Alguns homens do meu tempo: impressões litterarias
Maria Amalia Vaz de Carvalho
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Rita Farinha (Agosto 2008)
Maria Amalia Vaz de Carvalho
Alguns homens do meu tempo
Maria Amalia Vaz de Carvalho
Alguns homens
do
meu tempo
A ILL.^ma E EX.^ma SR.^a
D. Maria Manoela De Brito
(Marqueza de Pomares)
_Minha querida Manoela_.
Para que um livro merecesse o teu nome inscripto na sua primeira pagina, seria indispensavel que esse livro fosse bello na fórma e sincero na intenção.
O modesto volume, que venho offerecer-te, só o segundo requisito póde ter a aspiração de realisar.
Na nossa estreita e leal amisade de alguns annos, amizade em que tens posto os carinhos de uma adorada irmã, eu aprendi a respeitar-te e a amar-te como a um d'esses raros typos femininos de sincera virtude despretenciosa, de alto pensar e de sensibilidade vibrante, que alliam n'uma harmonia felicissima as qualidades d'um grande coração com as faculdades d'um levantado espirito.
Pensas e sentes; comprehendes com singular subtileza e com ampla e ineffavel bondade, tens a curiosidade intelligente, e a sympathia larga e fecunda, que é de todos os predicados d'um entendimento o mais precioso e o mais raro...
Nunca estive perto de ti que me não sentisse _melhor_; nunca ouvi a tua voz, que não conhecesse de que fundo de sinceridade e de força moral ella provinha...
Perdoa-me se, pensando a teu respeito isto e mais do que isto, te faço uma offerta de tão pouca valia.
Muitos dos _estudos_ incompletissimos, que compõem este livro, foram escriptos á sombra chilreada e fresca das arvores da tua senhorial Portella--na companhia grata, carinhosa, dos dois hospitaleiros donos d'essa vivenda pittoresca e lindissima.
Quantas vezes ahi tenho chegado empallidecida, extenuada, doente e triste, e quantas vezes de lá tenho voltado mais vigorosa na alma e no corpo, trazendo no coração, como um balsamo e como um viatico, a imagem d'essa nobre vida de caridade e de abnegação, que partilhas com o companheiro do teu destino, e em que ambos são um suggestivo exemplo e uma excepção inspiradora...
Se outro valor não tivesse para ti este pobre livro, que tu amas porque é meu, bem o sei,--teria o valor de ter sido quasi todo escripto ao pé das grandes arvores que deram sombra aos jogos da tua infancia, e que tu decerto desejarias que emballassem, com a musica harmoniosa e calmante das suas ramagens murmuras, com o gorgeio alegre dos seus ninhos primaverís, o supremo somno que dormirás mais tarde, na serena beatitude das consciencias boas!...
Lisboa. Dezembro 1888.
Maria Amalia Vaz de Carvalho.
_GonçAlves Crespo_
As _Miniaturas_ e os _Nocturnos_ são incontestavelmente, e no dizer de auctorisados criticos, dois livros, que pódem classificar-se entre as perolas mais doces, mais preciosas, mais irisadas, da moderna litteratura portugueza. Leva-me hoje um pendor irresistivel a fallar d'esses dois livros, conhecendo que o assumpto, para mim, é a um tempo muito attrahente e muito difficil.
Dir-se-ha, que não póde fallar com justiça do poeta, aquella, que á sua memoria querida está ligada por tão estreitos laços; mas por que elle foi o companheiro da minha vida, o mestre e educador do meu espirito, o amigo inolvidavel cuja morte deixou orphãos os meus filhos, não terei eu direito de ajuntar a minha voz humilde ás vozes, que no paiz em que eu nasci, e no imperio em que elle nasceu, o proclamam um dos mais delicados poetas modernos, um dos cinzeladores mais primorosos da poesia portugueza, um _parnasiano_ no bom sentido da palavra, quer dizer, juntando como Coppée, mas em muito mais alto gráu do que este, a suavidade, a melodia, a correcção do metro, ao sentimento profundo, á comprehensão clara, nitida e perfeita de todos os segredos complexos da alma contemporanea?
Parece-me que seriam rigorosos de mais os que tentassem coarctar-me esse direito, e que seria demasiada docilidade da minha parte o sujeitar-me a censores tão intransigentes e tão duros.
De mais, não escrevo eu exclusivamente para ser lida por mulheres? E onde está a mulher que me condemne n'este ponto? Não ha nenhuma, tenho a certeza d'isso.
Gonçalves Crespo não escreveu senão as _Miniaturas_ e os _Nocturnos_. Foram os versos da sua mocidade, colligidos debaixo d'aquelle titulo, que m'o fizeram conhecer e admirar; os _Nocturnos_ póde bem dizer-se que foram escriptos ao meu lado.
A obra do poeta tem pois para mim duas faces distinctas, mas para julgar as _Miniaturas_ sinto-me por assim dizer mais independente e mais livre.
Esse livro foi a revellação primeira, a revellação subita que eu tive d'aquelle, que treze annos depois, quasi que dia por dia, me expirava nos braços, pronunciando o meu nome, que a sua alma angelica, tão depurada pelo soffrimento, tão sanctificada pela resignação, enchia de bençãos.
Foi em 1870 que as _Miniaturas_ viram a luz pela primeira vez, revellando a Portugal todo e a todo Brazil, que um poeta original, delicadissimo, correcto até á perfeição, que um artista de primeira plana, um verdadeiro artista de raça, acabava de nascer para a litteratura portugueza.
Foi esse um bello periodo da curta vida do poeta, hontem desconhecido ainda, hoje acclamado por todos os que tinham no espirito uma scentelha de gosto, e no coração um vislumbre de sensibilidade.
Sobre a banca de trabalho de todas as mulheres distinctas, entre o cestinho de bordado e a jarra de violetas ou de rosas, achava-se então o gracioso volume das _Miniaturas_, e muita voz feminina tremula de commoção, e muita voz de artista, ebrio da belleza da fórma, repetia com enlevo essa doce elegia adoravelmente sentida, que se chama _Alguem_, esse poema de inconsavel e vaga tristeza, que se intitula: _Arrependida_, e a _Noiva_, e o ramo de saudades e de lyrios entretecido sobre o tumulo de _Modesta_ e a esplendida _Nera_, e a esculptural e voluptuosa _Sara_, e a ineffavel e consoladora _Transfiguração_.
Quantos aspectos do mesmo talento! quantas fórmas da mesma phantasia seductora! quantas expansões da mesma sensibilidade fina, subtil, quasi doentia, de requintada que era!
Muito longe do poeta, em um palacio meio arruinado, affastada de todo o convivio social, entre as verduras, as sombras, as caricias inspiradoras da Natureza inculta, vivia então uma creança de alma ardente, de sonhadora phantasia, de indomito imaginar, vizionaria juvenil, de que hoje--taes são as modificações que o tempo faz!--existe apenas, alterado ainda assim pelos annos e pelas agonias, o corpo envelhecido cuja mão escreve estas linhas.
Muitos teem contado essa historia a que a Morte veiu dar o seu tragico remate. Para que alludir a ella aqui? E que importam ao mundo as alegrias e as lagrimas que elle não sentiu nem chorou?
A verdade é que hei de lembrar-me sempre, tão viva se me conserva no espirito essa impressão dominadora, do que eu senti ao folhear pela primeira vez as _Miniaturas_, livro de um poeta para mim inteiramente desconhecido havia algumas horas apenas.
Pareceu-me que era um poeta como aquelle, que eu positivamente tinha esperado havia muito, e que elle chegára; que a minha aspiração indefenida e vaga se tinha realisado. Mais contentamento do que surpreza. A doçura dos que alcançam a praia que tinham desejado em longos dias de navegação monotona.
_Porque tardaste tanto, ó poeta? Eu te esperava Na minha solidão!_
faz elle dizer mais tarde á creança, que eu já fui, exprimindo assim, na sua simplicidade tão artistica, o sentimento de confiante alegria que a minha alma experimentára ao conhecel-o.
Pois bem; esse agudo prazer da intelligencia, completamente, absolutamente satisfeita no goso d'uma determinada obra d'arte, sinto-o eu hoje como no primeiro dia, ao ler as _Miniaturas_.
O talento de Gonçalves Crespo soffreu com a idade, com as mudanças que se deram no seu destino, com a acção tão complexa e tão profunda que a Vida exerce em todos nós, transformações importantes e progressivas; no emtanto para mim, e para muitos dos amigos dilectos do poeta, a mais encantadora, a mais perfumada efflorescencia do seu espirito raro, será sempre aquelle livro juvenil.
Muito mais pessoal que os _Nocturnos_, o volume das _Miniaturas_ lança uma luz mysteriosa e dulcissima sobre a figura singular, um pouco extranha, que foi Gonçalves Crespo.
Muito ao contrario do que geralmente succede, este artista, tão nervoso e vibratil, teve a primavera da vida nublada por todas as sombras, e o estio, de que a morte desfolhou as ultimas rosas, illuminado por todas as suaves e tranquillas alegrias, que a vida póde conceder áquelles que mais ama e a quem mais cedo tenciona abandonar.
É por isso que os _Nocturnos_ de uma belleza de fórma incomparavel, tocados ás vezes por um largo sôpro de epopeia, não teem senão a espaços, a musica dolente, tão enternecida e languida, tão acariciadora das almas tristes, que se prolonga e vibra em longos echos melancolicos nas paginas das _Miniaturas_.
Veja-se por exemplo _Alguem_, uma das peças que mais sympathias conquistaram ao nome do poeta:
Para alguem sou o lyrio entre os abrolhos, E tenho as formas ideaes do Christo; Para alguem sou a vida e a luz dos olhos, E se na terra existe é porque existo!
Esse alguem que prefere ao namorado Cantar das aves minha rude voz, Não és tu anjo meu, idolatrado! Nem, meus amigos, é nenhum de vós!
Quando alta noite me reclino e deito Melancolico triste e fatigado, Esse alguem abre as azas no meu leito, E o meu somno deslisa perfumado.
Chovam bençãos de Deus, sobre a que chora Por mim, além dos mares! Esse alguem É de meus dias a esplendente aurora, És tu, dôce velhinha, ó minha mãe!...
N'estas quatro estrophes está retratada uma alma, estão contadas as tristezas d'um destino, que mercê de Deus se desannuviou mais tarde, mas no qual então se condensavam todas as melancolias intimas, todas as duvidas sombrias, todas as amargas e silenciosas agonias da isolação.
Nem a mulher que elle ama, nos passageiros caprichos da mocidade, nem os amigos que o cercam, lhe matam a sêde de afféctos que o devora e tortura; a mãe, a _dôce velhinha_, essa está longe, essa chora além dos mares, essa nem o vê, nem o acaricia, nem dissolve ao fogo dos seus beijos os gêlos da duvida, que tão cêdo crestaram todas as flôres da mocidade na alma de Gonçalves Crespo.
Nunca houve ninguem mais modesto, mais inconsciente do proprio valor, mais desconfiado de si mesmo, mais dolorosamente torturado pela ideia das suas imperfeições reaes ou imaginarias.
Os requintados suplicios de que esta desconfiança foi origem, manifestam-se bem mais nas _Miniaturas_ do que no ultimo volume do poeta; por isso n'ellas a nota pessoal é mais vibrante, a commoção, por ser mais sincera, é mais directa e mais contagiosa.
Como documento psychologico para auxiliar a critica do poeta e do artista, as _Miniaturas_ são de um valor incomparavel.
II
A poesia de Gonçalves Crespo tinha origens complexas que é mister analysar, para comprehender completamente a belleza e a sinceridade palpitante da sua obra.
Nascido no Brazil, n'esse clima ardente e languido, no seio d'essa natureza exhuberante, que muito mais forte do que o homem, se lhe impõe e o subjuga fatal e irresistivelmente, Gonçalves Crespo foi transplantado,--pobre e delicada planta friorenta e morbida,--para uma região em que nunca se poude acclimar bem.
D'aqui, a doçura nostalgica, a saudade soluçante, que parece evolar-se como um aroma capitoso das suas poesias _brazileiras_, taes como a _Sésta_, _Na Roça_, _a Canção_, _Ao meio dia_, e mais tarde nos _Nocturnos_, as _Velhas Negras_, etc., etc.
Nem Gonçalves Dias, nem Alvares de Azevedo, nem Casimiro de Abreu, se deixaram assim inspirar, tão sincera e vivamente, pelas scenas familiares da vida brazileira, cuja graça pittoresca e especial dá um cunho inteiramente novo aos versos de Gonçalves Crespo.
E que o poeta tinha saudade--uma saudade que lhe estava no sangue, que era parte do seu temperamento, saudade que era um instincto contra o qual elle luctava em vão--de todos os esplendidos aspectos com que os seus olhos, ao abrirem-se á luz, se tinham inconscientemente embriagado.
Um dia de agosto, tropicalmente calmoso, passado no campo, á sombra das arvores, dava-lhe uma excitação penetrante, envolvia-o n'um banho de sensações voluptuosas. Sem mesmo dar por isso, era a lembrança tão viva e tão dominadôra da patria longinqua, que produzia em todo o seu sêr este effeito anormal.
É isto ainda que se traduz na melancolia sonhadora e vaga, d'esse pequeno poema, em que eu já fallei, intitulado as _Velhas Negras_.
Conheceram tanto dono!... Embalaram tanto somno De tanta sinhá gentil!...
Pódem as tristezas mudas d'uma raça escrava ser notadas com uma subtileza maior, com uma doçura mais ideal!...
A simplicidade que dá estes effeitos é que é a grande arte.
Ao longe, evocados magicamente pela voz do poeta, surgem os brutaes senhores, para quem as tristes filhas da raça negra foram o joguete d'um instante, a distracção d'uma hora de tedio ou de preguiça, e ellas, inconscientes, vagamente assombradas, tendo o pasmo silencioso d'um destino extranho, a angustia sem expressão e sem formula d'uma esmagadora injustiça, passaram de mão em mão, cumprindo o seu cruel fadario, e embalando de vez em quando nos braços emmagrecidos ou vergastados pelo azorrague do feitor, uma creança loura, rosada e _branca_ que lhes sorria, dando-lhes n'esse sorriso a indefinida revellação de alguma cousa de superior, de caricioso, de celeste!...
Só n'um coração de filho, e de filho saudoso, de filho amantissimo, pódem retratar-se, tão vivamente illuminadas, pódem destacar-se com tão magistral relevo, scenas entrevistas um dia, nas horas da imprevidente e distrahida infancia.
E a _Sésta_? Qual é a leitora que não ficou sabendo a _Sésta_ de cor!
Na rêde, que um negro moroso balança, Qual berço de espumas, Formosa creoula repousa e dormita, Emquanto a mucamba nos ares agita Um leque de plumas.
Na rêde perpassam as tremulas sombras Dos altos bambús; E dorme a creoula de manso embalada, Pendidos os braços da rêde nevada Mimosos, e nús. ..................................... ..................................... O vento que passe tranquillo, de leve, Nas folhas do engá; As aves que abafem seu canto sentido; As rodas do engenho não façam ruido, Que dorme a Sinhá.
Como se vê bem que este languido rythmo, a vaga suavidade d'estes versos, parecem feitos para acompanhar o movimento cadenciado e lento da rêde, e embalar o sonho de alguma filha gentil d'esse paiz, em que o clima dá ao corpo as preguiças infinitas, e a natureza luxuosa e desbordante dá ao espirito a mollesa, o cançasso fatal d'uma permanente lucta, na qual o homem é sempre vencido pela força inconsciente das cousas!...
Em Gonçalves Crespo havia pois a indolencia atavica, que elle só por extraordinario e doloroso esforço era capaz de vencer temporariamente. Por isso, emquanto as circumstancias excepcionalmente favoraveis lhe não amenizaram a existencia, elle viveu sempre em absoluto desaccordo com o seu meio.
A _lucta pela vida_, essa lei brutal das sociedades modernas, esmagava-o a elle, filho preguiçoso dos tropicos, artista quasi feminino, pela graça delicada e fragil do engenho, pela caprichosa subtileza da inspiração.
E digo muito de proposito _inspiração_, apesar da palavra andar proscripta dos modernos codigos artisticos.
Gonçalves Crespo trabalhava minuciosamente, como o mais esmerado operario, a factura dos seus versos, mas necessitava d'essa influencia qualquer, superior e extranha, que póde vir ao artista do seu mundo intimo, ou do mundo que o rodeia, que póde ser determinada pelo estado especial dos seus nervos, ou que póde provir de mil causas externas e independentes da sua vontade.
III
Quando elle escreveu as _Miniaturas_, dando-nos nas confidencias talvez involuntarias da sua alma, a revellação d'um artista adoravel, duas grandes tristezas o opprimiam, tristezas que elle, seguindo talvez sem dar por isso, o fecundo conselho de Goethe, transformou em poesia, que será lida emquanto se fallar e se escrever portuguez.
Eram-lhe hostis o meio physico e a atmosphera moral em que vivia.
Para ser grande na Arte, creio eu, que é preciso antes de tudo, ser sincero. Nunca ninguem logrou traduzir bem as dôres que não sentiu.
Brutalidades inconscientes do Destino tinham feito d'este moço,--de uma organisação nervosa como a d'uma mulher, accessivel, como os organismos mais sensiveis á influencia de todas as sympathias, gostando de agradar aos que viviam perto d'elle, impressionavel, desconfiado, sempre prompto a julgar-se com severidade injusta,--um estudante pessimo, um filho familia, quasi rebelde.
Queriam que elle, a livre phantasia graciosa e borboleteadora, caprichosa, e facil aos cançassos rapidos e aos tedios anulladores, se cingisse ao estudo arido e disciplinador da mathematica; que elle, exigente, doido por tudo quanto era bello, elegante, fino e distincto, tivesse a economia calculista e minuciosa d'um mediocre ou d'um grosseiro.
D'aqui, as luctas de familia, os descontentamentos do homem intelligente, que se vê injustamente julgado porque lhe prevertem as faculdades em vez de as aproveitarem.
Triste, isolado, sem affectos, descontente de si que não sabia sujeitar-se ao destino, e descontente com o destino que tão hostil lhe estava sendo, Gonçalves Crespo surprehendeu-se um dia a vazar no molde perfeito dos seus versos, as melancolias intraduziveis até ali, do seu pobre coração triturado e desconhecido.
Teixeira de Queiroz, o consciencioso analysta dos _Noivos_, o ironico observador de _Salustio Nogueira_, o pintor pittoresco e impressionista da _Comedia do Campo_, escreveu na terceira edição das _Miniaturas_ um prologo admiravel, um prologo por assim dizer _vivido_, que desenha com singular vigor e com exactidão minuciosa a physionomia litteraria e moral de Gonçalves Crespo.
Elle que foi um amigo da mocidade e um amigo da ultima hora, que recebeu as primeiras expansões do poeta e quasi que o ultimo suspiro do moribundo, comprehendeu bem e soube bem traduzir, a estranha dualidade moral que fazia de Gonçalves Crespo o mais alegre e o mais triste dos homens.
Porque muitos dos amigos d'elle, hão de morrer na falsa persuasão de que o lado menos verdadeiro do auctor das _Miniaturas_ era a tristeza funda, a magoa docemente resignada, que nas suas poesias transluzem. Tinham-n'o por um alegre, um doidivanas de phantasia picaresca e de imprevistas aventuras; formavam-lhe em volta do nome, sympathico a toda a mocidade do seu tempo de Coimbra, como depois se tornou sympathico a todas as classes sociaes de Lisbôa, uma lenda de bohemia extravagante, de ruidosa e turbulenta alegria.
Poucos o conheceram; poucos viram atravez da ironia bondosa e sympathica do seu sorriso, da bonhomia um tanto sceptica da sua palavra, vivamente e pittorescamente original, o verdadeiro homem que elle era.
A mocidade corrêra-lhe tão desflorida e tão triste, que nem os dez annos de tranquilla felicidade, de paz serena e dôce, toda illuminada de affectos intimos, lograram cicatrisar feridas que se lhe tinham rasgado no coração. E que ha mais triste, mais desolador para as almas grandes, do que passarem n'este deserto de homens chamado o mundo, mal julgadas, mal comprehendidas, mal interpretadas, tendo a consciencia de que ninguem cura das suas dôres, ou se preoccupa com os seus intimos e irremediaveis desconsolos?...
As cartas do auctor das _Miniaturas_, as suas cartas inimitaveis e incomparaveis, porque não conheci nunca quem escrevesse cartas mais perfeitas--perfeitas de graça, de simplicidade, de desleixo artistico--revelam-n'o, preza de melancolias incuraveis e extranhas.
Tinha preoccupações e infantilidades de artista. Nunca chegou a perceber a seducção irresistivel que exercia nos que o approximavam; nunca comprehendeu que tinha, como poucos, o dom da sympathia subita que se impõe, que domina e que vence. Se lh'o diziam sorria-se, com o seu sorriso peculiar de que todos os amigos se lembram com uma saudade enorme, feito de malicia e de duvida, de bondade e de ironia, sorriso que era o encanto caracteristico e mysterioso d'aquelle rosto revolto, expressivo e extranho, que tantos affectos inspirou na terra, que ficou gravado em tantos corações que não esquecem.
Esta duvida de si mesmo fazia-o soffrer. Nunca se consolou de pensar de si proprio o que ninguem mais pensava.
Encantadora fraqueza que o torna ainda mais nosso, que faz com que nós as mulheres todas o amêmos, porque se não envergonhou de partilhar as nossas pequenas vaidades, as nossas imperfeiçõesinhas organicas para as quaes o homem tem tamanho e tão altivo desdem!
IV
Tristezas quasi inconscientes do exilio, nostalgias de ave friorenta, visões vagas, indistinctas, radiosas da patria ausente; desgostos de ordem muito particular,--e a pairar sobre tudo isto, uma impressão dolorosa, indefenivel, que nem aos mais queridos elle confessava, mas que ungia de tristeza ineffavel os seus versos, que punha aqui e ali uma nota abafada e dilacerante na harmonia magistral da sua obra,--eis a triplice inspiração, que deu uma vida intensa ao seu primeiro livro, ao livro da sua mocidade, que tão querido lhe tornou logo o nome aos delicados de ambos os sexos.
As _Miniaturas_ teem já dezesete annos, o que é muito para um livro de versos d'este seculo, que fez da rapidez o seu programma e o seu mote, que não estaciona em cousa alguma e muito menos no modo de exprimir o que sente.
Pois apezar de muitos poetas contemporaneos de Gonçalves Crespo terem passado litterariamente, a geração que principia agora, lê as _Miniaturas_ com o mesmo enlêvo com que as leu a geração que vae envelhecendo já.
É que a verdadeira poesia, a que não se filia servilmente em uma qualquer escola transitoria e ephemera, mas a que exprime do modo mais bello e perfeito que é dado á sua epocha conhecer, os sentimentos que formam o fundo inalteravel da alma humana, não perde nunca o imperio que um dia exerceu, atravessa os tempos immaculada e eterna; é hoje o que será sempre, a fascinadora que nos enfeitiça, a amiga cariciosa que nos embala, a confidente que nos ouve, e que chora comnosco...
Muitos teem comparado Gonçalves Crespo a Theophile Gauthier, eu por mim declaro que acho injusta a comparação.
Theophile Gauthier é um perfeito joalheiro, um impeccavel burilador; cada verso d'elle é uma pedra preciosa, facetada, brilhante, admiravelmente engastada em ouro dos mais finos quilates.
Para dar uma forma peregrina aos metaes preciosos, para esmaltar deliciosamente as joias mais lindamente modeladas, ninguem excede o auctor dos _Emaux et Camèes_. Elle proprio o sabia e nunca desejou mais nada.
Em Gonçalves Crespo porém, havia mais do que isto. Havia uma alma transbordante de vida, capaz de comprehender e de traduzir os mais delicados cambiantes, as mais rapidas modalidades das outras almas.
Que intuição que elle tinha de todas as dôres, mesmo das mais extranhas ao espirito e ao coração d'um homem!...
Lembram-se d'aquella perola de tristeza chamada _Arrependida_?
_Ella_ deixára tudo para correr atraz da sua chimera e um dia desperta perdida, irremissivelmente perdida no abysmo de infamia a que uma mão de homem a arrastou:
Ella scisma ao luar! Todo o passado A seus olhos avulta, illuminado Pelos dubios reflexos da tristeza...
Por uma noite assim, limpida e clara, Sua modesta alcôva ella deixára Por esse que ali dorme, e que a... despreza!
Que sobriedade de mestre! que melancolia femenina! que profunda comprehensão d'uma dôr, que toda a emphase, toda a phrase diminuiriam forçosamente!
Tentar conhecer o céu do amor completo, do amor heroico, do amor feito de sacrificios superiores e de abnegações infinitas e cahir no lodo... Só um poeta sincero como Gonçalves Crespo saberia notar em dois traços esta agonia silenciosa e sem termo...
O que distingue particularmente o auctor dos _Nocturnos_ dos outros poetas da sua indole, é a ligeireza do traço, é o vago que parece envolver n'uma luz cerulea e dubia, n'um vapor transparente--e comparavel ao que á tarde envolve e esbate suavemente as montanhas,--as suas concepções mais perfeitas.
Não é possivel que ao lêl-o a imaginação se detenha apenas na pagina do livro e o não siga ás regiões de que elle tinha como ninguem a iniciação e o segredo.
Previlegiados entre todos, os poetas que fazem sonhar; os que teem na mão a chave de oiro, do paiz azul habitado pela Chymera!
V
Os _Nocturnos_ pertencem a uma phase inteiramente diversa, mais pacificada, mais tranquilla, mais perfeita, da vida do homem e da vida do escriptor.
Sem ter perdido nenhuma das suas qualidades de graça delicada e mimosa, nenhuma das subtilezas finissimas do sentimento e da expressão, nenhuma d'aquellas notas dolentes da alma creoula, que tão singular e tão fascinador o tornam para nós, Gonçalves Crespo attinge por vezes a amplidão magestosa e grave, tem o largo folego heroico, que nas _Minaturas_ ainda se não pressente.
Na evolução progressiva do seu genio poetico, elle subiu mais um gráu.
Nenhum segredo da forma lhe é defezo. Conquistou, venceu, domou inteiramente a caprichosa, que já não ousa, como a Galatheia do poeta latino, sumir-se entre os salgueiros acenando-lhe de longe.
A _Morte de D. Quixote_, a _Resposta do Inquisidor_, as _Primeiras lagrimas d'El-Rei_, a _Ceia de Tiberio_, prenunciam um poeta feito para os largos commettimentos, um poeta que marcaria o seu logar n'este seculo, com algumas d'essas obras que são a gloria d'uma raça, se a traiçoeira morte não viesse em plena virilidade de annos, em plena alegria de trabalho, arrancar-lhe das mãos a penna prodigiosa.
As traducções de Henrique Heine são no volume dos _Nocturnos_ das joias mais deliciosamente trabalhadas.
A inspiração meridional entrelaça-se de tal modo com a melancolia fugitiva e doce, com a ironica tristeza da musa germanica, que no dizer de alguem, o _Intermezzo_ apparece ali como a obra d'um Heine, mais completo, d'um Heine a quem não faltasse uma só nota na sua vasta alma de homem!
Poucos espiritos tambem, seriam talhados mais de molde para entenderem Heine e dar-lhe por assim dizer uma feição nossa.
É que a ironia que ressalta naturalmente das cousas, a ironia que não é nem uma blasphemia nem um soluço, mas sim o reconhecimento pacifico, tranquillo e triste das desconsoladoras verdades humanas, existe em Gonçalves Crespo na sua forma mais exquisitamente delicada, mais requintadamente artistica.
Como não havia elle pois de entender aquillo que é a propria essencia do genio do poeta allemão!
VI
Já no leito, onde agonisou com divina resignação dois longos mezes, e onde parece que o seu espirito de poeta assumiu uma forma ainda mais idealmente melancolica, Gonçalves Crespo escreveu com a mão tremula de doente um soneto consagrado aos annos d'uma gentil senhora, nossa querida amiga, por quem elle tinha o mais respeitoso dos affectos, em cuja casa hospitaleira elle encontrou sempre um acolhimento fraternal.
Essa senhora é a Condessa de Sabugosa, mulher do amigo, talvez mais ternamente amado por Gonçalves Crespo.
Seria lastima conservar para sempre inedito este soneto que tem para mim um triplo encanto. O perfume _camoeano_ que o impregna deliciosamente, a tristeza dulcissima, que elle respira, e a melancolica circumstancia de ser o ultimo que cahio, como uma perola solta, da lyra quasi partida do poeta moribundo.
Eis o soneto:
Na quadra azul da mocidade, a gente Parte rindo e cantando, estrada fóra, Gorgeia a cotovia em cada aurora, Suspira á noite o rouxinol dolente.
Ai! Ditoso o que parte alegremente, O que não vio aproximar-se a hora Em que é força volver atraz... embora Nos arfe o seio de illusões fremente.
Para ti ainda existe o sonho alado, A fé robusta, e a candida alegria Que nos chovem do céu claro e estrellado.
Nunca sejas forçada, flôr, um dia A erguer, chorando, o braço fatigado Em busca da ventura fugidia... ......................................... .........................................
A morte não consentiu que elle subisse aonde podia subir, que elle se affirmasse como se poderia ter affirmado. No emtanto, todos os que teem este sexto sentido divino, pelo qual, mesmo apezar dos desenganos que a vida encerra, vale a pena em todo o caso ter vivido, hão-de ler com intimo prazer os dois volumes do encantador poeta de _Alguem_.
É verdade que elle não respondeu a todas as interrogações que o nosso espirito se achou no direito de fazer-lhe, mas não respondeu porque o tempo lhe não deixou cumprir as mil promessas que a sua mocidade nos fizera.
E hoje que elle partiu para o paiz mysterioso d'onde ninguem voltou, e para onde, na tristeza ou na alegria, convergem os nossos olhares anciosamente prescrutadores, voam as nossas saudades n'um impeto de lagrimas, eu releio aquella soberba e indecifravel _Sara_, e pergunto a mim mesma se debaixo da forma esculpturalmente pagã dos versos, se não abriga um sentido occulto, um mysterioso symbolo...
Que ardente espiritualismo, tenaz e apaixonado, na carnalidade apparente d'esse poema!
Quanta dôr n'aquella aspiração, sempre trahida, de encontrar uma alma, no bello corpo insensivel que elle, como Pygmalião, quereria animar d'um divino sopro!
Na sua violenta sêde de perfeição, dolorosa e alanceadôra como poucas, nunca o poeta das _Miniaturas_ e dos _Nocturnos_ teve o contentamento da sua obra! Nunca achou que a Musa, que elle beijava, tivesse a vida, o fogo sagrado, que n'esse beijo fecundador a sua alma anceava communicar-lhe!
Era um insaciavel!
Nunca a Arte nem a vida o contentaram, a elle que teve todas as caricias luminosas da Arte, e todos os affectos sãos que a Vida póde dar e que a Vida só dá a rarissimos dos seus escolhidos...
Mas não estará n'esse eterno descontentamento, n'essa aspiração incansavel ao desconhecido, o signal mais caracteristico da sua grandeza?... Eu creio que sim.
_Ramalho E EçA_
I
O Mysterio Da Estrada De Cintra
Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz acabam de apresentar ao publico portuguez e brazileiro, ou, antes, de _consentir_ que lhe seja apresentado por um editor intelligente, o livro da mocidade de ambos, que ha quatorze annos teve em Lisboa um successo de curiosidade e depois de enthusiasmo, quando foi publicado dia a dia nos folhetins do _Diario de Noticias_.
Foi n'essa occasião, e não no livro que depois saiu a lume, que eu li o romance, e lembrava-me, como toda a gente, da impressão immensamente grata, que essa obra improvisada, escripta _à la diable_, tinha produzido em mim.
Fui, portanto, como é natural, uma das primeiras compradoras do volume, e, decerto, não fui, de todas as que o teem lido n'estes dias, a menos interessada e curiosa.
Queria saber, antes de tudo, se estava muito mudado o meu gosto litterario, se o _romance experimental_, o _romance naturalista_, o _documento humano_, e o estudo frio, analytico, impessoal, das miserias d'este mundo, me tinham de todo roubado a sensibilidade e a paixão, que a mulher tem no espirito, ainda que as não tenha em mais nada.
Felizmente não succedeu assim!
Eu que devoro os romances dos Goncourts, eu que admiro a força _rembrandnesca_ de Zola, eu que me sinto fascinada deante da obra de Flaubert, e que espero muito de Guy Maupassant, o dilecto discipulo, o continuador convicto do grande romancista morto, que escreveu a _Bovary_--eu posso ainda gosar intensamente um improviso qualquer da mocidade, em que a sensibilidade e a imaginação predominem.
Como eu gostei ainda hoje do _Mysterio da Estrada de Cintra_!
Infelizmente, conheço-lhe os defeitos innumeros, cousa que não conhecia ha quatorze annos; percebo bem onde os dois auctores foram beber a inspiração de muitas d'aquellas paginas mais brilhantes; estou vendo claramente as inverosimilhanças flagrantes, as falsidades, os _pastiches_, e, ante a critica da minha envelhecida rasão, educada por Taine, entendo, como entendem os auctores do romance, que o romance é execravel!
Tão indesculpaveis seriam os dois valentes athletas da moderna litteratura portugueza se fizessem hoje um livro assim, como seria lamentavel e triste que elles o não tivessem feito, quando ambos eram moços!
A par das imperfeições, quantas bellezas! que perolas de sentimento, de imaginação, de fina graça, de sonhadora melancolia!...
São falsos os personagens?!
De accordo; são falsissimos! mas são muito sympathicos!
Não ha nenhum de quem eu hontem, depois de ler o livro de um só folego, me não despedisse com uma certa saudade!
A _condessa W._ é uma condessa perfeitamente talhada n'um velho molde romantico.
Já não ha em parte alguma _condessas_ assim!
No mundo real nunca ninguem as viu; no romance moderno encontra-se de tudo, menos d'aquellas doces mulheres encantadoras e apaixonadas, arrebatadas e elegantes.
Paciencia.
Eu não a queria, decerto, para minha irmã, nem para minha amiga, mas gosto de a vêr assim de longe, na perspectiva que lhe faz o pincel prestigioso dos dois escriptores.
É verdade que ella não passa de uma ociosa e de uma hysterica; não tem rasão, não tem vontade, não tem principios, não tem heroismos de luctadora; moralmente, não vale nada aos meus olhos; artisticamente, encanta-me!
É uma creatura que ama, que soffre, que se mata nas duras penitençias de um claustro mais apertado e mais duro que uma cadeia, e que nas suas agonias impetuosas, nas suas dôres, nas suas ardentes aspirações á felicidade impossivel, se não parece nada com as detestaveis heroinas, inconscientes ou perversas, da moderna litteratura latina, tão desconsoladora, tão dura, tão cruel!
Mas valerá ella mais, por ventura, do que essas valem? perguntas-me tu, leitora!
Vale, sim!
Valem mais as que amam que as que vivem na inercia indifferente do coração! valem mais as que padecem que as que se deixam viver tranquillas na baixesa ignobil do peccado! valem mais as que se arrependem que as que nunca perceberam que erraram!
Decerto, que em face das leis immutaveis do Dever, nenhuma pode ter a absolvição social; no emtanto, ao menos esta, coitada! tem a sinceridade da sua paixão, tem o encanto vivo, penetrante e communicativo do seu fatal amor!
Não discutamos, porém, a moralidade do romance; essa lá lh'a pozeram os auctores na morte e na clausura voluntaria das duas desatinadas heroinas.
Discutamos simplesmente a sua belleza artistica.
O _Mysterio da Estrada de Cintra_ tem paginas, como nunca mais os dois homens, que as escreveram, tornaram ou tornarão a escrever.
Penetra-as o insubstituivel, o capitoso aroma da mocidade; são sentidas, são quentes, são tremulas de ternuras, são flammejantes de paixão!
O conjuncto da obra, é claro que é inferior a tudo que elles tem feito depois: ao _humour_, á fina e aguda observação, á critica mordente, á analyse incisiva, ao estylo poderoso e vivo das _Farpas_, do _Primo Bazilio_ e do _Crime do Padre Amaro_, e dos folhetins ultimamente escriptos para um jornal do Brazil;--mas, apesar de tudo, ha graças e desleixos que o artista só tem na flor inexperiente e virginal do seu talento, e que mais tarde são compensados por meritos mais distinctos, por qualidades superiores, pela firmeza magistral da penna, do buril, ou do pincel, mas que nunca mais podem ser substituidos!
Como as distinctas individualidades dos dois escriptores se destacam bem nas paginas do romance!
A phantasia, o magico poder do estylo de Eça de Queiroz, resaltam ao lado da critica mais philosophica, da observação mais penetrante de Ramalho Ortigão.
A morte de Carmen, a caçada na India, escreveu-as Eça com a penna que mais tarde, convertida ao realismo, contará a agonia de Luiza, a burgueza peccadora, e as _soirées_ de Leiria, entre padres e devotas; a carta de Rytmel á condessa, a descripção do claustro no Minho, as reflexões da pobre amante desvairada, antes da fuga que ia roubal-a para sempre á sociedade em que ella tinha vivido, á casta a que pertencia, revelam já todas as qualidades do espirito observador e amante do pittoresco, que fez de Ramalho Ortigão um dos melhores criticos de costumes da litteratura contemporanea.
A publicação d'este formoso romance arrancou, por uns dias a somnolenta Lisboa ao seu indifferentismo systematico por tudo que seja questão de lettras ou questão de arte.
Nas salas discute-se com immenso interesse o enredo do romance, o seu estylo, o contraste que elle faz com as publicações posteriores dos dois grandes artistas que o firmam.
Marcam-se as diversas _étapes_ que percorreu o espirito de ambos; e faz-se d'este modo uma critica litteraria, bem mais facil do que a que podia ter sido feita ha quatorze annos, quando o livro appareceu pela primeira vez, revelando, a quem sabe conhecer estas coisas, dois escriptores de raça.
Os homens, como é natural, interrogam insidiosamente as senhoras a respeito do que ellas pensam das duas heroinas do livro.
Elles, já se vê, gostam todos muito da Carmen, um typo estranho, muito menos real que o da Condessa, mas que, ainda assim, n'este momento em que tanto estão attrahindo as attenções do publico as _mulheres que matam_, tem uma certa opportunidade e uma certa verosimilhança.
A Condessa, porém, tem a sympathia occulta das austeras e a sympathia declarada das temerarias...
Ninguem quereria imital-a, todas a comprehendem mais ou menos.
É uma desequilibrada, uma doente.
A paixão entrou na vida d'ella, como entra um pé de vento n'uma casa mal abrigada.
D'ahi a revolução, d'ahi o desmoronamento.
Não nascêra para o peccado, não.
Era fina, era delicada; tinha o amor e o desejo de todas as harmonias moraes e sociaes; tinham-n'a educado correctamente, convencionalmente; houve quem presumisse na vida da pobre creatura todas as hypotheses, menos a de um sentimento real e sincero.
Foi esse que appareceu; que surgiu fatalmente, chamado por uma serie de circumstancias imprevistas; e como não poude ser na alma d'ella o bom pão que alimenta, foi a cicuta que empeçonha e mata!
É uma peccadora, bem sabemos, mas emfim é uma mulher!
Cumpre-nos a nós fazer com que as nossas filhas sejam mulheres, sem serem peccadoras; amem, sem que o amor as diminua e amesquinhe, antes auxilie o desenvolvimento, são e natural, de todas as suas forças e de todas as suas faculdades!
Se nós nos mettessemos de boa fé n'esta empreza tão grande de pôr na vida o romance, sem lhe pormos ao mesmo tempo o peccado?!...
Realmente a litteratura, que é sempre o exacto reflexo das tendencias moraes e sentimentaes de uma dada época, está accentuando cruelmente e demasiadamente o principio de reacção, que em começo foi justo e foi racional, contra os desmandos nebulosos do romantismo, contra a sensibilidade, exaggerada, _lamartineana_, da nossa mocidade.
Não seria tão bom que, depois d'estas tristes tentativas experimentaes, que os proprios mestres vão realmente abysmando nos lodaçaes mais torpes da palavra, do estylo e da idéa, apparecesse emfim a litteratura que retractasse o homem--o homem complexo, o homem _ondoyant_ e _divers_, tal como o viu Montaigne, o homem bom e mau no mesmo dia e ás vezes na mesma hora, o homem capaz de baixezas e de heroismos, de vicios e de abnegações insolitas, o _homem_ n'uma palavra--estranho mixto do que ha de mais bello e do que ha de mais ignobil?!
Não teriam então os detractores da _escola naturalista_ razão para dizer que ella, sendo em principio tudo quanto os seus sacerdotes maximos apregoam e proclamam de scientifico, de grande e de verdadeiro, não passa, na pratica, da escola das feias palávras e das acções ainda mais feias.
O verdadeiro naturalismo seria então creado pela primeira vez, tal como Shakespeare o presentiu no seu espirito barbaro e sublime, tal como Balzac o realisaria se não houvesse morrido no extazi mal definido ainda do seu descobrimento genial!
A litteratura do nosso tempo dar-nos-hia o homem e a mulher que nenhum outro seculo conheceu, e sobre os quaes tem reagido, de um modo estranho e tão difficil de analysar completamente, a influencia da nossa collossal e desequilibrada civilisação, feita de tantas duvidas, de tantas affirmações, de tantos problemas insoluveis...
Evitar o estudo das exaggerações morbidas, dos casos _pathologicos_, das aberrações mentaes, das enfermidades que pertencem ao dominio da sciencia, não seria no fim de contas o unico meio de rehabilitar a _Arte_ da dependencia, em que ella parece querer estar, do amphitheatro dos hospitaes, ou da enfermaria dirigida por Charcot?
O organismo do homem moderno, na sua complexidade maravilhosa, na enorme e labyrinthada complicação que lhe dá hoje o desenvolvimento do seu cerebro e dos seus nervos, é realmente um estudo difficilimo, um estudo que abrange todos os outros e que exige a analyse penetrante, fina e subtil do physiologista, a observação larga, profunda e sympathica do philosopho, a flexibilidade ondeante, o sopro creador do artista de genio.
Realisar o programma imaginado pelos mestres da arte contemporanea, é bem menos praticavel de certo do que passar ao lado d'elle, como elles até aqui teem feito.
É porque lhes falleceu a coragem para essa empreza de gigantes que elles teem convertido, a pouco e pouco, o seu _naturalismo_ n'uma especie de romantismo ás vessas.
Salvo excepções esplendidas, que são os milagres da moderna arte, os que d'antes faziam anjos, fazem agora monstros! Os que se davam ao trabalho de modelarem as suas estatuas no gello immaculado das alturas, amassam-n'as hoje no barro viscozo dos lodaçaes.
E a verdade onde fica?!...
A mim parecem-me tão pouco humanas as sylphides de Lamartine, como as femeas inconscientes de Zola.
Entre ellas está a mulher. Porque a não procuram? porque é que a não retratam, ou antes, porque é que a não criam?
Esperemos que a litteratura deixe de ser uma escola d'isto ou d'aquillo, uma reacção contra isto ou contra aquillo. Que ella seja serena como a verdade, e será emfim humana; que elle nos pinte quaes nós somos, e poderá então chamar-se natural.
É muito bom estudar as _miserias da nossa rua_, na phrase pittoresca de Eça e de Ramalho; mas, por Deus! parece-me demasiado restricto esse ponto de vista!
Imagine-se que os escriptores escolheram uma rua infeliz, uma rua povoada de remendões e de vendedoras de peixe!...
Parece-me isso um pouco o caso de alguns dos grandes romancistas contemporaneos!
Nunca me poderei chegar a convencer que abrir as paginas de um livro corresponda a ir visitar um hospital; que folhear um romance me dará conhecimentos eguaes aos que me daria a estatistica do _alcoolismo_, ou a de outro qualquer dos grandes vicios modernos.
A ignorancia é, de certo, minha, que sei pouquissimo, e que vou aprendendo cada vez menos.
Em todo o caso, obrigada ao _Mysterio da Estrada de Cintra_, que me repousou um pouco da _má companhia_ a que os mestres me teem habituado ultimamente.
_Ramalho OrtigãO_
II
A Hollanda
Desde que eu li a _Hollanda_, e devo ao auctor a immerecida e lisonjeira distincção de ter podido ler um dos primeiros volumes publicados--desde que li d'um folego este livro, verdadeiramente encantador, sinto em mim o desejo, quasi que a necessidade de fallar a respeito d'elle.
Será que eu julgue auctorisada e util a minha apreciação?
Não, decerto.
O que eu tenho é o irresistivel desejo de conversar com esse numero mais ou menos restricto de amigos desconhecidos, que todo o escriptor, por modesto e humilde que seja, tem a certeza, de possuir, ácerca d'essa obra superiormente bella, e que, apezar d'um tanto phantasista me parece consoladora e sã, fortificante e boa.
Mas, se eu sentia em mim essa vontade persistente e tenaz, porque é que a não tenho realisado ha mais tempo?
Simplesmente pelo motivo, porque hoje mesmo hesito em o fazer.
Ha receios, que se não vencem senão a muito custo, tanto mais teimosos, quanto mais prolongado foi o tempo em que os deixamos actuar sobre o nosso espirito.
Depois ha livros _suggestivos_, que fazem pensar; que despertam em nós um turbilhão de idéas, de pensamentos difficeis de definir e de fixar bem, mas que tambem nos acordam contradicções que talvez pareçam ousadias, criticas que talvez o publico julgue pouco auctorisadas e, por isso mesmo, imperfeitissimas.
Estes livros seduzem-nos, captivam-nos, mas assustam-nos um pouco, como alguma coisa de poeticamente concebido e realizado, que fica para álem dos dominios reaes em que nos sentimos á vontade. A _Hollanda_ pertence a este numero de trabalhos, felizes e perigosos, encantadores e um pouco falsos.
Parece um bom companheiro de jornada que nos arrasta, abrindo-nos a cada instante horizontes intellectuaes só intrevistos de muito longe, rasgando-nos amplas janellas para o claro espaço, despertando-nos, com as suas observações quotidianas, um mundo inteiro de sensações adormecidas, mas ao pé dos quaes uma pessoa se sente desconfiada, temendo o demasiado prestigio, de imaginação, o optimismo excessivo do viajante...
E no emtanto não é como muitos julgarão, uma simples narrativa de viagem; é uma obra de arte e de moralidade.
E n'este momento dubio e _atormentado_ da nossa nacionalidade, momento que uns julgam de irremediavel decadencia, outros de vigoroso renascimento mental, este livro que nos conta com a magia incomparavel, estranha e captivante do seu estylo, a historia d'esse pequeno povo, muito mais pequeno do que o nosso, que á sua poderosa força de resistencia, que á sua intemerata energia deveu o grande papel que representa na historia da Civilisação, este livro d'uma factura tão magistral, affigura-se-me, apezar dos seus pontos de vista, nem sempre rigorosamente justos, uma obra eminentemente e grandiosamente patriotica, uma fecunda lição indirecta, um appello ao que ha de mais nobre e de mais reconditamente sagrado na alma de uma collectividade nacional.
É sob estes diversos aspectos que elle tem de ser julgado pela critica.
Eu, porém, não venho julgal-o, o que seria pretenção; venho simplesmente, como já disse, conversar a respeito da impressão luminosa e profunda que elle deixou em mim.
Ha muito que Ramalho Ortigão é considerado um dos melhores criticos de costumes, um dos melhores coloristas da moderna arte; sabia-se que a sua faculdade predominante, essa faculdade da qual, no artista, todas as outras derivam, e na qual todas as outras se filiam, era a de _ver_ o aspecto exterior das coisas com uma nitidez, uma precisão, uma minudencia e ao mesmo tempo uma largueza de observação, que podem chamar-se verdadeiramente geniaes.
Ora _ver_ em todas as suas formas multiplas, sob todos os seus aspectos variados, na complexidade das suas linhas, no relevo dos seus contornos, na harmonia da sua côr, uma porção de arte ou uma porção de natureza; e saber transmittir vigorosamente, originalmente as infinitas impressões recebidas pelos olhos ao espirito de quem o lê,--esta faculdade tão rara e tão estranhamente difficil, que constitue talvez um dom de temperamento impossivel de adquirir-se pelo estudo ou pela vontade, basta só por si para singularisar e caracterisar um artista, e é esta, sem duvida, a grande faculdade de Ramalho.
Nunca, porém, as suas qualidades de estylo se revellaram tão largamente, a uma luz mais ampla, mais bella, mais intensa, do que n'este livro que em todas as litteraturas seria justamente considerado uma obra bella, e que hoje, na nossa, é um verdadeiro milagre.
Na _Hollanda_ o paysagista, o pintor que fixa na tela, com realidade triumphante, as suas impressões ainda as mais rapidas, o coração honesto e enthusiasta, que vibra, apaixonado, ao contacto de todos os bellos, grandes e puros ideaes humanos; o artista que se embriaga com os espetaculos sempre novos da Natureza, revellam-se egualmente com a mesma felicidade e com a mesma pujança dominadora.
O humorismo tão singular, d'uma tão contagiosa e communicatica influencia, que transparece habitualmente em todos os trabalhos de Ramalho Ortigão, esse não faz mais do que polvilhar finamente, aqui e acolá, com uma poeira diamantina e translucida, as paginas d'este livro, que marca uma hora de enternecimento dôce e de viril enthusiasmo na vida do escriptor.
Como faz bem ao espirito desconsolado pelo espectaculo do cynismo universal, da indifferença dissolvente, ironica e desdenhosa, esta nobre explosão de fecunda sympathia, esta nota de commoção penetrante, que se levanta, n'uma especie de impulso heroico, convidando á lucta, convidando ao trabalho, convidando aos gosos austeros que dá o accordar da consciencia, e tendo apenas a _felix culpa_ de exaggerar um pouco o bem que viu, e talvez de carregar em demasia o mal que se presenceia diariamente na nossa pobre patria, bem digna de melhor sorte...
A ironia de Ramalho Ortigão, d'um relevo poderoso, d'uma subjugadora e victoriosa alegria, todos nós a conhecemos desde muito.
D'essa ironia, de que chispam relampagos multicores, fez elle a sua melhor arma de combate, contra a tolice, contra o erro, contra a vulgaridade, contra o ridiculo.
O que nós não sabiamos porém, é que elle, que pode rir assim, podia egualmente arrancar, pela commoção communicativa da sua palavra, em que o enternecimento põe modulações deliciosas, lagrimas aos nossos olhos, flores de poesia ao nosso coração.
* * * * *
Antes de mais nada, eu devo confessar que o meu temperamento, a minha indole, o feitio especial da minha imaginação, me tornariam absolutamente inapta para comprehender e admirar a nação hollandeza, senão vista e descripta pelos olhos peninsulares e pela phantasia tão eminentemente latina, tão colorida e illuminada, de Ramalho Ortigão.
Se eu fosse á Hollanda, voltava de lá, estou certissima, sem ter visto coisa nenhuma do que o illustre escriptor lá viu, a não serem, talvez, alguns d'aquelles _primeiros aspectos_, tão adoravelmente descriptos por elle, e em que, mais d'uma vez, a sua ironia deliciosa espreita sorrateiramente o leitor, como a avisal-o de que é necessario, apesar de tudo, contar sempre um bocadinho com ella, de que pode estar um pouco adormecida, levemente anesthesiada... mas que, emfim, está muito viva, graças a Deus, e não espera morrer tão cedo.
Cada vez me convenço mais de que ha antagonismos de raça ineluctaveis, visto que eu, depois de ter lido, verdadeiramente vibrante da feliz sensação de _admirar_, n'esse prazer de intelligencia que uma bella obra de arte nos produz, o livro de Ramalho Ortigão, me não decidi a fazer a minha malla, a pegar nos meus dois filhos pela mão, e a ir viver para todo o sempre na Haya ou em Amsterdam...
Não me decidi, não; não me decido, e era capaz de apostar que Ramalho Ortigão, apesar de ter voltado da Hollanda, como incontestavelmente voltou, moralmente fortalecido e engrandecido intellectualmente, rico de preciosissimas acquisições novas, que definem e accentuam largamente o seu progresso mental, ainda assim não deixaria, por ella, o nosso céo azul d'uma luz tão suave, o nosso clima amollecido e doce, a preguiçosa facilidade com que a vida nos emballa n'este cantinho de terra abençoado pela natureza, que o Oceano beija, lambe e acaricia, em cujas praias de areia dourada elle canta o seu grandioso canto de liberdade, mas contra o qual elle não investe em furia, obrigando o homem á eterna resistencia, á eterna lucta, á eterna e fatigante heroicidade...
O Oceano não foi para nós o mestre rigoroso, severo, exigente, implacavel, que disciplinasse a nossa alma e o nosso corpo no exercicio permanente de uma força e de uma tenacidade mais que humanas!
Elle imprimiu á nossa imaginação, ondulante e scismadora, a mysteriosa saudade que das suas profundezas desconhecidas se evola, com um effluvio de sonho!
Elle fez-nos os poetas de uma epopeia rapida, os aventureiros inconstantes de uma phantasiosa conquista.
Tambem a _griffe_ d'esse leão indomado pousou na nossa alma nacional, mas que diverso o modo porque elle influiu em nós!
Bem sei que moralmente valem mais, incomparavelmente mais, as nações e os individuos que fazem o seu destino, que o subjugam, que o transformam, que o modificam, que o dominam, do que aquelles que o acceitam passivamente, n'uma inercia inutilmente contemplativa.
Mas, sob o meu ponto de vista feminino, que de certo não é o mais intrepido, que melhor não é deitar-se a gente ao sol, na areia luminosa, emquanto a vaga azul, coroada de espumas brancas, vem espreguiçar-se humilde aos nossos pés, vem lamber, vencida e cariciosa, a orla dos nossos vestidos, do que ter dia a dia, hora a hora, momento a momento, de disputar ao _grande inimigo_ torvo, mysterioso, sombrio, que uiva, eternamente agonisante, a sua lamentação tragica, o sólo movediço e traidor sobre o qual construimos o nosso lar sagrado!...
É enorme, porém, bem o sei, a lição dada ao mundo por essa raça athletica e fleugmatica que a natureza educou, fortificou moralmente, e que ao mesmo tempo livrou do erro sympathico de ser imaginativa e cogitadora como nós.
Se ella, em vez de luctar com as temerosas ondas, se pozesse a contemplal-as de braços cruzados; se ella, em vez de indagar scientificamente os meios mais proficuos de vencer a permanente invasão das aguas, e de as aproveitar na cultura especial dos seus campos, se lembrasse apenas de fazer ao mar as odes mais soberbas e inspiradas, não existia já decerto, ou, se existisse, não tinha nem uma só das fortes qualidades que distinguem essa honesta, essa trabalhadora, essa robusta, séria e pezada Hollanda!
As nações são aquillo que as fazem as condições do seu sólo, os phenomenos do seu clima, a sua structura geographica, o temperamento e a origem da sua raça.
A Natureza, hostil, ensinou a esta o calculo, a previdencia, a tenacidade inquebrantavel, e tambem, deixem-me accrescentar, o frio e arido egoismo nacional; a humida vaporação eterna dos seus canaes e dos seus rios deu-lhe o amor intelligente dos _interiores_ confortaveis, commodos e aquecidos, em que a Arte põe a sua nota soberba e luminosa, ou a bonhomia intima e doce dos seus aspectos; a lucta continua e ininterrupta para salvar do perigo a familia perpetuamente ameaçada, levou-a a sentir por esta um amor mais vivo, mais profundo, mais recatado e penetrante, ungido de protecção enternecida e de casto embevecimento, mas tambem um d'estes amores absorventes que não deixam logar para a sympathia universal, de que outras raças são superiormente inspiradas!
Todas as virtudes e energias, todas as bellas qualidades _humanas_ e sympathicas, de que Ramalho Ortigão nos faz no seu livro a attrahente pintura, todos os defeitos tão graves que não quiz vêr, mas que existem n'ella, deve-os a raça neerlandeza justamente a essa tensão de vontade que ella exerce incansavelmente desde seculos, e que tanto lhe modificou a indole primitiva.
E apesar de eu sentir que ella nos é superior em tanta maneira, porque é que me não resolvi ainda a ter-lhe um bocadinho de affecto?
Não sei! É talvez um capricho de mulher, indigno de manifestar-se á luz do dia, _irracional_, como tanta cousa feminina; mas que eu teria escrupulo de não confessar aqui, com intrepidez heroica.
Não é na verdadeira Hollanda--não direi na Hollanda em _carne e osso_, mas em agua e lodo!--que eu gostaria nunca de viajar.
Na outra, sim. Na _Hollanda_ de Ramalho Ortigão, n'essa fulgurante e magnifica _Hollanda_, tão deliciosamente phantasista, perco-me eu a cada instante n'um enlevo de admiração sentida, e é das suas paginas, coloridas como um quadro de Rembrandt, que eu tento dar, aos que as não leram ainda, uma idéa, posto que imperfeita, remota, incompletissima.
* * * * *
O estylo d'este livro é uma verdadeira festa para o ouvido, e direi mesmo para os olhos; tanto as palavras teem n'elle uma côr, um relevo, um encanto, estranhos e indiziveis. Ha periodos que são quadros.
Parece que o escriptor poz na sua palêta todas as côres, na sua pintura todos os tons, toda a luz do sol no objecto que contemplou.
Nunca a lingua portugueza adquiriu flexibilidade mais ondeante, energias mais dominadoras, graça mais sinuosa e mobil, ondulações mais serpentinas, rythmo mais harmonioso, poder mais intenso, vitalidade mais estranha.
Esta lingua, que modernamente poucos operarios teem affeiçoado para as exigencias multiplas e caprichosissimas da Arte contemporanea, tem nas mãos de Ramalho Ortigão umas docilidades de mulher do Oriente, uns langores submissos de escrava creoula, uma energia mascula, uma limpidez matinal, uma intrepidez heroica, um sabor vivo e são das coisas, que penetra o leitor do mais requintado goso intellectual.
Ha todas as notas n'esta orchestração soberba.
Dir-se-hia que esta prosa tem a cadencia melodiosa, o movimento rythmico do verso mais cinzelado e mais perfeito, do verso de Heine ou de Victor Hugo.
Como apropriadamente e obedientemente ella se cinge aos milhares de assumptos que trata e revolve! Philosophia, historia, politica, religião, costumes domesticos, costumes publicos, a Arte em todas as suas manifestações, a Natureza em todos os seus aspectos--tudo ella toca, tudo descreve e pinta, abraça, penetra e faz comprehender.
É simples e é pittoresca; é grave, comica e enternecida; é apaixonada e austera; tem a poesia meiga das coisas intimas; tem a adjectivação opulenta das descripções pomposas; tem a riqueza decorativa e a suavidade recolhida e casta; é transparente como uma renda de Malines ou de Alençon; é translucida como um diamante ou como uma saphyra; é fresca e diaphana como a neblina da madrugada; é perfumada como um cacho de lilazes; é rendilhada como uma joia da Renascença.
Ri, canta, chora, pinta, descreve, raciocina, fustiga; e sempre faz pensar, acordando dentro de nós o bando das idéas mal definidas e informes, que dormem, como pombas cançadas, no espirito de todo o ser que pensa e que soffre.
Eu tenho pena de não poder arrancar das paginas do volume alguns periodos, alguns trechos de prosa que me ficaram vibrando cá dentro como a melhor das musicas.
O livro abre com um capitulo de historia, intitulado--_As origens_.
Destaca-se d'elle, com uma nitidez viva de contornos, a figura poderosa e sympathica do grande revolucionario hollandez Marnix de Sainte Aldegonde, a quem, juntamente com Guilherme de Orange, o _Taciturno_, se deveu a definitiva formação e a independencia da patria, o homem que á frente da _Liga dos Maltrapilhos_ resistiu a Filippe II, e impelliu a Hollanda no caminho da sua libertação nacional e religiosa, fazendo d'este pequeno paiz, d'uma heroicidade séria e reflectida, uma especie de vanguarda dos exercitos revolucionarios que conquistaram mais tarde, com tanto sangue e tanto martyrio, a liberdade do seu governo interno e a liberdade da sua consciencia.
Veem depois _Os primeiros aspectos_, a que eu já me referi. A _verve_ encantadora de Ramalho esmalta adoravelmente algumas d'estas paginas.
Estes _primeiros aspectos_ tem coisas engraçadissimas e que não esquecem mais.
Lembro-me de um verdadeiro drama que podia intitular-se a _Venda de um repolho_, passado entre uma creada de Amsterdam e um vendedor ambulante de hortaliças, em que a phrase, o movimento e a acção comica são incomparaveis.
Todo o feitio de observação especial de Ramalho se revela n'este capitulo caracteristico e _vivido_, para fallar á moda.
Os espantos do viajante recem-chegado são tão legitimos, nós partilhamol-os tão do intimo d'alma, que nos movem tambem, que nos agitam, que nos fazem morrer a rir. É toda uma Hollanda _ratona_, que surge, á flor da nossa imaginação.
O escriptor estava-a então vendo com os olhos do seu corpo. O sentimento, o raciocinio, a admiração despertada por uma longa serie de virtudes,--de virtudes moraes, de virtudes civicas, de virtudes patrioticas, de virtudes de toda a especie,--não tinha ainda irrompido violentamente de dentro do moralista que ha em Ramalho, tornando-o cego para todos os ridiculos, surdo para todas as notas discordantes. E os quadros succedem-se com uma vivacidade triumphadora, e a gente segue-os espantada do poder de realidade palpavel, que uma penna, correndo sobre uma folha de papel, pode ás vezes attingir.
Pouco a pouco, os olhos namoram-se da estranhesa imprevista de todos aquelles aspectos. O artista entrega-se inteiramente á novidade, á graça especial e desusada de que elles lhe apparecem impregnados; a curiosidade do espirito, eminentemente observador, acorda, atrahida por tantas revelações subitas d'um modo de vêr, de viver, de sentir, tão diverso do que elle conhece desde a infancia; e então o pintor, abstrahindo de comparações, de philosophias, de ideas complexas, que lhe transtornariam a limpidez perfeita do seu apparelho optico, pega da palêta, põe n'ella as côres mais finas, mais ideaes, mais delicadas, d'um esbatido mais doce, d'uma suavidade mais penetrante, d'uma fulguração mais radiosa e mais deslumbradora, e começa a pintar, á luz do céo da Hollanda, aquosa e esmaecida, as raças, as physionomias, os trajos, as figuras que destacam n'um meio pittoresco e caracteristico, os grupos que passam enlaçados, essa festiva, essa apparatosa procissão d'um povo em festa!
Vejam, por exemplo, este fragmento d'uma pagina consagrada ás mulheres da Frisa, que fica cantando no ouvido, como a estranha musica em que se fundem todas as graças melodicas de uma lingua opulentissima.
«As mulheres da Friza são de um encanto estranho. Muito altas, direitas, serias, caminham todas--as mais humildes, as mais obscuras--com uma magestade simples de princezas, e teem nas maneiras uma graça altiva, casta, ondulante e fria, que lembra a origem aquatica que se lhes attribue, como filhas de antigas sereias do Mar do Norte. Os pés estreitos, as mãos longas e afiladas, o pescoço alto, o busto vigoroso, o vestido preto, que todas usam, liso, cingido ao corpo, comprido, de mangas justas e curtas, completam a expressão eminentemente aristocratica d'estas figuras sacerdotaes de uma belleza quasi sagrada, como a dos marmores classicos da esculptura antiga.
«O toucado frisão de uma retrospectividade bysantina, envolvendo-lhes a cabeça em rendas e em placas d'oiro polido, imprime-lhes uma feição cultual, uma vaga analogia de sacrario e de altar. O tradiccional capacete, casco d'oiro em duas peças, semelhantes na forma a uma dupla cobertura destinada aos dois hemispherios do cerebro, cobre-lhes inteiramente o craneo; escondendo o cabello com uma austeridade guerreira, deixando apenas desvestido o espaço da fronte e o alto da cabeça envolto em renda branca. Algumas d'estas physionomias de donzellas são inteiramente insexuaes, de grandes olhos suaves, o rosto do mais correcto oval, o nariz longo e fino, a boca cortada n'um traço recto, innocente e calmo, sem vestigio algum do movimento e qualquer musculo em que vibrasse a malicia, o apetite ou o desdem, bellezas de uma serenidade gothica, não contaminadas pela nevrose dos seculos da analyse, errantes n'uma especie de somnambulismo nostalgico e anachronico, entre as paixões modernas, taes como os poetas contemporaneos poderiam apenas imaginal-as, brancas e frias, coroadas de boninas, com um livro na mão, esculpidas em alabastro e deitadas sobre um tumulo feudal, ou de escapulario de monjas, com a cabeça aureolada por um disco de luz, n'uma vidraçaria de cathedral entre as companheiras de Santa Ursula.»
Momentos antes--vejam o contraste!--Ramalho referindo-se á extravagante meticulosidade do aceio hollandez, tinha-nos feito, com a riqueza de vocabulario mais atroadora, uma descripção de todas as vassouras, espanadores, utensilios de limpeza que são indispensaveis ao mais humilde dos _ménages_, descripção que deve ficar positivamente como um modelo do genero!
É assombroso todo este capitulo, d'uma variedade de kaleidoscopo, ao mesmo tempo comico e pathetico, enternecido e alegre, pittoresco e philosophico, fazendo desfilar deante do nosso deslumbrado olhar, n'um delicioso capricho de magica, todas as scenas, todos os quadros, todas as visões e todas as idéas!
Nos _Campos e Aldeias_ está na sua verdadeira especialidade o paysagista, o pintor, o homem que sabe vêr melhor tudo o que vê.
Eu, por exemplo, ia aos campos da Hollanda, e sahia de lá com a impressão indefinida, confusa e tristonha, de ter visto uma enorme planicie chata e verde,--um gigantesco prato de espinafres--sem accidentes de terreno, sem caprichos imprevistos de scenario, com muitos moinhos a cercarem-n'a e muitos rêgos de agua mais ou menos largos, mais ou menos profundos a desenharem por toda ella os seus xadrezes, d'onde se levantam, de madrugada e ao pôr do sol, humidas vaporações insalubres.
Ramalho Ortigão vê e faz-nos vêr, pelo encanto magico da sua penna que é um pincel, tudo que alli viram de vago e simples, de indefinido e penetrante, de terno e de melancolico, os grandes artistas hollandezes, os mestres incontestados e inexcediveis de toda a moderna escola de paisagem.
E o seu estylo opulento pinta as metamorphoses, as variações infinitas d'essa luz, as colorações prysmaticas d'esse ceu cheio de neblinas transparentes, as decomposições phantasticas das nuvens, a admiravel riqueza sintillante e tremelusente que os espelhamentos do sol põem nos lagos tranquillos e nos lympidos canaes, as harmonias do tom, as gradações infinitas do eterno verde, a calma doçura tranquilla,--tudo emfim que aos seus grandes amigos sinceros e eloquentes a velha natureza inspira, em todas as suas apparencias multiplas, em todas as suas transfigurações multiformes.
Ha n'este capitulo uma comparação entre a velha barca hollandeza, que elle chama o _phantasma benigno da patria_, a aquatica alma _errante do paiz_,--essa barca onde o hollandez navega paxorrentamente, levando comsigo a mulher, a pequenada, o gato, o cão e os passaros--e a nossa pittoresca e extincta falua do Tejo e do Douro, que me pareceu verdadeiramente encantadora.
E ainda aqui--que a Hollanda me perdoe!--eu prefiro a nossa falua, a nossa alegre falua, que a civilisação afugentou e inutilisou, essa falua onde tudo era pittorescamente meridional, e onde o arraes contava historias picarescas que faziam rir os passageiros, e lhes aligeiravam as horas de longa jornada, feita sem commodos de especie alguma, mas com luz, mas com sol, mas com a farta alegria da natureza a envolver e a illuminar por dentro a alma de uma pessoa.
A mim, valha a verdade, não me seduz muito nem a barca nem a falua, a não ser como ornato decorativo da paisagem. Mal por mal, em todo o caso, antes a falua, por que essa ao menos é animada e palreira, jocosamente expansiva!
Nas _Cidades_ hollandezas, de um luxo tão intelligente, de uma riqueza tão racionalmente distribuida, em que a arte accumula os seus thesouros, a beneficencia as suas admiraveis instituições, a solida e bem entendida civilisação as suas escolas, as suas universidades, os seus institutos, os seus lyceus, as suas bibliothecas e museus, os seus jardins botanicos e de acclimação, os seus estabelecimentos de instrucção, de sciencia, de caridade, de commercio, de industria e de recreio, n'essas _Cidades_ em que se condensa toda a vida intellectual da livre e laboriosa Hollanda, a alma do escriptor, tão moderno nas suas aspirações e nos seus ideaes, dilatou-se n'um impulso de robusta e fecundante alegria! Vê-se que elle admira aqui, sem esforço, sem idéa reservada ou preconcebida, a enorme expansão moral, mental, economica e artistica, d'este povo que merece um logar de honra incontestavel entre os povos modernos da Europa, d'este povo que, depois de crear pelo trabalho incessante, a sua riqueza enorme, fez d'ella um elemento de civilisação, de moralisação, de desenvolvimento nacional, de felicidade e de paz interior.
A pintura feita pelo brilhante escriptor de todas as instituições, pela existencia das quaes a Hollanda affirma a sua extraordinaria superioridade, como nação educada, como nação caridosa, como nação artistica,--é de fazer chorar de tristeza, de desalento e de inveja todo o portuguez que tenha um bocadinho de coração.
Comparar o que nós fazemos com o que esse povo tem feito, horrorisa!
Mas por doer, a lição nem por isso deixa de ser proficua.
Agradeçamos a quem nos aponta implacavelmente, serenamente, o pouco que nós somos ante a Civilisação, ante o moderno Ideal, e o muito que precizamos caminhar, para merecermos o nome a que ouzada e immerecidamente aspiramos.
Não é quem nos emballa e adormece com lisonjas banaes, tão mentirosas quanto inuteis, que é nosso amigo, e nos presta um leal serviço.
Ramalho Ortigão com este livro, que é um exemplo e um castigo, que é um incentivo, que é um grito de alarme lançado em meio da nossa preguiça, da nossa indolencia, da nossa empavezada e burgueza vaidade, fez, como eu já disse, mais do que uma obra bella, fez uma obra boa, de que nos cumpre aproveitar a utilidade immensa.
No meio das paginas inteiramente consagradas pelo auctor á descripção e á enumeração de todas as coisas feitas pela raça neerlandeza em favor do seu proprio engrandecimento, e da sua propria illustração, paginas que parecem escriptas por um Taine com entranhas e com alma, Ramalho interrompe-se por momentos, e n'uma lingua idylica e harmoniosa, n'uma lingua em que ha eccos de Shakespeare e visões de Ariosto, n'uma lingua que parece feita de gotas de luar e de raios do sol, de aromas indefinidos, de vagas scintillações fatuas, de vibrações de harpa eolia occulta entre os salgueiros, faz-nos a pintura palpitante, luminosa, musical, colorida, da _Floresta da Haya_, d'esse bosque sagrado que elle julga proprio para abrigar, na sombra estranha e dôce da sua densa ramaria mysteriosa, os amores profundos e tragicos, as sublimes paixões heroicas da lenda e da historia, o somno esquecido e calmo dos grandes deuses mortos, os divinos dialogos ardentes que os poetas puzeram na bocca dos seus amantes immortaes.
As _casas_ e os _individuos_ revellam-nos a delicada e fina efflorescencia que brota naturalmente do ideal religioso, moral, politico e artistico da raça hollandeza. Tal é o paiz, tal a familia.
Esta é sempre o reflexo do modo de sentir e pensar collectivo; e nunca á nação moralisada e instruida, livre, conscia e sabedora dos seus direitos e dos seus deveres, correspondeu outra coisa que não fosse a familia fortemente constituida, vivendo na ordem e no equilibrio dos sentimentos e das faculdades.
N'este ponto são bem mais felizes as nações protestantes, as raças saxonia e germanica, do que a nossa raça latina tão profundamente eivada da mais esterilisadora decadencia.
É que n'essas raças não existe tão profundamente accentuado o divorcio religioso entre o homem e a mulher; ahi, como frisantemente o faz notar o escriptor da _Hollanda_, embora, mais tarde, no seu livro de _John Bull_ se contradiga n'este ponto, a religião é o _facto culminante da familia_.
A sagrada communhão do espirito existe entre todos os membros da mesma familia, entre todos os que se reunem, penetrados de affecto, ternamente aconchegados em torno do mesmo lar.
O chefe de familia tem, por assim dizer, a direcção espiritual de todos os seus; e elles acceitam livremente essa lei religiosa que lhes foi ensinada, d'um modo tendente a desenvolvel-os, não a amesquinhal-os e a a entenebrecel-os para sempre.
D'aqui provém a logica simples e sympathica de todos os seus actos e sentimentos. O drama deixa de existir como elemento natural da nossa alma e da nossa imaginação. O peccado não tem as mesmas excitações sensuaes, o cumprimento do dever é alguma coisa de mais serio, de mais sagrado e de menos complicado e contradictorio do que nos paizes catholicos, onde o padre, orgão da lei divina, ordena em geral o contrario do que o marido, orgão da lei social, exige e faz cumprir; onde a alma feminina vive entre a satisfação do desejo e os ardores do arrependimento, sempre oscillante, sempre inquieta, no eterno desiquilibrio, e na eterna vacillação enfraquecedora entre o bem e o mal, entre a culpa e a penitencia, entre o pequenino goso irritante de desobedecer, e o extase soluçante do confissionario, onde tudo se lava e se perdoa...
Ramalho Ortigão deixa entrever tudo isto sem o accentuar demasiadamente, limitando-se a fazer-nos entrar com elle em dois ou tres _interiores_ que se lhe franquearam, e que elle pôde observar com a sua poderosa faculdade critica.
São adoraveis de bondade simples, de feliz contentamento, de paz serena e doce, estes interiores hollandezes, e ainda aqui, perante a superioridade da nação que estamos estudando, a nossa consciencia se curva humilhada, e a nossa alma se penetra de salutar inveja.
Todavia não nos deixemos ir completamente atraz do enthusiasmo, que tenta avassallar-nos diante d'estes quadros d'uma felicidade sem sombras, d'uma perfeição sem macula.
As paginas do humorista hollandez Dowes Slekker, que Ramalho cita,--talvez movido pelo remorso, que no fim de contas o punge de admirar sempre, de admirar incondicionalmente,--as paginas em que aquelle escriptor, mais na intimidade do seu paiz, da sua raça e do seu meio, do que o viajante que passa impressionado simplesmente pela seducção dos aspectos exteriores, escalpelliza duramente, e ferozmente os ridiculos e os vicios dos seus concidadãos, essas dão-nos a certesa consoladora ou cruel, consoante o ponto de vista em que nos collocarmos, de que a absoluta perfeição humana não é mais que um sonho radioso em que se entretem por momentos a nossa ambiciosa phantasia.
Em toda a parte a burguesia enriquecida e triumphante--e onde é ella mais triumphante e mais enriquecida que na Hollanda?!--hade ter os mesmos vicios, o mesmo egoismo desolador, a mesma ultrajante prerogativa de gosar, esquecida de todos os que soffrem!
Nas _colonias_, a fóra a parte technica, util pelas informações, pelos factos e pelos documentos de comparação que fornece aos competentes, o que a mim me agradou como artista foi a pintura da Batavia, foi essa invasão luxuosa e violenta da vida dos tropicos, da sua paisagem, da sua flora e da sua fauna; do ar feito de chammas, da vegetação monstruosa, da implacavel, soberba, subjugadora e invencivel natureza d'esses climas de mortifero encanto!
O ultimo capitulo da Hollanda intitula-se _A Arte_, e assim devia ser.
E pela arte que esse paiz tem principalmente direito a viver, venerado e querido, no espirito dos que pensam, e na alma dos que sentem. A arte é o disco luminoso que o cerca, é o nimbo em que elle nos apparece idealisado e engrandecido. A arte é a coroa suprema da sua realesa.
E depois a patria de Rembrandt e de Franz Halz justifica e faz comprehender a apotheose, o hymno de admiração enternecida que é este livro, elle proprio uma obra de arte, muito mais do que uma obra de critica.
Ninguem estava no caso de apreciar e de sentir melhor a arte hollandeza,--essa arte que teve, como nenhuma, a perfeição do detalhe na harmonia do conjuncto, a nota exacta na comprehensão larga,--do que Ramalho Ortigão, o escriptor que, no seu processo, realisa tão adoravelmente a formula naturalista d'essa inspirativa e grande escola, ante a qual os modernos se sentem ultrapassados e excedidos.
Pontos de vista notaveis, observações finas, analyse penetrante do assumpto, intuição maravilhosa de todos os segredos da arte--eis o capitulo que remata soberbamente este bello livro, d'um largo folego, d'uma ampla e serena inspiração.
O assumpto arrastou-me. Fui mais extensa do que tencionava, e ha n'esta critica um _não sei quê_ audacioso na contradicção que a mim propria me espanta.
Julgarão os leitores menos benevolos que eu me arrogo os direitos de critica em assumptos de viagem e de arte que me são quasi extranhos.
E, no emtanto, no silencio do paiz, em face dos que tentam levantal-o trabalhando, ha uma desconsolação tão intima para a alma do escriptor, que a minha voz, por obscura que seja, tem, n'esta mudez geral, uma nota de sinceridade, uma aspiração de justiça, uma intenção de applauso, merecedôra d'uma certa indulgencia.
Não me arrependo de fallar, visto que se callam tantos que tinham direito de applaudir em alto e bom som.
Concluindo, repito o que já disse no principio do meu defeituosissimo esboço critico. Porque será que, apezar de tanta virtude sympathica e de tão nobre e levantado ideal, a Hollanda me impõe admiração sem me inspirar ternura absolutamente nenhuma?!
É porque sou meridional de mais para comprehender essa raça persistente, fria, fleugmatica e pesada, incapaz de expansão, incapaz de altruismo generoso, incapaz do dilettantismo intelligente, que eu tanto aprecio nos individuos e nas nações!
O que a elles, os bons hollandezes, lhes falta para me seduzirem, é a _pontinha de febre_, o grão de loucura, a chamma iriada e multicor que nós, a velha raça gasta nas exaltações e nos sobresaltos convulsos da nevrose que nos exhauriu a seiva, conservamos ainda na velhice que nos prostra... á sombra dos loureiros de outr'ora!
Elles teem a virtude e a força que dão a serena placidez, nós temos a agitação eterna e dilaceradora, á custa da qual se compram os requintados supplicios e as delicias de uma volupia morbida.
Nós conhecemos todos os martyrios, mas tambem todos os inebriantes gosos que dá a Imaginação. Nós buscamos na Dôr a suprema voluptuosidade sagrada, com que ella exalta e unge os seus dilectos, e não a trocamos pelas calmas e tranquillas alegrias d'essa boa gente pacata, pachorrenta, reflectida, egoista e séria, para quem a vida é um grato dever, para quem as scismas, as contemplações, as duvidas, os terrores phantasticos, são um accessorio inteiramente inutil, para quem o mysterioso _alem-tumulo_, que nos irrita e nos perturba, e nos chama, e nos allucina, e nos enche os labios de ironias blasphemas, e a alma de anciosas e ardentes interrogações, é uma certeza firme, accentuada, perfeitamente em regra, como um ramo de escripturação commercial?.....
O incognoscivel, que é a enorme região sombria, onde a nossa mente divaga attonita e deslumbrada, a elles nem os afflige, nem os preoccupa!
São felizes, no positivismo chato das suas ideias e das suas occupações! Nós somos os eternos mergulhadores do sonho, os eternos amantes da Visão! São felizes, nós somos loucos! mas eu amo a loucura com intermittencias geniaes, esta loucura com fecundos arrojos rapidos e apaixonadas ancias de um bem desconhecido, que escala o céu como o Prometheo do mytho hellenico, ou que se atira ao inferno, como o poeta que resume em si toda a sombria Edade Média!...
_Ramalho OrtigãO_
III
As Farpas
Tenho aqui, na meza em que escrevo, deliciosamente cartonado, o _primeiro volume_ da nova e augmentadissima edição das _Farpas_.
Não entram n'este volume, que é todo de paysagens, aspectos maritimos ou campestres, scenas ruraes, costumes de aldeia ou de borda d'agua, de estações thermaes ou de pequenas villas provincianas--nenhum dos assumptos das _antigas Farpas_. Este volume é portanto inteiramente novo para nós, e não é tardia nem inopportuna a opinião da Critica a respeito d'elle.
Basta ter enumerado os capitulos que o compõem para se comprehender que o livro é delicioso. Não ha em Portugal quem, como Ramalho Ortigão, saiba _vêr_ e saiba transladar para a sua prosa o _aspecto exterior_ das cousas.
Para descrever uma paysagem, para pintar uma _marinha_, para nos dar a impressão nitida, precisa e firme, de um ou de muitos objectos, para desenhar, a traços inimitaveis de exactidão ou de pittoresco, a _sillouette_ d'um monumento archeologico ou o _fouillis_ encantador d'um salão moderno, é verdadeiramente incomparavel este escriptor, e não ha plasticidade egual á do seu estylo, em que á riqueza do colorido e á vida intensa se reune a technologia mais variada em todas as especialidades, fixando na memoria e no olhar a physionomia viva e real das cousas que elle pretende fazer-nos vêr.
Não é um psychologo, não é um devaneador.
É raro que elle se perca por um instante n'essa «floresta de almas», em que só vagueiam os apaixonados prescrutadores do invizivel, os sedentos de inacessivel Ideal, os interrogadores sombrios do eterno abysmo humano!
Elle, mais simples e mais são, prefere as largas estradas batidas de sol, em que a luz é intensa e fulgurante, em que as arvores parecem uma renda phantastica polvilhada de scentelhas d'oiro. Em quasi todas as organisações artisticas d'este fim de seculo, n'aquellas principalmente em que imperam a sensibilidade e a imaginação, ha um fundo de morbidez visionaria, uma tristeza indefenivel e inquieta, uma ironia dolorosa e triste, um desejo insaciavel de penetrar o impenetravel enyma do nosso destino...
Ramalho Ortigão foge muito de preposito d'essas regiões vaporosas em que a flor azul do sonho desabroxa, a um luar doentio, as suas petalas ideiaes.
Robusto, equilibrado e são, ha n'elle um forte temperamento de artista, mas de artista que no seculo XVI teria podido desenvolver e exercer amplamente todas as suas faculdades, satisfazer o seu gosto do pittoresco, o seu amor do luxo, a sua preferencia pelas bellas coisas decorativas e espectaculosas.
Na Vida o que o interessa mais que tudo, é o colorido, a variedade, o brilhantismo, a graça, a correcção, a harmonia dos seus multiplos aspectos e das suas diversas formas.
A côr e a linha--eis os elementos que lhe bastam para a felicidade dos seus olhos, para as delicias da sua imaginação, para as necessidades do seu temperamento de artista!
Viajar muito, vêr muito, e pintar tudo o que vio, n'um estylo de colorista veneziano, com uma penna que é, ao mesmo tempo, escopro e pincel--eis a faculdade predominante d'este escriptor que, só errando a brilhante vocação que recebeu da Natureza, póde perder-se de vez em quando em abstracções philosophicas, sempre confusas, e em sabbatinas pedagogicas, sempre contrafeitas.
Elle não é um philosopho nem um educador das sociedades; é um artista! Abençoado quinhão o seu, incontestavelmente o melhor de quantos na terra se podem escolher!
Para demonstrar n'elle a superioridade do colorista, do pintor, sobre o philosopho e o critico, bastaria este volume de viajante, illuminado das mais bellas e radiantes paysagens, em que os aspectos ruraes, as _marinhas_, as scenas campestres, os quadros de aldeia se succedem, alegrando-nos a vista como um kaleidoscopo deslumbrador.
E eu não quero com isto dizer que Ramalho Ortigão, não seja um critico. Mas a sua critica, quando é superior, quando é frisante e verdadeira, é quando elle a executa pelo mesmo processo magistral de que usa nos seus livros descriptivos.
Então sim, porque a licção ressalta naturalmente do aspecto exterior das cousas.
A _toilette_ d'uma lisboeta aperaltada; a mobilia aprumada e symetrica d'uma casa burgueza; a sessão d'uma assembléa constitucional; o interior d'uma botica sertaneja; a apparencia d'uma egreja de cidade em dia de festa, etc., etc., etc., dão-nos a impressão directa e viva dos sentimentos, que todas estas cousas traduzem ou com os quaes todas estas cousas se relacionam.
Pelos _puffs_ exaggerados, pelos altos tacões dos sapatos esticadissimos, pelo chapeu inesthetico, pelo espartilho ridiculamente apertado, por todos estes deploraveis symptomas d'uma imbecilidade que já vem de muito longe, comprehende-se tudo que o escriptor nos quer demonstrar: falta de educação, falta de gosto, falta de modelos artisticos, pressão secular de influencias deleterias e funestas.
Pela regularidade fria e systematica d'um _interior_ de burguez, que nenhuma scentelha de arte espiritualisa ou illumina, percebe-se naturalmente a comprehensão acanhada e restricta que elle tem da vida e do encanto profundo e moralisador da intimidade domestica; vê-se a inaptidão artistica que o afflige, a impossibilidade absoluta e fundamental em que elle está de crear uma existencia, praticamente agradavel e espiritualmente feliz, em que se fundam, n'um accordo sympathico, as exigencias requintadas da civilisação e as satisfações mais puras da vida moral.
E por aqui diante, o mesmo processo de arte dá para a intelligencia os mesmos resultados.
É este o segredo que individualisa Ramalho Ortigão e que faz com que sendo elle um artista plastico, por assim me expressar, seja igualmente um notavel moralista.
É indispensavel porém que o leitor tire dos quadros a moralidade que d'elles deriva!
* * * * *
N'uma _advertencia_ muito bem feita que precede o livro, Ramalho Ortigão diz que as _Farpas_, são escriptas n'um espirito de _dilettantismo_ emancipador e desinteressado e pelo que vi n'um artigo lido hoje mesmo, a palavra dilettantismo não foi tomada pelo critico na accepção que o escriptor lhe dera; não é pois fora de proposito, que eu aqui explique um pouco ao leitor, qual o _dilettantismo_ de que Ramalho Ortigão se diz inspirado ao traçar os capitulos bellissimos das suas novas _Farpas_.
No conflicto enorme, desordenado e confuso de theorias, de systemas, de doutrinas e de hypotheses, em que o seculo XIX tem baralhado os seus desgraçados filhos, cada questão tem tantas faces, cada phenomeno é contemplado sob uma tal multiplicidade de pontos de vista, cada verdade é tão ondeante, elastica e malleavel, cada doutrina tem tantos aspectos, cada theoria apresenta tal somma de _nuances_, que se vae pouco a pouco perdendo, nas altas regiões do pensamento, aquella especie de homens de uma peça só, systematicos até á teima, fanaticos até á heroicidade, obstinados até ao pyrrhonismo, que de cada ideia só viam um angulo, que julgavam que a verdade era só uma, e não podia ser encarada por diversos modos!
Esses homens, fanaticos, no sentido mais amplo da palavra, tinham uma fé ardente n'aquillo em que tinham fé! uma paixão profunda pela ideia que serviam, e por isso, arcando com obstaculos terriveis, que nós já não conhecemos, obraram grandes feitos de que nós já somos incapazes!
Em philosophia, em religião, em moral, ou em politica, estes homens iam para diante, altivos, intemeratos, um pouco obcecados pela sua crença no absoluto, mas por isto mesmo inacessiveis ás mil influencias que neutralisam a vontade moderna, e sem perigo de cederem ás correntes contrarias que hoje sollicitam, de tão diversos pontos, o pensamento que quer ser imparcial, o desejo de verdade que quer ser sincero!
Em contraposição a estes homens capazes d'um só amor e d'um só odio, surdos ás vozes todas que contradissessem o _á priori_ do seu sonho, existe hoje uma raça mais doente e mais fraca talvez, mas sympathica na sua indecisão, e perfeitamente moderna no capricho ondeante da sua sensibilidade!
E é a esses que inspira e dirige o espirito de dilettantismo de que falla Ramalho Ortigão.
Diz pouco mais ou menos Bourget, o systematisador moderno do dilettantismo, fallando de Renan o mais genuino _dilletante_ de quantos se conhecem modernamente, que é mais facil perceber esta palavra do que definil-a com precisão.
E accrescenta: «é menos uma doutrina que uma disposição de espirito a um tempo muito intelligente e muito voluptuosa, que nos inclina simultaneamente para as diversas formas da vida e nos leva a emprestarmo-nos, ora a uma ora a outra d'estas fórmas, sem nos darmos inteiramente a nenhuma d'ellas.»
Dilettantismo e doutrinarismo--eis os dois polos do pensamento do homem!
O espirito de systema tende a desapparecer da elaboração mental d'este seculo, e á proporção que elle affrouxa desenvolve-se e cresce essa extranha faculdade--que faz uma especie de Proteo de cada entendimento, e que tomando a vida como uma illusão universal que ora se faz ora se desfaz, ora se tece a oiro e perolas, ora se destrama, phantasticamente, substituindo a nudez mais completa á opulencia mais asiatica, acha a verdade d'um momento em cada fórma passageira que encontra debaixo dos olhos.
Comprehendendo d'esta fórma o _dilettantismo_ acha-se uma faculdade superior, um dom que póde multiplicar os gosos intellectuaes pela multiplicidade de pontos de vista que nos revella. Não encontro, porém, no volume das Farpas que tenho presente, a applicação d'essa faculdade, eminentemente subjectiva.
O que eu encontro e saudo n'elle é a obra d'um artista para quem a lingua portugueza é o instrumento mais docil e o teclado mais vasto e mais sonoro, e em quem a _visão das cousas_ é tão violenta e tão intensa que possue o milagre de communicar aos outros a sua privilegiada lucidez.
_Anthero De Quental_
I
Os Sonetos
Não ha, talvez, em toda a litteratura portugueza uma individualidade mais distincta, mais original, mais _á parte_, que a d'este homem.
Não é simplesmente como escriptor, como litterato, como _auctor de livros_, que Anthero de Quental tem de ser considerado.
Para bem estudar esta figura singular, para a vêr á luz que lhe é propria, para a comprehender sob todos os seus aspectos varios, é indispensavel alguma coisa mais do que a faculdade critica, applicada á litteratura, é necessaria a comprehensão profunda e clara de todas as causas que determinam esta phase,--de certo transitoria, de certo temporaria--de _nihilismo_ mental, em que se debatem os artistas mais vibrateis e delicados, as almas mais sensiveis e morbidamente agitadas d'este fim de seculo, a um tempo tragico e banal.
Como podia eu, pois, conseguir o que imagino que só conseguiria um critico no genero especial de Bourget, por exemplo, um critico que recebe as influencias germanicas e as transmitte, modificadas pela sua imaginação e pela sua rasão latinas; um critico cosmopolita e capaz de comprehender todos os estados d'alma e todas as faculdades caracteristicas das mais diversas raças?
A critica tem acompanhado o movimento progressivo das sciencias, e tem-se modificado e transfigurado ao influxo d'ellas.
Sem fallarmos nos criticos da Allemanha, muito menos accessiveis para nós e muito menos comprehendidos por nós, sigamos a evolução ascendente que a critica litteraria tem tido em França, e veremos como ella se tornou hoje uma sciencia completa, para a qual forneceram dados, elementos, observações e experiencias todos os ramos do saber humano, cada dia mais amplo.
Que longe nós estamos d'aquella boa critica, modesta e facil, em que a obra de arte era simplesmente julgada segundo as regras formuladas por Aristoteles, em que o livro, o drama, o poema se consideraram perfeitos ou defeituosos, conforme se cingiam aos preceitos da rhetorica e da poetica consagradas, ou se afastavam indevidamente d'elles!
Diderot teve no seculo XVIII, a maravilhosa intuição do que poderia vir a ser a critica; essa intuição, vaga ainda, illumina, todavia, de luz inesperada as suas formosas improvisações, os seus devaneios scintillantes de _verve_ sobre a arte do seu tempo.
Villemain, mais tarde, afastando-se de todos os que pretendiam arrogar-se em face do escriptor os direitos de bons criticos, e que não conseguiam ser mais do que rhetoricos importunos, relaciona pela primeira vez as litteraturas com os outros productos sociaes d'uma dada epoca; faz perceber as reciprocas influencias, que actuam em raças diversas e transformam lentamente uma civilisação determinada; mostra claramente, no seu estylo de erudito ainda subjugado pelos moldes classicos, o extraordinario poder com que as lettras imperam na politica, e a politica nas lettras, e o modo indirecto, mas poderoso, pelo qual a arte se torna um elemento de revolução, e da revolução surge e se levanta uma nova arte; revela, emfim, a força que as idéas teem sobre a acção, e a ineluctavel energia com que a acção limita ou modifica o imperio das idéas...
Sainte Beuve, adoptando muitos dos pontos de vista de Villemain, accrescenta-lhes tudo que póde tornar este methodo mais vivo, mais luminoso, mais humano, tudo o que póde dar movimento e graça ao corpo um tanto inteiriçado e hirto do eloquente professor do _Curso de litteratura_.
A critica de Sainte Beuve é uma creação! Na obra d'arte vê a época em que ella surge e o homem que a produziu. A anedocta elucidativa, o commentario suggestivo, o estudo minucioso do caracter do escriptor, o meio em que elle se moveu, a influencia directa, ou indirecta, que esse meio exerceu em todas as circumstancias caracteristicas da sua vida e no seu modo particular de encarar as coisas e os homens,--tudo concorre para esclarecer o critico eminente, a tudo dá relevo e côr o seu estylo fino, flexivel, todo em cambiantes, todo em linhas flexuosas, que penetra o assumpto, que o segue nos seus meandros mais caprichosos, nos seus labyrinthos mais emmaranhados, que se cinge a elle nas suas ondulações mais particulares, que o illumina de todos os lados e por todas as formas; malleavel, sagaz, levemente sceptico, inimigo sempre do absoluto de todas as doutrinas, do dogmatismo de todas as formulas.
O grande critico da nossa raça n'este seculo é com toda a certeza Sainte Beuve. Os que vieram depois d'elle, deram a formula mathematica, precisa, da doutrina que elle praticára e descobrira com uma ligeireza, uma elegancia, um gosto nunca mais realisados.
Taine acceitando a herança de Sainte Beuve, foi alem do que elle era, um naturalista que levou para os estudos d'arte o seu forte methodo scientifico, que verifica, prova, experimenta e conclue depois. A isso deve o ser considerado e com justiça o mestre da nossa geração. Taine póde ter discipulos, Sainte Beuve podia ter apenas admiradores. A litteratura aos olhos de Taine é, como tudo o mais, um producto fatal da raça, do meio, do momento, modificado n'este ou n'aquelle sentido, mas modificado apenas, pelo temperamento particular do artista.
A ordem, o equilibrio, a harmonia que existe em toda a natureza, achou-as elle na esphera do pensamento humano, n'esse grande mundo da arte que falsamente nos parecia caprichoso, cahotico, arbitrario, sem leis que o dominassem, sem causas a que estivesse fatalmente subordinado.
Comprehende-se bem como este ponto de vista--que outros tinham achado, mas que elle formulou scientificamente--revolucionasse a noção da critica, e lhe desse, ao mesmo tempo, harmonia, amplitude e grandeza.
D'este modo vê-se bem que em cada livro que lêmos, em cada obra por meio da qual um forte temperamento de artista, ou um grande cerebro de pensador se nos manifesta, está como que indicada a gradação successiva de todas as civilisações que, justapondo-se umas ás outras e desdobrando-se umas das outras, produziram o momento historico, a phase sentimental ou intellectual de que esse livro é involuntariamente echo, repercussão e reflexo.
A lei que liga estreitamente entre si todos os phenomenos da Vida, que explica o encadeamento fatal de todas as manifesções do pensamento, ninguem a formulou com mais lucidez e mais clareza do que Taine. Cada escriptor é o que não póde deixar de ser, dada a hora em que a sua obra se produziu, dados os elementos sociaes que concorreram para a elaboração d'ella, dadas as qualidades fundamentaes e irreductiveis da raça a que elle pertence, dada a organisação particular, que, em virtude de todas estas leis e de outras leis egualmente ineluctaveis, elle recebeu da natureza.
Shakspeare, por exemplo, esse colosso que nós julgámos por muito tempo a creação espontanea e maravilhosa, que um _decreto nominativo_ do Eterno fizera surgir n'uma idade semi-barbara, apparece, na obra de Taine, naturalmente, no logar que lhe é proprio e que lhe estava necessariamente destinado, de um modo que nada tem de surprehendente ou de imprevisto. Todo o movimento politico, litterario, social da Renascença ingleza vem rematar harmoniosamente em Shakspeare, sem esforço, sem salto inexplicado, sem arbitrariedade do Destino, sem que no espirito do leitor, que estuda o quadro complexo e extraordinariamente poderoso da vida intellectual da Inglaterra, este grande nome, universalmente acclamado, produza o espanto, a sensação do imprevisto, o abalo e o sobresalto de uma apparição sobrehumana!
Vista a evolução do pensamento a esta luz viva e fecundante, como tudo se explica e harmonisa, como tudo se ordena magnificamente, como os effeitos derivam naturalmente das suas causas superiores, como é bella essa admiravel ascensão das trevas para a luz, do cahos para a suprema harmonia!
Entre todos os obreiros maravilhosos que em França a critica moderna tem tido ao seu serviço, nenhum, porém, existiu nunca que melhor podesse explicar, illuminar, tornar accessivel a todos a obra de Anthero do Quental, como esse a que me referi ha pouco: o auctor, aos meus olhos adoravel, dos _Ensaios de Psychologia Contemporanea_.
Em Bourget sente-se, como em Anthero, visivelmente e fortemente, a influencia da Allemanha. Discipulo de Schopenhauer, foi elle--talvez inconscientemente seduzido--quem tornou Schopenhauer intelligivel á França, e popular ou, pelo menos, conhecidissimo em França. Mas o _pessimismo_, que no philosopho de Francfort é doutrina, foi Bourget encontral-o como _sentimento_ em muitos dos artistas mais delicados e mais queridos do nosso tempo, n'aquelles de quem uma geração inteira bebe a inspiração e acceita o ideal.
Bourget desceu ao fundo da alma contemporanea e achou lá, ora visivel como um jazigo a descoberto, ora occulta como um filão inexplorado, esta dolorosa aspiração ao _não ser_ em que virão, talvez, cruelmente e anti-naturalmente, a abortar todos os sonhos radiosos e extranhamente grandes que a humanidade concebeu, que a sciencia tem tratado tenazmente de realisar, e que a arte devia ter a gloriosa, sublime e util missão de traduzir!...
Seria pois Bourget quem melhor do que ninguem faria comprehender até aos mais profanos, e aos menos dados ás sublimes abstracções do espirito, o livro eminentemente moderno, e extranhamente doloroso e contradictorio de Anthero do Quental. A lingua em que nós escrevemos e fallamos não a conhecem porém lá fora, e este livro que em toda a parte seria criticado e discutido como um symptoma mental, caractetistico do nosso tempo, fica sem echo, a não ser entre alguns delicados d'entre nós, a quem estas questões interessam a titulo de curiosidade litteraria.
II
A mim, se me faltam, como já disse, muitos dos predicados exigidos para analysar e estudar a obra, tão profundamente pessoal, do auctor dos _sonetos_, não me falta comtudo, para lhe comprehender a alma agitada e sacudida por tantas idéas que se combatem entre si, produzindo uma tragica lucta interior, o que n'este caso supre vantajosamente a sciencia e a critica: refiro-me á minha alma de mulher, contradictoria tambem, tambem fluctuante, e que não foi corrigida nem mutilada pela necessidade fatal da acção, pela despotica lei social que impelle o homem a pronunciar-se n'um sentido definido, a caminhar para um fim determinado, a _comprometter_, por assim dizer, as suas opiniões e as suas crenças, dando-lhes uma forma precisa e limitada, encerrando-as n'uma esphera positiva e restricta.
N'este ponto Anthero de Quental guardou, a par das qualidades poderosas e creadoras de um espirito viril, a plena independencia mental que é talvez a maior felicidade da mulher, quando a mulher--o que é raro--a sabe aproveitar no enriquecimento, na ampliação e na cultura do seu mundo interior.
Está portanto ahi o ponto delicado e subtil em que nos encontramos.
O livro dos _Sonetos_, que para mim vale muitissimo como obra de arte e de poesia, vale principalmente como documento psychologico, como _notação_ sincera, espontanea, feita dia a dia, de sensações requintadas, como confissão d'uma alma que,--nas suas dôres imaginarias ou reaes, nas suas ardentes aspirações d'um espiritualismo doloroso, nas suas duvidas desnorteadoras diante de todos os problemas insoluveis da Vida, no seu desejo dilacerante d'um absoluto impossivel, nas suas anciosas interrogações em face do incognoscivel eterno, nos seus gritos melodiosos de apaixonada tristeza e de amargura revoltada--condensa, representa, synthetisa em si o estado sentimental de todo um mundo, o mundo a que nós pertencemos.
O vago mal-estar que fez chorar tão docemente Lamartine, e que sacudiu violenta e dolorosamente os nervos de Musset, definiu-se nos seus symptomas, revelou-se aspera e positivamente nos seus mais accentuados caracteres.
Nós não ignoramos o mal de que soffremos e porque soffremos.
Não foi impunemente, e sem que um medonho e forte abalo se produzisse nos espiritos e nas consciencias, que a sciencia, implacavel e tranquilla, despovoou os ceus, destruiu na nossa alma, ambiciosa e soffredora, o sonho da triumphante immortalidade, fez do mundo, que julgavamos centro e eixo do Universo este humilde grão de areia que hoje gravita subordinado e dependente nas amplidões infinitas do espaço; não foi sem dilacerar as fibras mais intimas do nosso orgulho que a biologia, arrancando aos abysmos do tempo o segredo da primeira scentelha da Vida que animou este planeta, nos demonstrou o que nós eramos no fim de contas, nós que nos julgavamos os filhos dilectos do Creador!
Se a sciencia exulta, se os seus apostolos continuam tranquillos e convencidos a trabalhar para a completa libertação d'esse escravo d'outras eras, que é o triumphador maximo de hoje, se o progresso caminha, se a civilisação se requinta, se a materialidade do goso attingiu quasi os limites do ideal, quantos corações, em compensação de tanta grandeza, não ficariam esmagados e desfeitos em sangue sob as rodas de fogo d'esse carro de triumpho, que leva a humanidade, cega de orgulho, á conquista da sua apotheose final!...
A extraordinaria revolução scientifica e social, que faz do nosso seculo uma quadra sem precedentes na historia, se trouxe a tantos a felicidade, a libertação, a victoria, se deu ás massas o goso de regalias ignoradas, se nivelou as castas, se diminuiu a miseria, se combateu muitos males visiveis, muitas injustiças flagrantes, se teve, emfim, nos seus aspectos geraes e nas suas linhas grandiosas, resultados soberbos, que ninguem contesta e que todos aproveitam, não podia comtudo, deixar de repercutir-se de um modo violento e profundo, dilacerante ás vezes, outras vezes entontecedor, em certas almas impressionaveis, em certos espiritos delicados, em certas organisações doentiamente accessiveis!...
Que importa, dirão, se a felicidade do maior numero exige o sacrificio desses poucos!
Sim, não importa que elles soffram; o que não obsta a que, ainda mesmo aos mais fortes, inspirem a mais irresistivel sympathia esses corações ardentes, essas almas visionarias, que a sêde invencivel da sciencia leva a beberem do seu amargo licôr, e que em vez de acharem n'elle a robustez, a certeza fortificante, a saude mental, cáem prostrados por uma dolorosa ebriedade,--iniciados que dariam tudo para ignorar, curiosos e complicados espiritos que anceiam debalde por se salvarem pela simplicidade e pela innocencia, a cujo seio nunca mais, _nunca mais_, poderão retroceder...
III
É perfeitamente esta dôr terrivel, que só é dada a alguns eleitos da sensibilidade, esta dôr sem consolo que tem de os perseguir implacavelmente até á morte, e que póde achar calmantes e anesthezicos, mas nunca uma cura decisiva, que Anthero de Quental exprime dolorosa e magnificamente n'estes _Sonetos_ que, para o _grosso publico_, hão de parecer apenas os devaneios de um phantasista, senão as mysteriosas locubrações de um allucinado e de um nevrotico.
Oh! felizes dos _simples_, porque elles não conhecem esta dôr dilacerante de duvidar, esta ancia amarga de saber, esta inquieta curiosidade de prescrutar todos os mysterios, de sondar todos os recessos sombrios do pensamento! Felizes dos simples, porque elles não voltam d'essas regiões terriveis, d'esses circulos dantescos, empallidecidos, cançados, mortalmente tristes, sem coração para amar, sem força para viver, sem incentivo para a lucta, sem alimento para as ambições banaes e limitadas d'este mundo.
E, no entanto, maldizendo as dôres de que a razão lhe foi origem, Anthero de Quental não pode amaldiçoar essa faculdade superior, comprada á custa de taes agonias, mas que lhe tem dado--goso contradictorio e extranho!--o austero orgulho dos que sabem!...
Razão, velha de olhar agudo e frio E de halito mortal, mais do que a peste! Pelo beijo de gello que me deste, Fada negra, bemdita sejas tu!
Bemdita sejas tu pela agonia E o lucto funeral d'aquella hora Em que eu vi baquear quanto se adora, Vi de que noite é feita a luz do dia!
Pelo pranto e as torturas bemfazejas Do desengano... pela paz austera D'um morto coração que nada espera Nem deseja tambem... bemdita sejas!...
Muitos perguntam,--e, no seu ponto de vista racional e practico, perguntam com razão--a que se deve a reclusão quasi absoluta, o abandono de todos os interesses positivos, a inacção voluntaria, que tão estranhamente caracterisam esse pensador, esse critico, esse poeta, chamado Anthero de Quental.
Quando pela primeira vez os echos d'este nome repercutiram na sociedade portugueza, foi como um som bellicoso e guerreiro que se ouviu, sobresaltando os possuidores consagrados da realeza litteraria d'esse tempo.
Anthero de Quental era, na somnolenta, monotona e convencional _coterie_ litteraria de ha vinte annos, considerado um iconoclasta, atrevido e sacrilego, que vinha sem dó derrubar os velhos idolos, atirar por terra as reputações consagradas, levantar uma vermelha bandeira revoltosa em meio da serena paz, que os bons e pachorrentos mestres do classicismo academico faziam reinar entre todos os portuguezes... que os não liam!
Na politica Anthero tinha a ousadia, então quasi criminosa, de se proclamar socialista; em philosophia era um pantheista, em cuja bella imaginação, colorida e meridional, as sublimes hypotheses de Hegel exerciam uma acção dominadora; em litteratura, elle trazia todas as novas idéas hoje conhecidas e generalisadas, então quasi inteiramente ignoradas por nós, que la fóra tinham desthronado o romantismo, e produzido a grande evolução naturalista agora triumphante.
Anthero de Quental era pois um revolucionario, um innovador; estava-lhe destinado um d'estes papeis que n'uma litteratura e n'um paiz são o maior titulo de gloria, que ao pensamento e ao trabalho de um homem é dado alcançar: o de iniciador, de percursor, de _porta-estandarte_ de uma Idéa civilisadora e grande!
Porque não realisou elle estas promessas de luctador e de artista infatigavel?
A esta pergunta, que se apresenta naturalmente diante de todos os espiritos, responde este livro. Vamos pois vêr de que modo.
IV
Para mim--e talvez que eu n'este ponto e em mais alguns me tenha afastado do espirito com que Oliveira Martins, o notavel escriptor e o amigo fiel e terno e quasi fanatico de Anthero escreve as palavras que servem de prefacio aos magnificos versos do poeta--para mim o que prostrou Anthero de Quental n'aquelle extase vago e contemplativo, de que os seus ultimos _sonetos_ são a mais completa expressão, foi justamente o _excesso do pensamento_, o abuso da analyse, a que elle se entregou, prematuramente, no periodo mais activo e mais arrojado da vida do homem, quando geralmente este emprega todos os recursos da sua energia para se fazer no mundo um grande logar, onde tenha espaço que baste á envergadura das suas ambições.
Pensou _de mais_, quiz conhecer e sondar e penetrar _de mais_ as theorias extravagantes ou grandiosas, desconsoladoras ou sublimes, phantasticas em todo o caso, com que a Humanidade tenta, desde que existe, explicar a si mesma o mysterio da sua existencia.
São raras as almas em que se trava sériamente, tragicamente, este combate com a Verdade! Procural-a e possuil-a foi o sublime fim a que a alma d'este poeta, tão moço ainda, se entregou completamente.
Mas a nós homens não é dado achar a Verdade!
Por isso Anthero foi vencido na sua lucta soberba, por isso foi contraproducente o seu trabalho heroico, e, prostado, abalado até ás mais fundas raizes do seu sêr, por tantas contradições, que o cingiam como as lianas tenazes de uma floresta virgem, por tantas duvidas que estendiam sobre elle a sombra escura dos seus ramos venenosos, por tantas hypotheses que se desmentiam aos seus olhos penetrantes, por tantos sonhos vertiginosos que o entonteciam e embriagavam, pela inextricavel vegetação, gigantesca e confusa, de tantas idéas, sob as quaes o nosso seculo está litteralmente esmagado,--elle, o pensador sincero, a alma enamorada da Verdade e da Justiça eterna, o idealista incorrigivel que o mysterioso _au delá_ captiva e chama, apezar da negação feroz dos racionalistas e da indifferença systematica do positivismo, elle achou que o unico refugio, no meio d'este cahos, que o unico descanso no meio d'este combate em que a vida quasi se lhe esvaía, seria o de uma inacção contemplativa, de um renunciamento mystico, de uma especie de _bhudismo_ mental que nos seus versos se reflecte ás vezes em harmonias ineffaveis, em cantos resignados e immortaes!...
* * * * *
Mas, para chegar a esta estação ultima de uma longa Via Dolorosa, de que tempestades enormes, de que dramas convulsos não foi theatro a alma d'este poeta, que _viveu_ a sua poesia antes de a ter feito!...
Aspirou á felicidade como toda a gente, mas a felicidade a que elle aspirava é que não era a _de toda a gente_, e por isso a procurou de balde! É provavel que partisse, como todos os que são moços, com as suas grandes _botas de sete leguas_ á conquista d'esse _Velo de ouro_, que se chama amor ou que se chama gloria; mas que desalentos o fizeram parar absorto e esquecido de tudo, nos recantos melancolicos ou nos desfiladeiros sombrios do seu caminho imaginario!...
E é a historia d'essa viagem terrivel que estes _sonetos_ nos contam; por isso elles hão de interessar tanto os que pensam e sentem, e n'uma esphera, embora menos ampla, soffreram e luctaram tambem!
Foi n'uma das suas horas de tristeza sem consolo que elle escreveu estes versos, cuja vibração sonora e longa se repercute para além das paginas do livro, por esse espaço fóra...
Porque a noite é a imagem da Verdade Que está além das coisas transitorias, Das paixões e das formas illusorias, Onde sómente ha dôr e falsidade...
Mas tu, radiante luz, luz gloriosa, De que és symbolo tu? do eterno engano, Que envolve o mundo e o coração humano, Em rede de mil malhas mysteriosa!
Symbolo, sim, da universal traição D'uma promessa sempre renovada E sempre e eternamente perjurada, Tu, mãe da Vida, e mãe da Illusão... .................................... .................................... De que são feitos os mais bellos dias? De combates, de queixas, de terrores! De que são feitos? De illusões, de dôres, De miserias, de magoas, e agonias!
O sol, inexoravel semeador. Sem jamais se cançar, percorre o espaço, E em borbotões lhe jorram do regaço As sementes innumeras da Dôr!
Oh! como cresce sob a luz ardente A seara maldita! Como freme Sob os ventos da vida, e como geme N'um sussurro monotono e plangente!
* * * * *
Não pode a revolta d'um coração ferido pelas injustiças sangrentas da vida exprimir-se com mais desesperada e mais apaixonada eloquencia!...
Se a vida é isto--e é isto quasi sempre aos olhos do poeta dos _Sonetos_,--para que luctar, para que trabalhar, para que arrastar eternamenre ao alto da montanha, aspera de tojos bravos, o enorme rochedo que eternamente rolará pelos seus flancos duros ao abysmo fundo onde de novo o homem tem de ir buscal-o, para novamente procurar com elle o pincaro escalvado d'onde cahiu?! D'aqui ao profundo _nihilismo_ em que Anthero tem de ir dar é, longo o caminho, mas é logico e está claramente indicado...
Sob o ponto de vista pratico e razoavel, este livro, tão profundamente espiritualista, é um livro, no fim de contas, desconsolador; se a obra de Anthero fosse comprehendida por todos, teria um alcance funesto para o espirito humano! O sonho da perfeição que o inspira, leva-o a uma comprehensão da existencia erronea e perigosissima! Incompleta como é, a vida exige de nós todos, como um dever sagrado, que appliquemos a resolver-lhe os problemas, a vencer-lhe as luctas dolorosas, a cumprir-lhe os asperos deveres, toda a energia das nossas faculdades, toda a abnegação dos nossos sacrificios, todo o vigor da nossa vontade, todo o amor do nosso coração, todo o poder de sympathia de que a nossa alma dispõe. Não tem desculpa os que desdenhosos e inactivos, cruzam os braços, indifferentes aos triumphos do Mal desde que perderam a esperança de fazer do Bem o rei absoluto da creação.
Mas, feitas estas restricções que a consciencia me está impondo, a verdade é que não ha no bello livro de Anthero, tão pessoal e tão _vivido_ nem um _estado de alma_ que a minha alma não comprehenda e não justifique.
E que diversidade de sentimentos, e que mundo, complexo e vago, de emoções cambiantes!
É um devoto da Virgem, de um mysticismo doce como o dos monges primitivos? É um triste e incrédulo filho d'este seculo sem Deus? É um metaphysico perdido no seu sonho nebuloso e desconnexo? É um espiritualista que protesta com todas as revoltas da sua consciencia e todas as lagrimas do seu coração contra o materialismo que ameaça fazer retroceder este mundo a um estado de brutal immoralidade e de goso sensual nunca saciado? É um pensador que, conhecendo todas as theorias philosophicas que explicam o ser, a todas domina e a todas dá a forma sentimental e poetica de que ellas carecem para serem comprehendidas pelos profanos da sciencia, e pelos _diletantti_ do pensamento?...
É tudo isto, sem ser nada d'isto; porque é tudo isto em momentos que passam, e que, ao passarem, fixam a fugitiva imagem n'uma lamina argentea, emmoldurada em esmaltes vivos, em cinzeladuras rendilhadas, em delicados e artisticos florões.
Mas--e é este o supremo merecimento d'este livro--é tudo isto sinceramente, espontaneamente, sem _pose_, sem artificio, sem estudo previo!
* * * * *
Anthero não é um acrobata da rhetorica, não é um prestidigitador de imagens faceis, é um coração que soffre, é uma alma que se impressiona, é um cerebro que vibra, é um _sincero_ que põe toda a potencia das faculdades em cada rapida modalidade do seu complexo sêr!
Querem vêr como elle proclama, n'uma dolorosa amargura a inanidade final de todo o esforço humano?
Em vão luctamos! Como nevoa baça A incerteza das cousas nos envolve; Nossa alma, emquanto cria, emquanto volve Nas suas proprias rêdes se embaraça.
O pensamento que mil planos traça, É vapor que se esvae, e se dissolve, E a vontade ambiciosa que resolve Como onda entre rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hymno Á luz, á liberdade, ao bem fecundo, Prece e clamor d'um pressentir divino...
Mas n'um deserto só, arido e fundo, Echoam nossas vozes que o Destino Paira mudo e impassivel sobre o mundo!
Contradictorio? sim; mas verdadeiro!
Para mim os que nunca se contradizem são, em geral, os que mentem sempre.
Os sinceros são alcunhados de incoherentes pelas pessoas _sérias e graves_ que fazem a _opinião publica_, quer dizer, que criam esse absurdo enorme, feito de convenções falsissimas, sempre aprumado na sua immobilidade estupida e na sua monotonia secular...
V
É-me absolutamente impossivel, e nem com esse intento se compadece a indole d'este rapido esboço critico, fixar aqui completamente a physionomia litteraria, tão expressiva e tão complexa de Anthero de Quental.
De resto, eu escrevo apenas para os que leram e apreciaram o poeta, para aquelles que se sentiram mais impressionados diante das suas contradicções, tão humanas, tão genialmente sinceras!
Pois qual é o homem verdadeiramente digno d'este nome, que nunca sentiu dentro da sua alma o terrivel embate de mil pensamentos dolorosamente hostis?!
O mais sceptico dos filhos d'este seculo sente palpitar ás vezes, no fundo intimo do seu coração, o dôce coração piedoso e crente da mãe querida, da velha avó, que outr'ora foi levar á sombra austera do templo, ao altar onde o Homem-Deus sorri resignado e triste, o holocausto de todas as suas tentações e de todos os seus amores; assim como o mais piedoso de entre nós, nem sempre logra fugir á acção dissolvente do scepticismo universal, que vai crescendo, crescendo, como uma maré de perdição...
Entre estes dois pólos do pensamento humano, quantas gradações, quantos cambiantes, quantos modos complicados ou morbidos de pensar e de sentir!...
Se só é completo e grande o que os comprehender a todos,--que desgraçado não será o que a todos experimente!
Por isso o nosso poeta exclama, n'um impeto de dôr sincera e tragica:
Ouve tu, meu cançado coração, O que te diz a voz da Natureza --«Mais te valera, nú e sem defeza, Ter nascido em asperrima soidão!
Ter gemido, ainda infante, sobre o chão Frio e cruel da mais cruel deveza, Do que embalar-te a Fada da Belleza Como embalou, no berço da Illusão!
Mais valera á tua alma visionaria, Silenciosa e triste, ter passado Por entre o mundo hostil e a turba varia.
(Sem ver uma só flôr das mil que amaste) Com odio, raiva e dôr... que ter sonhado Os sonhos ideaes que tu sonhaste!...
* * * * *
Pouco a pouco, porém, por uma especie de lenta gradação, com retrocessos fugitivos, a alma de Anthero do Quental, cançada de sonhar, de aspirar, de desejar em vão, vae-se iniciando n'essa paz suprema a que os sectarios do velho Bhuda indico chamaram o _nirvana_!
O _nirvana_ é uma especie de renunciamento da alma que nada espera, e que, fóra da esperança, achou a tranquillidade beatifica do _não-ser_.
Schopenhauer não fez mais do que pôr em moldes novos a palavra mil vezes secular do antigo sabio:
«A virtude, diz Bhuda, consiste em nos desinteressarmos de tudo que é sensivel.»
«Liberto de todo o cuidado da acção, o verdadeiro crente queda-se tranquillamente sentado na cidade das nove portas, sem de nada cuidar, e sem aconselhar aos outros a acção.»
«D'entre os meus servos, aquelle a quem mais quero é o que tiver coração benevolo para toda a natureza, não temendo os homens, nem sendo por elles temido. _Apraz-me tambem o que houver renunciado inteiramente á esperança, e o que não se abalance a nenhuma empreza humana_,»
Toda a desgraça do homem, continua ainda o philosopho da velha India, é attribuir ás coisas d'este mundo duração, permanencia, e realidade.
«O mundo é uma illusão immensa.»
Não desejemos, para não soffrermos. Não amemos, para nos não prendermos ao que é illusorio e passageiro. Não _esperemos_, e, n'esse _renunciamento_ absoluto (principio da moral bhudica, e fim da philosophia Schopenhaureana), encontraremos a paz, quer dizer, a extincção de todo o desejo, a morte de toda a sensação, o desprendimento de nós mesmos e da Vida universal.
N'esta doutrina tão velha, que o espirito germanico remoçou e como que adaptou ás complicações extraordinarias e imprevistas da vida moderna, acolhe-se adoravelmente o poeta em muitas das suas horas de desalento e de cançasso.
Envolve-te em ti mesma, oh alma triste! Talvez sem esperança haja ventura!
E n'outro soneto:
Na floresta dos sonhos, dia a dia, Se interna meu dorido pensamento, Nas regiões do vago esquecimento Me conduz, passo a passo, a phantasia.
Atravesso no escuro a nevoa fria D'um mundo extranho, que povôa o vento, E meu queixoso e incerto sentimento Só das visões da noite se confia.
Que mysticos desejos me enlouquecem? Do _Nirvana_ os abysmos apparecem A meus olhos, na muda immensidade.
N'esta viagem pelo ermo espaço Só busco o teu encontro e o teu abraço, Morte! irmã do Amor e da Verdade!
Ó poeta,--eu, uma pobre mulher condemnada, pelas leis fataes da physiologia e pelas leis logicas da sociedade, á inacção completa, não posso deixar de protestar contra essa paz egoista, em que o teu coração pretende affundar-se!
O _bhudismo_ comprehende-se n'essa India, corroida pelo odio das castas, e na qual o homem se sentia esmagado e vencido pela implacavel Natureza, devoradora e cruel, de uma exuberancia que escorria venenos!
Comprehende-se o _bhudismo_ no tempo em que a fatalidade das coisas subjugava o homem, o ultimo que chegara ao banquete da vida, e que chegára desarmado, predestinado á sua lucta de seculos, á sua lucta sublime, á lucta de titan, em que elle começa apenas a ser vencedor!
Mas imagine-se por um momento o _bhudismo_ triumphante, alastrando pelo mundo inteiro a sua doutrina de inerte contemplação, de extase inutil e vago!
O que seria hoje o mundo?!...
Não, o Homem não se deixou vencer; em vão o convidaram á preguiça, á covarde resignação, ao renunciamento esteril as religiões fatalistas e a Natureza hostil e inviolada ainda!
Elle resistiu!
E, desarmado, escorrendo sangue de todos os póros da sua torturada carne, perdido na escuridão profunda d'essa tenebrosa noite, que é o passado, ora seduzido pelas sereias enganosas que tentaram perdel-o, ora asphyxiado sob o pezo de barbaras e anti-naturaes doutrinas que o mutilavam, soffrendo sempre, luctando sempre, sacrificando-se sempre, trabalhando como escravo, guerreando como heroe, pregando como apostolo, immolando-se como martyr, escalando o céu como Prometheu, encarando intrepidamente, e face a face, os mysterios e os dogmas, furando as entranhas da terra cheia de pavores, ascendendo á região dos astros cheia de deslumbramentos, sondando os oceanos sem fim, resignado e tenaz, revoltoso, indomito, terrivel, mas sempre com olhos fitos no ideal, que pouco a pouco se ia desvendando, que a pouco a pouco se ia tornando definitivo e claro, elle chegou emfim a fazer da Natureza, seu algoz, a Natureza, sua escrava, e, das chymeras de hontem, as verdades libertadoras de amanhã!
E caminha ainda, não descançou por ora o heroico viajante, avido de mais dôres, avido de mais sacrificios, avido de mais combates!
Caminha não sabemos para onde, mas decerto para onde haja mais luz, mas decerto para onde a alma tenha mais liberdade o espirito tenha mais amplo espaço e a consciencia, a inviolavel consciencia, a garantia sagrada de mais direitos!
E tudo isto sentiu, n'uma das suas horas boas, Anthero do Quental quando escreve este soneto suggestivo de heroicos impetos e de ambições sublimes:
Conquista pois sósinho o teu futuro, Já que os celestes guias te hão deixado Sobre uma terra ignota abandonado, Homem = proscripto rei = mendigo escuro!
Se não tens que esperar do ceu (tão puro, Mas tão cruel!), e o coração maguado Sentes já de illusões desenganado, Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te então na magestade estoica D'uma vontade solitaria e altiva, N'um esforço supremo de alma heroica
Faze um templo dos muros da cadeia Prendendo a immensidade eterna e viva No circulo de luz da tua Idea!
Oh! como isto é mais bello do que a derrota confessada do pensador que se refugia no pessimismo, achando no pessimismo uma solução, quando elle não é mais que um estado transitorio da alma contemporanea, um dos symptomas mais caracteristicos da doença de vontade, de que mais ou menos hoje estamos--ainda mal!--todos contaminados!
VI
Chegando ao termo d'este trabalho percebo que ha n'elle, além dos mil defeitos que outros lhe notarão, uma lacuna enorme que eu propria reconheço.
Tentando explicar o pensador, eu não tenho dado ao poeta o merecido relevo que elle tem; quero dizer, o pensamento d'estes _sonetos_ tem-me ás vezes feito esquecer a belleza singular da sua forma artistica! Parece que o soneto, pelos moldes precisos e rigorosos em que se vaza, seria o menos proprio dos generos de poesia para fixar, em formosa esculptura, as abstracções metaphysicas em que o genio de Anthero do Quental se compraz principalmente.
Porque este poeta não é como H. Heine, apezar de tantas similhanças que os aproximam, apesar de serem a negação e a duxida as muzas principaes da sua inspiração, e de ambos representarem, sob uma fórma de grande arte, este periodo de transição entre as velhas crenças e as novas convicções do espirito, que a analyse paciente e complicada está elaborando ainda. O poeta allemão tem a impressão directa das coisas, e é n'ellas, e não nas idéas, que elle distingue a linha comica, a contradicção irreductivel, a impassibilidade perfeita diante das velhas theorias que decahem e agonisam; Anthero do Quental eleva essas dôres á abstracção suprema do seu espirito, a uma especie de metaphysica imaginosa e vaga, que pareceria impossivel a um temperamento peninsular aquecido pelo nosso sol, vivificado pelo nosso clima, cingido no circulo, impressionador e ardente, dos seus horisontes de ouro e de fogo. A sua poesia é como o reflexo fluctuante, caprichoso e indeciso, das contradicções, das amarguras, das tristezas e dos sonhos do nosso tempo; ella canta a dôr de toda uma geração que a si propria se estuda, sonda e interroga, e sendo profundamente pessoal, como é, repercute-se e vibra todavia em muitas almas egualmente angustiadas e vacillantes.
Não tendo, pois, antecedentes da mesma especie, foi-lhe necessario crear, dentro da velha fórma consagrada, uma forma nova; e d'esta difficuldade sahiu-se admiravelmente Anthero de Quental. Os seus sonetos trazem a marca do auctor; não se confundem com nenhuns outros. Muitas vezes tem de sacrificar a melodia do verso á extensão e ao vigor do pensamento; n'esse caso não hesita, e o pensador vence n'elle o poeta.
De todos os poetas que eu conheço ha um que Anthero me lembra muitas vezes. É Sully Prudhomme. Mas devo accrescentar que a individualidade accentuada de Anthero escapa incolume a toda a comparação e a todo o confronto.
Já ouvi, não me recordo n'este momento a quem, que o livro dos _Sonetos_ lembra tambem em muitos pontos o _Diario_ de Amiel. É que realmente estas duas obras, diversissimas entre si, filiam-se na mesma necessidade inteiramente moderna que o homem sente de auscultar-se, de conhecer-se, e de fazer a si proprio innumeras perguntas.
A antiguidade não tinha este prurido de penetração psychologica; por isso a antiguidade foi feliz, radiosa, activa e sã.
Comtudo, dado o nosso gosto pronunciado para este genero de estudos, ainda bem que Anthero escreve, e que Amiel escreveu. Se o primeiro não tivesse cantado muitos dos seus adoraveis e extranhos sonetos, se o segundo não tivesse _notado_, momento a momento, os cambiantes de uma alma tão extraordinariamente e tão morbidamente complicada, perder-se-hiam documentos inapreciaveis para o estudo completo da alma contemporanea.
Amiel, que, emquanto viveu, foi obscuro e desconhecido, e que, morto, inspirou a muitos dos mais subtis moralistas modernos, taes como Renan, Caro, Bourget, etc., estudos minuciosos e delicados, soffria, como Anthero, de um excesso de _vida interior_, origem de desiquilibrios dolorosos. A solidão, em que Anthero vive e em que viveu Amiel, aggrava este estado, fazendo-o degenerar, de riqueza fecunda e rara, que pode ser, na perigosa doença que a _élite_ do nosso tempo soffre com raras excepções: o enfraquecimento progressivo nos orgãos que determinam a acção e predispõem para o combate.
Para este mal, o remedio efficaz e supremo seria o contacto de outros espiritos, o attricto com outras intelligencias hostis ou apenas finamente e subtilmente criticas, porque se a convivencia com os homens nos faz perder a independencia absoluta do espirito, ou a originalidade profunda dos que não vão na corrente da opinião geral, nem tão pouco navegam contra ella--o que é ainda um modo de a considerar--é claro que, em compensação, ella nos torna mais aguerridos para a lucta, mais tenazes nos nossos propositos e mais vivos nas nossas ambições.
Tanto Amiel como Anthero encarnam, pois, com extranha intensidade essa doença que se traduz pelas hesitações do querer, e pelas fluctuações permanentes do pensar. Para ambos a vida perdeu as linhas reaes, fixas e positivas, com que ella apparece ao espirito pratico das raças latinas, tornando-se no que é para os espiritos, ethnologicamente ou moralmente germanicos, para Carlyle ou para Goethe, para Shopenhauer ou para Shakspeare, um não sei que de indeterminado e de fluctuante, um sonho que apparece confuso, nebuloso e phantastico, sempre prestes a decompôr-se em transformações successivas, sempre em via de desmanchar-se e de refazer-se em condições novas.
A Allemanha tem a palavra propria que exprime esta concepção das coisas; nós não a temos, de tal modo ella repugna ao espirito da nossa raça!
Mas Anthero de Quental longe de ter adoptado a linguagem semi-barbara á força de requintada, com que Amiel pretendeu naturalisar latinas abstracções puramente e genuinamente germanicas, é pelo contrario um escriptor de raça, um escriptor de primeira ordem, dando ao seu sonho, vago como é, o molde nitido e magistral d'uma linguagem riquissima, e sabendo em certas horas ser um prosador de largo folego, um critico sagacissimo e cheio de penetração genial.
Bastariam para provar esta asserção, os seus dois magnificos opusculos: _Considerações sobre a historia da litteratura portugueza e causas da decadencia dos povos peninsulares_.
Pena é que um espirito tão extraordinariamente dotado não enriqueça a litteratura nacional com alguns livros de critica e de historia, que, tão bem como os melhores, elle poderia escrever.
Emquanto Anthero aspira infatigavelmente a alguma coisa de muito superior ao que a vida póde dar, Amiel escreve n'uma das paginas do seu _Diario_ este pensamento caracteristico:
«_Il n'y a de repos pour l'esprit que dans l'absolu, pour le sentiment que dans le divin; Rien de fini n'est vrai, n'est interéssant, n'est digne de me fixer!..._»
Amiel n'uma hora de lucidez rara, n'uma d'estas horas em que o visionario mais intransigente vê em clarão rapido o _nada_, das chymeras a que immolou a sua vida, traça estas palavras, que são uma revelação e que são um arrependimento:
_Le resumé: Nada! Rien!... Et pour dernière misére, ce n'est pas une vie usée en faveur de quelque être adoré ni sacrifié à une future espérance..._
Do mesmo modo Anthero escreve este _soneto_, que é como a suprema condemnação do seu funesto _credo_, que é como a lagrima que se desprende da pupilla cançada de contemplar inutilmente as profundezas insondaveis do _eterno abysmo_...
Empunhasse eu a espada dos valentes; Impellisse-me a acção, embriagado, Por esses campos onde a Morte e o Fado Dão a lei aos reis tremulos e ás gentes!
Respirariam meus pulmões contentes O ar de fogo do circo ensanguentado, Ou caíra raivoso, amortalhado Na fulva luz dos gladios reluzentes!
_Já não viria dissipar-se a aurora De meus inuteis annos, sem uma hora Viver mais do que sonhos e a anciedade!_
_Já não veria em minhas mãos piedosas Desfolhar-se uma a uma as tristes rosas D'esta pallida e esteril mocidade!_
* * * * *
Não foi esteril, não, a vida de quem produziu este livro, que ficará na litteratura portugueza occupando um logar _á parte_, nosso pela lingua, bella, harmoniosa e rica, em que está escripto, e d'outra raça bem diversa da nossa, pelo perfume exotico de que está impregnado.
N'este momento de cosmopolitismo litterario, em que a arte é uma Babel onde as raças e as linguas se confundem, este livro marca um momento, e como tal é precioso para os que pensam e para os que estudam.
Reflecte-se n'elle, além do que deixo dito, uma alma angelica, uma d'estas almas raras, que não podem deixar de soffrer muito n'um mundo para que não são feitas.
Eu deixei de proposito, inviolado pela minha critica, porventura audaciosa, o que ha de mais profundamente subjectivo, de mais intimo e de mais sagrado no volume adoravel de Anthero de Quental.
Muitas vezes as lagrimas me romperam irresistivelmente dos olhos, ao ver n'elle, deliciosamente reflectida, a aspiração, sempre incomprehendida, a um amor que o consolasse e redimisse! Pensar é perigoso. Melhor é sentir. Anthero pensou de mais.
Eis o motivo porque não encontra a consolação unica a que a sua alma aspira anciosamente e inutilmente.
Sejamos bons e dôces para a Vida! Ella tem horas sinistras, bem sei; ella tem a Duvida; ella tem a Dôr e tem o Silencio eterno a todas as interrogações anciosas da nossa razão e da nossa consciencia; mas de que doçura infinita ella nos não enche o coração! mas com que lagrimas abençoadas ella não apaga as sêdes ideaes da nossa alma cubiçosa! Como no mytho pagão, toquemos a Terra, quer dizer, retemperemos o nosso organismo cançado nas primitivas alegrias da simplicidade, da innocencia, e do amor! Não renunciemos a nenhuma das ineffaveis riquezas de que a Vida é depositaria fiel, e acharemos, n'este retrocesso á Natureza amiga e boa, a paz que os artificiaes _nirvanas_ d'este seculo nos não podem dar!
* * * * *
Concluo este estudo, que eu fiz com o maximo amor que o artista, por humilde que seja, póde pôr no seu trabalho, e no qual apenas a sinceridade suppre tantos predicados que me faltam, pedindo a Oliveira Martins desculpa da minha ousadia.
Melhor do que ninguem, elle fallou do seu amigo; melhor do que ninguem, elle o explicou aos que o não conheciam, tocando com recolhimento e com fervor quasi religioso n'esta alma, que é para tantos um enygma indecifravel, e dando luz a tantos pontos indecisos d'este temperamento artistico, extranho e singular.
Depois de ter inspirado aquelle sentido prefacio, com que o notavel historiador enriqueceu o seu livro, que necessidade tinha o poeta dos _sonetos_ de que uma alma, que o não conhece senão atravez d'elles, viesse fallar ao publico da sua complexa individualidade?
No prologo de O. Martins ha mais do que o seu talento; ha tambem o seu coração de amigo, e é isso o que, aos meus olhos, lhe augmenta enormemente o valor.
Se houve audacia na minha apreciação, que m'a perdoem, pois, o poeta e o seu critico. Eu não quiz mais do que fazer ver o livro extraordinario dos _Sonetos_ de Anthero á luz da minha impressão pessoal. Não tive outro intento, nem desejo outra recompensa além do prazer intimo e profundo que senti escrevendo estas palavras sinceras, depois de ter lido o livro adoravel que tão espontaneamente m'as inspirou.
_Antonio Candido_
I
Uma vocação irresistivel, uma d'estas vocações a que tem por força de obedecer-se, sob pena da mais tremenda mutilação intellectual, fez de Antonio Candido _um orador_.
Os escriptores fazem-se, os oradores nascem! Antonio Candido nasceu orador.
N'este ponto é elle absolutamente irresponsavel do seu destino.
Poucos haverá que em Portugal não saibam as circumstancias singulares que o subjugaram e venceram tragicamente, dando-lhe, n'este nosso meio muito uniforme e muito incolor, uma individualidade extranha, um toque de romanesco, que ainda mesmo nos oradores politicos destaca e assenta bem.
A vontade respeitada e querida de alguem, que elle muito amou, impoz-lhe um genero de vida com o qual o seu espirito, a sua educação, a sua comprehensão das cousas, o iam brevemente tornar incompativel.
Moço, ingenuo, inexperiente, elle subordinou n'uma hora de inconsciencia, de abatimento mental, toda a felicidade do seu destino futuro a essa vontade que respeitava sobre todas. Mais tarde, comprehendeu que as responsabilidades gravissimas que tinha acceitado, na sua imprudencia de moço, importavam nada mais e nada menos do que a abdicação da propria consciencia. Viu então que não podia occupar com sinceridade--isto é, com dignidade, porque é indigno tudo que não é sincero--a tribuna a que o tinham feito subir, e desceu d'ella sem hesitação e sem covardia.
Fez mal, diz o mundo; e não ha ninguem que o não tenha ouvido dizer muitas vezes, com aquella despreoccupada ousadia com que dizem tudo os que não acreditam em cousa alguma.
Fez mal. _Il est avec le ciel des accommodements_; e a sociedade actual, como em summa todas as sociedades extra-civilisadas, não exige heroismos nem abnegações sobre-humanas.
Ella só quer o respeito apparente das convenções estabelecidas; no mais, acha regular que se sophismem os preceitos, que se illudam e transgridam hypocritamente as leis. O que exige apenas e não se dirá que exige muito--é que se acceitem as posiçoes definidas, e que se finja acatar todas as tyrannias sociaes que a tradição consagra.
Que fizesse mal ou bem não me pertence a mim julgar aqui. O caso é que o fez, e que o fez com tamanha dignidade, com uma reserva tão silenciosa, com um desdem dos bens positivos e das utilidades praticas tão intellectualmente aristocrata, que ninguem ousou atacar de frente este acto d'uma vontade, esta determinação d'uma consciencia!
Os que privam de perto com Antonio Candido sabem que elle amou muito essa tribuna, onde a sua palavra deixou vestigios de graça incomparavel e de soberbo vigor.
Amou-a muito, e nunca a ella se refere sem o respeito enternecido e a vaga saudade dos que viram dissipar-se um sonho querido.
Mas ficar onde a Fé o não prendia teria sido uma transigencia covarde com a hypocrisia mundana.
Só espiritos amesquinhados pela comprehensão d'uma falsa moral o poderiam applaudir. Antonio Candido não teve essa transigencia. Antepoz a todas as considerações de facil e util egoismo o seu culto sincero pela verdade, a sua noção grave e austera do Dever.
Com a sua intelligencia malleavel, penetrante, capaz de vêr justo e de vêr fundo, percebeu, de certo, antes de tomar a resolução definitiva de romper com o passado, as difficuldades extremas que a vida ia ter para elle. Não hesitou, porém, certo de que na sinceridade ingenua do seu coração, na pureza do seu caracter, n'aquella isenção desdenhosa que é a melhor salvaguarda do homem superior, n'este tempo sem crenças absolutas, elle encontraria sempre um guia seguro para as complicações de ordens diversas, que tivessem de surgir diante dos seus passos.
II
Outra tribuna, a tribuna politica, se lhe abriu então ampla e rasgada!
Quem não advinha hoje as tristezas que a consciencia austera d'este homem terá sentido ao apalpar a inanidade vã das chymeras que sonhou antes de entrar n'este novo mundo!...
Porque, os que julgando amesquinhal-o e diminuil-o, lhe chamam _poeta_, sómente se enganam na intenção com que o fazem. Se é ser poeta não poder viver sem um ideal de justiça, de belleza, de bondade que sobredoire ainda as concepções mais vulgares, que espiritualise ainda as realidades mais praticas; se é ser poeta ter sempre a impulsal-o, a commovel-o, o sonho de _melhor_, a aspiração indefinida a alguma cousa que ainda não foi realisada no mundo, mas por amor da qual o mundo tem caminhado sem parar; se é ser poeta ter a comprehensão, perfeita e sympathica, de todos os sonhos adoraveis com que se entretem eternamente a phantasia d'esta velha creança incorrigivel chamada, a Humanidade--Antonio Candido é poeta como os que mais o são.
Lembro-me de o ter ouvido, ha bastantes annos, fallar com enthusiasmo na vida nova que encetára,--resignado já ao tragico _abortamento_ do seu destino de homem;--lembro-me de o ter applaudido quando, diante de mim e d'alguns amigos sinceros, dos quaes um já desappareceu da terra, elle desenrolláva com a palavra flexivel e deslumbradora, colorida e vibrante, em que a eloquencia é tão natural que chega mesmo a ser involuntaria, os planos sociaes que o consolavam de tanta cousa perdida para sempre, ou para sempre inacessivel...
É provavel que hoje Antonio Candido já não sonhe; mas acredita ainda decerto que a evolução necessaria das sociedades tende constantemente a melhorar os seus instinctos, a esclarecer a sua consciencia, a diminuir n'ellas a somma do mal e da iniquidade, a desenvolver mais e mais no seu espirito a ambição d'um alto destino... E a sua philosophia, a que elle ás vezes se refere sorrindo, e ácerca da qual os seus amigos gracejam benevolamente, não se perturba nem se ensombra, porque o meio que o cerca n'este momento parece comprazer-se em contradizer todas as suas formulas, em desmentir todas as suas conclusões...
De feito elle tem visto que, na lucta que as ambições pessoaes travam na scena politica, o vencedor paga o seu doloroso, o seu humilhante triumpho, com os thesouros insubstituiveis da integridade e da delicadeza moral. Elle tem tido, hora a hora, a prova irrefutavel e desconsoladora de que a _habilidade_ vence o genio, de que a astucia vence a virtude, de que os meios tortuosos vencem os impulsos dignos e as aspirações sinceras.
A historia moderna em Portugal tem sido, sem duvida, um ensinamento fecundo e triste para esta intelligencia tão penetrante na analyse das cousas, como intuitiva e superiormente sagaz na sua concepção synthetica.
Porque é que n'esse caso não deserta elle o exercito sem ideal, onde--errando mais uma vez o caminho da vida--elle se alistou na ingenua confiança do seu optimismo juvenil?
Por muitas razões, umas claras e simples, outras mais complicadas, umas originadas, simplesmente pelo seu proprio destino, outras que derivam naturalmente da especie de determinismo historico, que principalmente o inspira ainda nas crises de mais desolação interior, ainda nas luctas mais dolorosas da sua sensibilidade um pouco feminina, quasi morbida...
Como Renan, um dos seus amigos ideaes, o mystico e bondoso coração com o qual o seu tem tantos pontos de contacto--elle acceita resignado, com o benevolo desdem das almas fortes, a dura lei que, fazendo tão grande e tão sublime a Humanidade, fez ao mesmo tempo tão frageis e tão imperfeitos os individuos, a complicação inextricavel, apparente, que existe em tudo que nos cerca, e que faz com que, muita vez, as mais contrarias soluções do mesmo problema moral sejam igualmente justas, igualmente legitimas diante do olhar da Critica; a certeza melancolica de que os males e as miserias que nos circumdam e nos fazem tanta vez perder de vista o ceu azul, o amplo espaço luminoso e puro, não são feitas pela vontade dos homens, são simplesmente modificadas por ella n'um ou n'outro ponto secundario. Elle sabe que só a vagarosa evolução dos tempos pode exercer a acção que antigamente se attribuia ao capricho ou á influencia immediata de homens providenciaes.
D'aqui a sua tolerancia, a sua resignação austera e triste, e a expressão melancolica da sua palavra, em que não ha revoltas inuteis nem injustiças escusadas, mas sim a tragica acceitação de leis ineluctaveis e crudelissimas.
Cada epocha que passa não faz mais do que servir, intelligentemente ou cegamente, conscia da sua missão historica ou ignorante d'ella, a corrente das idéas, dos factos, dos phenomenos que o periodo anterior tinha necessariamente preparado.
Caminhantes forçados d'uma estrada enorme, cujo principio se perde em sombras incognosciveis, cujo fim nenhum olhar descortina ou sondará jamais, nós seguimol-a, resistentes ou doceis, confiantes ou resignados, scepticos ou cheios de fé, egoistas ou desinteressados, parando nas _etapes_ marcadas, perdendo-nos momentaneamente nas charnecas aridas, ou nos atalhos floridos e risonhos, mas voltando, apoz o retrocesso rapido, ao longo caminho que necessariamente temos de seguir, como o astro segue a sua trajectoria, como a Vida segue a sua evolução.
De resto, aos que perguntarem a Antonio Candido o motivo porque elle, sem ambições pessoaes de especie alguma e com poucas illusões a respeito todas as cousas, ou antes julgando todas as cousas uma illusão mais ou menos radiosa, se conserva ainda assim no seu posto de politico militante, elle responde com um bello trecho d'um dos mais bellos discursos que este orador tem pronunciado, o discurso consagrado á memoria de Braamcamp.
«O desfavor com que a _acção politica_ é considerada por muitos espiritos superiores, no velho e no novo mundo, tem da sua parte, é forçoso confessal-o, bastantes apparencias de razão.
Pela sua influencia immediata e complexa, e pela enorme comprehensão dos interesses que move, este genero de acção é o mais vasto, o mais attrahente de quantos podem sollicitar um homem de intelligencia e de vontade; mas como estadio de exhibição moral e como processo de educação publica mostra-se a esta hora, na America e na Europa Occidental, adverso a muitos interesses da dignidade civica, da justiça distributiva, da logica que deve haver nos factos, e do prestigio que as pessoas devem conservar. Tem uma base intellectualmente falsa: a philosophia naturalista do seculo XVIII! Tem um principio inane e contradictorio: a soberania popular. Tem um processo que não qualifico... por uma delicada circumstancia de logar e de tempo: o suffragio universalisado! Tem um limite para as elevações pessoaes, que difficilmente varia: a mediocridade. Tem uma litteratura propria, quasi sempre sem ideal e sem verdade: o jornalismo e a oratoria parlamentar. Tem uma liturgia sem pompa e sem pensamento: a das ficções constitucionaes.
A grande revolução, de que promana e deve dactar-se toda a moderna historia, assumiu, como se sabe, as formas d'um drama grandioso, enorme.
«Emquanto este drama desenrollou nos Estados latinos as suas scenas formidaveis foi sublime de paixão, de força e de movimento. O theatro grego, em que intervinham deuses, não é mais maravilhoso do que este em que representaram povos!
«Mas a commoção publica, como estado violento, não podia ser perduravel; a ebullição dos espiritos, consumidora quando é prolongada, não poude deixar de diminuir; recahiram nas condições normaes da vida os homens e as nações que se tinham exaltado até ao heroismo e até ao martyrio; e viu-se então que a superficie moral do mundo ficára com o aspecto devastado, arrefecido, melancolico, d'uma floresta que o incendio consumisse, e de que os velhos troncos em cinza tivessem apenas servido para fecundar rasteiras vegetações uniformes, de pouco vigor e sem vulto definido ainda...
«A França, onde a immensa combustão principiara, ainda se reenflammou uma vez contra a senil e caduca _Restauração_ e teve, durante alguns annos, uma prolongação artificial de vida politica na tribuna illustre de Guizot, Royer Collard e Thiers, e na imprensa convicta e apaixonada de Armand Carrel e de P. L. Courier; mas formado e desfeito o sonho de 1848, caiu, sossobrou, veio, pouco a pouco, a volver-se no que está, no que é hoje... A Italia depois de Cavour e de Garibaldi, a Hespanha depois de Espartero e de Mendizábal, Portugal depois de Mousinho da Silveira e de Saldanha,--grandes nomes que marcam a estatura de velhos povos,--voltaram fundamentalmente ao que eram d'antes, porque ha, meus senhores, uma tyrannia que as espadas não cortam, e um despotismo que a penna do legislador não fere de morte; a tyrannia das raças, e o despotismo da historia!
«N'este estado de cousas, _superior aos antecedentes porque sempre é um ponto vencido na serie do progresso humano_, mas repousado, egoista, apenas assignalado por um mais intenso fervilhar de vida vegetativa e intellectual, sem accidentes revolucionarios, salvo quando a questão politica trava na questão nacional, como em Italia antes da occupação de Roma, na França depois de 1870 e na Inglaterra actualmente; n'este estado de cousas, pouco propicio ás germinações do heroismo, e ás ostentações da grande força, porque os _obstaculos sociaes deslocaram-se do mundo para a consciencia_ e o poder publico desvigorisou-se, enfraqueceu nas multiplas divisões que o fraccionaram: n'este estado de cousas, que em compensação de tanta inferioridade é pacifico, é evolutivo, é felizmente desassombrado de terrores divinos e humanos--_ha um largo espaço para uma boa intelligencia que queira applicar-se, para uma energica vontade, que queira desenvolver-se, para um caracter honesto e digno que a vida publica tente com as suas glorias e os seus sacrificios, com os seus ruidosos triumphos e as suas tremendas ingratidões_!»
Citei todo este largo trecho, em que vão sublinhadas por mim algumas passagens mais significativas, porque, formosissimo, como forma, admiravel com synthese historica, elle vem de molde para definir as idéas que Antonio Candido tem ácerca da politica moderna, e os motivos que actuaram n'elle para continuar na vida publica que adoptou.
* * * * *
Como quer que seja e sem me alongar, indiscretamente, em considerações que prendem no que ha de mais delicado e mysterioso n'uma consciencia de homem, o que é verdade é que Antonio Candido é hoje a suprema representação da arte oratoria no mundo politico e litterario d'este paiz.
Não é que no parlamento portuguez não brilhem talentos muito notaveis,--nas nossas assembléas meriodinaes sabe-se que não é o talento que falta--muitos fallam bem, argumentam bem, discutem bem.
Ha tribunos enflammados, ha luctadores politicos, a que nenhum segredo da estrategia parlamentar é vedado, mas orador, apezar de tudo é só elle.
Todos, em qualquer dos campos partidarios em que militem, o reconhecem unanimemente. Observação feita muito de passagem--o partido opposto áquelle em que Antonio Candido está, reconhece-o muito mais ostentivamente do que o seu proprio partido, injusto muitas vezes, ingrato quasi sempre para este homem que tanto o illustra.
O orador, é o mais privilegiado e o mais raro entre todos os artistas, e tambem--como que para contrabalançar a influencia directa e poderosa que só elle consegue exercer, como que para amargar e diminuir a sensação voluptuosa de força e de imperio absoluto, que só elle experimenta em certas horas de triumpho moral, quando a sua palavra fremente e indignada passa, curvando os espiritos, como a ventania passa, curvando as grandes arvores--o seu poder é de todos o mais passa
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