoponho este livro á censura, e assim dou publico e voluntario testemunho de quanto venero as cãs e as virtudes. Fadario triste! A minha sina capricha, até hoje, em fazer-me malvisto d'esses que eu mais quizera bemquistar, ainda á custa de um panegyrico á corrupção senil dos raros que desgarram da trilha austera por onde a virtude os vai guiando ao céo, no qual os proprios anjos se espantam das colonias que vão d'aqui.
Porto--1858.
Primeira Parte.
I.
«Em quanto ao fogo d'aquelle meu phantasiar de genio, fadado para desgraças, encendrei as imagens das formosas apparições da terra, as creações do meu espirito eram magnificas e brilhantes como as myriadas do céo estrellado.
«Eu tinha horas de tão dôce scismar! O ideal de Fausto, a melancolia do poeta d'Elvira, os coriscos de Byron, as satyras mordentes do Diabo-Mundo, as facecias elegantes de Fielding, e as vaporosas subtilesas de Senancourt! Ai! havia de todas essas feições do genio um traço de cada uma, no meu espirito.
«Mas, n'aquelle dia, á entrada do meu caminho, n'aquella noite calmosa, quando o sangue estuava nas arterias, quando as azas do coração, como as da aguia ferida, baixavam á terra, aquella mulher...
«A mulher fatidica! O despertar do sonho de dezoito annos. A Beatriz, a Laura, a Leonor, vingando-se na essencia d'uma, porque eu ousára crêr e dizer que mentira Tasso, e mentira Petrarcha, e mentira Dante.
«Que mulher! Bella? Ai! não, não é essa a palavra. Bella como a filha do anjo rebelde, a quem Deus vingativo dera o dom de crear a formosura que mata, o olhar das chammas magneticas do crime, a fascinação do abysmo onde o cahir é perder-se o homem para si, para a humanidade, e para Deus.
«Eu era poeta.
«Com que enthusiasmo eu pedia o meu quinhão na herança das celebradas agonias de tantas victimas de si, mansissimos cordeiros immolados no calvario do talento!
«Este augusto titulo, mercê do céo, rubricado por sello divino no coração do homem, tornou-se epitheto ridiculo ou injurioso.
«Gela-se-me o sangue, quando a ignorancia petulante faz um tregeito de menospreço ao talento, e diz: _poeta!_
«Mal sabeis que brutal atrevimento, ha ahi no tom de escarneo com que as bestas-feras insultam a intelligencia!
«Um bando de collarejas abrias, atirando-me em injurias a lama que lhes extravasa da alma, seria para mim harmonioso cantico das graças, comparado ao sorriso affrontoso do nescio que me diz: _poeta!_
«Ha ahi um rir do vulgacho, que dá em terra com a alma. Oh! o rir da gentalha maltrapida é menos fulminante que o escarneo da plebe engravatada, de todas as escorias sociaes a mais alvar e incorrigivel!»
Parou de escrever o meu amigo, quando eu entrava no seu gabinete de trabalho.
Este nosso amigo... Consinta o leitor a apresentação, e de amigo logo, porque eu sei que elle o é de conhecidos e desconhecidos, tirante os estupidos maus.
Este nosso amigo é uma afflicção permanente, um como pelicano que se está continuo espicaçando o peito para alimentar do sangue proprio seus filhos insaciaveis, suas imaginações escandecidas.
Entrou na vida pela porta do inferno. Os olhos da alma abriu-lh'os uma paixão das que alumiam a carreira do crime até á morte moral. A consciencia de sua individualidade, desunida das mil formosas existencias que se identificára, deu-lh'a o ser mais poetico da terra, a soberana da creação--a mulher!
Aos dezoito annos expulso do paraiso pelo anjo a quem dobrára o joelho!
Até então, Jorge Coelho amou sua mãi e irmãos, flôres, estrellas, fontes murmurosas, os pinhaes rumorejantes, o céo azul e as nuvens abertas em coriscos, os repiques festivos do campanario da sua aldêa e o dobre de finados, a cantilena da pastora e o gemer convulsivo da viuva e da orphã.
Tudo lhe era n'este mundo poesia, desde a grinalda de flôres da esposada até á baeta negra do esquife.
Não sou crendeiro em horoscopos de epiderme; todavia, tres rugas que lhe avincavam a testa entre as bossas frontaes, impressionaram-me. Um poeta, da alteza d'elle, diria que semelhantes vincos eram vestigios da vara com que a mão de um genio funesto o ferira, no berço. Moço de dezoito annos, que sobe ao empinado das serras, e circumvaga os olhos lagrimosos pelos confins dos horisontes, e me diz:--«a minha alma não cabe aqui» esse tal é de crêr que se fine na flôr dos annos, depois de haver experimentado as dôres todas de longa vida.
«A minha alma não cabe aqui»--disse-me elle, sentado no tôpo de um fragoedo, com a arma caçadeira encostada ao peito, e afagando com a mão o focinho do galgo que a lambia.--«Nasci hontem, e já me cança a vida. Sou um como hospede, que se sente ebrio antes de assentar-se á mesa do festim. Meus irmãos estão contentes ao pé de minha mãi. De manhã são abençoados e beijados; á noite vão restituir-lhe o beijo com a face alumiada de santa alegria; recebem a segunda benção da virtuosa, e vão dormir serenas horas, em quanto eu, fechado com os meus livros, tento debalde entreter o espirito nos deleites da poesia, ou subjugal-o ás paginas graves da philosophia que me disputa á fé, e da fé que me arranca aos tedios indigestos da philosophia.»
--Nunca sahiste d'aqui?--interrompi, suspeitando da candura de Jorge n'este tecido de palavras presumidas.
--Nunca sahi d'aqui. Fui litterariamente educado por um tio frade, que, ha um anno, me entregou ao ensino de minha mãi, dizendo que a semente da sciencia não podia germinar em terreno, onde faltava o amanho da boa educação religiosa.
Minha mãi não me entendeu melhor que o frade. Fallou-me do temor de Deus como principio da sabedoria humana. Eu tenho um Deus que não temo, porque o amo e adoro com espontanea devoção, porque o vejo luminoso em todas as minhas creações impalpaveis, porque o respiro e converto em seiva da minha alma, que tanto mais se amplia quanto mais se engolfa na immensidade divina.
Minha mãi é uma virtuosa senhora que só acha digna de Deus a linguagem dos psalmos penitenciaes, e os actos contrictos de peccados imaginarios. O circulo, que ella traça ás minhas aspirações, é estreitissimo. Para ella, o futuro é a successão dos dias travados uns nos outros, iguaes e serenos, como os viveram meus avós, e como ella pretende herdal-os a seus filhos. O futuro para mim é o grandioso imprevisto, é a vida com os seus desertos e oasis, é o oceano com as suas calmarias e borrascas, é a peregrinação do israelita, agora perseguido nas aguas do mar vermelho, logo alumiado pela columna de fogo.
Que sinto eu aqui?--proseguiu elle, pondo a mão na testa, cujos vincos se afundavam--Será o pensamento confuso do girondino á vista da guilhotina? Será o abutre gerado n'um sangue que, cedo ou tarde, tem de trazer-me a congestão ao cerebro?... Não sei...
--Porque não será a alma que geme solitaria como a rôla, que, além, no ramo secco d'aquelle azevinho, está chamando o companheiro que ha-de vir?--disse eu em phrase lyrica para não destoar da linguagem levantada de Jorge Coelho.
--Não creio--acudiu logo o meu amigo.--Eu tenho lido o amor dos livros, o amor dos romances, o amor da historia, o amor da poesia. Não me inquieto, nem me acho n'esse sentir. O que não entendia aos quatorze annos, não o entendo hoje melhor. As impressões que então recebi, recebo-as agora semelhantes. Os quadros de Dido e Eneas, de Helena e Páris, são duas telas borrifadas de sangue. O amor não póde ser aquillo. Paulo e Virginia, Julieta e Romeu são duas catastrophes que apertam a alma entre a admiração e o dó. A felicidade não está n'esses amores tão celebrados. Werther e Carlota, Chatterton e Kit-Bell, com o anjo inexoravel da virtude entre si, ao despenharem-se um apoz outro no abysmo da morte, para se salvarem do abysmo da perdição, são dous entes desamparados do anjo bom que nem sequer já serve para galardoar heroicos martyrios. Pois não irão mais longe os meus anhelos de gloria?
A região da felicidade estará delimitada pelas raias do amor, que o romance, e a historia, e a epopea me pintam, glorificado por lagrimas e sangue?
--Mas ha um amor--redargui--que não é o amor da historia, do romance, e da epopea. É amor reflectido de mais alto amor, que as almas adivinham e não entendem. É amor, preludio da bemaventurança, e prelibação da ambrosia celestial.
--É o amor do romance, esse, creio eu...--interrompeu Jorge Coelho sorrindo.
--Não é, meu amigo; e, se me contradizes n'essa idade, inculcas baixeza de affectos, que eu não posso acreditar, por honra da especie humana. O que te authorisa a desmentir um homem de trinta annos, que por sua honra te jura que esse amor existe? Queres achar Vestigios dos trabalhos e calamidades que me custou a descobril-o?
Repara nos meus cabellos brancos.
Colombo achou curtas as fadigas, que lhe deram o novo mundo, e a perpetuidade do nome d'elle, mais valioso que o novo mundo. Experimentaria Colombo as vertigens de prazer, que me endoudeciam, quando encontrei a mulher mais perfeita que os primores da minha phantasia?
Não te allucines, porém--prosegui, vendo nos olhos de Jorge a lucidez do enthusiasmo, accusando o proposito de se abrasar no primeiro amor, que lhe deparasse o acaso.--Não te allucines em presença de qualquer mulher com sorrisos de Virginia, que tanto servem de elogio ao pudor como de epitaphio da innocencia. Não respires com sofreguidão o aroma das primeiras flôres, que encontrares. Lirios e mandragoras são bellas flôres, que matam, se as não lançares de ti, aspirados os primeiros effluvios. Ha mulheres como as flôres venenosas: se te detiveres com ellas mais tempo que o necessario para lisongeares a sensação, e regalares a phantasia, sentir-te-has tomado de um marasmo de espirito, em que serão delidas as tuas mais nobres faculdades, e, a mais válida de todas, o mais nobre apoio da tua dignidade de homem--a liberdade. Esta doença, no começo da vida, deixa achaque para sempre; é como a bala recebida em pleno peito e lá encerrada: o ferido vive; mas, a revezes, a dôr lhe está lembrando que a bala pesa sobre o derradeiro fio da vida. Mulheres, que matem corações generosos, ha muitas para cada homem. Mulher, que salve, ha uma só.
A minha vida é uma elegia continuada desde o berço até esta ante-camara do tribunal da morte, onde estou esperando que me chamem: não tem romance: são desastres concatenados, sem intermedios d'esse contentamento vulgar, que os fortunosos denominam amargura. Todavia, se tivesses mais doze annos, Jorge, seria eu o teu conductor pelos infernos d'este mundo, que Dante não cantou de preferencia aos do outro, porque a civilisação da idade media não tinha em si os supplicios d'esta sociedade em que vaes entrar.
E que lucrarias tu, ouvindo a minha historia? Vêr-me-ias longo tempo enredado na torpeza, na irrisão, e na brutalidade dos differentes algozes, que me suppliciaram a alma. Se quizesses que te iniciassem no segredo de sondar a perversidade dos corações, não poderia eu, porque a aspide, que te mede o salto do seio da mulher, só vibra a farpa mortal depois que varas em terra embriagado de aspirar o aroma do ramilhete, que a esconde.
A sombra da mancenilha é grata como a de todas as arvores; suave é a viração que lhe estremece a coma; o sol nem sequer mosqueia o chão em que refazes os membros lassos; mas agonia mortal será o teu despertar se a formosa folhagem distillou sobre o teu corpo um sumo corrosivo que te faz morrer em acerba palpitação de todas as fibras. Conheces tu a mancenilha n'este deserto, que vaes palmilhar, encalmado das ardencias do coração? Saberás tu, aos dezoito annos, distinguir a mulher, que mata, da mulher, que salva? Os trinta abysmos, d'onde me eu levantei, com as faces a escorrerem sangue, estarão cobertos de flôres para ti? Eu creio que o poeta é um condemnado, a sua patria primitiva um outro mundo, este, em que nos encontramos, amigo, o purgatorio. Que montam os suffragios do padecente experimentado para te remir? Nada. Cumpre a sentença, porque é intransitivo o calix...
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Decorrido um anno, encontrei Jorge Coelho, não vos direi aonde, porque ha repugnancia em deslocar uma scena, quando a verdade não póde, por motivos sagrados, ser dita á curiosidade malevola.
Encontrei-o escrevendo os periodos iniciaes d'este capitulo. Outros de igual azedume, assignados por elle, me haviam denunciado a residencia d'esse moço, na terra, em que eu, de passagem, assentára a minha barraca de bohemio.
Reconhecendo-me, ergueu-se, abraçou-me com expansiva vehemencia, e proferiu aquellas ultimas palavras do estirado discurso do anno anterior:
_Cumpre a sentença porque é intransitivo o calix._
--E muito amargo? perguntei eu.
--Amargo, e nauseabundo. Fel e lama. O insulto e o aviltamento. Adormeci debaixo da mancenilha, meu amigo; e acordei nos paroxismos de que não posso morrer. Achei uma das mulheres, que perdem. A sociedade applaudiu-a, quando eu cuidava que a indignação do mundo me vingaria. Ajuntei á minha dôr o que devia ser pejo, deshonra, e remorso n'ella. Quiz desafiar a piedade do mundo com o paciente silencio da minha desgraça. O mundo viu-me passar de olhos baixos para esconder as lagrimas, e fez da palavra «poeta» um synonymo chocarreiro de insensato.
II.
Contou-me Jorge Coelho a sua historia. Foi assim:
Sahira, pela primeira vez, da sua aldêa para cursar a universidade. A mãi, abençoando-o, ungira-o de lagrimas, e lançara-lhe ao pescoço um crucifixo.
O tio egresso, vencido na resistencia que fizera á sahida de Jorge, mostrara-se a final condescendente, e introduzira nas malas do sobrinho alguns livros de moral religiosa, que ambos sabiam de cór, um á força de repetil-os, outro de ouvil-os em discursos hebdomadarios, que principiavam sempre com a epigraphe:
_Initium sapientia est timor Domini_--O temor de Deus é a base do saber humano.
Jorge deu de si boa conta no primeiro, anno, cursando as aulas preparatorias para a faculdade de jurisprudencia. Contou elle que, durante esses oito mezes, apenas sentira o coração na dôr da saudade de sua mãi, de seus irmãos, do tio padre, das suas montanhas, e das sombras dos seus arvoredos. Consolava-o o prazer de uma carta de casa, todas as semanas, em que a expressão maternal pintava o anceio com que lá se contavam os dias, na esperança d'aquelle em que seus irmãos iriam buscar ao caminho o mano doutor, como elles já o denominavam.
O anjo da poesia dos dezenove annos povoava-lhe então a phantasia de ridentissimas imagens. Mezes antes, abafava no extenso horisonte, que descobria do topo das serras onde trepava para dar á sua imaginação sedenta a vaga imagem da immensidade. Agora, parecia-lhe que á sofreguidão da alma lhe bastaria a soledade, o silencio, a tristeza dôce dos saudosos ermos da aldêa, que conheciam o seu poeta desde os onze annos.
Anteviu os tres mezes de ferias como quadra de contentamentos novos. Tudo eram promessas de infantil ledice aos seus arrobos de saudade. Imaginava-se sosinho ao pé da arvore conhecida, em cujo tronco uma vez entalhára a ante-data de seis annos, com uma interrogação ao lado, e como se perguntasse o segredo do seu destino á sibylla dos seus queridos bosques.
O anno assignalado era esse em que estava. A resposta aos vagos presentimentos dos quinze annos ia dal-a agora, mais anhelante e auspiciosa de venturas certas do que elle a previra ao deixar o encargo de responder a mal-agourados futuros.
«Quão longe eu estava da verdadeira felicidade, minha querida mãi!--escrevia elle na primavera de 1855, quando as margens do Mondego reverdecidas lhe festejavam as saudades e as esperanças maviosas. A imaginação enganou-me. Cuidava eu que o coração de minha mãi faria o milagre de communicar uma faisca do seu amor ao seio de cada pessoa que eu encontrasse fóra da nossa aldêa! Pensei que a imaginada formosura da natureza começava áquem dos horisontes, que eu descobria do alto das montanhas. As impressões novas antecipavam-se-me cheias de espiritual deleite, e abundantes da vida que me lá faltava ao pé de pessoas vistas a todo o instante, com o sorrir da amisade, e ao pé das arvores, vistas em cada primavera, com as mesmas grinaldas, e em cada inverno com a mesma nudez funerea, que me confrangia o espirito.
«Castigou-me o desengano, quando dobrei a ultima collina, d'onde via o cume da serra em que tantas vezes me assentára, ideando ao longe o caminho da minha imprevista felicidade. Era tudo estranho para o meu coração. O vento do outono despia as arvores da sua folhagem; mas a poesia melancolica e contemplativa d'essa transfiguração, qual a eu sentia na minha aldêa, convertera-se agora em profundo aborrecer-me, em cerração d'espirito, em arrependimento doloroso.
«A duas leguas de nossa casa, minha boa mãi, quiz retroceder: reteve-me a vergonha. Depois de ter passado uma noite--primeira de minha vida--fóra do meu quarto, n'uma estalagem, ergui-me com proposito de vencer o pejo, e ir lançar-me chorando em seus braços. Conteve-me ainda o receio do _ridiculo_, palavra e sentimento terrivel, que, ha dez mezes, me foi entalhado no coração por um homem, onze annos mais velho que eu, propheta do meu destino, tão verdadeiro como terrivel propheta, que me vaticinou a sensibilidade immensa do poeta, e as lagrimas inexhauriveis do incessante desengano.
«Já verti as primeiras; essas, porém, são talvez uma puerilidade que o mundo escarneceria, por que, bem averiguada a causa da minha tristeza de seis mezes, encontra-se um bom coração de filho e irmão, a nubelosa saudade dos dezenove annos, e o pesar de haver com tanto afan rebatido o parecer de meu tio, que me quiz demover da tenção de estudar em Coimbra.
«Eu prometti-lhe, minha mãi querida, a noticia exacta das minhas impressões.--Descreve-me ao menos a bellesa dos abysmos como ella se afigurar á tua imaginação--foram as suas palavras. Não posso descrever-lhe nem, se quer, as formosas miragens do meu deserto. Se deponho com fastio os livros, que só abro por obrigação, interrogo de novo o meu espirito, tento sondar a indole mysteriosa da minha vontade oscillante, e encontro sempre enigma. Quer-me, ás vezes, parecer que estou em vesperas de uma grande transfiguração no meu modo de ser e pensar; escuto o surdo rumor das idéas, que ameaçam rebellar-se contra a moderada esperança em que minha alma se acalenta; sinto-me impellido á vereda de angustias desconhecidas, ao passo que as suspiradas alegrias da vida serena no seio de minha familia se me varrem da imaginação como as copas de flôres desmaiadas, que o nordeste sacudiu e dispersou.
«Deverei occultar-lhe alguma das minhas visões, querida mãi? Não posso. A confidencia é a respiração das almas; é, mais ainda, é a supplica do conselho e do remedio para as tribulações, ou de estimulo e fé para crer na felicidade sonhada, se ella um dia me vier provar que não eram mentira os meus delirios dos dezoito annos.
«Ha entre mim e o indecifravel do meu futuro uma imagem como elle indelineavel. Não sei a qual hora da vida acharei a sombra real d'esta idealidade, que se fez corpo e alma, impressão e sentimento para a minha phantasia. Tenho querido collocal-a ao pé de minha mãi, como reflexo do seu amor. Quando assim consigo aproximadas, tambem consigo explicar a influencia, que ha-de ter na minha vida essa imagem, descerrada a nuvem que m'a envolve pela mão luminosa da Providencia. Será a realisação do infinito amor, porque entre Deus e minha mãi falta um élo. Creio que não usurpo a minha mãi o vago affecto dedicado a essa alma estranha, que me visita nas horas de intimo recolhimento e scismadoras saudades de não sei quê, como se do céo perdido nos ficassem saudades para reconquistal-o á custa de lagrimas. Isto que sinto não póde ser, como me dizem os livros sentimentaes, os alvoroços precursores das primeiras devoções, o subir para o altar dos cultos fervorosos e apaixonados. É mais.
«Entrevejo na escuridade do porvir uma scintilla, que me banha de festiva luz o espirito, aspiro o aroma de celestial flôr, que me delicia e adormece em dôces lethargias, tenho um despertar alegre e sereno, como o do homem incapaz de ir abraçar-se á realisação de seus ambiciosos sonhos pelos caminhos travessios da improbidade e do mal-fazer.
«Assim pois, minha mãi, contente-se a sua boa alma de se vêr assim reflectida na do filho, que d'ahi sahiu agourado por tão maus prophetas. Não abordei esses abysmos seductores, que o meu bom tio excommungava de lá, e contra os quaes me premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da Biblia, exterminadas por causa do peccado.
«D'aqui a tres mezes, deporei no regaço de minha mãi o coração inexperiente com que de lá sahi. Dar-lh'o-hei mais rico de contentamentos puros, e desejos de ser bom filho; e, se assim não fosse, iria agora fortalecel-o em seu seio das virtudes, que ainda me faltam.»
Três mezes depois, Jorge Coelho, convidado por um seu condiscipulo das visinhanças do Porto, passou no Porto, quando recolhia a ferias, e alli se deteve, para assistir ao ultimo baile annual da _Assembléa Portuense_.
Jorge nunca vira um baile, nem ante-gostára pela imaginação o prazer de encontrar duzentas damas reunidas á competencia de formosura e pompas.
Dizia-lhe o condiscipulo, já gasto para as commoções dos bailes (tinha vinte e dous annos, e passára desapercebido em todos os bailes) dizia-lhe o condiscipulo que o coração nascia de improviso no primeiro baile, e muitas vezes lá morria. Contava-lhe, em testemunho de verdade, a sua historia, que era uma historia negra, passada ao clarão de centenares de lumes, nas salas da _Assembléa Portuense_, no baile carnavalesco do anno anterior. Com quanto nos seja sempre ingrato violentar as glandulas lacrimaes dos leitores, e sacudir-lhes com patheticas descargas electricas os nervos engelhados, não nos abstemos de contar em poucas linhas a historia negra do snr. Pires, condiscipulo de Jorge, em geographia e historia.
Parece que o snr. Pires chegára de Coimbra a ferias de entrudo, e conseguira ser convidado para o baile. Alugou um dominó de seda, entrou nos salões, e remoinhou longo tempo por entre centenares de pessoas desconhecidas. Dizia-lhe a consciencia que era um tolo, por não buscar ao acaso uma particula da felicidade, que brincava nas physionomias de toda a gente, ao passo que das d'elle apenas escorria o suor debaixo da mascara suffocante.
Deliberado a demonstrar a si proprio que não era absolutamente nescio, dirigiu-se a uma dama de aspeito melancolico, e disse-lhe «que os anjos do céo, quando cahiam cá em baixo na morada dos homens, ficavam tristes como ella.»
Ora, um maganão, tambem mascarado, que por alli gravitava em redor do mesmo astro, disse ao estudante, radioso da feliz amabilidade, «que não só aos anjos do céo acontecia ficarem tristes e atordoados quando cahiam cá em baixo, mas tambem acontecia o mesmo aos gatos, quando cahiam de um terceiro andar á rua.»
Ficou fulo de raiva Pires. A melancolica dama levou o leque ao rosto para esconder o riso.
O estudante, voltando-se para o entremettido, replicou-lhe que era de pessimo gosto a chufa, e o gosto da senhora não era de melhor quilate festejando com riso complacente tão deslavada semsaboria. Redarguiu o incognito mascarado, perguntando-lhe se tinha duvida em sahir fóra das salas para lhe estender uma orelha de modo que por ella o conhecessem todos, visto que elle tivera a habilidade de a esconder no capuz do dominó. Trocaram-se algumas finezas mais d'este tomo, até que um homem de porte grave travou do braço ao snr. Pires, e, levando-o ao salão menos frequentado, perguntou-lhe que motivos se haviam dado para desavença tão impropria de cavalheiros. Pires, querendo dar ao successo, uma causa digna de transmissão, contou que merecêra lisongeiro acolhimento da senhora com quem estava trocando as phrases previas de uma paixão, que rebentára subita e reciprocamente, quando o indiscreto e villão interventor lhe dirigira palavras descomedidas, que denotavam o ciume d'elle.
--Pois aquella senhora, a quem o dominó allude, trocava com v. s.ª as phrases previas de uma paixão?--perguntou o interlocutor do estudante com sorriso de affectada serenidade.
--Sim, senhor, respondeu o outro emproando-se.
--Antes de dizer-lhe que mente, preciso vêr-lhe a cara.
Dito isto, o sujeito, que era o marido da dama, arrancou a mascara ao snr. Pires; e, vendo um rosto imberbe, e acerejado, chamou o escudeiro, que passava com bandeja de dôces, e disse-lhe: «Dê a este menino dous bolinhos, e mande-o embora.»
Eis aqui a historia negregada do snr. Pires, a qual, contada por elle, era muito mais dramatica e engraçada, visto que terminava por dous duellos mallogrados, um com o rival, outro com o marido, e por tres desmaios da dama, um no salão, outro na carruagem, e o ultimo em casa, na presença do marido, que, pelos modos, a quizera enforcar.
E, como as lagrimas d'este acerbo conflicto cahiram todas no coração do snr. Pires, o resultado foi afogarem-se lá os embriões da sua felicidade, e ficar aquella viscera árida e resequida como enxundia secca de gallinha.
Ouvira Jorge Coelho estas calamidades com a respiração suffocada, e teve instantes em que duvidou do bom siso do seu amigo;--tão descozido lhe parecêra o conto, e tão ineptas as consequencias.
III.
Entrou Jorge Coelho nos salões da «assembléa,» e julgou-se em regiões de houris. Durou-lhe alguns minutos o atordoamento da primeira impressão. Não o enleava esta ou aquella physionomia; eram todas. N'aquella harmonia do bello, até as senhoras feias--se ha senhoras feias, vistas á luz do coração--recebiam homenagem do extatico moço. No espasmo delicioso do academico, se algum amor influia, era de certo o amor da especie, porque seus olhos não haviam ainda estremado o individuo, que os olhos d'alma entreviam no todo.
Do cisco lucido, que volita no ar, faz douradas palhetas o raio do sol coado pela fresta. Na dourada lucidez que Jorge via por magico prisma, não haveria muito cisco, muito atomo de poeira humana, que sómente refulge aos reverberos dos lustres, consoante o variegado das côres? Decidam os que lá andam.
Aquietado dos alvorotos da surpreza, o estudante sentiu o vacuo, porque se viu sosinho alli. O apresentante doudejava no redemoinho das danças, e raros intervallos perdia, perguntando ao condiscipulo se estava contente.
Jorge não sabia dançar, porque não tivera tempo de aprender esse appendiculo grutesco da boa educação. Muitas vezes lhe dissera o tio padre, authorisado pelo oratoriano Manoel Bernardes, que danças eram ansas do demonio armadas á alma.
Não se glorie, porém, o crendeiro egresso de ter instillado no animo do sobrinho o horror das mazurcas. Jorge não dançava porque não sabia se quer a nomenclatura d'essa galharda tolice de que por vezes impende o accesso ás almas, e o passar-se uma noite menos tediosa n'um salão em que o espirito se retouça em piruetas, mais ou menos ridiculas e parvoinhas, da materia.
Á meia noite, Jorge procurou o seu condiscipulo para dizer-lhe que se retirava. Atravessando uma sala, quasi despovoada, viu duas senhoras reclinadas n'uma ottomana, em postura de fatigadas ou aborrecidas. A mais velha não excederia vinte e cinco annos; a outra, que teria dezoito, foi a primeira que prendeu o exclusivo reparo de Jorge, senão antes uma contemplação absorta em que ellas mesmas repararam.
O academico devia captivar a attenção das duas senhoras, melancolicas por indole ou artificio. Tinha elle um semblante de si tão meigo e affectuoso, que as pessoas tristes sentiam-se melhorar em suas magoas, pensando que outras acaso maiores e mais carecidas de lenitivo denotava o brando olhar do moço. Estava, por ventura, este condão sympathico na magresa do rosto, cujo pallor mais era signal de compleição mimosa, que effeito de vigilias e desperdicios de vida com que muitos conhecidos nossos se recommendam ás senhoras idealistas, affectando langores e martyrios de alma, dos quaes a victima principal é, em verdade, o corpo.
--Sympathica physionomia!--disse a mais velha das duas senhoras.
--Conheces?!--perguntou a outra sem fugir os olhares de Jorge, o qual, por mero disfarce, encarava objectos, que realmente não via.
--Não o conheço, nem me lembra de o ter visto em parte alguma.
--Tinha curiosidade em conhecer... Não achas n'aquelle rosto um não sei que de distincção?
--Tem alguma cousa não vulgar...
--Uma tristeza insinuante, achas?
--E não sei que de magoa supplicante...
--É verdade... e as supplicadas somos de certo nós...
--És tu, Silvina... és tu a examinada com um ar de espanto ou ternura que compromette. Olha um grupo de homens, que nos observam e mais a elle...
--Não olhemos mais. Elle já sabe que o vimos e discutimos. Achamol-o sympathicamente triste, e bem póde ser que seja um tolo com bastante coragem para nos dizer que o é... Mas quem será?!
A curiosidade das duas damas é menos racional que a dos leitores que desejam conhecel-as.
A mais velha é a snr.ª D. Francisca da Cunha, creatura galante, com quanto morena, grandes olhos pretos, sobrancelhas travadas e negras, opulentos cabellos, e espirito de improviso bastante a fingir illustração. Pertence a uma familia heraldica da provincia de Traz-os-Montes, e veiu ao Porto com seu pai, fidalgo arruinado pela politica e pelas proprias dissipações, com o fim de acirrar a cobiça de um noivo conveniente, cujos paes almejam por enxertal-o no nobilissimo tronco dos Cunhas. Tem esta menina genio exquisito e romanesco. Por muitas vezes tem mallogrado os esforços casamenteiros do pai, mofando da figura e palavriado, um pouco para rir, do noivo. Á força de ser má, conseguiu fazer-se anjo no conceito do mal-fadado que espera em ancias ser marido d'ella. Maravilhada do poder que tem na alma do capitalista, com desdens e despresos, espanta-se do presumido dominio, que poderá ter sobre o homem a quem der os sentimentos embrionarios no seu coração. Para experimentar, sem risco da sua nomeada, recebe cartas de varios oppositores á sua alma, e responde regularmente a umas com idéas respigadas nas outras. Nos grupos, que se vão formando na sala, em que está com Silvina, sua prima carnal, avultam quatro dos seus correspondentes activos, e dous, que obtiveram promessa de resposta, e alguns, que esperam aso de solicitarem aquella gloria, no entender de cada um negada a todos, chegando a fazerem-se a mutua justiça de julgarem-se parvos uns aos outros.
D. Silvina de Mello, prima de D. Francisca, é tambem provinciana, e veiu de uma aldêa do Minho a banhos do mar, convidada por sua prima, de quem é hospeda. O que ella aprendeu em quatro mezes de convivencia é possivel que o não acreditasse quem lhe visse o rosto de anjo, olhares de innocente acanhamento, sorrisos de escrupulosa timidez, palavras desanimadas e preguiçosas, e, no todo, uma despresumpção de maneiras, que fazia suppôr grande limpeza d'alma e de... de intelligencia!
Fôra D. Silvina da sua aldêa para o Porto com uma paixão por um morgado, que a não seguira por fortissimos impedimentos. O pai do morgado tinha feito extraordinarias despezas na construcção de uma eira, na reedificação da capella solarenga, no muramento de algumas cortinhas, que comprara, não fallando já nas desastradas mortes de um macho, que tinha trinta annos de bom serviço na casa, e duas juntas de bois atacadas de epizootia. O moço pedira debalde soccorros, fingira-se mesmo epileptico para que o cirurgião da terra lhe receitasse banhos salgados; o velho, porém, passaro bisnau, e avesso á inclinação do filho, deu grandemente louvores a Deus por propiciar-lhe ensejo de acabar-se um namoro inconveniente, attenta a mediocre legitima de Silvina. Facil foi a D. Francisca obliterar no coração da prima a imagem do seu primeiro amor, zombeteando-a á proporção que a ingenua provinciana lhe ia mostrando as cartas do saudoso morgado.
Não podémos averiguar porque traças o morgado de Santa Eufemia arranjou dinheiro com que foi ao Porto, tres mezes depois que Silvina cessára de responder-lhe ás cartas, tanto mais irrisorias quanto a paixão as dictava em estilo talhado para matar paixões. O certo é que o allucinado homem chegou ao Porto na vespera do baile da assembléa, e alcançou cartão de convite. A sua idéa era encontrar Silvina.
Todo sorvido na ancia de vêl-a e fulminal-a com olhadura terrivel de accusações, o morgado de Santa Eufemia não cuidou, com tempo, de mandar fazer casaca. A que trazia na mala era dos figurinos de Guimarães, e, posto que em bom uso, era anachronica na gola, nas lapelas, na largura e comprimento das abas, na pequenez dos botões, e rebordo dos punhos. Consultou a pessoa, que lhe alcançára o convite, ácerca da casaca; mas, desgraçadamente, a pessoa consultada era um d'aquelles individuos de juizo, que não tiram o monge pelo habito, e reprovam que seja sacrificada aos caprichos da moda uma casaca de bom pano, farta e commoda, sómente porque alguns casquilhos perdularios, ou alfaiates especuladores, inventam feitios novos.
Concordou o morgado, e foi ao baile com a casaca velha. Melhor lhe fôra ter morrido da epizootia! A sua entrada na primeira sala foi um acontecimento. As petulantes lunetas saudaram-n'o, e seguiram-n'o com insultuosa curiosidade até ao salão da dança. As senhoras, em regra, pouco curiosas do trajar dos homens, não repararam na casaca, mas não podiam deixar de vêr o collete e a gravata. Era esta descommunal na altura, atravessada por um laço, cujas pontas, como orelhas de lebre morta, cahiam caprichosamente sobre os hombros. A côr verde da gravata contrastava com o encarnado-ginja do collete de uma abotoadura e colchetes apertados até ao pescoço, e acairelado na abotoadura e bolsos com vivos roixos. Sobre isto cahiam as lapelas enxovalhadas da casaca, com as quebras e vincos dos apertos que soffrera na mala em que viera, para irrisão e descredito de Freixieiro, cujo elegante era.
Desconfiou o morgado de Santa Eufemia de alguns indiscretos que o seguiram, desde o vestibulo da assembléa. Viu, depois, que as damas se trocavam olhares suspeitos, que o não impediam de procurar Silvina com aspecto entre o furioso e o comico. A obstinação, porém, dos chasqueadores era inexoravel, e o morgado teve um intervallo de lucidez, em que olhou em si, e se viu ridiculo. Do fundo de sua alma deu, então, graças á Providencia, se Silvina o não tinha visto; mas o derradeiro olhar, que lançou aos descaridosos mofadores, era provocador.
Resolveu, pois, retirar-se, maldizendo o velho amigo de sua familia, que o demovera do proposito de fazer roupa nova. Quando ia sahindo, atravessou por engano a sala em que se achavam D. Francisca, D. Silvina, e Jorge Coelho. Os grupos de homens, que por alli estanciavam, deram com elle de cara, seguido d'um cortejo de folgazãos, que tinham passado da zombaria cautelosa á risada descomposta.
Silvina corou até ás orelhas, quando Francisca exclamou:
--Oh! que original! Repara, prima, tu não vês aquelle homem?!
A este tempo o morgado estava em meio da sala, e fazia machinalmente uma cortezia ás damas.
--Aquillo será comnosco?!--dizia, com desdenhosa zanga, D. Francisca.--Conheces aquelle phenomeno?! Olha que elle está esperando que o comprimentemos... Conheces, Silvina?
--Conheço...--balbuciou Silvina, acaso tão afflicta como o desastroso morgado, que estava alli chumbado ao pavimento.
--Quem é? é da tua terra?--tornou Francisca já envergonhada de que julgassem ser ella a causa da attentiva paragem de semelhante entrudo.
Silvina ergueu-se, tomou o braço da prima, e disse:
--Vem, que eu te contarei tudo.
Sahiram.
Jorge Coelho foi o unico dos circumstantes que examinou com seriedade o morgado. Achava estranho o personagem; mas dizia-lhe a boa alma que o insulto era improprio de pessoas bem educadas como deviam presumir-se aquellas, que estavam alli representando a melhor sociedade.
O fidalgo de Freixieiro sahiu com os olhos a marejarem lagrimas. Foi ainda Jorge quem unicamente viu este signal de afflicção; e, sem saber o porquê, sympathisou com a dôr do homem, que levava de poz si o escarneo de tanta gente, e na alma a certesa de que viera dar-se em espectaculo aos olhos da mulher, que nunca lhe perdoaria o ser ridiculo. Pobre criança! como vivias enganado pelas maximas dos teus romances francezes! Não sabias tu que ridicula, sem rehabilitação, é só a pobresa.
D'ahi a uma hora, Francisca e Silvina desciam do toucador para o salão do baile. A primeira compunha o semblante ainda descomposto das gargalhadas com que recebera a revelação da prima. Esta, mortificada pelo amor proprio, se não antes vexada pela indecorosa eleição d'um amante chulo, captivava lastimas com a tristesa que devêra acarear despreso. Despreso! Talvez piedade, que a situação era digna d'ella, por que é a mulher, quem mais a si se mortifica, se a consciencia a accusa d'uma escolha, que não só lhe não disputam, se não que, peior ainda, lhe injuriam com motejos. O morgado de Santa Eufemia, até á noite infausta do baile, era uma recordação, se não saudosa, ao menos magoada. D'ahi em diante, pelo menos n'aquella hora, causava-lhe tedio, e forçava-a a participar da zombaria.
IV.
Estava Jorge, outra vez, defronte das duas senhoras. Sentia-se outro. Já tinha interiormente um mundo, uma imagem reflexa do mundo exterior a remuneral-o vantajosamente da insulação em que se via no meio de tantos indifferentes á sua tristesa. A todo homem esta mutação tem acontecido, uma vez na vida. O baile é triste para quem leva da soledade do seu quarto o coração de lucto; porém, áquelle mesmo conforta, ás vezes, uma chimera, lá onde menos a esperança lh'a promettia. Chimeras são que desbotam, como as flôres dos enfeites, ao repontar da manhã; mas Deus sabe quantas almas se retemperam nas illusões de um baile, e que horas de abençoado engano lá divertem as tristesas dos mais desenganados!
Não era assim que Jorge Coelho scismava comsigo--que a aurora do seu breve dia de fé e amor principiava alli--quando o amigo Pires, lançando-lhe o braço em redor do pescoço, lhe disse:
--Que fazes aqui parado? Contemplas aquellas duas Evas, mal assombradas de gesto, como se tivessem comido a fatal maçã?
--Contemplo uma, e acho-a celestialmente formosa.
--A côr de cêra?
--Sim.
--Eu gosto mais da morena. _Nigra sum sed formosa._ Aquillo sim que é mulher para incommodar a fleuma d'um sceptico!... Queres ser apresentado?
--Pois tu conheces?
--Não, nem preciso. Vou tiral-a para a primeira quadrilha, apresento-me, e depois tenho a honra de ser o teu apresentante. O estilo, cá na boa roda, é este.
--Mas a quem me has-de tu apresentar? é necessario, a meu vêr, que ella te diga quem é.
--Pois não lh'o pergunto eu?! Essa reflexão é piegas. Se queres ouvir o que eu digo, colloca-te ao pé de nós, e escuta-me nos intervallos das marcas.
O snr. Pires não reconsiderava uma tolice, nem tolerava replicas.
D. Silvina, vendo um sujeito conversar com Jorge, olhou-o curiosamente, para, se acaso visse pessoa de suas relações com elle, podesse, de conhecido em conhecido, chegar a colher alguma informação do seu mysterioso observador. Mais propicia do que ella ambicionava, lhe foi ao encontro a fortuna protectora de sua innocente curiosidade. Pires, com elegante desembaraço, solicitou de Silvina uma contradança: esta, com adoravel aprazimento, aceitou logo o braço do cavalheiro porque se estavam alinhando os pares.
Aqui, porém, falhou uma vez a felicidade a um tolo. Esquecera-se Pires de procurar _vis-á-vis_, e era já fóra de tempo o procural-o. A dama deu primeiro pela falta, e o academico fez-se da côr do rabano. Silvina relanceou os olhos supplicantes a D. Francisca, e esta, chamando o primeiro cavalheiro conhecido, deu-lhe o braço, e entrou no lugar fronteiro á prima.
--Esta falta, disse Pires, retesando no pulso a luva até a rasgar, deve-se ao enthusiasmo com que eu pedia a v. exc.ª esta contradança.
--Enthusiasmo?! Ora!... parece-me que queria dizer _distracção_, respondeu Silvina ao adiantar-se para executar a primeira figura.
Chegado o grande intervallo, Jorge Coelho quizera ir postar-se perto de Silvina; mas um burguez intolerante, zangado da pertinacia do moço, que envidava os recursos todos da delicadesa e do encontrão para romper a barra compacta dos olheiros de espadoas nuas, chegou a dizer-lhe, franzindo a testa:«O senhor não cabe? se quer passar espere que acabe a _polka_!» O bom do burguez não sabia ao certo se era contradança ou polka o que se estava dançando.
No entanto, o nosso amigo Pires, com quanto pesaroso de que Jorge alli não estivesse, para maravilhar-se dos recursos da eloquencia afeita ás difficuldades do salão, conversava assim com a senhora attenciosa:
--Quando tive a honra de impetrar de v. exc.ª a graça d'uma contradança... (Silvina poz o leque diante dos labios) acabava eu de dizer a um amigo meu que o olhar contemplativo, _la réverie_, com que elle fitava v. exc.ª, era merecida, justificada, e...
--Muito agradecida;--atalhou Silvina, tregeitando com o leque e a cabeça uma evolução de movimentos indescriptiveis--mas eu não reparei bem no amigo de v. s.ª, que me distinguia de modo tão lisongeiro.
--Se v. exc.ª tem a bondade de olhar em frente, ha-de encontral-o extasiado...
--Extasiado?! Ora isto parece-me que vai passando da lisonja á galhofa!
--Oh! minha senhora... Isso offende-me e punge-me, acudiu Pires com o mais comico azedume.
Silvina relanceára a vista como quem não via, e voltando-se para o cavalheiro, disse:
--É do Porto aquelle senhor?
--É da provincia, minha senhora, estudante de Coimbra, meu condiscipulo, chama-se Jorge Coelho, pertence a nobilissima familia, e assevero a v. exc.ª que é um coração virginal, intacto, fervoroso, sentindo hoje pela primeira vez os impetos juvenis do amor.
--Não admiro, porque é muito novo.
--Muito novo! oh! minha senhora! Quantos velhos n'aquella idade! Aqui estou eu, de pouca mais idade que elle, e me considero já _desillusioné_, decrepito.
--Realmente?!... Perdoe-me a curiosidade--disse Silvina, com muita graça de fina ironia, sustentada com imperturbavel seriedade.--Queira dizer-me em que romance poderei encontrar o seu caracter, já que não devo esperar uma revelação das tempestades que o fizeram tão cedo naufragar!
--O meu caracter ainda não está escripto!--respondeu Pires, avincando a testa, e fitando-a de esguelha.
N'este comenos entraram os pares latentes em movimento, e a phrase ficou engasgada até ao proximo intervallo. Enganou-se, porém, o sceptico. Silvina, como esquecida da suspensão da lugubre narrativa, perguntou ao cavalheiro:
--O seu amigo demora-se no Porto?
--Não são essas as intenções d'elle, minha senhora; mas é de presumir que um aceno de v. exc.ª o faça esquecer a familia carinhosa que o está esperando.
--V. s.ª depois que envelheceu--replicou Silvina cortando as palavras com frouxos de estudado riso--julgou salutar cousa o distrahir-se da sua gotta moral zombando das pessoas que ainda crêem e esperam alguma cousa d'esta vida?!
Acudiu Pires:
--Eu que digo isto é porque sei o que v. exc.ª é para Jorge. Respondo gravemente ás suas facecias adoraveis. Sei que as virtudes de v. exc.ª...
--V. s.ª conhece-me? perguntou Silvina de golpe, e formalisada.
--Não tenho essa honra, minha senhora.
--Quem lhe disse que ha em mim virtudes?
--Rosto angelico e véo translucido: homem experimentado adivinha o coração do anjo.
Pires ia dizer mais quatro aforismos do seu uso, quando terminou a contradança. Conduziu a dama á sua cadeira, e disse-lhe:
--Eu queria ter a felicidade de apresentar a v. exc.ª o meu amigo Jorge Coelho; porém, rogo-lhe me diga se devo procurar alguem que me apresente a v. exc.ª
--Não tenha esse incommodo. Fico sabendo que v. s.ª é um cavalheiro da boa sociedade, e tanto basta. Sei tambem que é academico, e sympathiso com essa qualidade porque tenho em Coimbra dous irmãos no seminario, e não sei que analogias me fazem presar os estudantes.
--Direi mais, acrescentou o academico, enclavinhando os dedos para ajustar as luvas, e tirando pelas lapelas da casaca a puxões de gentil effeito--direi mais a v. exc.ª que me chamo Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque, a minha casa é na Maya, e costumo passar as ferias no Porto, porque sou avesso á vida pastoril, e não tenho senão mediocres tendencias para admirar a natureza bruta...
--Não é poeta?--interrompeu Silvina, ageitando o lindo rosto a um ar de zombeteira admiração.
V.
--Se sou poeta!...--disse Pires, enviezando para o estuque do firmamento olhos de lastima.--A poesia é flôr muito delicada, que o primeiro vendaval do coração desfolha. Desfolhada a primeira flôr, o vaso que fica não tem seiva para outra: é como a terra ferida de maldição.
--Isso é triste--acudiu Silvina, tregeitando com a cabeça e olhos umas gaifonas piedosas.
--Tristissimo, minha senhora!
Agora eram de victima os ares do Fausto da Maya, e a dama já pedia a Deus que não viesse para junto d'ella a prima, com medo de espirrar uma d'aquellas casquinadas de riso, que a mais sisuda prudencia não refreia.
Jorge Coelho, no entanto, sem bem saber o que o impacientava, não podia tolerar a detença do amigo. «Se eu soubesse dançar--dizia de si para si o academico--teria feito o que fez Pires... Será de mim que elles estão fallando? É natural, porque a vejo fitar-me com attenção... Se me eu avisinhasse, daria melhor occasião a Pires de me apresentar...»
E, obedecendo á hypothese, deu alguns passos; mas tão a medo o fazia, que antes parecia querer que o não vissem. N'isto, já o amigo o andava procurando, e Silvina, vendo a direcção errada de Pires, acenou-lhe de longe, indicando com disfarce onde estava Jorge.
O pobre moço tremia quando viu que era procurado. A sua primeira idéa foi fugir da sala, e não duvidamos crêr que fugiria, se Pires lhe não trava do braço, dizendo:
--Olha lá como lhe fallas: a mulher tem espirito, e é um genio.
Isto foi peior.
--O meu amigo Jorge Coelho que eu tenho a honra de apresentar á exc.ma snr.ª Dona...
Pires estacou. Silvina sorriu-se. Jorge corou, baixando os olhos.
--Não sabe o meu nome? isso não importa disse a dama.--Eu me apresento. O meu nome é Silvina. Tenho a gloria de ser tambem aldeã. Nenhum dos tres póde rir dos outros. Então o snr. Jorge não dança?
--Não, minha senhora, eu não sei dançar--disse Jorge com infantil ingenuidade.
--Não sabe, porque não ama a dança, não é assim?
--Em minha casa ninguem aprendeu a dançar. Minha mãi foi educada n'um convento, e de lá sahiu para ser esposa, e governar sua casa n'uma terra onde nunca se deram bailes. Eu sahi da minha aldéa ha menos d'um anno, e tenho consumido todo o meu tempo no estudo...
Estava Silvina gosando sem motejal-a a simplicidade de Jorge, ao passo que Pires lamentava as pueris historias do seu acanhado amigo. Como quizesse salval-o, o imaginoso academico interrompeu-o com não sabemos que espirituosa semsaboria, que Silvina atalhou logo:
--Deixe fallar o seu amigo que me está encantando com a singelesa do que diz...
--Eu retiro-me, minha senhora--disse Pires, arqueando-se--porque estou compromettido para a seguinte polka.
--Tambem eu...--disse Silvina, já quando o par se avisinhava, ao qual pediu desculpa, de não dançar, por causa de uma forte dôr de cabeça. E voltando-se para Jorge, que não soubera avaliar a fineza do fingido incommodo:
--Tem aqui esta cadeira... Sente-se, e conversemos da sua familia, porque talvez precise desafogar saudades d'ella em coração que o comprehenda.
Jorge cobrára alento com este ar de familiaridade. Fez-se para elle profundo silencio em todo aquelle borborinho da sala.
Era a primeira vez que se via em face de uma mulher, que lhe não chamava irmão ou filho; e, todavia, tanta ingenuidade fraterna respirava o rosto de Silvina, que, por encanto, o timido moço, sem forcejar contra o enleio da alma, tirou de lá expressões de sorte affectuosas que nem os mais destros comicos de sala as diriam assim.
--Tem muitas saudades dos seus, snr. Jorge?--disse Silvina com brando mimo.--Está ancioso por chegar aos braços de sua mãi?
--Quizera que v. exc.ª a conhecesse--disse Jorge maviosamente.--Havia de amal-a... que minha mãi está tão longe d'este mundo brilhante, vive d'um modo tão differente do das pessoas educadas como ella foi, que me faz dó o que era e tem sido ha vinte annos, contando hoje apenas trinta e seis, n'uma aldêa, sem outra convivencia senão a de seus filhos, e sempre magoada das saudades de meu pai... Ha duas horas que penso em v. exc.ª e n'ella...
--Em mim?--atalhou Silvina, com sorriso de bondade--lisongeia-me infinitamente a companhia que me deu no seu pensamento; mas poderá dizer-me que analogia de imagens achou entre mim e sua mãi?
--Immensa, e não sei dizel-a. Se eu podesse bem interpretar este sentimento mysterioso, diria, d'outro modo, que hoje, pela primeira vez, se espelharam em minha alma duas imagens de mulher. Até ha pouco, havia lá a de minha mãi sómente, e os traços informes, a sombra, o indefinido do ser que vaga entre o céo e a imaginação do poeta. Agora...
--Essa segunda--interrompeu Silvina com uma gravidade impropria de sua idade e modos usuaes--não poderá jámais deslumbrar a de sua mãi, porque os entes de imaginação, visualidades passageiras, nunca usurpam a posse aos entes que a natureza nos está dando todos os dias em realidade de amor e carinhos. E depois, snr. Jorge, verá que é inutil esperar aquelle puro original da cópia que a sua phantasia vai debuxando, em quanto o coração novo e enganado lhe empresta as côres do céo. Affirmo-lhe, senão authorisada pela experiencia, amestrada pelo exemplo e confissões sinceras das minhas amigas, affirmo-lhe que o seu indefinido de poeta nunca lhe ha-de avultar em corpo e alma, se os olhos descerem do céo a procural-o na terra. Guarde, pois, com extremosa avareza a imagem de sua mãi, e não consinta que outra lhe dispute o exclusivo amor que lhe dá.
Disse.
O academico ouvia, pela primeira vez, a expressão floreada, a linguagem musical, o periodo arredondado, como de folhetim ambicioso, na bocca de mulher. Achava elle certa incongruencia entre as feições menineiras da provinciana e o tom sentencioso do discurso. Relanceou-lhe subito na memoria o meu nome, segundo me elle contou depois. Lembrou-se d'aquelle meu estirado discurso, na sua aldêa, dezoito mezes antes. Tropeçou na hypothese de que o singelo exterior da palavrosa menina mascarava um coração desbaratado por desenganos, e engenhoso de armadilhas a corações noviços. Alguem diria que o silencio de Jorge, seguido á ultima expressão de Silvina, era acanhamento. Já não: era a duvida.
--Ficou tão pensativo, snr. Jorge--tornou Silvina.--Está pesando no seu juizo a verdade das minhas palavras? Impressionaram-no tanto!...
--É verdade, minha senhora; estava pesando as palavras de v. exc.ª com outras que me disse um homem de trinta annos.
--Contrarias ás minhas?
--Semelhantes na intenção; mas muito mais desconsoladoras na fórma. Disse-me elle que ha muitas mulheres que matam, e uma só que salva.
--Mas affirmou-lhe haver uma que salva?
--Sim, minha senhora.
--E quantas vezes lhe disse elle que podia ser victima de sua devoção e generosidade a mulher que sente em si o coração salvador?... Creio que me não fiz comprehender...
--Comprehendi, minha senhora. Pergunta v. exc.ª se a mulher capaz de erguer a alma despenhada de sua grandesa, não se despenhará ella mesma n'essa generosa tentativa;
--Entendeu.
--Não sei responder, snr.ª D. Silvina. Eu não sei nada do mundo. Ignoro os precipicios em que póde cahir o homem, e não sei tambem a que alturas póde levantal-o o amor. Já imaginei o mundo mais agradavel: começo a dar cem illusões por cada realidade. Não cuide v. exc.ª que eu fiz pé atraz á vista da verdade despoetisada, e feia como dizem os pessimistas que ella é, vista á luz da razão pura; vejo, porém, que se vão fenecendo as flôres da minha imaginação á maneira que escuto e pondero, com religiosa crença, as palavras que v. exc.ª me diz, e as que me disse o bom ou funesto despertador da minha razão, que dormia acalentada nos braços da poesia. De que serve o desengano antes que a fatal experiencia no'l-o dê?! Para que me diria v. exc.ª, com ar de tanta verdade e segurança, que eu nunca encontrarei o puro original da cópia que a minha phantasia entrevê?!
--Diz bem! atalhou Silvina meigamente triste, ou adoravelmente dramatica--diz bem! Arrependo-me da injustiça que fiz ás mulheres, e mesmo da crueldade com que me tratei a mim propria. Fallei pela bocca da sociedade, snr. Jorge Coelho. Tenho ouvido, e lido nos romances as palavras geladas e desanimadoras que lhe disse, com o immodesto animo de distinguir-me a seus olhos. Menti-lhe, e menti ao meu coração. Não se desalente ao entrar na vida, e nunca de mim se lembre como de fada má, que lhe fadou a desventura. Espere, creia, e obedeça aos impulsos do coração, em quanto a peçonha da mentira o não contaminar. No mundo deve existir a imagem da mulher digna de senhorear-lhe a alma com a de sua mãi, cuja face eu beijaria, hoje, se podesse, com respeito e ternura de filha. Quando estiver nos braços d'ella, diga-lhe que encontrou no Porto, e n'um baile--onde raro sentimento grave entretem por momentos o espirito--diga-lhe que encontrou uma mulher que lhe manda n'esta rosa um beijo de sympathia e veneração.
E, dizendo, tirou do decote espeitorado do vestido a rosa, chegou-a aos labios, e deu-a com gracioso ademane a Jorge, que lh'a recebeu com mão tremente.
--Cumpre o meu pedido? tornou ella.
--Pergunta-me se cumpro? É este um encargo doce que v. exc.ª faz ao meu coração. Farei que minha mãi receba nos labios o beijo que vai n'esta flôr. Depois, pedir-lhe-hei que m'a ceda, que eu possa chamar-lhe minha, enthesoural-a como se ella para mim cahisse da grinalda d'um anjo... Se ha no coração poesia mais sublime que a da saudade...
--Ha, sim... a da esperança...
--A da esperança!... balbuciou Jorge, levando machinalmente a rosa aos labios, e córando da irreflectida acção que se lhe afigurou menos respeitosa.
(Oh santa innocencia! não sei se és mais tola que santa!)
Desculpem o parenthesis que desfeia um pouco o bello e harmonioso da fórma dialogal. Guarde-me Deus de motejar com insulsas facecias a candura, o rubor, a timidez encantadora dos vinte annos de Jorge. Invejo-lhe o que já não posso haver nem sequer com grande esforço d'arte; mas rio-me d'elle e de mim, quando as galhofeiras memorias do que fui, ha hoje quinze annos, sahem d'entre as flôres mirradas da minha primavera, e vem cá a este glacial dezembro da vida fazer-me assuada e zombaria, para que eu me dôa e corra das criancices de então. Pois rio-me com effeito, que é para isso a cousa, e riam-se, á vontade, os que de mim souberem que muitas vezes todo eu me incendiava em carmim e rosa, quando o olhar logrativo da mulher me alvoroçava o pudor a ponto de afeminar-me, e fazer de mim uma menina que... Quasi me escorregava agora dos bicos da penna uma necedade das que se não desculpam á propria santa innocencia que, repito, não sei se é mais santa que tola.
Vamos á historia com ajuda da providencia dos romancistas, a qual providencia, muitas vezes, abre mão d'elles, e deixa-os para ahi parvoejar que é mesmo cousa de peccado.
Silvina deu fé do rubor de Jorge, e...--querem saber a verdade inteira?--não gostou. É um segredo da essencia mulheril o dissabor que a molesta, a seu pesar... (vá, diga-se a _seu pesar_) quando o homem se amulherenga ao pé d'ella, e lhe não deixa o exclusivo de mulher. Receios de desmerecer em graças quando lhe é força ser mulheril? Consciencia ingrata d'uma superioridade que a desenfeita? Recursos que perde de captivar pelo mimo, com a brandura caridosa, por estremecimento do pudor, toques do pejo virginal, que ora lhe transluzem nas faces, ora lhe cerram os labios? Não sei se é tudo, ou alguma cousa, ou nada d'isso. A verdade é que a mulher não gosta de homens que coram, de homens que choram, de homens que... não são homens, está dito tudo, e n'isso ficaremos, se acham que está discutida a materia. _Materia_... que aleivosia! Isto é espirito o mais espiritual que póde ser. Espirito transcendental, d'aquelle que devia andar na mente de muito casquilho, paralta, janota, ou como é que se chama a tal alimaria, que se desentranha em lufadas de cynismo nos botequins, e vai ao pé das costureiras tartamudear jaculatorias de ternura.
Fica, pois, justificado o desgosto de Silvina, quando viu Jorge córar, por ter beijado a flôr, onde os labios da peregrina minhôta haviam imprimido o beijo de encommenda para a provincia.
--Agora, disse ella; são dous os beijos que leva a sua mãi, em uma só flôr. Queira Deus que o halito dos labios do filho não tirasse o perfume ao dos labios da amiga.
--Creio que sim--disse Jorge corando outra vez--creio que sim...
--Porque?!--atalhou Silvina com despeito mal comprimido.
--Porque sinto no coração o perfume do seu beijo.
Sahiu-se melhor do que eu pensava. É aquella uma das respostas que costumam ir de casa gizadas; mas creio no improviso. E assim, explicado o segundo accesso de escarlate, desvaneceu-se o desaire em que estava Jorge na opinião caprichosa da dama, que replicou muito requebrada:
--Pois não esperdice o perfume, porque nunca sentirá no coração outro mais puro, mais digno de incensar o seu amor reflectido do céo.
--Amor!--interrompeu Jorge com exaltado impeto de criança--Olhe que essa palavra póde ser-me veneno para toda a vida, se v. exc.ª consentir que eu a guarde...
--No mais intimo de sua alma... Guarde... que nunca a proferi com tão pouco conhecimento de quem a dou, e tão pouca esperança de a vêr florir em venturas.
Jorge Coelho ia naturalmente córar terceira vez, quando Francisquinha da Cunha chegou, com ar de zanga, e disse:
--Vamos, prima, que o pai quer sahir... e é tão cedo... que raiva! estava agora ouvindo uma enfiada de tolices tão peregrinas...
--De quem?
--Eu sei cá de quem? d'um homem que se chama Pires, e que este senhor conhece... Não lh'o diga, não? Eu fui indiscreta...
--Não diz nada--acudiu Silvina--pois não, snr. Jorge?
--Eu, minha senhora!...
--Asseverou-me--continuou Francisca gesticulando vertiginosamente com cabeça e braços--que se eu o não amasse, havia de espirrar á minha fronte de algoz o seu sangue de Larra, de Werter, de... Ai que homem, que homem aquelle! O que se produz na Maya! Ó filha, eu não posso perder aquillo!... Pires é meu...
Ai! o pai... Vamos, Silvina.
Silvina estendeu a mão a Jorge, e disse a meia voz:
--Vá vêr-me ámanhã ao jardim de S. Lazaro.
Jorge balbuciou alguma cousa que não vinha do coração. N'este momento, um receio doloroso o affligia com esta pergunta: «Esta mulher irá escarnecer-te, como viste escarnecido o teu amigo?»
VI.
As occorrencias do jardim de S. Lazaro, no dia immediato, não merecem chronica. O que póde, porém, succeder a um moço, que passeia o coração amante, no jardim do Porto, é bom de dizer-se, e folga a moral de ouvil-o.
Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao jardim de S. Lazaro, e conhece a familia da menina casadoura, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortezia, e foge de encontral-a segunda vez, porque repetir a cortezia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniencia, e póde ser até escandalo. Resta-lhe o expediente commum, e salva assim a honra das familias: é amoutar-se como fauno por entre as murtas e bosques de acacias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.
No jardim de S. Lazaro os dous sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não tem querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa superabundancia de estatuas, as quaes, tirante a alma, nem sempre se avantajam ás do marmore nacional. Sentam-se as meninas, mui bem compostas e ageitadas de mãos e cabeça, e alli se estão deleitando na vista do repuxo, em quanto o papá rufa com tres dedos na tampa da caixa do tabaco o compasso da modinha conhecida de Verdi ou Donizetti, que as trombetas bastardas estão executando... _executando_, sim, é a palavra.
Ao relance artistico dos olhos não é feio aquillo. Cuida enxergar o myope em cada renque de cadeiras uma fileira de _madonas de la sedia_; mas a illusão d'um myope não vale os desconsolos de tanta gente que tem a sua vista escorreita, e pensa que a estatua deve ter um _quantum satis_ de espiritualidade.
Ha pontos na casca do globo em que a virtude custa pouco. Não sei se a bemaventurança é accessivel por igual de todas as terras; mas, convencido da rectidão que assiste aos negocios dos outros mundos, quer-me parecer que quatro virgens a um tempo, sahidas em espirito, uma de Pekin, outra de Constantinopla, outra de Paris, e a quarta do Porto, devem de ter differente recebimento e quartel nas regiões da gloria, onde ha premios para a virtude.
Na razão directa da tentação, nos esforços em rebatel-a, é que deve ser aferida cada alma victoriosa que, apesar dos demonios succubos e incubos, se alista nas legiões do céo. Não se dogmatisa, entendam: quer-se escassamente enunciar idéa nova, resaibada de heresia, a vêr se algum hypocrita illustra o livro, com as injurias da sua caridade apostolica. Não ha no romance outro merito que o inculque, nem perspectiva melhor agourada para o editor.
As adoraveis virtudes das senhoras do Porto não são de todo um merecimento: orçam mais por uma necessidade. O homem d'alli sente um terço, ou ainda menos das precisões espirituaes que, n'outras partes, incommodam o coração humano. Esta feliz frugalidade procede do geito d'aquella sociedade, geito antigo que degenerou em aleijão, rachitismo moral, corcunda hereditaria, e de mais a mais pegadiça, por quanto, se não é do Porto, e por lá apégar alguns mezes, leitor, apalpe as costas, e topará uma protuberancia a crescer, a crescer, até se formar corcunda, que irá comsigo a stoda a parte.
Aquelle aleijão, de barreiras do Porto a dentro, não fica mal a ninguem. Os liliputianos, conta Swift, chanceavam o viajante europeu, que tinha a ridicula felicidade de ser um homem bem apessoado e perfeito. As bellezas do Congo recuam de puro nojo diante de um formoso nariz branco sem pingentes. No Porto ha o escarneo e o tedio que explicam o paradoxo do selvagem.
A juventude masculina da cidade heroica está em contacto com a civilisação d'este seculo pelo alfaiate. Não poderam os velhos trancar as portas do burgo de Moninho Viegas á invasão dos figurinos. Calção e rabicho foram banidos; o tamanco e o chinelo d'ourélo cederam, constrangidos, o joanête indigena ao verniz, e ao couro da Russia; o difficil, porém, era pentear, vestir e calçar o espirito de gaito e arte que a gente, fitando em rosto o filho da civilisação portuense, não tivesse de descer os olhos a buscar-lhe nos pés o tamanco. É o sestro das transfigurações de golpe e abruptas.
Um joven bem estrellado de minas e camapheus, chama-se no Porto um janota. A menina ingenua diz á visinha: «conhece aquelle janota?» ou «fulaninha namora um janota louro.» Não se cuide, porém, que este epitheto implica mofa ou menospreso como em Maçãs de D. Maria, ou Lamas d'Orelhão. O janota portuense é uma cousa séria, que póde ser vereador, e irmão da ordem terceira.
Por via de regra, o janota é uma creatura que nasce, cresce, abre-se em florescencia variegada de frakes, e colletes, e pantalonas; toma posse do balcão paterno aos trinta annos, corta o bigode para que lhe descontem as letras, põe oculos se teve o infortunio de estragar a vista com a luneta que lhe servia de não vêr nada, fructifica em crianças gordas que entrajam á escoceza, e escôa-se de vida através de quarenta annos de lerda pachorra de espirito, legando á prole um nome limpo, com pequenas farruscas que se ensaboam na barreia de um necrologio, e dous legados de cincoenta mil reis ás entrevadas da Cordoaria, e alguma cousa ao hospital do Terço.
D'este viver assim resultam duas cousas que explicam muitas outras: primeira, que o elegante portuense dispende os annos perigosos da adolescencia vestindo-se de manhã para sahir de tarde; segunda, que as meninas, ao despegar da costura, ageitam os laçarotes do toucado, entufam os punhos das manguinhas, encostam o cotovello ao peitoril da janella, seguem o olhar de esguelha que lhe vai revirando o terceiro ou quarto janota predilecto, e fecha a janella quando a passagem do quinto é duvidosa.
D'est'arte, as paixões são innocentes e ao mesmo tempo substanciaes como um caldo de gallinha. As relações epistolares não derrancam a pureza das olhaduras. A carta, em regra, é declaração escripta que tolhe a poesia da declaração muda. Palestras, quer de sala, quer a horas mortas, da rua para a janella, que piedosa criada deixou aberta, são, se a patrulha o tolera, a morte de ambas as declarações, porque o janota que falla é muito menos soffrivel e grammatical que o janota que escreve. Ainda assim, o casamento remata isto que se chama o _namoro_. E o mais é que ella e elle, nas suas horas de recolhimento, cada qual a só por só com a sua consciencia, contempla saudoso o passado e diz: «Que bella mocidade eu tive! muito me diverti!»
Ponderam alguns authores que a morigeração dos costumes portuenses é o necessario effeito do atraso da civilisação e policia da classe media, em que as outras no Porto se embaralham e perdem. Esta palavra «civilisação» anda mal trazida para tudo. Se o refinamento das industrias, se a arte de crear capitaes, no minimo do tempo e com diminuto trabalho, constitue a maxima civilisação material, o Porto ganha a aposta aos mais ambiciosos prospectos de riqueza aventados pelos economistas. E assim é que alli enxameam os Midas no ouro e nas orelhas; porém, menos castigados que o fabulado Midas da theologia grega, logram digerir o boi e o toucinho na succulenta substancia que a natureza lhes deu.
Os que negam ao Porto a vanguarda do progresso industrial, que é a mesma civilisação, irmã gemea da intellectiva, e fonte da sã moral, derruem desde os alicerces a sciencia moderna, confessando assim a utopia do systema vulgarisado nas escolas, nas gazetas, e nas fórmas de governar das nações mais cultas. No Porto, dão-se as mãos a riqueza e os costumes edificativos, para se justificarem estes por aquella, e a primeira pelos segundos. A industria é a de hoje: os costumes são os de ha um seculo. O chefe de familia poderá ser moedeiro falso, negreiro aposentado com exercicio na casa real, alliciador de escravos brancos, contrabandista tolerado; mas a filha d'esse homem da época vive intemerata como a filha de Virginio; cuida que seu pai, recolhendo a casa encalmado e suado, vem de servir a patria como Cincinnato; e, chegada a occasião de exercitar as virtudes antigas, não duvidará ser Lucrecia, e Lucrecia menos equivoca que a de Colatino.
Sobre este assumpto, mediocre seria o engenho que não produzisse um volume. Em louvor do Porto, escreveu o socio da academia real das sciencias Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos dous folhetins de nervo e polpa, com muito sal attico á mistura. O abundoso escriptor escreveria in-folios, se lhe aprouvesse, porque já um dos sete sabios da Grécia, Pittacus, parece que era, escreveu um volume dos louvores da mó d'uma atafona; e, para encarecimento do rábano, deixou Marciano um tractado muito de vêr-se. O talento é uma cousa temivel.
Ora não vão já d'aqui os malsins de intenções maliciarem essas inoffensivas palavras, que não desprimoram, nem arguem deshonra ao paladium das liberdades patrias, como usam dizer os artigueiros da terra a proposito de qualquer empeço que lhes assombre o seu municipio, se acontece o governo ir de encontro a alguma postura sobre a carne de porco, ou cousa assim em que valha a pena lembrar ao mundo que o Porto é o paladium das liberdades patrias.
N'isto pensava eu no jardim de S. Lazaro, n'aquelle dia em que Jorge Coelho, mais imprudente que atrevido, se avisinhára de Silvina, que, passados minutos de conversação, lhe disse:
--Não se demore mais tempo, porque toda a gente nos observa com ar espantadiço. Eu cuido que estamos dando grande escandalo.
Jorge Coelho retirou, e deu o braço ao amigo Pires, que fremia de raiva resultante d'uma desfeita que recebera de D. Francisca.
--Desfeita!--disse Jorge--pois uma senhora faz desfeitas!?...
--O requinte hediondo da insolencia!--vociferou o fidalgo da Maya tascando com phrenesi a ponta do charuto.
--Que te fez?
--Ouviu-me hontem na «Assembléa » uma declaração, acolheu-a com doudo enthusiasmo, disse-me que eu era um homem tão admiravel como perigoso; tremeu de pavor quando eu lhe fiz sentir o desfastio com que me arrancaria as entranhas, se me ella não aceitasse a vida como complemento da sua. Tudo isto me authorisava a offerecer-lhe hoje uma carta, com a certeza de me ser aceita. Offereço-lh'a, e ella responde-me que não sabia lêr se não letra redonda! Leonardo de Sousa Pires e Albuquerque sabe vingar-se. Vou ámanhã á Maya; depois... ai d'ella e de mim!
VII.
Christovão Pacheco de Valladares, morgado de Santa Eufemia, esteve sete dias e sete noites emparedado no seu quarto da hospedaria da «Aguia d'Ouro» depois d'aquelle desastre da «Assembléa.» Alguns hospedes repararam na reclusão, e averiguaram dos criados que exquisito homem era aquelle. D'estes hospedes, o mais grado era o morgado de Matto-grosso, solarengo de «Entre-ambos-os-rios» homem de grandes brios e musculos. Apenas informado, foi bater á porta de Christovão Pacheco, dizendo pela fechadura que abrisse que era parente e amigo. A identidade do parentesco foi de facil prova.
--O primo Pacheco não póde duvidar--disse o morgado de Matto-grosso--que um irmão de meu setimo avô, que havia nome Heitor Moniz de Valladares foi casar á casa de Santa Eufemia com D. Urbana Pacheco, filha de Lopo Pacheco, governador de Cochim...
--A fallar-lhe a verdade--disse o de Santa Eufemia--eu não sei nada de linhagens; mas tenho ouvido fallar a meu pai n'esse governador de Chacim.
--Cochim, primo Christovão, Cochim.
--Ou Cochim, ou lá o que é...
--E saiba que da sua prosapia sahiram os mais illustres sangues das familias do Minho. Talvez v. exc.ª, primo, não saiba que a nossa linhagem está mui de perto aparentada com Porto-Carreiros!
--Não sabia, nem sei de que sirva isso.
--De que sirva isso!--acudiu Egas de Villas-boas Cão e Aboim Encerra-bodes, que assim se chamava o morgado de Matto-grosso. Não diga tal, primo Christovão Pacheco. Pois ignora que do solar dos Porto-Carreiros, fidalgos mais velhos que a monarchia trezentos annos, sahiu ha cinco seculos um infanção, que casou em Castella, e foi tronco da descendencia que vem illustrar-se na pessoa da actual imperatriz de França?[1]
--Não sabia, palavra de honra, e isso que faz?--tomou o de Freixieiro.
--Faz que somos parentes da imperatriz, e que podemos dizel-o á bocca cheia a esses de sangue azul da capital, que nos chamam a nós fidalgos de meia tigella, esquecidos de que os mais nobres barões da côrte de Affonso edificaram os seus solares entre Douro e Minho, e d'aqui, por si ou seus filhos, acompanharam os reis da primeira dynastia ás conquistas do restante da Lusitania, e d'além-mar.
--A fallar-lhe a verdade, primo, quando entro a pensar n'essas cousas com que meu pai me quebra a cabeça, parece-me que trocava toda a minha fidalguia por algumas libras.
--Oh! que blasphemia!--Exclamou Egas n'um impeto de sincera indignação.--Troca-se por libras um neto de Heitor Moniz de Valladares!?
--Não é trocar-me por libras;--acudiu desabridamente o de Santa Eufemia--é que eu estou de vinte e oito annos, e ainda não pude sahir de casa senão duas vezes com esta; e não tenho remedio senão ir-me embora para Freixieiro, por que meu pai escreve-me hoje essa carta que o primo póde lêr, e depois me dirá se me não era melhor ser antes um caseiro das minhas fazendas, que me não servem de nada, n'esta idade em que eu preciso de dinheiro.
--Vejamos isto--disse o de Matto-grosso, abrindo a carta, e lendo o seguinte:
«Meu estimado filho.
Já te disse que venhas para casa, que não ha dinheiro para andar em folganças. Os tempos estão muito bicudos, e o bicho já pegou nas videiras. Os bezerros do caseiro da Portela lá estão com a molestia, e a cheia levou a parede do lameiro do Quinchoso. Tudo são despezas. O abbade pegou-me pela palavra, e quer que eu mande pôr a porca no sino da igreja. O milho ainda não chegou á conta; os quatro carros que se venderam não chegaram para pagar as decimas. O garrano está de todo espravonado; pozes-te-o bom com a tua ida ao Porto. Tudo são desgraças. Em quanto á roupa nova, deixa-te disso; a casaca que levaste está muito boa, e o melhor é fazel-a em Guimarães, que são mais em conta os alfaiates. Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brasileiro para te dar para a jornada cinco pintos; olha se ajustas a cavalgadura sem gorgeta. Dou-te a minha benção, e sou teu pai carinhoso,
«_Vasco._»
--Que me diz a isso?--exclamou Christovão.
--Eu sempre ouvi dizer--respondeu o primo Egas--que meu tio Vasco era um tanto fona; comprehendo que na idade do primo Christovão custa muito não brilhar na sociedade, a que o nosso nascimento nos dá direito; não obstante, seu pai está accumulando para o seu filho unico uma grande casa, e é preciso perdoar-lhe a intenção que é boa. Vamos ao mais importante: o primo quer dinheiro? quer os meus cavallos? quer os meus lacaios? tem tudo ás suas ordens; o que eu não consinto é que diga que trocava os seus brazões por algumas libras. Vamos, franqueza, precisa de fato? Chama-se já aqui o alfaiate: hoje mesmo póde sahir de ponto em branco. Tenho cá dous cavallos, o _corisco_ e o _phaetonte_: o primo monta qual quizer. Diga-me agora a que veiu ao Porto.
O morgado de Santa Eufemia, entre jubiloso e magoado, contou ao primo a historia do _seu amor de raiz_, como elle dizia. Mostrou as cartas de Silvina, que elle tinha atadas com um barbante n'uma bolsa interior da mala. Passou á ingenuidade da galhofa que lhe fizeram na «Assembléa» narrando as miudezas da casaca, e expoz o collete ginja e a gravata das orelhas fabulosas. E terminou em tom de lastima, accusando a perfidia da mulher a quem elle quizera dar o seu nome.
Egas de Encerra-bodes, depois de provar que na linhagem de Silvina havia um reles sargento-mór e um capitão de milicias, afóra duas bastardias e um filho sacrilego no seculo XVI, entrou a fuzilar colera dos olhos, tocando no ponto mais grave dos queixumes do neto do governador de Cochim.
--Eu, dizia elle batendo no peito com a mão aberta, eu, primo Christovão, na sua posição teria açoutado os perros que o escarneceram na «Assembléa.» Esses que riram de Christovão Pacheco é a villanagem, cujos paes vieram para o Porto de rabona de cotim, chapéo braguez, e o tamanco herdado. Os nossos caseiros, quando a liberalidade de nossos paes, lhes concedia poderem enroupar de cotim os filhos, mandavam-os para aqui. Os filhos d'esses que para aqui vieram, primo, são os insultadores da risada boçal, os miseraveis que através da casaca, da pelle da luva, e do verniz das botas, estão accusando o costado proprio do fardo, o pé que reclama o tamanco, e a mão que suspira pelo cabo da enxada. Tenho visto esse gentio nos botequins, e por sobre o hombro observo os risos de grosseira mofa com que recebem o despreso dos que elles denominam _parvalheiras_. Parvalheiras, a nós, primo, que temos em nossas casas a educação que elles tem entre as balanças, e timbramos em honrar os appellidos de nossos avós, descendo até elles para que elles não subam até nós. Se quer vêr quanto é villã a basofia d'estes tendeiros, que trocam por titulos ceiras de figos e costaes de bacalhau, tenha o primo a longanimidade de os admittir á sua convivencia, e verá como se elles desfazem em lorpas cortezias, e citam a cada instante o seu nome, como um dos seus amigos d'elles... Vamos ao ponto essencial. Christovão Pacheco foi ultrajado. Um primo de Egas de Matto-grosso não é ultrajado impunemente.
Tem um rival, primo?
--É de crer que sim.
--Fidalgo?
--Isso não sei.
--Cumpre sabêl-o.
Uma hora depois entraram fardos de fato feito no quarto do morgado de Santa Eufemia, e logo botas do sapateiro francez, e chapéos da melhor fabrica. Vestiu-se Christovão Pacheco, e era de vêr em que gentil moço se transfigurou, e que nova alma entrou n'aquelle corpo. Se elle tivesse lido frei Luiz de Sousa, aquelle esbelto cortezão que se sepultára no frade, recordaria estas palavras escriptas com tanta sciencia do absurdo coração do homem: «É nossa natureza muito amiga de si, e experiencia nos ensina que não ha nenhuma tão mortificada que deixe de mostrar algum alvoroço para uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se, ou seja pela novidade, ou pela honra e gasalhado que recebe o corpo: até os pensamentos e as esperanças renova um vestido novo.»[2]
Assim foi o morgado de Santa Eufemia. Quando se viu, desconheceu-se. Outro corpo e outra alma. Olhava para o polimento das botas, e o vidrado d'ellas reverberava-lhe na alma em lampejos de alegria. Não se cançava de correr a mão pela macia seda do chapéo, e remirava-se ao espelhinho que o imaginoso chapelleiro enquadrára no centro da copa. Com o que elle se ia zangando foi com as luvas de nove pontos e meio, que gemiam pelas costuras, com a pressão do dedo polegar que queria á força entrar com os outros de uma assentada. O do Matto-grosso explicou ao primo os mysterios da luva, com muito mais siso que um certo folhetinista do Porto inventor dos mysterios da dança. No Porto ha gente para inventar tudo quanto ha.
Os dous morgados sahiram da «Aguia d'Ouro» no domingo posterior áquelle em que Silvina fallára um momento com Jorge, no jardim. Para o jardim foram tambem elles, seguindo Silvina e Francisca, que saturam da missa dos Congregados. Quando subiam a rua de Santo Antonio, um grupo de elegantes, para quem a physionomia do morgado ficára indelevel, desde o baile, pararam maravilhados da reforma, fixando-o com impertinente reparo.
O morgado de Matto-grosso estacou em frente do grupo, e disse:
--Ora vamos: andem, ou desandem!
Os elegantes abriram alas, encarando-se mutuamente com um ar de pasmados da propria docilidade.
--Bravo! exclamou Leonardo Pires, que seguia de perto os morgados.
Egas de Encerra-bodes voltou-se rapido para o da Maya, e disse mal assombrado:
--Que é lá isso?
--Disse _bravo_!--replicou Pires com serena jovialidade, porque gostei immenso de vêr aquelles bigorrilhas ladearem á esquerda e direita, e comprehendi a razão porque elles pararam contemplando este cavalheiro que eu vi, _mutatis mutandis_, no baile da Assembléa Portuense. Eu honro-me tambem de ser parvalheira, e como tal me apresento, pedindo-lhe que me recebam no numero dos seus conhecidos em quanto me não conhecerem digno da sua amisade. Sou da Maya, da familia dos Pires e Albuquerques, e primeir'annista da faculdade de direito. Tenciono formar-me porque não tenho que fazer, e não me conformo á vida de meus antepassados, que viviam dos galgos e dos cavallos. Abomino cordialmente o Porto; mas ha aqui uma mulher que me tem preso a esta terra pela fibra vingativa d'um coração nobre. Aqui estou esperando a hora de provar-lhe que senão brinca com um homem que tem esculpidas no seio as maximas herdadas de avós.
Pires foi fallando n'este estilo até ao jardim. O morgado de Matto-grosso, scismando com o que seria no _livro dos costados_ a familia de Pires e Albuquerques da Maya, escassamente ouviu o enfatuado palavrorio do mettidiço. Christovão ia um pouco desconfiado da bacharelice de Pires, que já o tratava por «vossê» quando entrou no jardim.
Lá estava Silvina. Rodeavam-na alguns cavalheiros do Minho, censurando-lhe a crueldade com que abandonara o morgado de Santa Eufemia. D. Francisca da Cunha chanceava com remoques os patronos da victima do collete-ginja. A fidalga de Freixieiro, esporeada pela prima, fazia tambem riso do morgado, calando os rumores da consciencia que a não louvava. Era, pois, certo que o coração d'esta menina, degenerado acaso do seu bom natural, em poucos mezes de pratica de outra sociedade, se estava doendo de ter desconfessado, no baile, o amor de um homem, cuja mão tres mezes antes apertára com fervoroso amor e esperança de ser d'elle.
Jorge Coelho presenciava de longe, e cioso, a attenção que Silvina dava aos cavalheiros minhotos. Não os conhecia, para afoutar-se a entrar na roda, e interrogar com uma palavra vaga o coração de Silvina. Esta, porém, repellindo com desdenhosa philosophia os pesares que secretamente a remordiam, ergueu a fronte desanuviada, poz os olhos nos de Jorge, e fez uma ligeira cortezia, que todos julgaram ser um aceno para chamal-o.
A este tempo chegavam, perto de Silvina, Egas de Encerra-bodes, Christovão de Valladares, e Leonardo Pires. O do Matto-grosso comprimentou alguns primos que estavam na roda; e o de Santa Eufemia, voltando as costas para as senhoras, respondia, sem saber o que, a algumas perguntas d'um cavalheiro. O inquieto Pires, furando por entre todos, foi apertar a mão a Silvina, e dizer-lhe que estava o ideal da quinta essencia das fadas, com o que D. Francisca se riu, e riso fôra aquelle que abrira na testa de Pires um vinco dos que promettem cataclismos.
--Dá-me novas de Jorge?--disse Pires a D. Silvina.--Eu cheguei hontem da Maya, e não pude ainda encontral-o no hotel. O amor reduzil-o-ia a Sylpho, minha senhora?--proseguiu o estabalhoado, mordendo o charuto ao canto esquerdo dos beiços, e arqueando os braços na cintura.
--O seu amigo, disse Silvina, em voz alta, para desaffrontar-se da grosseira postura do morgado--está defronte de mim.
Pires fez uma pirueta sobre o calcanhar direito, fitou a luneta no condiscipulo, contemplou-o da altura da sua critica, volveu de novo o rosto risonho para a dama, e disse:
_Sobre a pyra fumegante,_ _Ardem ternos corações._
D. Francisca deu largas a uma risada estridula. Silvina sorriu prasenteiramente á tolice. Alguns morgados receberam o dito como cousa de espirito. Pires, contente do seu auditorio, ia retirar-se quando o morgado de Santa Eufemia, voltando a cara jubilosamente soez para o grupo, soltou uma cascalhada secca e desafinada que assanhou cruelmente os nervos de Silvina.
Todos estes movimentos foram seguidos de outro mais significativo. Os olhares convergiram todos sobre Jorge, que ficou encarnado até ás orelhas. Alguns dos cavalheiros murmuraram o quer que fosse, e nomeadamente Egas de Encerra-bodes fitou-o insolentemente, e disse a meia voz:
--É aquelle?!
--Pelos modos!--respondeu o primo.
--Pobre criança! é preciso dizer ao pai que o mande buscar.
VIII.
Tinha Leonardo Pires, á volta com muita pequice, assomos de brios capazes de enganar a gente. Não levou em paciencia que os morgados rissem do seu amigo. Encarou com ferocidade o de Matto-grosso, e disse, estendendo o braço em attitude esculptural para o lado onde Jorge estava:
--Aquella criança, que alli está, tem um dedo de homem, que faz recuar perfeitamente o gatilho de uma pistola.
Os circumstantes algum tempo não tugiram. Se não fosse o melodramatico da postura, a cousa não era para rir; mas a lentidão, com que Pires desceu o braço, fez espirrar uma cascalhada universal, salvo Silvina que arquejava em ancias de raiva.
Jorge conheceu que o escarneciam. Ergueu-se, veiu direito ao grupo, accendeu o charuto no de Egas de Encerra-bodes, murmurou seccamente um _obrigadissimo_, e foi saudar Silvina e Francisca com a desenvoltura desacostumada que lhe dava agora o ciume e a ira.
Silvina, contente da façanha, deu-lhe lugar immediato no seu banco. Porém, o pai de D. Francisca da Cunha, adivinhando tempestade nos olhares coriscantes de Christovão Pacheco, ergueu-se, puxou para baixo as pantalonas que tinham marinhado até meia-canella, e disse:
--Vamos, meninas, são horas de jantar; vamos ás sopas.
Levantou-se Jorge, sem ter dito palavra; mas Silvina, estendendo-lhe a mão, de sorte lh'a apertára e sacudira, que fez evidente a intenção de tornar bem reparado o feitio, muito de notar-se em menina de sua idade e educação aldeã.
Mal as damas voltaram costas, o morgado de Santa Eufemia foi bruscamente a Jorge Coelho, e disse-lhe:
--O senhor é um petisco! Não se me ande a fazer fino, quando não...
Jorge respondeu assim á brutal arremettida:
--A phrase é de carreiro; e, se não é carreiro quem me insulta, deve de ser um embriagado.
Leonardo Pires dá um passo á frente de Jorge, põe a mão no peito, e exclama nem facundo nem irado:
--Eu sou insultado na pessoa do meu amigo: exijo uma satisfação.
O fidalgo de Traz-os-Montes, fazendo signal de retirada á filha e sobrinha, entremetteu-se no grupo que se ia cerrando, abriu os braços, e tirou do peito estas memoraveis palavras:
--Os senhores estão aqui desacreditando a provincia. Se querem ser o que lá no matto são os homens de figados, peguem em dous carvalhos cerquinhos, e deem até tocar a quebrado; mas não queiram que os botem ás gazetas ámanhã. A minha opinião é esta. O menino vá para um lado--disse a Jorge, empurrando-o com brandura--e o senhor morgado para outro. Em quanto á rapariga, minha sobrinha, ámanhã eu a porei em casa do pai.
Jorge, tirado pelo braço de Pires, sahiu do jardim, e pôde ainda vêr nos olhos de Silvina, um movimento de radioso orgulho da bravura d'elle.
Na tarde d'esse dia recebeu Jorge a primeira carta de Silvina que resava assim: «_É bello ser amada por um homem de coração e esforço. É bello poder testemunhar a desaffronta do homem que se ama; mas é triste não poder, na presença de Deus e dos homens, dizer-lhe:_--TUA POR TODA A VIDA!»
O academico da Maya ouvira lêr a carta, e disse, com quanta vehemencia lhe permittiu a posição horisontal n'um canapé, e as pernas sobre as costas d'uma cadeira:
--Essa mulher tem espirito, palavra de honra! Amor e estilo, amigo Jorge, são o alpha e omega d'esta humanidade perfeita em que tivemos a dita de cahir das nuvens. De que diabo serve a rhetorica com que estragamos a memoria em Coimbra, não me dirás?! Se o padre Cardoso, que fez um compendio da arte de fallar, escrever uma carta como essa, diz tu que eu sou um parvo e que me não hei-de vingar da Francisca da Cunha! Diante d'estes talentos brutos, sem mão d'obra, como é o da tua Silvina, os Quintilianos e os Longinos ficam no tremedal da sua protervia explicando a _enallage_ e o _hyperbaton_. Oh! o estilo é muito mais a mulher que o homem! Eu dispensava bem tres partes do coração na mulher que me soubesse acepilhar e lapidar um periodo! Ha lá nada mais lindo? A formosura fenece como as flôres; o estilo fica. Silvina, a eloquente Silvina, quando de pura velhice não tiver aquelles dentes de marfim e esmalte, ficará com a bocca cheia de phrases melodiosas, como o canto do cysne. Tu és feliz, Jorge, mas a mesada deve estar nas vascas da morte. Estás sem vintém?
--Não; meu tio padre mandou-me cincoenta mil réis para lhe eu comprar dez volumes da Encyclopedia Catholica, e eu...
--Já devoraste cinco volumes em _rost beef_, e luvas brancas e charutos, não é verdade?
--E minha mãi encommendou-me duas peças de durante, e não sei que mais, que está esperando ha oito dias... Hontem recebi d'ella uma carta, que me fez pena e saudade...
--Tem estilo?--interrompeu Pires, sentando-se estabalhoadamente.
--Não brinques com cousas sagradas: minha mãi não tem estilo, e n'esta carta o que me diz é copiado do seu livro de orações.
--Ora essa!... Isso é original! Deixas-me vêr a carta-jaculatoria de tua mãi?
--Deixo... Aqui a tens... eu leio.
Jorge Coelho, commovido, leu o seguinte:
«Abro o meu livro de orações e copio estas palavras para que meu Jorge as leia:--A infeliz mãi, cujo filho começa a frequentar as sociedades põe toda a sua esperança na protecção de Maria. Começa o joven mancebo por alguns desmanchos que fazem conceber grandes receios ácerca do restante da sua idade. A mãi assim lh'o diz, e dá os mais ternos conselhos; elle, porém, rebella-se contra aquelle tão puro affecto, contra aquella dolorosa previsão de mãi, e assomando-se lhe pergunta porque duvida de sua honra e prudencia, e acrescenta: Parece-vos o meu comportamento reprehensivel, porque não frequentaes a sociedade: eu faço o que fazem todos.--Infeliz!--a mãi exclama--que te deitas a perder por isso que fazes o que todos fazem.--Ri o insensato dos temores maternos, e adianta-se ás cegas n'um caminho semeado de escolhos. Tudo está posto em aventura: a honra n'este mundo, e a salvação no outro. Não sabe a mãi o que faça para salvar o objecto de tantas lagrimas e crueis angustias. Vê perdido o filho, e perdido para sempre. Maria, porém, consoladora dos afllictos se lhe mostra como dôce visão... E a mãi afflicta, de joelhos, com as mãos postas, exclama: «Ó Maria, auxilio dos christãos, salvai meu filho, rogai por elle!»--Jorge, eu orei com estas palavras: a Mãi de Jesus ha-de ouvir-me, e fallar-te commigo ao coração. Vem, vem para nós: teus irmãos chamam-te com saudade, e eu com lagrimas.»
Leonardo Pires respeitou a commoção de seu amigo, e principiava um discurso de molde segundo o caso pedia, quando o morgado de Matto-grosso, e outro dos cavalheiros que entrava na roda do jardim, assomaram na porta.
--Temos duello--disse a meia voz, Pires, entalando no olho direito o aro circular da luneta e esguelhando a bocca.--Queiram entrar--proseguiu elle, adiantando-se para a porta--se é que entende com o meu amigo Jorge a honra da visita dos cavalheiros.
Egas de Encerra-bodes entrou e disse:
--Vem aqui commigo o snr. Theotonio Tinoco Pitta de Lucena, da casa da Trofa, fidalgo tão antigo como o solar dos Lucenas. O snr. Jorge não me conhece. Eu sou primo do morgado de Santa Eufemia: tenho dito de sobra para justificar o meu nascimento.
--Ha-de perdoar-me--disse Pires,--não precisava v. exc.ª dizer tanto para justificar o seu nascimento...--E atalhou logo a ironia vendo que o vulto do morgado se anuviava de mau agouro:--o senhor morgado é tido e havido na conta de muito bom sangue da provincia...
--E do melhor de Portugal--cortou logo Egas--Vamos ao ponto da nossa missão. Christovão Pacheco de Valladares manda perguntar ao snr. Jorge Coelho se algum de seus avós lhe transmittiu o fôro que torna iguaes no campo da honra, nobre com nobre, as pelejas do pundonor aggravado.
Jorge ficou atalhado com o espavento da pergunta, e ia pedir explicação da linguagem que lhe fez lembrar o tedioso Clarimundo, quando Pires, sacudindo as borlas do seu rob-de-chambre respondeu:
--Jorge Coelho herdou de seus avós a honra, é quanto basta. Na sala do palacio de Cintra não está lá o escudo dos Coelhos, porque o cobre a mortalha da
«_..............misera e mesquinha_ _Que depois de ser morta foi rainha._»
Jorge por sua mãi, é Sepulveda, appellido que traz á memoria o caso miserando, aquelle naufragio de que por ventura das letras patrias nasceu um poema!...
--Deixemo-nos de lerias!--interrompeu Theotonio Tinoco.
--Lérias! o snr. Pitta de Lucena chama a isto lerias!--acudiu Pires--Então que quer o senhor?
--Queremos que esse amigo dê uma satisfação ao outro a quem elle chamou bebado hoje.
--Mas, primo Tinoco--disse o do Matto-grosso--bem sabes que o primo Christovão não propõe, nem aceitaria desafio, a quem não tiver nascimento.
--Ficamos agora sabendo que este cavalheiro é de familia de bom sangue...
--Eu não sei de que sangue é a minha familia--atalhou Jorge serenamente.--O meu amigo Pires não o sabe melhor que eu, e vv. exc.as hão-de ter a bondade de dizer ao snr. morgado de Santa Eufemia que a côr do nosso sangue lá a veremos no campo, quando elle quizer.
--Nomeie os seus padrinhos, para nos entendermos com elles--disse Egas.
--Um serei eu, se derem licença--disse a voz de um homem, que entrou de subito no quarto.
--Meu tio!--exclamou Jorge, beijando-lhe a mão.
Era, com effeito, o padre João Coelho.
Leonardo Pires e os outros olharam com veneração para a figura sublime do velho, que trajava rigorosamente as vestes de sacerdote. Jorge baixara os olhos, em quanto o padre, com as palpebras humidas, e as mãos convulsas, fitava e comprimia ao seio o sobrinho. Passados instantes, disse compassadamente:
--Tantos annos e trabalho para te aproveitar, Jorge, e tu em tão pouco tempo te perdeste! Ha menos de nove mezes que sahiste dos braços de tua mãi, e venho-te encontrar na vespera de expôr o corpo e a alma com menos desculpa que o salteador que traz o peito á bala e o coração damnado pela perversidade!
E voltando-se para os tres cavalheiros, disse com uns assomos de nobre authoridade e sorriso ironico:
--Quem são estes folgados rebentos de illustrissimas prosapias que vem aqui desenfastiar-se dos tedios da sua inercia, estragando a alma de uma criança? Ouvi aqui nomear appellidos estrondosos que representam varões de grandes serviços á religião e á patria: é lastima que os netos dos Tinocos e dos Pachecos andem pregoando o desafio, o derramamento de sangue, como prova de honradas consciencias e altos espiritos. Melhor lhes fôra que as suas consciencias fossem mais christãs que honradas. Não se illustram memorias de avós derramando doutrinas impias. Se o seculo as aceita, senhores, então reneguem vv. exc.as das virtudes de seus avós, que outros seculos laurearam. Se os costumes barbaros d'esta civilisação, que por escarneo se chama assim, se conformam com os seus animos, não andem hypocritamente chorando saudades de Sião, os que se atascam nas immundicies de Babilonia. Jorge, eu fui aqui mandado por tua mãi: não quererá Deus que tu desobedeças á voz que te chama. Eu só quero exercitar sobre ti a authoridade do conselho; tua mãi chama-te: deves hoje mesmo sahir do Porto commigo. A vv. exc.as rogo eu mui humildemente que se não afflijam da perda de um noviço na confraria dos heroes do tempo. Costumavam nossos avós, antes de entrarem na cavallaria, velarem as armas no templo do Deus vivo; meu sobrinho vai armar-se cavalleiro, que não é ainda, e depois voltará á arena. Riem-se os nobres senhores? Velar as armas é sacramento de tanto ponto, que nem o fidalgo da Mancha se deu por bem posto na sua missão, antes de armar-se cavalleiro no curral d'uma bodega, e o mesmo foi dar sova brava nos arrieiros. Tens tu já Dulcinea, meu sobrinho? Claro é que sim. Ora, pois, aguarda melhores dias para as tuas façanhas, e diz aos teus padrinhos que te deixem ser mais algum tempo bom filho, bom irmão, e bom christão.
Egas de Encerra-bodes já não estava muito de bons humores com o padre. Tinoco Pitta não o tinha entendido, e abria a bocca pela terceira vez. Leonardo Pires não se atrevia a despregar da lingua aquellas espontaneas e por vezes graciosas parvoiçadas que lhe vinham á flux da abundancia do coração. Jorge Coelho tinha tão de negro cerrado o espirito que não balbuciou palavra. Era impossivel a desobediencia; mas deixar Silvina, sem levar comsigo a certeza de que a distancia não mataria n'ella a paixão nascente, isso era uma dôr que o pobre moço desafogou em pranto desfeito, passando ao quarto immediato que era o de Leonardo Pires.
O morgado de Matto-grosso, para evadir-se á posição embaraçosa em que se via, despediu-se com estas palavras:
--Muito bem: eu vou dizer ao cavalheiro offendido por seu sobrinho, que o offensor não tem imputação, attendendo á sua criancice, e mais ainda ao facto de a mãi o mandar chamar para o seu regaço, como criança que é desmamada de fresco.
--Não, senhor, atalhou o padre com seraphica brandura, diga ao senhor morgado de Santa Eufemia, creio que assim se chama o seu amigo, diga-lhe que seja generoso no perdão das injurias; que não desdoure os seus antepassados barateando o sangue honrado que elles lhes transmittiram; diga-lhe sobre tudo v. exc.ª que seja christão. Lembre-lhe que o desafio é uma ferocidade que nem se quer prova coragem, porque a verdadeira coragem é aquella admiravel abnegação dos louvores do mundo aos impetos da raiva, e valoroso louvavel aos olhos do Senhor é só aquelle que tem mão de suas iras, e desarma com humildade sem baixeza os féros e acommettidas do inimigo.
--Teu tio é grandemente lido nos classicos!--disse Pires, no quarto immediato, a Jorge Coelho, que enxugava as lagrimas teimosas.
IX.
Pobre coração! Tão puras lagrimas não has-de choral-as mais. D'essa grande afflicção de que tu appellas para a morte, has-de lembrar-te sempre com saudade, meu amigo. Na tua angustia ha os prantos do anjo, saudoso do céo. Na mulher que deixas, cuidas que te fica a santa companheira do Eden que a tua candura via na terra, aberto ao amor sem mancha, convidativo de santos gosos. De dez em dez annos pararás, no caminho da vida, peregrino da sepultura; voltarás o rosto para aquelle teu dia dos dezenove annos, e verás em flôres, fenecidas mas ainda graciosas, os espinhos por onde a pedaços te fica, meu pobre Jorge, o coração. Saberás então o que é a saudade; pedirás á desgraça dôres semelhantes ás da tua mocidade para abençoal-as; atirarás com o peito ás sarças das paixões vertiginosas para espertares os pungitivos desgostos do amor contrariado. Não já lagrimas, se não fel derramará o coração, que devêras ter dado a Deus, desde que o mundo t'o desbaratou a repellões e injurias. Chora, filho da sina maldita dos poetas, chora no seio de tua mãi; bem póde ser que ainda lá te espere o anjo da tua guarda.
Jorge Coelho não proferira uma palavra desobediente ao tio padre. Apenas, quando enfardava a roupa nas malas, enxugando as lagrimas antes de erguer o rosto disse:--Meu tio entende que me é honroso sahir do Porto sem responder ao desafio?...--Padre João, que abria o seu enorme lenço escarlate para se assoar, ficou algum tempo com os braços suspensos, e o lenço pendurado, e assim esteve, como estupefacto cravados os olhos no sobrinho, que esperava a resposta. O nariz, porém, urgia: padre João Coelho levou o trombetear da limpeza até á hyperbole, dobrou o lenço em quadro, depois enrolou-o, deu com elle mais alguns torcegões ao nariz, armou-se de pitada, e disse:
--Não é Deus que os perde; é o demónio que ensandece aquelles que quer aproveitar. Que é honra, Jorge? O evangelho que te diz das injurias, do odio, das affrontas, das injustiças? O filho de Deus dictou e rubricou com o seu sangue a lei, a regra, os deveres da humanidade; não importa ser o evangelho obra de Deus; não importa que alli venham prescriptas as maximas da boa e honrada vida: o evangelho é já inefficaz por que a humanidade inventou uma honra que se prova e sustenta com o duello: a vossa honra, cegos miseraveis dignos de lagrimas, lava-se no sangue, justifica-se pelo homicidio, ao qual a legislação decreta a forca, e a convenção social o galardão da bravura. Jorge, quem te disse que o assassino era honrado?
O academico apenas respondeu:
--Meu tio, vamos; eu estou prompto.
Leonardo Pires já estava no largo da Batalha, chamando a attenção dos numerosos transeuntes que paravam em magotes para verem o cavalleiro com as esporas cravadas nos ilhaes de uma égua de fina raça que se empinava, e corcovava, e atirava ora couces, ora galões medonhos. É que Leonardo Pires vira D. Francisca da Cunha n'uma janella do palacio do snr. Manoel Guedes, e de si para si entendeu que lhe ia bem dar-se n'aquelle espectaculo hyppico, mesmo com perigo de quebrar a cabeça, como de facto quebrou, e tão desgraciosamente o fez, que Francisca da Cunha, anciada de riso, dizem que cahira extenuada n'uma othomana.
Andava o infeliz Pires atraz da egua espavorida, com ajuda dos gallegos do chafariz, quando Jorge e o tio desceram da hospedaria da Estrella do Norte para a praça.
Apanhada a cavalgadura, indiscreta e desasada para heroismos de amor, Pires montou de salto, e acompanhou até Vallongo o condiscipulo, com evidente desagrado do padre. No caminho, em quanto o egresso ficára atraz compondo os loros do macho fleumatico, o amador infausto de Francisca da Cunha disse a Jorge:
--Que queres que eu diga a Silvina, se o tio a não mandar para a aldêa?
--Diz-lhe, respondeu Jorge commovido, com os olhos marejados de lagrimas--diz-lhe que eu não posso contar com a minha vida para lh'a offerecer. Diz-lhe que eu não fugi de cobarde; por quem és, Pires, não consintas que me ella ultraje, duvidando da minha coragem. Falla-lhe de minha mãi, que eu sei que ella me amará ainda mais, vendo que eu respeito tanto as lagrimas da que me formou o coração que eu lhe dei, e ella achou digno de si. As minhas cartas mando-t'as a ti para lh'as entregares... Silencio, que ahi está meu tio.
--Snr. padre João Coelho, disse alegremente Leonardo, pique o bucephalo cá para a frente.
--Alexandre Magno não montava machos, senhor estudante, respondeu o padre. Andaria mais acertado com a historia se me honrasse antes com as tradições de Sancho Pança. O machinho sabe que leva em cima um engenho velho, que se acerta de inclinar na carga cahe cada peça para o seu lado.
--Mas leva uma grande alma, replicou Pires.
--O macho? perguntou o padre, sorrindo.
--Sim, senhor.
--Lá em Coimbra estuda-se essa psycologia de veterinaria? As grandes almas passaram, pelos modos, dos Aristides e Catões para estes quadrupedes! Se assim é, que nos fica para nós, senhor academico?
--Eu queria dizer ao meu nobre amigo que o macho leva um cavalleiro com grande alma.
--Muito obrigado ao seu favor, snr. Pires. Eu tambem o entendi; mas metti-me a engraçado a vêr se desafiava o riso, do meu pobre Jorge, que vai ahi melancolico, como nunca foi filho algum para os braços de sua mãi e irmãos.
--É que Jorge Coelho, tornou o estouvado infanção da Maya, está como a avesinha a pairar emplumada, que salta para o rebordo do ninho, e vacilla entre ir para a mãi que a está dentro chamando com o cibo, ou voejar para a arvore em flôr que a está enamorando de longe.
--É uma bucolica bonita que o senhor vai poetisando--tornou o padre, fechando o olho direito e sorvendo uma canora pitada pela venta correspondente.--A avesinha (se dá licença, eu componho em linguagem chan e fradesca uma estrophe do idyllio) a avesinha deixou piar a carinhosa mãi, e desferiu as tenras azas na pontaria da arvore florida; e, como quer que as forças lhe cançassem do desusado vôo, não teve a avesinha remedio senão abater-se ao chão para pousar. E vai n'isto, andava por alli á caça de ninhos um gato ou uma gata brava, seja gato ou gata; o essencial é que apenas o triste passarinho apegou, o animal damninho fez-lhe o salto d'entre umas balças, e o filho da pobre mãi, que se morria de paixão no ninho, lá foi empolgado pelo gato ou pela gata... Lafontaine não inventou este conto, e merecia a pena; não importa: compuzem'ol-o nós, snr. Pires, _ad usum delphini_, e seja delfim o nosso Jorge.
A allusão desgraciosa da gata foi tão clara quanto desagradavel a Jorge. Era uma injuria á mulher querida, á sombra lagrimosa que o ia acompanhando, e instigando a reagir contra o dominio de parentes, e exhortando a emancipar o coração d'uma tutela que lhe deixava da vida as regalias que bastavam á criança, mas não ao homem.
Azedado, pois, pelo motejo da bucolica do padre João, Jorge disse com vehemencia:
--Meu tio offereça a moralidade dos contos a quem lhe pedir lições.
Padre João, depois de breve pausa, respondeu brandamente e com magoada tristeza:
--Não te envergonhes de pedir-me lições, filho, que as não pedes sómente a um velho; dá-t'as um amigo, que foi homem antes de ser frade, e estudou os homens, depois que o mandaram sahir da sua cella, como cousa inutil á sociedade. Se me não quizeres as lições, de que sirvo eu, Jorge? Já agora irei prégando sempre, quer me ouçam, quer me repulsem, como manda o apostolo.. Desagradou-te a allegoria do conto, e convidas-me assim a ser mais natural. Jorge, repara bem no que te diz este velho que, no teu modo pouco respeitoso de fallar a uma mãi, «te premuniu com cabedal de philosophia christã, bastante para defender das tentações todas as nações da biblia exterminadas por causa do peccado.» Sei de cór as tuas palavras, porque m'as entalhou na alma o espinho da ingratidão. Deves-me bons desejos de te fazer bom e honrado: não me sejas ingrato. Agora, escuta, filho. Vinte e quatro horas antes de te apparecer, procurei-te, porque do Porto fui avisado dos teus desvios: como te não encontrei, fui colher mais informações; voltei á noite á hospedaria tres vezes, e ás duas horas não tinhas ainda recolhido. No dia seguinte, que foi hoje, procurei-te ás nove horas da manha: tinhas já sahido. Déste-me tempo de sobra para eu me instruir das miudezas da tua historia de tres semanas. Sei quem é a creatura que te ourou a cabeça. É uma feia alma n'um formoso estojo; é uma aventureira...
--Meu tio, isso é crueldade e calumnia--interrompeu Jorge allucinado.
--Bate, mas escuta, dizia o philosopho: é uma aventureira de maridos, que engodou o morgado de Santa Eufemia, em quanto julgou desnecessario o consentimento do velho fidalgo para a realisação do casamento que a fazia rica. Desvanecidas as esperanças do morgado, cuja rudeza lhe não desdizia com o espirito arteiro, voltou-se para um rico brazileiro de Cabeceiras de Basto; mas o brazileiro não lhe entendeu os pespontes da eloquencia, e disse que queria mulher com quem elle se entendesse. Chamada por uma prima, professora em armadilhas ao casamento...
--Francisca da Cunha?--exclamou Pires, erguendo-se nos estribos.
--Justamente, Francisca da Cunha, menina matreira que...
--Olhe que eu amo essa mulher, snr. padre Coelho!--interrompeu solemnemente Leonardo.
--Pois faz v. s.ª muito bem: o amor do proximo é preceito divino: sou de parecer que a ame; mas não lhe dou os parabens... Vinha eu dizendo que a tal Silvina já no Porto, de mãos dadas com a prima, não duvidou visitar uma estalajadeira de Margaride que viera a banhos de mar, porque esta estalajadeira tinha um filho que viera do Brazil, com alguns centos de contos, negociados na escravatura. E como o filho da estalajadeira não andava acostumado a comprar senão negras possantes e trabalhadoras, recusou comprar a compleição melindrosa da fidalga de Margaride. D'ahi veio o saber-se, pelo dizer a snr.ª D. Silvina, que o poderoso brazileiro é filho d'uma taverneira, e que fôra para o Brazil com umas soletas e chapéo de Braga que lhe dera de esmola o pai da fidalga. Eis aqui o que eu pude averiguar da pessoa por quem meu sobrinho troca os carinhos de sua mãi, a dôce amisade de seus irmãos, e as lições amoraveis de seu velho tio.
Jorge Coelho ficou enleado, e não replicou; Leonardo Pires, porém, que nunca em sua vida pensára o que dizia, senão meia hora depois de o dizer, exclamou:
--Mas ha-de confessar, snr. padre João, que ellas são boas mulheres!
--Boas!...--murmurou o padre, que não entendeu o sentido do adjectivo--boas... quer-me parecer que não são muito!
--Ora essa! pois não as acha bonitas e elegantes?
--Eu não as conheço; mas creio que são bonitas e elegantes: e d'ahi?
--E d'ahi! _Amor omnia vincit!_ o amor tudo vence.
--Agradeço a traducção--disse, sorrindo, o padre, que, a fallar a verdade, tinha uns sorrisos que muito justificavam o dito de ter sido «homem» antes de ser frade.--O snr. Leonardo Pires não tem mãi?--acrescentou o padre, após um curto intervallo, com summa seriedade.
--Tenho, sim senhor; mas não tenciono namorar minha mãi--disse precipitadamente Leonardo.
O padre fitou-o com tristeza e admiração, um momento, e depois disse-lhe com bons modos:
--Praza a Deus que o coração esteja menos derrançado que a linguagem... snr. Leonardo Pires, eu tenho setenta annos; deprava-se um rapaz; mas respeita-se um velho.
D'esta vez, o imperturbavel Pires não teve que responder.
Tinham chegado a Vallongo. Jorge estendeu a mão ao seu amigo, e disse-lhe suffocado:
--Adeus! não sei se te verei mais... Sinto a morte no coração!
O padre fez um frio comprimento ao amigo de seu sobrinho, dizendo-lhe:
--Deus o tenha de sua mão.
Leonardo partiu; e o egresso, com os olhos embaciados de lagrimas, murmurou:
--Jorge! quem te abriu as portas da desgraça foi aquelle homem.
X.
Não esqueceram de certo ao leitor attento estas linhas da carta que o morgado de Santa Eufemia recebeu do pai:--_Anda-te embora, logo que esta recebas, que eu dou ordem ao meu amigo brazileiro para te dar para a jornada cinco pintos._
O brazileiro amigo do fidalgo de Freixieiro era o snr. José Francisco Andraens, natural de Cozelhas, desde 1844 estabelecido no Porto, onde viera tratar do baço, do pancreas, e d'outras entranhas importantes do snr. José Francisco Andraens. Na mente do illustre enfermo estava retirar-se para a provincia de Piauhy, onde tinha a sua feira de pretos, logo que restaurasse o estomago e as mais partes circumjacentes da sua alma. Porém, como quer que um seu amigo velho, e companheiro de viagem para o Brazil, em rapazes, estivesse no Porto com o titulo de visconde dos Lagares, e este o fizesse conhecido por meio das gazetas por uma esmola de cincoenta mil réis ao hospital da Santissima Trindade, o snr. José Francisco viu-se tão festejado, tão requestado, tão necessario ao Porto, que mandou vender os pretos em ser, e liquidar os creditos.
Tentemos um debuxo de José Francisco. Deve estar entre cincoenta a cincoenta e cinco annos, estatura menos de mean, com tres barrigas, das quaes a primeira, começando pela parte mais nobre do sujeito, principia onde o vulgar da gente tem os joelhos, e, depois d'uma arremettida adiposa, retrahe-se na linha imaginaria da cintura, e estreita-se em fórma de cabeça. A segunda barriga pega da primeira, ondeia com tres ordens de refegos por sobre as falsas costellas, ladêa tumida e retesada como os flancos d'um ôdre posto de través, e vai perder-se nos sovacos, mandando para as costas uma corcunda da sua mesma natureza. A terceira barriga pendura-se da face interna do queixo inferior, amplia-se flacida e lustrosa como um buxo mal cheio de vitella, e assenta sobre a segunda, no ponto hypothetico do esterno. A parte anatomica d'este bosquejo toda ella se libra em conjecturas. O author não assevera senão a existencia das barrigas.
Isto tudo tem uma base caprichosa: são cousas que a linguagem do paradoxo denomina pés. Vacilla a critica no confrontal-os com objecto dos tres reinos: uma tartaruga envolta em bezerro dá-nos uns longes da realidade; mas falta-nos o simile para os declivios, gargantas e barrocaes dos joanetes. Os pés de José Francisco são a desesperação dos Gavarni. O marrão do alvanel poderia arrancal-os d'um golpe d'uma pedreira por acaso; mas Apelles mais depressa pintaria uvas que enganassem o bico sequioso da passarinhada.
No tocante á cara o snr. Andraens é homem, apesar d'outros animaes que lhe não disputam os fóros da humanidade, porque não teem um curso de historia natural. O rubor do tomate desmaia ao pé das papeiras faciaes do brazileiro. O nariz enfronha-se de envergonhado entre as trouxas de tecidos, que lhe debruam os olhos de oppilações carnosas, sebaceas e luzidias. A menina do olho é rutilante e azougada, posto que as secreções visinhas lhe bezuntem a raiz das pestanas.
O snr. Andraens é commendador da ordem de Christo, desde que o seu amigo visconde dos Lagares foi nomeado trinchante da casa real. Afóra isto, o brazileiro de Cozelhas, na qualidade de accionista do Banco Commercial do Porto, é orador vitalicio d'aquella assembléa, em que não são raros os talentos de maior porte. Tal era o amigo do velho fidalgo de Freixieiro.
José Francisco esperava que o filho de Vasco procurasse os cinco pintos, segundo a ordem que recebera. Decorridos alguns dias, escreveu ao seu amigo, a dizer-lhe que o fidalgo novo não apparecera para receber o dinheiro. Tornou o velho a escrever ao brazileiro, encarregando-o de procurar o filho, aconselhal-o que fosse para casa, e pagar a despeza que elle tivesse feito na estalagem.
Foi o snr. Andraens á _Aguia d'Ouro_, e como não encontrasse Christovão, deixou dito ao criado do quarto quem era e a precisão que tinha de fallar com o morgado. Já vinha descendo as escadas, e voltou acima a chamar o criado.
--Olhe lá, disse elle, o fidalgo deve muito cá na casa?
--Não, senhor: o fidalgo paga todas as semanas.
--Está bom, está bom, vossê não diga que eu perguntei isto, e pegue lá para matar o bicho ámanhã.--Dizendo, abriu uma bolsa de retroz coalhada de missanga, e tirou trinta réis que deu ao criado com a mão direita fechada, para que a esquerda se não escandalisasse da prodigalidade.
Na manhã do dia seguinte, foi o morgado de Santa Eufemia a casa do brazileiro, e conduziram-o ao seu quarto de dormir, porque José Francisco estava ainda recolhido com a barriga n.º 2 envolta de papas de linhaça.
--Estou aqui emplasmado, senhor morgado--disse José Francisco, arqueando os braços por sobre a esphera abdominal.
--Então o snr. José que tem?
--Mande-se sentar, meu fidalgo. Eu estou aqui com uns calores cá de dentro, que dão que fazer á botica; mas isto, se Deus quizer, não é nada. Pois, meu senhor e amigo, seu pai escreveu-me, como ha-de saber, para eu lhe dar um dinheirito, e depois tornou a escrever-me para eu ir ter aonde a v. s.ª e dizer-lhe que o melhor é ir-se para casa, quanto antes, porque o velho, pelos modos, está lá arrenegado por si. Então, vai ou não vai?
--Por estes dias, irei; mas já já não se me arranja cá a minha vida, snr. José.
--Então o senhor, ainda que eu seja confiado, que tem cá que fazer? Ahi, por mais que me digam, anda derriço... Eu hei-de saber o que é quando fallar com a fidalga de Margaride que o conhece muito bem ao senhor morgado...
--Então o senhor conhece a D. Silvina de Mello?
--Conheço-a como os meus dedos...--respondeu o snr. Andraens, com um sorriso intencional, que passou desapercebido ao morgado.--É bem boa estampa, ó senhor morgado, não é? ora diga a verdade!
--É muito bonita, isso é.
--Rapariga d'uma vez! e bem-fallada!? isso então quando calha de fallar, aquillo não despega nem á mão de Deus-padre! Falla em tudo quanto ha! Até em Sebastopool, senhor morgado! Um d'estes dias tinha eu lá ido a troco cá de certa pendencia, e veiu á collecção a guerra da Russia, e ella começou alli a manobrar as batalhas, e se fôr como ella diz o snr. D. Miguel (Deus o traga) não tarda cá. Eu não tenho partidos, e até a fallar a verdade, sou commendador por esta gente, mas em fim, quero-me cá com os velhos, e gente como era a antiga já se não topa. Pois é verdade... eu...
--E a fidalga--atalhou o morgado--nunca lhe fallou em mim, snr. José?
--Fallou, pois então? disse-me até que o senhor queria casar com ella... é assim ou não é?
--Isso é verdade. Paixão de raiz como a que eu tenho por ella não a torno a ter pela mais pintada.
--Ah! que me diz?--acudiu o brazileiro com espanto--pois a cousa é isso? Quer apostar que o senhor está aqui pr'a-mor d'ella?
--Em fim, o coração não mente... Á conta d'ella é que eu aqui estou. Passaram-se uns poucos de mezes sem eu ter carta, desde que ella veiu para o Porto. Arranjei como pude licença do pai, e vim encontral-a cá a namorar outro, um trampolineirito a quem eu queria dar uma escovadela, mas antes de hontem fugiu lá para cascos de rolha.
--Conte-me isso, conte-me isso--exclamou José Francisco com vehemente interesse.
--É como lhe digo, snr. José. Agora preciso demorar-me alguns dias a ver o que ella faz.
--Com que então diz-me o senhor morgado--disse meditabundo e detidamente o brazileiro--que ella andava já com o miolo ás voltas por outro sujeito!... As mulheres são o diabo!... Quer o senhor saber?! Mas isto é pedra que cahe em poço, ouviu o senhor?
--Eu não digo nada; póde fallar snr. José.
--Pois então, vou desembuchar... Eu tenho emprestado algum dinheiro ao Pedro de Mello, pai da Silvina, para elle mandar aos rapazes que andam a estudar p'ra doutores em Coimbra. A casa do Mello é boa, mas está empenhada até aqui.--(O snr. José Francisco poz um dedo na barriga n.º 3, que deu de si como um balão de borracha). Ha-de haver tres mezes que eu fui levar á filha umas libras que o pai lhe mandou dar para vestimentas. Eu andava com o olho em cima de uma quintarola bem boa d'elle, que parte com os meus terrões da Lixa, e não se me dava de lhe ir dando aos poucos algum dinheiro até lhe apanhar a propriedade que me faz muita conta. E vai se não quando, meu amiguinho e senhor morgado, veiu a fidalga á sala assignar o recibo, e p'ra'qui p'racolá, palavra puxa palavra, eu deixei-me estar ao cavaco com ella e com a prima, e jantei lá n'esse dia, e fiquei p'ra a noite. A fallar-lhe a verdade nua e crua, como o outro que diz, eu não sei o que sentia cá no interior! Que diabo é isto que eu sinto? disse eu cá c'os meus botões. Eu andei por lá por esses mundos de Christo, vi muita mulata e branca de encher o olho, tive as minhas rapaziadas, porque em fim, a gente é de carne e osso; mas nunca me buliu cá por dentro mulher nenhuma como esta! Se o senhor morgado ouvisse o palavriado d'ella! Deixe vêr se me lembro... Não encarreiro... Ora deixe estar o senhor.. Eu tenho alli uma carta d'ella...
--Uma carta d'ella!--interrompeu o morgado a fumegar.
--Pois então? uma carta d'ella, umas poucas; mas ha lá uma em que ella escreve o mesmo que tinha dito de bocca. Faz o senhor favor de me ir áquella gavetinha do meio da commoda, e dar-me de lá um caixotinho de vidro, que tem uns bordados de papel dourado na cobertoira?...
Christovão Pacheco abriu com a mão convulsa a gaveta, e levou á cama do snr. Andraens a caixinha indicada. O brazileiro tirou um feixe de cartas, cintadas com uma fita de nastro, abriu algumas, regougando palavras soltas de cada uma d'ellas, e por fim acertou com a carta que procurava, e exclamou:--Cá está ella! tal e qual. Ora faz favor de lêr, que eu não estou hoje muito escorreito dos olhos.
O morgado de Santa Eufemia, entalado, enfiado, tremulo e escarlate até á raiz dos cabellos, leu o seguinte:
«Meu bom e muito querido amigo. Tanto eu como minha prima Francisca, ella por amisade reconhecida, e eu do coração affectuoso lhe agradecemos o valioso mimo com que se dignou brindar-nos a sua generosidade...»
--Isso foi, interrompeu o brazileiro, a respeito de umas pulseiras de ouro que eu mandei ás duas, que me custaram dezesete libras e mais uns pósinhos, não fallando na caixota em que foram os estojos que me tinha custado em Paris quarenta e oito francos. Empreguei bem o meu dinheiro, não tem duvida! Ora faz favor de continuar com essa trapalhice:
O morgado proseguiu na leitura acerba, limpando as camarinhas de suor que lhe transpiravam da testa:
«Apreciamos a dadiva já pelo que ella vale, já pelos sentimentos delicados que ella representa...»
--Isso é bem dito, não é, ó senhor morgado?--interrompeu o snr. José Francisco.--Lá que ella tem uma cabecinha como não ha outra, isso pau pau, pedra pedra, a verdade ha-de dizer-se. O que lhe falta é miôlo... Ora ande lá... vá lendo:
«Nunca eu aceitaria--continuava a carta de Silvina--uma prenda de homem, que não tivesse uma explicação honrosa. Esta, que eu tenho no meu pulso, não me faz estremecer a mão de pejo. Os meus sentimentos a respeito de v. s.ª tenho-lh'os dito tantas vezes, que repetil-os seria abusar da sua attenção, e descer um pouco da minha senhoril, dignidade. V. s.ª sabe como eu aprecio as paixões proprias dos meus annos...»
José Francisco Andraens deu dous galões no leito, e clamou:
--É ahi, é ahi onde está a cousa!
Christovão continuou, já deletreando, porque a raiva lhe nublava os olhos:
«Não creio na duração do amor impetuoso. A violencia da vibração fatiga as cordas da alma...»
--Olhe lá--atalhou o brazileiro--isso que vem a dizer? esse bocado não o percebi bem... _A violencia da vibração fatiga as cordas_... que diabo!...
--Quer dizer, respondeu o morgado com anciado esforço, quer dizer que... sim... eu acho que isto vem a dizer... que as paixões fortes adoentam a gente...
--Ah! sim, senhor, ha-de ser isso... eu cá sinto os estragos no interior... Ora faz favor de vêr o resto.
O morgado leu:
«A minha ambição é encontrar um amigo verdadeiro, um coração sereno, um homem para quem o mundo não tenha abysmos, dos que tem no fundo a desgraça da esposa trahida, e esquecida. Receba no coração estas palavras da sua dedicada e constante amiga, _Silvina_.»
--Que me diz o senhor a isso?--interpellou José Francisco, dando uma palmada no hombro do entorpecido morgado.
--O que eu lhe digo, snr. José!...--tornou o morgado, atirando a carta para sobre o leito.--O que eu lhe digo é que esta mulher...
--É uma mulher de pouco mais ou menos--concluiu o brazileiro, atando as cartas com o nastro--Ora ahi tem... Agora, á vista d'isto, deixe-se andar por cá atraz d'ella...
--E o senhor continua o namoro?--perguntou o morgado com os olhos vidrados de lagrimas.
--Qual namoro, nem qual diabo! O que eu queria era melhorar da barriga!
XI.
José Francisco Andraens, mentiste á tua consciencia! Supposto que as tuas barrigas te mereçam quantos desvelos cabem na alçada do oleo d'amendoa dôce e da linhaça, o coração em ti é um musculo cheio de bom e sadio sangue, sangue cruorico que por vezes te borbulha nas arterias, e reçuma á cara em brazumes de ternura lubrica. Mentiste, José Francisco, quando respondeste áquelle pobre morgado, que o que tu querias era melhorar da barriga. Musculo enorme! tu amavas abrasado no lume da faisca electrica em que se estremece cada uma de tuas fibras, rijas de vida, saturadas do boi copioso que assimilas, e das tortas de frango com que pejas diariamente as algibeiras do sobretudo, e das planganas de farinha de pau e araruta que emborcas todas as manhãs. Commendador da ordem de Christo! se o incognito da Providencia, chamado _acaso_, te houvesse dado a faculdade de desafogar em vociferações contra a fementida Silvina, dirias, no auge da tua angustia, blasphemias contra as mulheres, injurias insultadoras contra a fidalga de Margaride, e juramentos, por tua honra, de despresal-a e diffamal-a onde quer que fosse a tua lingua peçonhenta e a dos teus amigos famintos de detracção e escandalo. Os que assim procedem, fariam de ti riso, se te ouvissem o dialogo com o teu amigo de Freixieiro; tu, porém, José Francisco Andraens, que não sabes os quatro epithetos triviaes com que se vingam amantes abandonados, ergueste os alçapões da tua alma, e deixaste romper a torrente represada, com estas palavras: «Qual namoro, nem qual diabo! o que eu queria era melhorar da barriga!»
Ai! se elle a amava!
Não houve ahi cancro de amor que afistulasse, tão no intimo, coração de homem. Aquella propria dôr de estomago, rebelde á linhaça, nos está dizendo finezas do amor de José Francisco, procedida, como é, do uso do chá a que o forçavam successivas noites que passou em casa do tio de Silvina. No principio, o hospede cauteloso recusou a chavena; mas a fidalga teve a impiedade de dizer-lhe que não era extremamente do bom tom rejeitar o chá, a pretexto de ser bebida nociva ao estomago. O brazileiro, no dia seguinte, em vez d'uma, tomou tres chavenas, e em sua casa, _para affazer a tripa_ como elle dizia, mandava cozinhar grandes chocolateiras de chá, que a moça inexperta chamava o cozimento, e carregava de folha até sahir negro na fervura. José Francisco conhecia o veneno, punha a mão no buxo, e, se não dizia como o papa Ganganelli: «hei-de morrer d'isto...» gritava pela cataplasma de linhaça, mitigava a inflammação, e de puro amor continuava a immolar o estomago, como fino amante que não tem mais que dar.
Ha ahi amadores, José Francisco, que cubiçam a pedraria oriental para construirem um nicho para a mulher amada; pedem a Deus estrellas para lhe marchetarem a alcatifa das botinhas; queriam a lua e as duas ursas para o pavilhão do leito nupcial; os coriscos para lhe brincarem aos pés; os jardins de Semiramis, recendentes de nardo e cardamomo, para lhe deliciarem o olfacto; o sceptro do globo para a mão soberana, e o diadema do universo para a fronte inspirada. Farelorio. Homem de Cozelhas! o teu estomago estragado pelo chá, sobreleva em dolorosa realidade a tudo quanto inventaram poetas, invejosos dos bens de Deus, em quanto tu deixas em paz a lua e as estrellas, e compras dezesete libras de pulseiras, ás quaes a propria Diana caçadora te estenderia os seus divinos braços.
Ai! se elle a amava!
Por uma tarde de Agosto, na alamêda da Lapa, se andava José Francisco passeando com o seu amigo visconde dos Lagares. A espaços, o amador de Silvina desprendia uns como gemidos desentranhados com estridor de arroto, e o açafroado das belfas, ora se enrubecia mais intenso, ora desmaiava n'um pardacento, que deu nos olhos solicitos do visconde:
--Que tem vossê, sôr Andraens?!--perguntou o trinchante da casa real, afervorando o zelo da pergunta com um suave empurrão.
--Que hei-de eu ter, amigo visconde? Vossê bem sabe que eu ando mettido n'uma camisa de onze varas. A minha sina, que me lêram quando eu era rapaz, dá-me que eu hei-de passar por um grande desgosto. Até ao presente, em boa hora o digamos, a cousa não me tem ido mal; d'aqui por diante como o outro que diz, um bomem deve estar tem-te não caias.
--Mas então vossê que medo tem?--tornou o visconde, variando a mimica com uma palmada na espadua boleada de José Francisco.
--Homem, vossê casou quando era moço, e deu-se bem com a mulher, e tem vivido sem sustos; mas eu já cá estão os cincoenta, não sou dos rapazes da moda, e tenho ás vezes umas lembranças que me derrancam o coração.
--Ora, deixe-se d'isso, sôr Andraens! Pelos modos a senhora, com quem vossê vai casar, é menina bem comportadinha, e vossê, quando casar, deixe-se de ir muitas vezes ás assembleas, e pouco de visitas, e de theatros; metta-se em sua casa a mais a mulher; trate da sua labutação, e não a deixe pôr pé em ramo verde, sem ir com ella.
--Pois não pozeste!--acudiu José Francisco soltando uma risada aspera de sacões, que valia bem um programma.--Vossê ainda está n'essa?
A minha mulher, quando eu a tiver, é cá para o amanho da minha casa. Comer e beber, e vestidos, e enfeites d'ouro, não lhe ha-de cançar; mas ir a bailes e a comedias... isso, snr. visconde... olhe cá se me vê algum _T_ na testa! É verdade que a minha futura noiva é toda pronostica e está avezada ao palavriado dos pantomineiros que não tem senão aquillo e a sua miça; mas eu logo que case hei-de pôl-a na lei em que ha-de viver.
A mulher é do seu homem, e casou para tratar-lhe das doenças, e do arranjo da familia. Quem quer andar á tuna nas comedias e nos balancés deixa-se estar solteira; não é assim, amigo visconde?
--Assim é; mas não será bom apertal-a muito, amigo Andraens... Isto de mulheres, olhe que nem o diabo as quiz guardar, e quando ellas entram a desatremar, adeus, minha vida!
--A desatremar!--clamou José Francisco com iracundia.--Então um homem não é senhor de fechar as suas portas, e viver como quizer com a mulher com quem reparte do que tem? do seu dinheiro? do que lhe não custou a ella a ganhar? do seu dinheiro?
--Vossê diz bem, sôr José; mas é que ella a isso póde dizer que estava melhor solteira.
--Homem, vossê nem parece visconde n'isso que diz!--atalhou com ironia pungente José Francisco.--Eu vou já embuchal-o com uma pergunta:--Quanto vale a tal madama?
--Pelos modos, disse o visconde, acho que pouco tem.
--Por tudo que ella tem não dou eu seiscentos mil réis. A casa é do morgado, e os bens livres, repartidos por seis irmãos, nem p'ra pagarem a minha divida chegam. E quanto acha vossê que eu tenho, ó amigo visconde?
--Vossê, cá segundo os meus calculos, ha-de ter o melhor de cem contos... p'ra cima que não p'ra baixo.
--Aqui que ninguem nos ouve, snr. visconde, disse José Francisco muito á puridade, se não fosse aquella tapona que eu levei na costa d'Africa, podia ter os meus quatrocentos contos; agora, mais cem, menos cem mil réis a minha fortuna ha-de andar ahi por duzentos contos, e se as cousas correrem regularmente, cá nos engajados, escuso de bulir no que tenho apurado. Ora ahi tem vossê. Faz favor de me dizer se a rapariga, que não tem nada, casar commigo, não fica a ser rica e respeitada no mundo! Responda a isto, amigo, se é capaz!
--Sôr José Francisco, tornou o visconde com sisuda gravidade, olhe que eu tenho andado muito mundo, e visto muita cousa. A rapariga, se casa comsigo, é por que quer figurar. Vossê já não é muito moço, e não sei como ha-de estar em casa mettido a entreter a mulher. Sabe que mais? se está na teima de a não deixar ter alguma folga, o melhor é deixar-se estar solteiro até lhe apparecer moça mais azada p'ro seu modo de vida. Deixe cá o arranjo ao meu cuidado, que eu conheço muito negociante aqui no Porto que tem raparigaças como castellos, e vossê não tem senão escolher.
--Cale-se lá, homem!--interrompeu com azedume e paixão o de Cozelhas--Eu gosto de Silvina d'uma vez! E, se quer que lhe diga a verdade, já fiz alguma despeza com ella. Vossê inda a não enxergou?
--Ainda não á minha vontade; mas na semana que vem vou dar um baile só para a vêr a preceito; já a lobriguei de longe, e alvidou-se-me que ella era bem tirada das canellas, e que tinha a cinta muito delgada.
--Isso então!--exclamou o snr. Andraens, com os olhos rutilantes de jubilo, e um sorriso de satyro, que lhe fazia recuar os refegos das bochechas até ás orelhas, como dobras de cortinas apanhadas.--Bem feita até alli! O pescoço é branco como a cal da parede; os braços parecem de leite, e aquillo hão-de ser macios que nem veludo; os olhos, continuou José Francisco, com precipitada torrente de imagens orientaes, parece que entram no interior da gente, e andam sempre a bulir nos buracos como dous grillos; os dentes são da côr d'essa camisa, e tão iguaesinhos que parece mesmo cousa de fazer crescer a agua na bocca; quando ella anda pela casa, aquillo é um gosto vêl-a! parece que está a casa cheia! E ouvil-a fallar?! Vossê não faz uma pequena idéa! Até falla de Sebastopool! (Vê-se que esta feição do talento de D. Silvina foi a que mais deu no gôto do snr. José Francisco Andraens.) Em fim, amigo visconde, mulher como ella não espero topal-a. Tenho-lhe sympathia cá de dentro; sonho com ella todas as noites; dia em que a não veja, ando como a cobra que perdeu a peçonha; se adrega d'ella ir visitar alguem, e eu não a vejo, vou zangado p'ra casa, e já me tem acontecido não ceiar! As cartas d'ella tenho-as na cabeça, e já comprei um livro muito grande, chamado... chamado elle... assim uma cousa a modo... de... vossê hade saber? Aquillo que ensina a escrever direitas as palavras!...
--Uma pauta, ha-de ser pauta...
--Qual pauta, nem qual diabo! é um livro, que ensina a escrever com as letras todas... Já me lembra: um breviario.
--Ha-de ser isso, ha-de ser isso...--disse o visconde, que apreciou o ensejo de saber que o breviario ensinava a escrever com as letras todas--mas, a fallar verdade--continuou ingenuamente o brazileiro--não me ageito com o tal livreco, e vou-lhe escrevendo como sei. Aqui trago eu na carteira uma carta, respondendo á d'ella de hontem, a vêr se lh'a entrego esta noite. Quer vossê vêr, amigo visconde? Eu p'ra si não tenho aquellas. Ora escute lá; mas o mais acertado é lêrmos primeiro a que ella me escreveu. Vossê vai ficar pasmado; ora ouça.
José Francisco sentou-se n'um dos bancos de pedra da alamêda da Lapa, e leu correntemente o seguinte:
«Meu caro amigo.
«Soube que hontem me procurou. Quiz o meu infortunio que eu não estivesse em casa. O tio anda a pagar visitas, e ordenou que eu o acompanhasse. Passei uma noite insipida, lembrando-me que podia passal-a no remanso duma dôce paz e contentamento d'alma ao lado do homem cujas tão amantes como paternaes palavras me embalam o somno para os sonhos d'um delicioso futuro...»
Aqui José Francisco sacudiu na mão o papel, e exclamou radioso:
--Olhe isto, amigo visconde! _os sonhos d'um delicioso futuro_!... Pelos modos, quer dizer que o que ella quer é uma vida socegada para, em vez d'andar em visitas, dormir na sua cama á sua vontade. Não é isto?
--Pois elle que ha-de ser senão isso?--disse o visconde gostoso da modestia consultiva do seu amigo, e ia continuar reflexões a proposito, quando José Francisco, menos jubiloso, continuou, lendo:
«Estará ainda longe o dia suspirado, meu amigo? Não tem já do meu caracter um profundo conhecimento? Não se demore a confirmar o destino que minha alma anceia, porque desgraçadamente a minha vontade não é de todo livre, e bem póde ser que meu pai, antes da resolução de v. s.ª, tome outra, contraria aos nossos intentos. Sua do coração, _S._»
--Á troca d'estas linhas do fim--disse o brazileiro um pouco recolhido e melancolico--é que eu hoje tenho andado azoado, e a suspirar cá de dentro. Ora escute lá a resposta:
«Meus amores!!! (Na pontuação guardamos a fidelidade que descuramos na orthographia, cuja liberdade concedemos a José Francisco e pedimos alternativamente para nós). As vossas letras recebidas ao fazer d'esta até ao meio consolaram o meu coração saudoso!!... mas as que vem no cabo da vossa carta penetraram qual duro ferro no meu coração saudoso!! Se vosso pai não levar a bem o nosso casamento, ó céos!!! tanto faz querer como não querer o arranjo ha se de fazer, ainda que eu vá ás do cabo; estai descançada, joven Silvina amada!! Logo que eu tenha a nossa casa da Lixa arranjada (que andam lá os estucadores e os pintores) estamos casados e arruma-se d'aqui o pensamento!!! D'este vosso idolatrado até á morte, J. F. Andraens, vosso futuro esposo.»
--Que tal?--murmurou com certo ar de pudica modestia o erotico compositor de cartas incendiarias.
--Onde diabo aprendeu vossê tanto, ó sôr José?--disse o visconde com sincero espanto.
--Isto que aqui vê fil-o de fio a pavio, sem ir ao breviario, amigo visconde. Ponto é ter cá dentro o amor a puxar pelas memorias.
José Francisco ergueu-se triumphante com miraculosa agilidade; deu alguns passeios floreando a bengala, e rindo a revezes do espasmo do visconde, que, em sua consciencia, suspeitava de que fosse a carta apocripha; mas, por delicadeza, calou as duvidas.
José Francisco tinha desafogado. O arroto já não vinha acompanhado do suspiro. As tres barrigas funccionavam em toda a sua plenitude phisiologica. O jubilo doudo da sua esperança sorria aos arreboes que cintavam o horisonte do oceano; a viração da tarde, brincando na folhagem dos alamos e acacias, rumorejava um soido mellico aos ouvidos d'alma d'aquelle amante feliz.
Ai! se elle a amava!
Este expansivo dialogo fôra anterior quarenta e oito horas áquell'outro que ouvimos entre o brazileiro, e Christovão Pacheco de Valladares.
Quem te ha-de crêr agora, José Francisco Andraens! Que se te dá a ti da barriga, se tu amas tanto a mulher predestinada?! Descança, anjo do amor, no teu céo de duzentos contos, que as filhas dos homens lá irão buscar-te!
XII.
Ai! como elle a amava!
Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.
Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.
--Que queres tu, moça?,--mugiu José Francisco.
--São as papas...--balbuciou a espavorida criada.
--Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.
O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:
_Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia._
Ai! se elle a amava!
A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.
Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:
«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? _Mello!_ Quem lhe deu a ella _Mello_?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»
Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:
--Que a leve o diabo!
Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:
--Reconheço o meu sangue!
Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:
--Que a leve o diabo!
N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.
--Lá vem aquelle!--exclamou Egas--Vou chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque! _Psio_.
Pires fez uma continencia militar com o chicote.
--Suba cá--tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios--temos que contar-lhe.
--Viram aqui passar a Francisca da Cunha?--perguntou Pires.
--Não.
--Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.
--É muito possivel...--redarguiu a rir o de Matto-grosso--Suba, e verá que não está longe da verdade.
O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e subiu.
--Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho não tarda ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.
--Quem falla aqui em duello?--acudiu Egas--Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco Andraens...
--Quem é José Francisco Andraens?--interrompeu Leonardo.
Egas de Encerra-bodes compelliu o prim
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