Amor de Salvação
Camilo Castelo Branco
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Amor De SalvaçãO
Amor De SalvaçãO
Por
Camillo Castello-Branco
A heavy price must all pay who thus err, In some shape; let none think to fly the danger, For soon or late Love is his own avenger.
BYRON--_Don Juan, c. IV. est. 73_.
L'amour n'a point de moyen terme: ou il perd, ou il sauve.
V. HUGO--_Les Misérables_.
PORTO EM CASA DA VIUVA MORÉ--EDITORA PRAÇA DE D. PEDRO A mesma casa em Coimbra, rua da Calçada. Casa de Commissões em Paris, 2bis, rua d'Arcole. 1864
Porto--Typographia De Antonio José Da Silva Teixeira
Cancella Velha, 62
A José Gomes Monteiro
_Meu amigo_
_Peço licença para inscrever o seu nome na primeira pagina d'este livro. Esta fica sendo para mim a mais prestante da obra. As outras são futilidades; por que lagrimas e alegrias de romance é tudo futil._
_No Minho, em 1864._
_Camillo Castello-Branco._
ObservaçãO
O leitor folhêa duzentas paginas d'este livro, e o amor de felicidade e bom exemplo não se lhe depara, ou vagamente lhe preluz. Tres partes do romance narram desventuras do amor de desgraça e mau exemplo. A critica, superintendente em materia de titulos de obras, querendo abater-se a esquadrinhar a legitimidade do titulo d'esta, póde embicar, e ponderar--que o amor puro, o amor de salvação vem tarde para desvanecer as impressões do amor impuro, do amor infesto.
Respondo humilimamente:
Amor de salvação, em muitos casos obscuros, é o amor que excrucia e deshonra. Então é que o senso intimo amostra ao coração a sua ignominia e miseria. A consciencia regenera-se, e o coração, rehabilitado, avigora-se para o amor impolluto e honroso. Assim é que as enseadas serenas estão para além das vagas montuosas, que lá cospem o naufrago aferrado á sua tabua. Sem o impulso da tormenta, o naufrago pereceria no mar alto. Foi a tempestade que o salvou.
Além de que a felicidade, como historia, escreve-se em poucas paginas; é idyllio de curto folego: no sentir intraduzivel da consciencia é que ella encerra epopeas infinitas;--em quanto que a desgraça não demarca balizas á experiencia nem á imaginação.
Para o amor maldito, duzentas paginas: para o amor de salvação as poucas restantes do livro. Volume, que descrevesse um amor de bem-aventuranças terrenas, seria uma fabula.
O Author.
Amor De SalvaçãO
I
Estava claro o céo, tepido o ar, e as bouças e montados floridos. O mez era o de Dezembro, de 1863, em vespera do Natal.
A gente das cidades pergunta-me em que paiz do mundo florecem, em Dezembro, bouças e montados.
Respondo que é em Portugal, no perpetuo jardim do mundo, no Minho, onde os inventores de deuses teriam ideado as suas theogonias, se não existisse a Grecia. No Minho, ao menos, se buscariam aguas lympidas para Castalias e Hipocrenes. No Minho, a Cythéra para a mãe dos amores. Nos arvoredos d'esta região de sonhos, de poemas, e rumores de conversarem espiritos, é que os satyros, as dryades e os sylvanos sahiriam a cardumes dos troncos e regatos: que tudo aqui parece estar dizendo que a natureza tem segredos defesos ao vulgo, e como a entreabrirem-se á phantasia de poetas.
Mas que flôres... quer o leitor saber que flôres vestem os calvos e denegridos serros do Minho, em Portugal. São flôres a festões, cachos de corolas amarellas, viçosas, e aveludadas como as dos arbustos cultivados em jardins: é a florescencia dos tojaes, plantas repulsivas por seus espinhos, alegres de sua perpetua verdura, unicas a enfeitarem a terra quando a restante natureza vegetal amarellece, definha, e morre. E d'esse privilegio como que o agreste arbusto se está gozando soberbamente; pois que vos amostra as suas pinhas de flôres, e com os inflexiveis espinhos vos defende o despojal-o d'ellas.
E n'aquelle dia 24 de Dezembro de 1863 andava eu no Minho, por aquella corda de chans e outeiros, que abrangem quatro leguas entre Santo Thyrso, Famelicão e Guimarães.
Eu, homem sem familia, sem mão amiga n'este mundo, ha trinta annos sósinho, sem reminiscencias de caricias maternaes, bem-quisto apenas d'uns cães, que pareciam amar-me com a clausula de eu os sustentar e agasalhar; eu, que, n'aquelle tão festivo dia da nossa terra, não tinha colmado onde me esperasse um amigo pobre para me dar entre os seus um lugar no escabello, nem parente abastado, que de mim se alembrasse á hora dos brindes com generosos vinhos em lucidos crystaes, eu, vendo-me com lagrimas em minha sombra, assim me fôra a contemplar a felicidade alheia pelas chans e outeiros do devoto Minho.
Eu caminhava a pé, guiando-me ao sabor da imaginativa idéa, que se deleitava em vestir de folhagem a arvore nua, e tristemente inclinada sobre o colmado do casalejo. Parava em frente de cada choupana, e meditava, e escutava o rumor das vozes que lá dentro, ou no ressaio da horta, se misturavam em dizeres alegres ou cantilenas allusivas ao nascimento do Deus-menino. Diante dos portões gradeados do proprietario rico é que eu não parava, nem meditava. Se lá dentro de suas salas iam alegrias, como em casa do jornaleiro, não sei: o certo era que as paredes da habitação opulenta não deixavam sahir uma nota para o hymno geral de graças e jubilo com que a pobreza saudava o Emancipador dos desherdados, o Senhor dos mundos, nascido e gasalhado nas palhinhas de um presepio.
O sol, desnublado de vapores, como nas tardes serenas de Julho, oscillava nas montanhas do poente, e azulejava as grimpas dos pinheiraes, d'onde eu, a contemplal-o, me esquecera da distancia a que me alongára da casa hospedeira d'aquella noite. Transmontado o sol, desceu das cumiadas um toldo pardacento a desdobrar-se pelos plainos, a confundir-se no fumo das aldêas, a identificar-se com o escuro dos arvoredos. Fez-se um silencio progressivo e rapido em redor de mim. Começava a noite sem bafejo de vento. Nem já a rama dos pinhaes rumorejava aquelle seu saudoso sonido, que se me figura sempre a inarticulada toada de mui remontadas e remotissimas vozes de mundos que giram nas profundezas do espaço.
Tirei-me do meu enleio contemplador, e retrocedi pelo mal sabido atalho, antes que a cerração completa me tolhesse de enxergar ao longe o alvejar da casa, entre dous outeiros. Não valeu a precaução. Ás abas do declivoso montado, eram muitos os caminhos a cruzarem-se. Segui um á sorte; e, como prova de que a sorte nem em escolha de caminhos deixou de ser-me sempre boa, segui o peor e o mais transviado de todos. Por volta de sete horas, depois de dobrar uns serros inhabitados, achei-me n'uma póvoa, onde me disseram que eu, por aquelle caminho, chegaria mais cedo a Roma que ao local onde me destinava.
A pessoa, que respondeu assim á minha pergunta, fallou-me d'uma janella envidraçada, e acrescentou:
--O senhor, se não sabe o caminho, como de facto não sabe, pelo tino é incapaz de acertar. O que eu posso fazer é mandar alguem ensinal-o; mas, se não é força ir hoje, pernoite n'esta casa, e amanhã irá. Verdade é que, n'esta noite, custa muito a ficar em casa estranha; porém...
--Todas as casas são estranhas para mim...--respondi eu.
--Pois então, aceite esta que se lhe offerece da melhor vontade. O portão está aberto. Lá vou abaixo recebel-o.
Entrei n'um vasto pateo, contornado de arcadas semelhantes ás da claustra monastica. Logo em seguida, o hospitaleiro senhor do magnifico edificio sahiu do escuro da arcaria, e disse-me antes de me vêr de perto:
--Eu já sei quem recebo em minha casa, e o meu hospede, se tiver memoria dos seus relacionados de ha quinze annos, tambem me vai conhecer.
--Pela voz ainda não--disse eu, encarando-o, sem vislumbres de vaga recordação.
--Alli temos luz--replicou elle--Muito velho e desfigurado devo estar, se nem á candêa me reconhecer vossê!...
Examinei-o á luz attentamente; e, como nem assim me acudisse á memoria semelhança de tal homem, retorqui:
--O senhor talvez esteja enganado commigo. É provavel que nos vejamos agora pela primeira vez.
--Então qual de nós é o romancista? Vossê que os anda a procurar, ou eu que estou manso, quieto, e estupido em minha casa? Quererá vossê ir dizer em alguma novella que encontrou n'um recanto do Minho um visionario chamado Affonso de Teive...
--Affonso de Teive!--exclamei eu--Affonso de Teive... o senhor?! Essas barbas... essa nutrição...
--E estes oculos...--atalhou elle.
--É verdade... esses oculos...
--E estes tamancos!...
--Pois, devéras, o senhor é Affonso de Teive... tu és Affonso... aquelle que tinha em Lisboa...
--Uma casa no Campo Grande, e uma parelha de hanoverianas, e um phaetonte, e uma berlinda, e cavallos arabes, e paixões ideaes, e muitas paixões sem faisca de idéa... Sou eu! É este homem gordo, intonso, de oculos, de tamancos, este lavrador, que aqui vês, possuidor d'um thesouro que os reis do universo disputam ha dezenove seculos uns aos outros, e as nações disputam aos reis, e os individuos disputam ás nações, e cada individuo disputa e destroe em si proprio e com as suas proprias mãos: sabes que thesouro eu possuo, homem?
--A paz?
--A felicidade.
--Isso é uma historia!--atalhei eu--Pois tu achaste a felicidade?... e tu és realmente Affonso de Teive?... E estes dous pequenos?--perguntei eu, quando vi dous meninos entre seis e oito annos a correrem em direitura d'elle--são teus filhos de certo...
--São, e lá em cima não ouves o tropel que fazem os outros seis?
--Pois tens oito filhos?
--Espero o nono brevemente.
--E és...
Retive a palavra. Ia eu perguntar-lhe grosseiramente se elle era feliz com oito filhos; pergunta desculpavel ao Affonso, que eu conhecera desde 1845 até 1851.
Eu tinha visto Affonso de Teive, em Coimbra, n'aquella primeira época, matriculado no curso philosophico. Pertencia ao circulo de litteratos, creadores da _Revista Academica_ e _Trovador_; e tambem, nas horas furtadas ás palestras litterarias--quasi sempre controversias ácerca da primazia de Lamartine ou Victor Hugo--pertencia á grande tribu dos _trossistas_, gente arruadora e desatinada, para quem as saudosas tradições do famigerado José Lobo não tinham ainda esquecido. Esta dualidade em Affonso de Teive era uma distincção, que o tornava menos agradavel aos litteratos circumspectos, e menos estimavel tambem aos camaradas das assuadas e motins nocturnos. Affonso era poeta n'um genero galhofeiro, quando queria; e dedilhava o alaude das elegias, se lhe dava para lastimar-se, ou carpir saudades imaginarias de mulheres, suas amadas, fugidas d'este lamacento globo para os plainos balsamicos do céo. É o que me parecera a mim. Tinha dias de escrever jaculatorias em verso, que dariam fama a um eremita da Thebaida; n'outros dias, satyrisava a religião, os dogmas, e a propria divindade com os apódos e dialectica d'um desbragado discipulo de Voltaire. E o mais para assombro é que elle parecia sentir no coração o ascetismo de hoje, e a impiedade de ámanhã: agora, iria de poz o pallio da extrema-uncção murmurando as preces do povo, que não se peja de orar em publico e alta voz; e logo bem poderia succeder que, encontrando o mesmo prestito, não levasse a mão á fronte para tirar o gôrro. A um homem assim dotado de tão contradictorios espiritos, facil seria agourar-lhe grandissimos dissabores no trajecto da existencia: para os semelhantes d'aquelle funesto modêlo, as estradas communs da humanidade não conduzem a paragem nenhuma certa; nem o coração nem o espirito aceitam leis immutaveis; a moral é um facto, cujas condições deve e póde infringir aquelle a quem ellas não aproveitam; em summa, Affonso de Teive dava a prever um desgraçado, a menos que em sua indole não sobreviesse uma das raras revoluções, que inopinadamente transfiguram o homem moral, se não é o abalo da mesma desgraça que opera esses prodigiosos reviramentos.
Tal conheci em 1845 em Coimbra o meu hospedeiro minhoto de 1863.
Encontrei-o, depois, no Porto em 1848.
Achei-lhe a mudança que influem os salões nos espiritos, para assim dizer, incultos da cortezania e graciosidade de que em geral carecem os mancebos sahidos dos cursos escolares.
Affonso de Teive tinha fama de rico. Escutei o que diziam os almotacés dos haveres de cada sujeito admittido á sociedade portuense--pessoas, que á vista do zelo com que indagam os minimos valores do sujeito, parecem habilitar-se para mordomisarem os bens de quem chega--e ouvi que Affonso era natural do Minho, filho unico já orphão de pae, e senhor de sua casa, estimada em cento e cincoenta mil cruzados. Em quanto a costumes, dizia-se que o rapaz era dado ao namôro, borboleteava por diversos camarotes do theatro de S. João, assoprava zelos e raivas entre umas tantas senhoras nos bailes, e pouco mais digno de censura. De escandalos, não rosnava cousa importante a opinião publica. A mocidade do Porto, por despeito, ou por outro qualquer sentimento igualmente natural que desculpavel, é que, no intento de deprimir o Tenorio do Minho, divulgava, como quem diz muito secretamente a cousa, que varios maridos andavam enganados com Affonso de Teive; porém, como acontecia que os maridos indigitados se satyrisavam uns aos outros, observando e censurando cada um a demasiada confiança do outro, é hoje cousa difficilima de tirar a limpo se algum dos maridos se enganava, ou se todos se enganavam, ou se não se enganava nenhum. Se o leitor considera que seria curioso esquadrinhar o caso, eu de mim entendo que a humanidade não ganha com isso nada, e por tanto n'este, e em muitos outros artigos advenientes de moral duvidosa, ponho, e porei ponto, quando não seja preciso á contextura d'este romance desvelar factos censuraveis.
Affonso sahiu do Porto n'aquelle mesmo anno de 1848, com destino a França, segundo uns, e á Turquia, segundo outros. Os d'esta opinião diziam que elle, convencido de que tinha uma cara oriental, ia para terra onde podesse vestir-se de modo que o rosto lhe sahisse melhor do que entre uma gravata de laçarias portentosas e um canudo de felpo lustroso. E certo era que o typo physionomico do cavalheiro minhoto era sobremaneira arabe, por causa do nariz fino, dos olhos coruscantes, da tez azeitonada, do espesso bigode negro, e do comprimento e magresa do rosto. Se ajuntarmos a este composto de venturosas e aventureiras feições o estar elle sempre fumegando por cachimbo turco, dir-se-ha que os turcos é que propriamente, lá na sua terra, o andavam imitando a elle.
Se foi á Turquia, é de presumir que rivalidades com o sultão, ou--peor ainda--tentativas de invasão ao harem o obrigaram a voltar a Portugal, onde os direitos de cada homem e de cada mulher estão muito mais razoavelmente definidos e garantidos. A verdade é que eu, no fim do anno seguinte, encontrei Affonso de Teive em Lisboa, cavalgando um donoso alazão ao lado de uma amazona, cujo mursello fazia admiraveis gentilezas de picaria. Deu-se este encontro no Campo Grande, n'uma tarde de corridas equestres. Alguem cuidaria que a soberba cavalleira, d'uma formosura invejavel na Circassia, devia de ser a esposa raptada d'algum _gran-visir_; pessoas, porém, melhor informadas, disseram-me que a esvelta dama era portugueza de lei, portugueza do Minho, dos arrabaldes de Braga, onde os reaes sensualistas do Islam mandariam subornar as suas sultanas, se soubessem que n'estas regiões as mulheres, que, por acaso, sahem feias das mãos da natureza, aprendem a ser bonitas com as flôres. Releve-se este orientalismo a quem está tratando de cousas asiaticas como a cara de Affonso, e o garbo peregrino de Palmyra.
Palmyra me disseram que se chamava a gentil creatura.
Posto que eu, em Coimbra e no Porto, me houvesse relacionado algum tanto intimamente com Affonso de Teive, ainda assim, azado o ensejo de perguntar-lhe promenores d'aquella conquista--_conquista_ se diz vulgarmente do que devêra mais de siso chamar-se, fartas vezes, _derrota_--nada indaguei, visto que elle, com insolito resguardo, se absteve de me dar ansa a esgaravatar-lhe cousas particulares da vida--_particulares_, dissemos, para sustentar á palavra a fama que o diccionario faz correr; sendo aliás de toda a evidencia que não ha ahi cousa mais nua, mais publica e assoalhada que tudo quanto se chamam _particularidades da vida privada_, mormente quando o divulgarem-se torna e redunda em philaucia d'uns tolos celebres, que seriam invejaveis, se as proprias corôas, com que cingem as frontes, lhes não dessem muito que doer com os espinhos escondidos--quero dizer em estylo espalmado: se as proprias mulheres, que lhes dão os triumphos, não fossem os instrumentos com que a justiça infinita inflige aos vangloriosos o castigo infernal do seu orgulho.
Foi-me preciso escutar os boatos correntes á conta da mulher que Affonso de Teive me não apresentou. Observei que ninguem a julgava honestamente, e assim mesmo ninguem lhe dava um epitheto indecoroso. A civilisação beneficia assim as mulheres que não podem adjectivar-se publicamente virtuosas, nem mesmo quando visitam com a esmola a mansarda do doente desvalido. N'esta especialidade, o jornalismo comporta-se louvavelmente. Quando um localista pregoa o donativo de alguns lençoes que opulenta matrona, por variar prazeres d'alma, já cançada dos transitorios gozos d'outra especie, mandou a um asylo de lazaros, e diz que a humanidade abençôa a virtuosa senhora, não nos havemos de entalar com este decreto de virtude: a humanidade manda que o engulamos. O localista tem razão: é bom que a palavra _virtude_ sirva de piedoso visco á liberalidade de pessoas, que desejam alguma vez, ao lerem-se _virtuosas_, experimentar a satisfação de se verem ir á posteridade na secção do noticiario.
O _noticiario_! Ninguem, que me conste, aprofundou ainda o que esta palavra encerra em si de humanitario! S. Paulo, todos os evangelistas, as catecheses derramadas de angulo a angulo da terra, em materia de caridade, não se avantajaram á missão do noticiario.
Se eu não tivesse de convicção minha que as acções meritorias dos gabos do mundo, quando disparam em proveito geral, não podem desmerecer no juizo divino, havia de cuidar que a mão, aberta em fontes caudaes de ouro vertido, como balsamo, sobre as chagas sociaes, bateria ás portas da região pavorosa, onde o peccado da soberba, alliado da vaidade, soffre a condemnação prescripta nos codigos de todas as religiões. A vaidade levanta o palacio em que se acolhem os desamparados d'um tecto de palha e d'uma enxerga de folha. A vaidade doura-lhe os frontaes do asylo, atapéta-lhe os porticos, ventila-lhe por janellas de luxuosa alvenaria os dormitorios, tudo lhe magnifica e opulenta em pedra e estofo: tudo lhe dá em desconto das dôres da velhice alanceada de enfermidades; tudo, excepto o pão da alma, a doutrina da paciencia, a communhão santissima, que refaz o espirito quando o corpo desfallece. Tudo lhe dá, excepto um padre, um interprete do Christo, que dê vida de amor ao seio traspassado, e palavra de pae aos labios roixos d'aquelle crucificado, que lá do fundo do dormitorio contempla inertemente o deslaçar-se fibra a fibra d'aquelles corpos, alli postos como prêsa disputada, por mais alguns dias, á aniquilação...
--E não é isto o maximo quilate da beneficencia?
Que hei-de eu responder ao leitor illustrado, que me interrompe, assim de golpe, um discurso que lhe havia de mortificar o folego, pelo menos?!
Peço-lhe que me deixe contar-lhe em cincoenta linhas, pouco mais ou menos, como eu vi, n'uma terra d'estes reinos, crear-se, e prosperar um asylo de pobres.
D. Elvira era uma dama casada, que não tinha por seu marido aquelle amor que dá ao peito da boa esposa arnez de aço contra as frechas de um cupido estranho. O marido, nimiamente confiado em seus direitos, descuidou-se. Aqui está um mal enorme d'onde vamos vêr brotar uma enchente de beneficios á humanidade. O paradoxo demonstra-se d'este theor:
D. Elvira, desconfiada dos seus servos e servas, tomou como medianeira dos seus illicitos amores, uma octogenaria, que tinha quatro irmãos velhos, um marido velho, duas cunhadas velhas, e cinco sobrinhos velhos, todos mais ou menos glutões que ella, e alguns muito mais ociosos e patifes. D. Elvira occorreu por algum tempo ás precisões de toda esta tribu de immoraes, em obsequio á interventora indispensavel. Uma vez, D. Elvira orçou as despezas annuaes d'esta peccaminosa obrigação, e pasmou do seu desperdicio. As avultadas esmolas, de mais a mais, eram secretas, porque o descobrirem-se daria rasto á suspeita. Na terra havia dous jornaes, e nenhum lhe tinha ainda chamado virtuosa, ao passo que a sua presumida rival D. Benedicta por mais d'uma vez tinha sido abençoada pelas gazetas; em nome do genero humano, em virtude de ter mandado aos presos os sobejos d'um jantar dado no dia natalicio do marido, a quem ella estimava tanto como a mim, quando souber que eu duvidei grandemente da virtude que os jornaes lhe deram. D. Elvira despeitada, um dia que o marido entrára d'ouvir o tocante sermão de um missionario ácerca de caridade, commoveu-se, e prégou tambem sobre a mesma virtude theologal. O marido maravilhou-se, enterneceu-se, e ouviu com lagrimas a proposta da fundação d'um abrigo de velhos e velhas desamparados, com as economias da esposa. Discutido o programma, escolhido o edificio, orçadas as obras de pedra e madeira, chegou a noticia ás gazetas. No dia seguinte, ambos os jornaes da terra retiraram os seus artigos de fundo para darem a circumstanciada noticia do caritativo instituto da virtuosissima senhora D. Elvira. Ambos os periodicos, á compita, lhe deram estes regalados e maviosos nomes: Pomba de beneficencia; anjo da caridade; sacerdotisa da lei de Jesus; mãe dos pobres; balsamo dos afflictos; esteio da decrepidez; lampada do Evangelho!
Lampada não gostou ella que lhe chamassem, porque já a sua rival D. Benedicta costumava, não sabemos bem porque, chamar-lhe lampadario; seria talvez porque D. Elvira usava muito de vidrilhos na cabeça, os quaes brilhavam e scintillavam á maneira de lustre. Seria isso; mas D. Elvira aceitou os outros nomes com muita satisfação, e com grande faina, em menos de tres semanas, recolheu os doze velhos que estavam no segredo da sua caridade. O asylo tinha capacidade para vinte e quatro. Oito dias depois o numero estava preenchido.
E vai depois D. Benedicta, ciosa da popularidade que a sua rival vingára, combina-se com o marido, e delinea um outro asylo com capacidade para quarenta e oito velhos. Os jornaes que tinham gasto com a outra senhora os adjectivos, substantivos, e pronomes, empregaram em honra de D. Benedicta as interjeições. O artigo d'um começava por _Ah!_ o artigo do outro jornal por _Oh!_ Fundou-se o asylo de D. Benedicta. Como na terra não havia tanto velho, alguns marmanjolas de trinta annos, inimigos do trabalho, ou encanecidos nas cadêas, apresentaram certidão de idade de sessenta, e esconderam a sua bargantisse sob as azas caritativas de D. Benedicta, a quem as gazetas chamavam _a santa_!
Aconteceu que passados quatro annos D. Elvira mudasse de residencia para outro mundo, onde os necrologistas disseram que ella ia receber a palma do triumpho. A caridade do viuvo esfriou, e veio a um accordo com o marido da _santa_. Transformaram-se n'um os dous asylos, já abundantes de esmolas d'outras senhoras virtuosas, e assim chegou este humanissimo estabelecimento a um grau de prosperidade que não deixa nada a desejar, segundo asseveram as gazetas da terra.
Agora queira o meu leitor curvar-se um pouquinho, e contemplar a raiz d'esta arvore evangelica, que braceja tão ridentes frondes e tantos fructos de benção! Veja que herpes, que podridão, que bicharia lá vai!
E com este episodio respondi á sua pergunta; e peço perdão de ter ultrapassado as cincoenta linhas promettidas.
II
Sinceramente não sei corrigir-me do vicio das divagações. Ha quem defenda e demonstre que o romance philosophico deve ser assim alinhavado a exemplo de Balzac, Sainte-Beuve, Stael, etc. Na Alemanha então dizem-me que as novellas são tractados de metaphysica. Se as minhas derramadas e extraviadas divagações fossem ao menos metaphysica! Ser eu, sem dar tino de mim, um escriptor subtil, imperceptivel, impertinente, medonho, e, acima de tudo, serio! _Escriptor serio!_ quando se agarra a fama pelas orelhas, e a gente a obriga a dar pregão da nossa seriedade de escriptor, a gloria vai procurar os nossos livros serios ás estantes dos livreiros, e lá se fica a conversar delicias com as brochuras immoveis, em quanto a traça não dá n'elles e n'ella.
O universo, e a humanidade principalmente ganha muito com os romances serios: exceptuam-se da humanidade os editores. Um meu amigo publicou seis volumes de novellas de costumes moraes a ponto de toda a gente dizer que não haviam taes costumes em Portugal. Recebeu muito abraço d'umas pessoas que tinham ouvido contar que o meu amigo aconselhava aos filhos a obediencia aos paes, aos proximos o mutuo amor, e á humanidade o temor de Deus. As seis novellas eram glossas aos dez mandamentos. Esperava-se a regeneração das velhas virtudes portuguezas, logo que o espirito publico se balsamificasse da uncção dos seis livros. Volvidos porém, uns dous annos, as estatisticas iam delatando em augmento a criminalidade publica. Espanto no meu amigo author, e desanimação melancolica nos editores! Não obstante, a gente grave continuava a dizer que o meu amigo, continuando a escrever por aquelle theor e geito, endireitaria o mundo. Os editores, porém, observando que o mundo se entortava cada vez mais para elles, recommendaram ao escriptor moralista que vendesse a elles romances, e a quem quizesse os sermões. Ora, deu-se o caso de que este meu amigo era eu em pessoa.
Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros serios, teimo em ir n'este rumo, discorrendo opportunamente ácerca das grandes cousas e dos grandes factos como se viu do anterior capitulo.
Volvendo a concluir as reminiscencias que tenho do antigo Affonso de Teive, resta-me ajuntar que o deixei em Lisboa no anno de 1851, e vim para o Minho onde me disseram quem era Palmyra, fallando eu em Affonso de Teive a um cavalheiro de Braga.
Em primeiro lugar, Palmyra tinha outro nome na sua terra. Fôra educada n'um convento; sahira do convento para casar com o filho do seu tutor, moço idiota e abominavel; e sahira de sua casa para a de Affonso de Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de se verem á mesma hora em que ambos, embellesados no rumorejar d'arvores e fontes, pediam ao céo, ella o homem, e elle a mulher do seu destino, resultou amarem-se tanto que logo d'alli protestaram tacitamente immolar aos deuses infernaes o marido idiota--destino miserrimo que não descrimina entre idiotas e atilados. Estas informações sahiram-me com o tempo inexactas em muitos accidentes.
Não adiantou mais nada o cavalheiro bracharense; e isto já não era pouco para o meu espanto.
N'essa mesma época, occasionou-se-me conhecer o marido de Theodora, melhorada em Palmyra. Andava elle na feira do S. Braz em Landim, a tantos de Fevereiro, comprando bois, e vendendo cevados. Não lhe vi no semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que elle comia á tripa fôrra um chorumento jantar de carnes frias, em que predominavam as galhinaceas. Á sua direita estava uma mocetona espadauda, escarlate, alta de peitos, e refractaria a toda a idéa de amor fino.
Disseram-me que esta moça apreciára devidamente o coração rejeitado por Theodora, e assava com perfeição as louras galinhas de que o marido abandonado hauria vigor com que resistia briosamente á sua desgraça. Vi tudo isto; e fiquei satisfeito. A gente folga de vêr assim remediadas as enfermidades da natureza. Quando em casos analogos, não ha victima nem algoz, e os personagens se acommodam na livre pratica da liberdade dos cultos, bem que o vicio não deixe de ser vicio, é comtudo consolador observarmos que uma certa philosophia é a melhor orthopedia para os aleijões de nascença de que a torta humanidade coxêa ha dezenove seculos.
É o que eu sabia e mais nada.
Como Affonso cahiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que feito era d'elle. As minhas desventuras não me davam ferias para farejar as alheias. Se alguma vez me passou pela idéa a esposa infiel do feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e assim duramente castigada pela Providencia. Em quanto ao seductor, apostaria que elle, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou aspirante de alfandega, se é que não tinha ido para o Brazil, com o seu diploma de bacharel em philosophia, colleccionar conchas por conta d'algum muzeu de historia natural.
Agora vê o leitor o meu assombro justificado! É inquestionavelmente este homem gordo, de barbas intonsas, oculos, e tamancos o Affonso de Teive da Palmyra de Lisboa.
Elle aqui vai subindo as escadas, que nos levam á primeira sala. Cá estão em redor d'elle e de mim os oito filhos, que fazem bulha como trinta e dous. Creio que estou no pateo d'um mestre-escóla á sahida d'aula. Dous d'estes ferozes meninos tiram-me da mão o guarda-sol, abrem-n'o e fecham-n'o repetidas vezes, arremettendo contra os irmãos, que se defendem espancando a murros as varas da umbrella que gemem e entortam. Affonso gosta de vêr aquillo, e eu finjo tambem que não desgosto, nem receio de ser esfarrapado por aquelles innocentes.
Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas, mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes, grandes bancas de pau santo, com gavetas atauxiadas de frisos metallicos e de marfim.
--A decoração diz com as minhas barbas!--reflectiu o risonho Affonso. Aqui é tudo portuguez--acrescentou, mandando inutilmente calar a gritaria dos meninos que, a meu vêr, legitimavam a raiva infanticida do Herodes--Até a linguagem é portugueza de lei: olha que estou fallando vernaculamente, meu amigo. Ha quatorze annos que tu me convidavas urbanamente a não insultar os Lucenas e os Sousas com as minhas francezias. Vem vêr a minha livraria; se não queres primeiramente vêr minha mulher.
--Tenho muita honra e satisfação em ser apresentado a tua senhora--atalhei eu.
--Joaquim!--disse Affonso ao filho mais velho--Vai vêr onde está tua mãe; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos cá um hospede, que não exige vestido de sêda. Que appareça como estiver.
O menino sahiu aos saltos de cegonha, e Affonso ajuntou:
--Minha mulher é um anjo, cujas azas brancas se não mancham na felugem da cozinha. Eu gosto que ella por lá se entretenha, se não bate-me n'estes bregeiros, que, como vês, são dignissimos de grossa pancadaria; mas eu amo estes diabinhos, que zombam de mim, e aturo-os, por que a dizer-te a verdade já me dóe a cabeça quando não ouço esta algazarra. E tu gostas de rapazes?
--Gosto muito, acho muito galantes os teus meninos; mas se me dás licença, dir-te-hei que em doenças de enxaquêca, o teu remedio não seria tão efficaz nas minhas como nas tuas.
--Bem sei--atalhou Affonso--Falta-te cabeça de progenitor, falta-te ouvido de pae que converte em musica no coração estes berreiros, que nem no inferno se poderiam receber como orchestra.
Não se fez esperar a esposa de Affonso.
Era uma senhora para senão descrever em romances, e para admirar-se entre seus filhos.
É muito difficil e requer engenho grande tirar as semelhanças d'uma mulher, que se apresenta simples, modesta, e, logo á primeira vista, impropria de novella.
--Aqui está, e te apresento, minha mulher--disse Affonso, e tomou-lhe dos braços a creança mais nova, que lhe saltára ao pescoço, apenas a vira entrar na sala.
A esposa de Affonso de Teive respondeu acanhadamente ao meu palavroso comprimento, e tomou nos braços outro filho, que marinhava pelas costas da cadeira, e mostrava a cabeça sobre o alto espaldar de couro.
Como se não ageitava outra especie de conversação, fallei nos meninos, gabando-lhes a formosura e a esperteza. Affonso, que parecia não querer outra cousa, começou a contar-me anedoctas das suas creanças enthusiasticamente, algumas medianamente engraçadas, e outras que eu não pude ouvir, á conta da bulha que os pequenos faziam em volta da mãe. No entanto, fiz reparo n'ella.
A senhora teria trinta e oito annos, e formosura, por força natural, já decadente. Trajava roupas largas, talhadas sem esmêro, de droga ordinaria; a belleza das fórmas corporaes, denunciava-se apesar do trajo descuidado. Semblante assignalado de tanta doçura e bondade não sei que o haja. Poderia chamar-se tristeza de santa áquelle mavioso rosto pallido, quebrantado, e não sei que de scismador; a expressão, porém, dos olhos brandos, do sorriso quasi imperceptivel, do collo um pouco inclinado em postura humilde, eram n'ella a alegria exuberante de santa sim, mas santa como esposa, santa como mãe, santidade de coração e alma repartidos entre Deus, esposo e filhos.
Pouquissimas palavras lhe ouvi na meia hora que se deteve comnosco. Conheci-lhe a inquietação cuidadosa no relancear d'olhos ao marido.
--Bem sei, disse elle. Vai, vai, que estás a pensar nas rabanadas e nos mexidos.
E ella, sorrindo, disse:
--Ainda me não apresentaste ao teu amigo como uma soffrivel interprete da arte de cozinha.
--Interprete!--exclamou elle--Tu és mais! Tu inventaste a sciencia da cozinha, que é muito mais sublime que arte. A tua modestia é que te não deixa vir á luz do mundo, d'este mundo cujas aspirações confluem todas para a gastronomia, com um tractado, que, ao mesmo tempo, me désse orgulho de ser teu marido, a quem tu deves esta vida retirada, sem a qual te faltaria espaço e remanso para as tuas especulações, em resultado do que vamos hoje cear as mais ambroziacas rabanadas que ainda os deuses coaram em suas celestiaes gargantas. A aldêa, meu bom amigo--continuou Affonso voltando-se para mim com solemne e galhofeira seriedade--a aldêa dispensa ao espirito investigador um curso completo de sciencias. A poesia do estomago, esta mais que todas poesia humanitaria, não se dá nas cidades; lá come-se materialmente; aqui dá-se ao espirito a presidencia em todas as materias assimilaveis. Estou com o nosso admiravel Castilho n'estas memorandas palavras: «Longe de mim negar puerilmente ás cidades suas vantagens sociaes; digo só que para a poesia se não fizeram ellas; e que, se n'essa fragua algum engenho poetico resiste, se ahi canta, nunca ha-de ser tanto, nem tão bom, nem tão innocente, nem tão perfumado, como seria sem duvida nos campos.» E a poesia que é?--acudiu Affonso cortando-me o riso com que eu celebrava o desconchavo da citação--o que é a poesia se não aquelle estado diáphano e sublimado da alma, que se está engolfando e gozando n'um envolucro sadio, depurado de ruins vapores, e puro de toda a exhalação crassa d'um estomago derrancado, azedo, e intumecido? Pois has-de tu saber que um estomago limpo é a fonte de todo saber; e que a sciencia constructora dos selectos alimentos do sangue é a que mais de perto se relaciona e ata com a arte de exprimir cadentemente os affectos da alma--Logo...
A esposa tinha sahido quando esta abstrusa parlenda ia em meio, com ameaças de longo fôlego.
Eu estava ouvindo, como quem sonha, Affonso de Teive. Andavam já a formigar-me suspeitas de que o homem estava o seu tanto ou quanto embrutecido na aldêa; e posto que a defeza do paradoxal consorcio entre estomago e poesia viesse absolvida por um sorriso faceto, nem assim me descapacitei de que o espirito de Affonso havia soffrido profundas commoções que de todo em todo o transfiguraram, ou lhe transfiguraram os objectos do mundo exterior. Eu não podia convencer-me de que a felicidade alterasse d'aquelle modo o genio e maneiras d'um homem, que eu jámais ouvira preconisar as regalias do estomago. Crêr que o bem-estar da alma procedia d'uma brutificação d'ella mesma, e que o encontrar esse bem obrigava a desatar-se a gente da convivencia de sujeitos policiados, de mulheres inspiradoras, e das magnificencias da arte, em fim, de tudo que todos buscam sofregamente, parecia-me absurdesa, e falsificação no caracter de Affonso de Teive.
Preparei-me, pois, para devassar o secreto reviramento que transformou em poucos annos o espirito menos propenso que eu vira á paz dos campos, e ao absoluto apartamento da sociedade.
Estava a cêa na mesa. Que enorme cêa comemos, e que estrondoso ruido fizeram os meninos!
III
No dia seguinte, ao domingo de festa que eu passei com Affonso, reapparecera o sol magnifico da vespera.
Affonso de Teive mandou apparelhar um ordinario garrano, o qual, no dizer do dono, era um luxo nas suas cavallariças, visto que Affonso raras vezes sahia para além dos muros da sua quinta. Da residencia do reitor veio de emprestimo uma egua apparelhada de albardão, e estribos de pau que pareciam alqueires. Depois de almoço cavalgamos, embrenhamo-nos por uns quinchôsos pedregosos, e sahimos á estrada entre Guimarães e Famelicão. Estava destinado um passeio de duas leguas. A egua abbacial era tão firme no piso, que eu dei de mão ás redeas, formei d'um estribo o travesseiro, e deitei-me no albardão, para admirar horisontalmente a natureza, maneira de vêr que eu recommendo aos curiosos que ainda não viram assim a natureza. Ao meu lado ia Affonso de Teive, corcovado sobre o pescoço do garrano, que não obedecia á redea nem á espora: era preciso fallar-lhe rijo, ou espertal-o á paulada. E Affonso ria-se.
--Quem te viu e quem te vê, Affonso de Teive!--exclamei eu--Quem te viu em Lisboa n'aquelle cavallo preto, que levantava ferozmente as patas, como para te cuspir á calçada, e as abaixava humildemente e a tremer, se tu lhe murmuravas uma palavra. Quem te viu ao lado d'aquella Palmyra...
Mal proferi esta palavra, Affonso cravou-me os olhos subito abrazeados do antigo fogo. Fingiu que sorria, querendo esconder a mutação de rosto. Voltou a face para onde eu não podia vêr-lh'a; e, passados alguns segundos, murmurou:
--Lá se foi a alegria do nosso passeio.
--Porque?!--acudi eu--perdôa-me, se involuntariamente feri a tua sensibilidade... Eu cuidei que entre ti e o teu passado estava um abysmo incomprehensivel aos olhos da tua saudade... Pensei que ao homem feliz eram indifferentes as recordações dos bons e dos ruins tempos da mocidade.
Affonso deteve-se a encarar-me, e disse de golpe:
--Tu ignoras a minha vida desde 1850?
--Juro-te que não sei nada da tua vida, respondi.
--E d'essa mulher, que chamaste Palmyra?
--Nada sei, senão que...
--Diz o que sabes... que hesitação é a tua?
--Apenas soube que era casada, que sahira d'aqui para Lisboa comtigo, e mais nada. As pessoas, a quem perguntei por ti eram os teus velhos amigos, que encolhiam os hombros, e diziam: «quem sabe lá.» Desde 1856 que te esqueci completamente. Argue, se quizeres, a minha desmemoriada amizade; mas a verdade é esta. Eu sou, pouco mais ou menos como todos os teus amigos.
Asserenou-se o aspecto de Affonso de Teive, e fomos indo silenciosos, até apearmos em Guimarães na estalagem da Joanninha, que está n'este mundo a competir em graças, limpeza, e poesia com a Joanninha de Almeida-Garrett nas _Viagens_.
Jantamos, sahimos a vêr a terra, que eu nunca vira em Dezembro, enxergamos á luz crepuscular umas famosas damas da velha cidade que resistiam ao frio da tarde, encostadas aos peitoris das suas janellas; entrevimos galantissimos olhos d'outras através das rotulas, que ainda agora nos estão contando virtudes d'outras eras, virtudes, que precisavam de rotulas, como as bellas flôres exoticas precisam de estufa.
Voltamos á estalagem, tomamos chá, e uns pastelinhos que hão-de ir futuro além relembrando o mavioso nome da snr.ª Joanninha. Depois pedimos duas camas n'um quarto, e tivemos a satisfação de vêr que nos davam um quarto com cinco camas, ou cousa assim.
--Ha dez annos--disse Affonso--é esta a primeira vez que durmo fóra de minha casa. Acho-me só e estranho. Penso que estou a mil leguas de minha mulher e dos meus filhos.
--Eu vou mandar apparelhar as cavalgaduras--disse eu--e vamos embora que está magnifica a noite.
--Não--redarguiu Affonso--que preciso estar a sós comtigo, uma noite. Debaixo das telhas que cobrem minha mulher os meus labios não proferem o nome de outra. Ella já sabe que eu fico em Guimarães. Fallarei, e tu ouvirás, ou dormirás. Fallarei do homem que conheceste em 1851, para explicar o homem de 1863. Has-de vêr que lamaçaes atravessei, que resacas affrontei, como eu me bati de peito com as puas de ferro da desgraça, para chegar ao abrigo onde me encontraste. Não pasmarás então da minha velhice precoce: ser-te-ha assombro a minha vida. Se és infeliz, consolar-te-has. Se o não és, recearás sel-o.
A noite, como sabem, era de Dezembro.
Ás onze horas consummiu-se de todo a vella. Affonso de Teive continuou a fallar ás escuras. Ao rasgar da manhã, abrimos as portadas, e Affonso fallava ainda.
IV
No principio d'este anno de 1864, sahi de Ruivães, onde, por espaço de oito dias, me escondi á minha estrella funesta--a vigilantissima desgraça, que eu ia esquecendo. No termo d'este praso, estranhei o socego das minhas noites, faltou-me a mão do demonio que me arregaçava com dedos de fogo as palpebras quebrantadas de somno, e fui á procura d'elle.
Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho de casa, com sua esposa e filhos. As ultimas palavras d'elle foram: «quando tiveres o livro escripto, deixa-me gozar a não vulgar satisfação de me vêr personagem, e heroe d'um romance, que me promette uma immortalidade...»
--De quinze dias--interrompi eu.
Não longe da obscura paragem de Affonso de Teive, á margem do córrego chamado Péle, riacho, que, pela primeira vez, é revelado ao mundo em letra redonda, assentei eu a minha tenda nómada. A minha tenda são uns vinte volumes, um tinteiro de ferro, e um cabo de penna de osso, que me deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentára tambem a minha tenda,--ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu sestro vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relação do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, não impedia que esta minha tão querida penna, tão amiga confidente d'aquellas trezentas e oitenta noites--de Janeiro todas, que lá a dentro dos congelados firmamentos de pedra, reina perpetuo inverno, e giam as abobadas, não sei se lagrimas, se sangue, se agua represada nos poros do granito,--não impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o seu incansavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos da alvorada, me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar de graças ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao perscrutar do anjo providencial que me dava a uncção dos athletas e dos grandes desgraçados, para mais affrontosos e excruciadores supplicios.
Os meus vinte volumes, e o meu tinteiro de ferro, estão hoje sob o tecto gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. Não sei ha que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para sempre. Parei aqui, por que ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no coração em instantes de sonhos do céo, ainda a pedra tumular das affeições, cahidas á voragem infernal do desengano, está pendida sobre a derradeira: que a saudade é ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais incorruptivel que o passado nos herda.
A casa, onde vivo, rodeam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada desferem suas harpas. Este incessante soido é a linguagem da noite que me falla: parece-me que é voz d'além-mundo, um como borborinho que referve longe ás portas da eternidade. Se eu não amasse de preferencia o socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do córrego onde vou cada tarde vêr a folhinha secca derivar na onda limpida; amaria o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra bruta as gerações pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens felizes que tão illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria tudo; mas amo muito mais a morte.
Aqui, se Deus se amerciar de mim, embargando o passo ao anjo exterminador, que continuo me assaltêa os aditos do meu eden de quinze dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a narrativa que Affonso de Teive me fez.
Seis mezes ha que se fez noite do meu espirito. Por arrebatados impetos de quem quer furtar-se ás garras de um imaginario dragão, tenho fugido para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas imagens, filhas do céo, que, nos dias da mocidade fremente de más paixões, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal, psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi a suprema provação, a forja ardentissima em que minha alma foi lançada á voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que sombreava a negrura do coração, eram tudo trevas, frio, lethargia, esquecimento.
Não sei de que futuro abril do meu porvir me veio esta manhã um bafejo aromatico de flôres, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugace archanjo do contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu espirito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso que na immensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia repousada, prelibações de bem-aventurança, e honrada alliança com os homens.
Penso que estou escrevendo as tuas palavras, ó meu amigo, redemido a lagrimas, a ultrages, e a desapêgo do mundo. O clarão, que hoje alumiou a minha alvorada, seria por ventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias me disseste:
«Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povôa o espaço onde a alma insaciavel do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração afflictiva?» Querias tu dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam sua alma antes que a irreligiosidade os escarnecesse: OREI, meu amigo; porque, n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas de contar, interrompi o teu silencio, perguntando:
--E que fizeste depois?
E tu respondeste-me:
--Depois, OREI.
V
Affonso de Teive estudava, ha hoje vinte annos, em Braga, os elementos preparatorios para o curso universitario, quando viu Theodora, conhecida pela morgadinha da Fervença. Era ella então menina de quatorze annos. Affonso tinha dezesete.
As mães d'estes dous meninos, entre-vistos e amados com o innocente attractivo do beijo aerio na flôr a desatar-se e a enrubecer na tige, tinham sido condiscipulas na educação d'um convento. Apartaram-se para serem esposas, com promessa de se continuarem a amar em seus filhos, se a sorte lh'os désse com vocação para se unirem. Votos de virgens ainda, feitos com as faces purpureadas do calor do coração, que as levava contentes aos seus novos destinos.
A mãe de Theodora igualou em fidelidade da palavra promettida a mãe de Affonso. Uma tristeza, porém, a desconsolava, e cada dia se espessava mais a escuridade em seu espirito: sentia-se morrer, aos trinta e tres annos, de enfermidade de peito, e deixava Theodora em annos verdes, solteira ainda, á mercê e alvedrio de tutores.
Na ultima phase de sua vida, foi ella a Braga com sua filha, de proposito a encontrarem-se com o moço predestinado a esposo, já esquecido, talvez, dos primeiros annos em que se haviam conhecido creanças. O vêr com que alegria elles se reconheceram, e saudaram, como avesinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manhã, melhorou temporariamente a enferma; porém, a muito rogada vontade do Senhor não lhe concedeu os dous annos de vida pedidos para a effectuação do casamento. Segredos do céo previdentissimo; que, a não o serem, estes rogos de mãe, em favor da virgem, que vai ficar sosinha no mundo, com os seus dous inimigos--innocencia e formosura--taes rogos baldados, e indeferidos em Deus, induziriam a argumentar contra a mediação do Creador nas miserias que creou.
Apenas fallecida sua mãe, Theodora foi recolhida ao convento das Ursulinas, por deliberação d'um tio paterno, constituido espontaneamente tutor da orphan.
Affonso, aconselhado pelo coração e por sua mãe, visitava a educanda, disfarçando as frequentes visitas com a innocente mentira de parentesco.
Theodora, com dous mezes de convento, desenvolveu-se e grangeou sciencia da vida que não alcançaria em dous annos de aldêa, da sua solitaria aldêa, onde tinha apenas aves, flôres, e estrellas a segredarem-lhe iniciações para amor. No convento, as prelecções eram menos vagas, e mais acommodadas á capacidade das educandas. É certo que as mestras não leccionavam ternuras; mas o zelo, com que ellas vedavam o pomo, dava a desconfiar que as precautas religiosas lhes tinham saboreado o travor; a não ser que o desdenhavam á mingua de dentes incisivos com que entrassem na casca d'aquelle execravel e tão convidativo fructo de Pentápolis.
Com menos de quinze annos, Theodora completou o exterior de suas graças, e o interior do seu espirito. A belleza sabia ella já quantas invejas lhe ganhava entre as condiscipulas, quantas intrigas, quantas reprehensões da mestra, á conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao espelho. Não importava. A morgadinha da Fervença gostava de ser bella, de ser invejada, e perseguida das inimigas, com condição e resalva de ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Em quanto ao espirito, o saber precoce de grades a dentro igualou-a, se não antes avantajou-a muito ao estudantinho de Ruivães que, contra toda a natureza e arte, em colloquio amoroso ficava muito áquem de Theodora, e sahia do locutorio admirado da esperteza palavrosa da morgadinha.
Estas delicias do palratorio, porém, foram repentinamente suspensas.
O tio e tutor de Theodora, sabedor dos amorinhos, que as religiosas, contra o seu costume, tomaram entre dentes, impoz a sua jurisdicção tutelar. A educanda reagiu sem proveito, e Affonso desafogou em lagrimas a sua saudade.
A velha fidalga de Ruivães, avisada pelo filho afflicto, foi a Braga consolal-o, e d'alli partiu a casa do tutor, a lembrar-lhe o consorcio de Affonso e Theodora, desde muito pactuado entre ella e a sua defuncta amiga. O tutor replicou, dando como nullos taes arranjos, em quanto os meninos não estivessem em idade de os ratificar.
Affonso esmorecera em dolorosa lethargia, ao passo que Theodora pensava em fugir do convento. O instincto de associação, irrecusavel em empresa tão arriscada, deu-lhe a conhecer a unica pessoa capaz de auxilial-a.
Estava nas Ursulinas uma menina de Traz-os-Montes, de familia distincta, e costumes tambem distinctos em natureza depravada. Entrára alli como em prisão; não obstante, como o anjo das trevas nunca desampara as suas dilectas, lá mesmo lhe espiritou traças de poder entender-se com quem quer que foi que a viera seguindo desde a hora em que a familia a desterrára. E que traças de infando successo, que revelação affrontadora da humanidade vai hoje eetampar-se n'esta pagina!
A menina transmontana abrindo á flôr dos labios o sorriso condolente d'um anjo de candura, assellou com um beijo no rosto da sua recente amiga o pacto de se coadjuvarem contra a tyrannia de paes e tutores.
E posta, desde logo, em discussão a materia, quiz a morgadinha da Fervença, sem mais rodeios, saber de que modo poderia fugir do convento. Libana achou arrojado o intento da fuga, e desesperado sem razão, quando se podia melhorar de sorte, sem correr o risco de ser presa e reposta no convento para nunca mais vêr sol nem lua. Contou ella, para exemplificar o perigo da fuga, a desgraça acontecida n'aquelle mesmo convento, uns trinta annos antes. Era a longa historia d'uma senhora, reclusa alli por violencia, que cuidando salvar-se pelos encanamentos subterreos dos escoadouros do mosteiro, morrera asphyxiada; e quando as freiras, a familia e as justiças a julgavam foragida no estrangeiro, um operario occupado da limpeza dos vallos, encontrou um cadaver quasi esphacelado, mas ainda reconhecivel pelos trajos. Semelhante historia, contada e ouvida n'aquella casa sempre com horror, fez sorrir a morgadinha, e tirou-lhe do peito virginal esta observação: «Tendo eu de morrer na immundicie dos canos, antes me deixaria morrer entre a immundicie das freiras. Lá em quanto aos aromas enjoativos, tanto faz estar lá em baixo como cá em cima.» A resposta foi mais estirada e espirituosa no seu genero; mas assumptos d'esta grossura só podem tratal-os curiosamente engenhos claros e eminentes como o poeta dos _Miseraveis_, que poetisa os escoadouros de Paris com o mesmo acume de estylo com que fallaria dos jardins perpetuamente olorosos do Elysio.
Resolvida a sobre-estar do plano da fugida, Theodora travou-se de mui intima amizade com Libana, e formavam a sós um partido, que se fazia respeitar pela audacia da lingua, e soberba de sua prosapia e abundancia de meios. N'este conloio entrava uma servente de fóra e uma criada de dentro, mediante as quaes Affonso de Teive recebia cartas de Theodora, e um cavalheirote imberbe de Traz-os-Montes, primo de Libana, recebia as cartas de sua prima.
N'uma tarde de Agosto, sahiram as duas meninas a tomarem a fresca na cêrca. Com o geito scismador e melancolico em que iam, dirieis que eram as duas graças a procurarem a terceira, que lhes fugira enamorada d'alguma divindade incognita. Quem as visse, áquella hora, depurativa das fezes de maus pensamentos e más palavras, havia de cuidar que o seu dialogo, todo ferventes arrobos e cantares ao empyreo, versava sobre os céos de Santa Thereza de Jesus, ou semelhantes devaneios do espirito embebecido no foco luminoso dos bem-aventurados.
Agora se recostam ellas n'um escabello de cortiça, cujo espaldar lhe formam almofadas de fofas murtas, matizadas da flôr do maracujá. Perto d'ellas trepida uma fonte; no tanque, onde a lua já principia a espelhar-se, coaxam as rans; a viração cicia nas ramas do pomar; zumbem os insectos, espanejando-se ao frescor da tardinha. As duas candidas meninas, enleadas na poesia do quadro, realçam-no e completam-o.
Ouçamos a musica d'aquelles seraphins.
Dizia Theodora:
--Se me eu pilhasse fóra d'aqui!... N'estas tardes tão bonitas, havia de ser tão bom andar eu a passear com o meu Affonso!... Queimado morra o meu tutor e mais o filho! Se não fosse aquelle bruto, não estava eu engradada! Ó Libana, tu não farás com que nos escapemos d'este inferno! Olha... lá está a madre porteira a espreitar-nos da grade do canto!...
Libana voltou desabridamente as costas á madre porteira, e acudiu n'estes termos aos anhelantes desejos da sua amiga:
--Olha, Lóló, não te zangues. A gente, a final, ha-de sahir d'aqui, muito a tempo de gozar a vida. Se não formos tolas, podemos ir gozando mais do que temos feito. Queres tu saber o que me diz o meu Alfredo? Queres vêr quanto elle me ama? que sacrificio quer fazer por amor de mim? Olha, eu não quiz dizer-te o que me elle pediu na carta de hoje, com medo que tu me aconselhasses a não ceder; mas cedo, filha, cedo que a paixão não tem leis. Pede-me para vir ser minha criada.
--Tua criada!--exclamou Theodora.
--Minha criada; pois então?--replicou Libana, abaixando o tom de voz, abafada pelo frouxo do riso--Não ha nada mais facil. O meu Alfredo tem cara de mulher, e não tem ainda barba. Diz elle que se veste á moda das raparigas da minha terra, que me procura com uma carta fingida de minha mãe a pedir-me que receba a portadora como criada; cá no convento ninguem póde impedir-me que eu a receba; a gente hade ter todo o cuidado que se não descubra o logro; e... tu... que me dizes, Lóló!
Theodora acudiu com o rosto chammejante de alegria:
--Olha lá, Lili, o meu Affonso tambem tem cara de mulher, pois não tem?!... Se elle viesse tambem para minha criada era tão bom!
--O peor é que elle é conhecido, por ter cá vindo muitas vezes--observou Libana--O meu Alfredo é que só veio aqui no principio uma vez, e ninguem o conhece... Não vamos nós botar tudo a perder, Loló!
--Que pena!--exclamou a morgadinha com os olhos no céo e a mão direita sobre o coração latejante--Que pena que o meu Affonso não venha tambem para cá!... Ó Libaninha, vê se inventas alguma cousa, se não a tua amiga morre de tristeza!...
E, dizendo, escondeu o rosto, aljofrado de quatro lagrimas, no seio da amiga.
Que lagrimas! D'onde veio ou para onde foi o anjo da innocencia, quando um peito virgem tem d'aquellas lagrimas, e uns olhos, que ainda não viram os hediondos espectaculos da farça do mundo, podem choral-as!
Fechou-se a noite. Já a sineta havia chamado as duas meninas rebeldes ao primeiro e segundo aviso. Ergueram-se, deram-se o braço, e foram, na cella de Theodora, continuar o recendente colloquio do jardim.
Theodora, a não poder ser feliz, exultava com as venturas da sua amiga. Animou-a á temeridade de receber o atrevido rapazola de Tras-os-Montes, idolatra d'um personagem de romance, unico que em sua vida lêra, o _Lovelace_, de quem se propunha imitar o entrajamento de mulher. O tolo! Ainda bem que as asneiras, copiadas dos romances, costumam ter, na vida real, umas sahidas muito desgraçadas ou irrisorias! Ainda bem, para desdouro dos livros desmoralisadores, e luzimento d'outros livros de san moral, que só fazem mal ao publicador que os não vende.
Este Alfredo, que vivia occulto nas cercanias de Braga, applaudido por Libana em seu projecto, foi á sua terra preparar os vestidos, e ensaiar-se em tregeitos mulheris.
Libana tinha uns irmãos, oriundos do mesmo tronco de pae e mãe, os quaes pelos modos, não tinham de que espantar-se do descomedimento e desatino da filha e irman; d'onde vinha o serem elles grandemente avelhacados, astustos, e espiões das tramoias de Alfredo.
A villa era pequena e de soalheiro. Correu logo por algumas boccas, até aos ouvidos dos interessados, o estar-se fazendo roupinhas e saiotes, e outros atafaes de mulher, afeiçoados ao corpo de Alfredo. Sem detença, um dos irmãos de Libana sahiu para Braga; o outro ficou d'atalaia aos movimentos do imitador de Lovelace. O que se escondera em Braga foi avisado a tempo que Alfredo vinha de jornada. Uma engenhosa combinação com as authoridades lançou a rede tão a ponto que o infeliz foi capturado na portaria das Ursulinas, vestido de camponeza transmontana, e d'alli, entre baionetas, e escoltado de rapazio, percorreu todas as estações judiciarias desde o regedor até ás caricias do carcereiro.
As religiosas, conscias do escandalo, requereram ao prelado bracharense a expulsão da reclusa que deshonrava o convento e contaminava de sua desmoralisação as outras meninas. Foi, portanto, Libana entregue a seu irmão, que a levou para casa. Esperava-se geralmente que esta donzella, agourada para estremados desastres, tivesse um fim de exemplo a mulheres desgarradas do trilho da virtude. Os prognosticos da opinião publica erraram, como se ha-de vêr n'um futuro livro.
A gente não sabe ainda bem como este mundo está feito.
VI
O escandalo, que felizmente abortou á portaria do convento, poz de sobre-rolda os paes de familia, que tinham meninas a educar nas Ursulinas, e deu ás insomnes freiras um sexto sentido de observação. Dentro do mosteiro reinava a opinião de que Theodora tinha bastante capacidade para tomar criada, conforme o gorado systema de Libana. Além d'isto, depois da expulsão da transmontana, a morgadinha, em vez de quebrar de orgulho e reportar-se, enfuriou-se mais, e sahia com invectivas e chacotas ás freiras velhas, clamando a vozes descompostas que a mandassem embora, se lhes não servia assim. A communidade offendida e esgotada de paciencia, consultado o tutor da educanda, assumiu o uso ou o abuso dos antigos poderes monasticos, e encerrou-a no seu quarto, com ameaças de a fecharem no tronco. Theodora esmoreceu diante da força mixta das freiras e dos padres capellaens, que promettiam supprir com o pulso a inefficacia da eloquencia persuasiva.
Vagamente informado da situação da sua amada, Affonso de Teive foi á portaria do convento, no heroico proposito de ir arrancar a victima de sobre as aras da theocracia despotica. A porteira, senhora de oculos e de muita virtude, offereceu peito de martyr ás injurias impias do acriançado amante. Porém, como quer que o acaso alli encaminhasse um cabo de policia, quando Affonso gesticulava e vociferava um menos mau improviso contra os conventos, o cabo, com as mãos atadas na cabeça, correu ao regedor, e este acudiu no supremo lance, já quando o allucinado alumno de rhetorica, estrondeava na porta valentes murros, chamando Theodora a clamorosos gritos.
Travado pelos braços pujantes das authoridades, Affonso não pôde resistir á surpreza do assalto. Escabujou e esbraveou em quanto as forças da raiva o aqueceram; a final cahiu exanime nos braços da lei, balbuciando ainda «Theodora!» Estava a instaurar-se-lhe processo, quando a fidalga de Ruivães chegou a desfazer com a sua respeitavel presença, e auxilio dos mais importantes cavalheiros de Braga, a criminalidade pueril do filho.
Affonso, levado por sua mãe, foi para casa, deliberado a deixar-se morrer. Cahiu de cama, e tresvariou em febres de mau caracter. Todavia, os cuidados maternaes, cooperados pela robusta natureza dos dezeseis annos, salvaram-no. Os olhos, durante a morosa convalescença, choraram-lhe de continuo; os sonhos eram-lhe ainda supplicios de que despertava em brados e soluços; não obstante, a cura do amor, que chora, é certa: ferida de coração, onde possa chegar o agro e adstringente de uma lagrima, cicatriza cedo ou tarde. Amores incuraveis são os que desabafam em rancorosas explosões.
A parentela do illustre pimpolho, alvorotada pelas lastimas da fidalga, reunira-se em conselho, e alvidrára que Affonso de Teive fosse completar os estudos preparatorios em Lisboa, hospedando-se em casa d'um seu tio desembargador. O moço obedeceu ás exhortações e rogos de sua mãe, depois que a extremosa senhora lhe prometteu e asseverou que, a despeito de tudo e de todos, Theodora, no praso de um anno, seria sua esposa.
Os parentes embicaram, resmoneando que o morgadio da Fervença o era só em nome, sem vinculo, nem fôro em ascendente conhecido. Contra estas razões se insurgiu Affonso em termos que fariam a illustração democratica d'um botequineiro antes de ser cavalleiro do habito de Christo. A fidalga, mais ufana de proceder do tronco dos primitivos christãos, iguaes entre si e iguaes ante Deus, que vaidosa de aparentar-se com os Pinheiros de Barcellos, e os Corrêas e Lacerdas da Honra de Farelaens, votou com seu filho, dizendo «que na casa de Ruivães sobejava a fidalguia e faltava a felicidade.»
Foi Affonso para Lisboa com o capellão. O tio desembargador gasalhou-o nos braços, e as primas, filhas do bondoso magistrado, á mingua d'um irmão, começaram logo a dizer que Deus lhes dera um, e, como tal, o não deixariam voltar mais, sem ellas, á provincia.
Pouco montam tantas caricias para o contentamento de Affonso. Ralam-no saudades, emmagrecem-no os jejuns, amarellece-o a tristeza. Nas aulas é mau estudante; no circulo dos condiscipulos é um automato que ri por comprazer, e vai sem saber que vai para onde o impellem; em casa com as primas é um aborrecido, que nem ao menos as acha bonitas, nem scisma sequer em adivinhar as charadas metricas, e logogriphos figurados, em que todas são eximias, e sobre modo impertinentes.
A senhora de Ruivães recebe de todos os correios instantes cartas de Affonso accelerando as diligencias para o casamento. A consternada mãe já por terceiras pessoas mandou sondar as difficuldades que importa combater. De Braga dizem-lhe que Theodora já sahiu do encerramento da cella, e tem o convento todo por homenagem, salvo o palratorio e a cêrca. Ajuntam as informações que o tutor da morgada frequenta semanalmente o convento, e algumas vezes vai com elle um filho, rapaz de figura absurda, com uma gravata vermelha, capaz de seduzir uma nação de pretos, e uma casaca archeologica, de cabeção tão copioso que parecia enrolar um capote.
A descripção poderia ser acoimada de desgraciosa; mas de hyperbole não.
Este sujeito chama-se Eleuterio Romão dos Santos, por ser filho de Eleuteria Joaquina, e de Romão dos Santos, tutor de Theodora, lavrador abastado, visinho do mosteiro de Tibães.
Eleuterio tem vinte e dous annos; quiz aprender a lêr com seu tio padre Hilario; mas a natureza oppoz-se-lhe, logo que elle, apoz um anno de canceira, entrou a soletrar palavras de tres syllabas. Vencido pela natureza, padre Hilario desistiu, visto que lhe era vedado arejar o cerebro do sobrinho por uma fresta aberta a machado.
O filho unico de Romão dos Santos recebeu em upas de alegria a noticia da sua incapacidade para soletrar nomes de tres syllabas. No dia seguinte, o pae mandou-o á feira dos nove com uma junta de bois. O rapaz effectuou a venda dos bois com tamanha astucia e vantagem que logo d'alli se deu a conhecer a sua vocação. Uma segunda mercancia robusteceu-lhe o credito, que outras vieram confirmando, até que Romão deu ordem illimitada de dinheiro a Eleuterio para poder negociar em bezerros e vitellas.
Estava o rapaz n'este auge de glorificação propria, e inveja dos visinhos, quando falleceu a mãe de Theodora. A orphan, apenas sua mãe cerrou olhos, foi conduzida para casa de Romão, seu tio paterno. A criança ia lagrimosa e carecida de meiguices e consolações de alguma senhora, que lhe fallasse a linguagem polida á qual estava afeita. Em casa de Romão havia sómente a snr.ª Eleuteria Joaquina, creatura chan, que, a cada soluço da sobrinha, dizia quasi sempre:
--Não chores, pequena; que a morte é portêllo que todos temos de passar.
E, para não dizer sempre o mesmo, variava d'este theor:
--Isto, como o outro que diz, é hoje tu, amanhã eu.
Eleuterio, porém, menos versado em lugares communs de pezames aldéãos, querendo consolar sua prima, tirou estas palavras do peito:
--Senhora prima, olhe que o chorar faz mal ás meninas dos olhos. Deixe-se de estar a suspirar, que não lhe dá remedio. Agora o mais acertado é divertir-se pelas feiras. Vem ahi a de Villa Nova de Famelicão, onde eu levo vinte e duas juntas de bezerros. Se a snr.ª prima quizer, vamos comprar de meias algum gado, e deixe cá isso á minha vigilancia, que eu, dentro d'um anno, prometto dar-lhe dinheiro de ganho com que ha-de comprar um grilhão de duzentos mil réis, e umas arrecadas de lhe chegarem aos hombros. O mais quem morreu morreu, é ditado dos velhos.
--Quem morreu é rezar-lhe por alma--atalhou com má grammatica, mas com piedosa intenção, o tio padre Hilario.
Theodora estava a rebentar de raiva, quando Eleuterio recolheu ao bucho das cruas sandices outras muitas que já lhe ferviam nos gorgomilos.
Ahi está uma amostra de Eleuterio Romão dos Santos.
O conselho de familia deliberou o ingresso da orphan nas Ursulinas. A menina acolheu agradavelmente a noticia, por se desentalar assim da oppressão do primo alvar, e da tia, mais boçal do que racionalmente se deve permittir á bondade de uma pessoa qualquer.
Logo que a mãe de Theodora morreu, o tio, que lhe conhecia o valor dos bens, lançou contas ao futuro, e deu como realisavel um casamento, que vinha a ligar as duas casas maiores da freguezia. Custou-lhe a ceder que a pupilla se lhe distanciasse de casa; mas os votos dos outros membros venceram, fundados na precisão de educar a menina, que fôra creada com mestras, e de todo estranha á vida agricola.
Entretanto, Romão predispoz o filho a cuidar seriamente no _bonito arranjo, que lhe sahia a talho de fouce_: estylo figurado e pittoresco em que são inventivos os nossos camponezes, e em que Romão primava sempre que tinha entre mãos algum _bonito arranjo_, o qual vinha a ser sempre um arranjo feio para o proximo.
Eleuterio, ao principio, disse que a prima lhe parecia um arenque. Fundava o desdenhoso a sua critica na magreza delicada e cortezan de Theodora. Entre os galans da estôfa de Eleuterio mulher de encher olho queria-se vermelhaça, alta de peitos, ancha de quadris, roliça e grossa de pulsos, com os queixos tumidos de gargalhadas estridulas, e as facecias equivocas, e os estribilhos patuscos sempre engatilhados nos beiços grossos e oleáceos. Theodora era o envez de tudo isto.
Faz pena vir aqui a ponto o descrevel-a, quando o contraste lhe fica tão de perto.
Theodora, aos dezeseis annos, era um modêlo acabado de formosura, como raras se vos deparam nas raças patricias, que o concurso de circumstancias, umas espirituaes, outras physiologicas, aprimoraram. A pallidez era n'ella o principal caracteristico das bellezas de eleição, á escolha de olhos onde parece que os nervos opticos vem da alma, e não do cerebro a tecerem a retina. A mulher pallida é a que vem cantada em poemas e estremada em romances: ora, quando a poesia e prosa conspiram a dar a realesa do amar e padecer á mulher pallida, havemos de curvar-lhe o joelho, na certeza de que ella se fará amante e martyr, por amor do poema e do romance, ainda mesmo que a natureza lhe tenha temperado o coração d'aço. Póde ser que semelhante clausula, no decurso d'este livro, acuda á retentiva do leitor.
Relumbravam no alvor das faces de Theodora olhos negros, não vivos, antes morbidos, como se a queda das longas palpebras, iriadas de veias azuladas, lhes vedasse o raio de luz em cheio que rebrilha, aquece, e regira os globos visuaes. Do nariz diremos que, n'esta feição, a mais rebelde aos desvelos da natureza, tão extremada se mostrára ella, que bastante lhe fôra aquella perfeição para desmentir os que a taxam de desprimorosa. Em labios, não sei se me valha das figuras antigas--rosas e coraes, romans e carmim--se me avenha com esta verdade prompta e fluentissima que d'um traço copia como o pincel, e d'uma phrase exprime tudo, como em phrases de Castilho: «era um osculo perpetuo de innocencia.» Como isto sahe bem na musica da expressão; e que bello seria o mundo, se as boccas formosas estivessem sempre absorvidas no osculo perpetuo da innocencia! Ó Theodora, se tu então morresses, o teu rosto trasladado em marfim, ainda agora nos seria a imagem dos labios nunca despregados do beijo d'algum anjo, resabiado ainda da voluptuosidade dos anjos mal-avindos com o candor celestial. Mas tu cresceste, e deformaste-te, ó chrysalida! A tua essencia de céo vaporou para lá no alar-se de alguma virgem, irman tua, que o Senhor chamou na ante-manhã do primeiro dia nebuloso de sua vida; e o que de ti ficou foi a formosura e a desgraça da mulher.
Mas, afóra a essencia pura do céo, que esvelta, que peregrina mulher cá se ficou a ostentar as galas mundanas, esse opulento nada que desaba do altar da nossa idolatria a um roer surdo de vermes e podridão!
Esta ultima palavra tolhe-me de continuar a descrever Theodora. Esmoreceram-me os espiritos. Cahi da minha phantasia na lagôa fétida da verdade. Achei-me como ás margens d'uma sepultura regélida do giar d'uma noite de Dezembro. Parou-me o sangue no pulso, inteiriçaram-se-me os dedos, e a penna desprende-se. Assobia o nordeste pelas arestas dos jazigos, e remexe e sacode de sobre esta pedra umas corôas humidas de orvalho, crystallizado em lagrimas; são corôas de perpetuas sagradas á formosura, que se julgou immorredoura, á sexta hora do seu breve dia. Lá vão as corôas no bulcão do vento; lá vão esgalhadas as frondes do chorão e do cypreste; lá vai tudo; a memoria dos vivos lá se foge tambem d'esta sepultura: tudo foi; só tu ficaste, ó Cruz!
VII
Belleza absoluta, de têlhas abaixo, ha uma só, que é a da mulher formosa; e, na variada manifestação de belleza em diversidade de typos, ha uma superior formosura, que constitue o bello universal, o bello que prende e leva todos os olhos. A mulher, assim dotada, tanto impressiona o espirito educado na visão e admiração das maravilhas da natureza e arte, como o espirito desculto de toda a compostura e discernimento. Dá-se o exemplo d'esta cousa formulada em these abstrusa na embriagadora influição dos olhos de Theodora no animo selvagem de Eleuterio. A menina de quatorze annos, que o lerdo vaqueiro comparava a um arenque, appareceu-lhe aos dezeseis na grade do convento, e atordoou-o. O moço, querendo exprimir ao pae a sensação recebida n'aquella hora, disse com expansiva naturalidade:
--Quando ella me espetava os olhos, havia de dizer que a minha alma estava fóra do corpo! Eu queria dizer-lhe alguma cousa, e a lingua grudava-se-me ao céo da bocca. Quem me dera ser rei, e que ella fosse uma pastora de cabras!
Se a linguagem fosse mais joeirada de plebeismos, a concisão da idéa poderia attribuir-se a Shakspeare. A mais crystallina agua é a que rebenta de penhascos ermos: assim, de espiritos selvaticos, resaltam por vezes umas idéas limpidas, d'uma sensibilidade original, que faz pensar.
Romão ficou contente da resposta, decorou-a, e assim a pespegou a Theodora. A menina, vesada á linguagem mais florida ou mais delicada de Affonso, riu interiormente dos termos rusticos do primo, e de fóra compoz o gesto para fingir que o não entendera. O tutor, porém, instinctivo avaliador do capital do tempo, sem saber que os economistas inglezes chamavam ao tempo capital, repetiu, já dilucidando-as, as palavras de Eleuterio, aproando o discurso ao ditoso remanso do casamento, que elle, na sua locução figurativa, denominava um _lindo arranjo_.
A morgadinha ouviu anciada o tio, e respondeu com um ataque de nervos, que era já o terceiro que a insultava; sympathica doença em meninas pallidas, se é o amor contrariado que lhes desmancha o apparelho nervoso. Theodora soluçava agudos gemidos, que iam reboando pelos dormitorios. Acudiram algumas freiras, e transferiram-na á sua cella. A prelada foi á grade averiguar do accidente, e sahiu convencida de que a orphan era uma douda, a quem Libana, de impudíca memoria, ensinára a fingir ataques nervosos. Romão dos Santos sahíra do convento no proposito de consultar um egresso do Carmo sobre os tregeitos e feitios que vira em sua sobrinha, para applicar-se-lhe a reza purgativa de demonios, se o frade entendesse que ella os tinha no corpo. O zeloso e invencivel demonifugo foi ao convento, avistou-se com a suspeita energumena, mandou ás freiras que depozessem ácêrca das malfeitorias attribuidas ao espirito immundo, e retirou-se capacitado de que a morgada da Fervença estava possessa d'uma legião de travessos e intrigantes diabinhos que usam, contra todo o natural, aninhar-se entre religiosas, não as poupando mesmo, quando ellas tomassem o expediente salvador do conhecido gallego da fabula de Almeida Garrett. Era illustrado o egresso.
No entretanto, soubera Theodora que Affonso de Teive fôra para Lisboa. Esta partida azedou-lhe a vaidade, sem embargo de ter sabido a destemperada arremettida que elle fizera contra a porteira, e as vergonhas e trabalhos que lhe ia custando ao pobre moço aquella façanha. Porém, ninguem lhe dissera que dôres o pozeram á borda da sepultura, que saudades o crucificavam em Lisboa, e que vans solicitações fazia a mãe de Affonso para assegurar á filha da sua defunta amiga a certa realisação do casamento.
Sobreveio ao despeito o enojo crescente, que mortificava a reclusa, sempre espiada, e perseguida de velhas conselheiras, que tomaram á sua conta salval-a. Ao despeito e ao enojo, acresceu o visital-a com mais frequencia, e um pouco melhorado de figura, seu primo Eleuterio. D'antes, a cabeça exterior do moço era horrida, toda escadeada da tesoura habil em tosquiar rezes, tufada de grenhas, com umas rêpas caracoladas sobre as orelhas, e aquelle todo lustroso de azeite. Depois, appareceu Eleuterio com o cabello cortado á escovinha, e os caracoes banidos. Depoz a casaca no gavetão-museu da familia, e envergou uma judia, como se usava então, com matizes e florões nas costas, e borlas de apertar no pescoço. A pantalona continuava-se em polaina até á ponta do pé, e abotoava sobre meio palmo do artelho com botões de madre-perola. Além d'isto, o pae deu-lhe o relogio avoengo, que, no continente e conteudo de caixas sobrepostas, parecia a baixella d'uma familia, desde a tina do banho até á bacia do lavatorio. Os berloques d'este thesouro, que não regulava ha quarenta annos, eram placas de differentes pedras, e sinetes periformes de tal tamanho, que pareciam armas de defeza.
Theodora custou-lhe a reconhecer o primo Eleuterio, afóra mãos e pés, que nenhuns outros podiam confundir-se com os d'elle, a despeito mesmo das torturas em que os trazia entalados. O rapaz tinha conquistado de sua prima uma admiração comparativa: era já grande salto dado para dentro do coração da menina.
Li em algures, e estou convencido d'uma verdade que sôa como paradoxo: e é que o espirito de cada pessoa tem muito que vêr com o modo como ella está entrajada. A intellectualidade apouca-se e confrange-se quando o sujeito se olha em si, e se desgosta da compostura dos seus vestidos. O desaire do espirito como que se identifica ao desaire do corpo. As idéas sahem coxas e esconças do cerebro; a expressão tardia e canhestra denuncia o retrahimento da alma: ha o quer que seja phenomenal que eu tivera em conta de desvario meu, se muitos sujeitos me não tivessem confessado semelhantes segredos de psycologia, em que o alfaiate exercita importante alçada.
Demonstrado isto, explica-se o atavio de palavras com que Eleuterio se sahiu no palratorio, no dia em que se mostrou desfigurado a Theodora. De vez em quando, o moço baixava modestamente os olhos requebrados sobre os berloques, e ao levantal-os para sua prima já nos beiços lhe borbulhava alguma idéa bonita. Igual fortuna o bafejava, quando, acaso ou por acinte, se via de polainas, abotoadas tanto ao justo da canella, que se ficava algum tempo narcisando nos pés.
D'este primeiro colloquio sahiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cella da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleuterio o paralta que a visitára. Theodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se, e exclamavam:
--Que perfeito rapaz elle se fez! Ninguem havia de dizer o que sahia d'alli! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
--Seu primo é uma figura que dá na vista!--ajuntava a mais maliciosa das freiras para não ficar em peccado com a sua consciencia.
Theodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma a ennevoar-se e esvair-se como sonho que a memoria não póde já reter: era a imagem de Affonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleuterio Romão dos Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janella do seu cubiculo, aspirou o ar do céo que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorgeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que á menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ella Eleuterio Romão?! Não amava, disse-o ella, e eu juro nas palavras de Theodora. O que ella amava era a liberdade; os anhelos de sua alma anciavam sofregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita, e não perdôa. O que ella via em Eleuterio era o homem já desfigurado da repulsão primeira; o homem aceitavel como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem, que lhe vai descancellar os adytos do mundo. Assim é que muitas mulheres tem amado aquelles que as salvam; d'este amor, assim chamado por não haver mais elastico epitheto que dar á cousa, é que surdem os irremediaveis infortunios, os odios irreconciliaveis, e as affrontas que levantam as campas, encerram algozes e victimas, e ficam ainda de pé sobre ás lousas infamadas, pregoando o opprobrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infamia de suas mães... Colho as vélas; que, n'este rumo, ia varar em semsaboria encapotada em moralisação: cousa duas vezes importuna.
Conseguira, n'este tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta á morgada, carta de esperanças, alento, e consolações, com miudas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães, e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta promettendo á menina que, antes de cumpridos dous annos, os votos de todos se haviam de realisar diante de Deus, com tanto que Theodora con-servasse firmeza, coragem, e constancia.
--Dous annos!--disse entre si a morgada--Esperar dous annos n'este purgatorio!... Se Affonso me ama, porque não ha-de vir já roubar-me d'este carcere? Dous annos! e viveria eu aqui tanto tempo á espera de não sei que?! Eu captiva aqui dous annos, e elle em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que elle está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Affonso, n'este espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se me elle ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá occasião de envelhecermos. O que eu tenho, meu é já; ninguem m'o rouba por eu casar contra vontade do conselho de familia... Dous annos!...
E, n'aquelle dia e nos dous seguintes, Theodora, de cinco em cinco minutos, dizia: _Dous annos!_ e ficava meditativa, até de novo exclamar: _Dous annos!_
Respondeu a morgada á mãe de Affonso que a sua saude se havia perdido na oppressão e dissabores d'aquella vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal captiveiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ella não amasse. Queixava-se da ausencia e silencio de Affonso, e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluia desejando a Affonso todas as venturas d'este mundo, em quanto ella se deliberava a experimentar todas as desditas.
A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se á sua capella, e longo tempo esteve em joelhos pedindo á Virgem que defendesse Theodora dos seus funestos instinctos.
E, desde aquella hora, a mãe de Affonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura affectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Theodora como futura companheira de sua vida. Affonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espirito de sua mãe; e ella, podendo responder com o mais idoneo documento, que era a propria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Theodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevia-lhe o quasi nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memoria de sua mãe; mas não mais lhe fallou de Affonso.
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou rasoavel o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial de sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saude corria perigo.
Eleuterio, cada vez mais assiduo na grade, já tinha uma outra judia côr de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um collete de veludo escarlate, e um cavallo de marca, apparelhado a primor, e obediente ao freio para todo o genero de upas e galões. Theodora gostou d'isto, por que um dos anhelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim razo, trajada em amazona, com as dobras do amplo véo ondulando no phrenesi de desapoderado galope. O cavallo--faz pejo dizel-o! foi muito no determinar-se a morgada a responder categoricamente ás timidas perguntas do primo Eleuterio. Assim foi. Ageitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse que estava disposta a tomar estado, visto que a idade lh'o permittia. Eleuterio, perplexo, de ouvil-a, sem ousar suppor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito, cuidando que estava alli o coração; quando, porém, a prima lhe disse:
--Faço aquillo que meu tio Romão quizer... Caso com quem elle determinar...
Eleuterio expediu um ai de desafogo, e riu-se alvarmente, esfregando as mãos.
Por amor d'este successo vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no theatro e nos romances. Casos analogos d'aquelle tenho-os visto remedados com tregeitos e exclamações inversas da logica da natureza. No romance todos os Arthures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empallidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No theatro, em lances identicos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o proprio pae, se lhe atravancassem o caminho da felicidade. Rir ás cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum, no instante solemne de se crêr amado. Eleuterio Romão dos Santos é o primeiro modêlo que a natureza me offerece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade, que endouda e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração. Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas aridas, frias, e falsas, que inventam a natureza, depois que desbarataram a sensibilidade, exagerando as generosas commoções que receberam d'ella.
Theodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ella o queria falsificado no molde dos romances, que a menina transmontana lhe emprestára; mas, ainda assim, aceitou com paciencia a linguagem desartificiosa d'aquella ingenua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleuterio Romão dos Santos fallou assim:
--Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilario quizera leccional-o em sagrada escriptura: fallou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de tres syllabas, deve suppôr-se que tambem em materia de historia, preferia os individuos de duas aos de tres syllabas.)
E continuou:
--Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Theodora...
N'isto, como lhe não occorresse idéa nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão á testa, e roçou a epiderme com o aro d'um robusto annel que trazia no dedo indicador. Idéa magnifica! Tirou o annel, e lançou-o ao regaço de Theodora. Tinha o annel um grosso topazio, engastado n'um circulo de perolas. Theodora examinou o objecto, e enganada pela circumferencia do aro, esteve quasi a pensar que era uma pulseira.
--Faz favor de encaixar no dedo, prima--disse Eleuterio.
--Não me serve--disse a menina.
--É que está magrinha das mãos...--replicou o moço--Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima ha-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa, e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueirôa rodeavam o primo Affonso de agrados, de gozos familiares, e recreios, tendendo tudo a divertil-o de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em materia de estudos, e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ella houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Affonso. Bailes e theatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir affrontar-se com centenares de mulheres entre as quaes nem sequer em sombra se lhe offerecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Theodora. O pudor dos dezesete annos, a indole nada communicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprára-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavallo. Affonso recebeu a dadiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade, e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limitrophes de Lisboa.
O local mais attractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Bellas. Desde o reinado de el-rei D. Manoel que as gigantes arvores d'aquella magestosa ancian estavam frondeando, e asylando as gerações de aves, como para alegrarem com suas musicas, e gasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por alli as horas lhe corriam placidas, contentes nunca, bem que a tristeza d'entre arvoredos, ao murmuroso cahir d'agua em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donosas verduras da vida.
De cada vez que Affonso ia á quinta predilecta, em cada arvore nova entalhava as letras iniciaes dos dous nomes, que elle imaginava, apesar da distancia e dos revezes, atados para sempre com applauso de Deus. Este pagão d'amor e por amor, á imitação de todos os amadores visionarios, cuidava que a divindade se intromette n'estas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta, e lá se atira em corpo, deixando cá fóra a alma infernada na deshonra e na execração. E querem os pobresinhos, com o peito aberto ao abutre de suas chimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!...
E Affonso, escondido nas sombras escuras de Bellas, chorava por Theodora, e, alteando o rosto ao céo, pedia ao Senhor que lhe visse as lagrimas, e houvesse piedade d'ellas.
O desembargador inquietava-se com as longas ausencias do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia á aldêa a conversar com arvores e penedos, e deixava suas primas que tanto se interessavam em divertil-o. N'estes queixumes das gentis meninas, transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer d'ellas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Affonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da orphan das Ursulinas, se podesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãosinhos do incenso de Theodora, não faria menos que odial-as. Estes escrupulos são a religião, o ascetismo dos illuminados de amor, illuminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta annos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos tambem illuminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados n'este lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos vêr na superficie lamacenta e torva espelharem-se as estrellas do céo da nossa mocidade!
Affonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado ás tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica, e pura como um anjo a quizera para si. É o que Affonso pensava do silencio da mãe, e das reflexões do velho.
Estava, uma tarde de Agosto, Affonso em Bellas. Desde o dia anterior que não voltára a Lisboa. O tio, como elle não voltasse ao segundo dia, metteu-se á sua carruagem, e foi procural-o, e entregar-lhe cartas recebidas do norte. Uma era de sua mãe, outra d'um seu tio paterno, fidalgo de Barcellos, o mais acerrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Corrêa Figueirôa, com uma mulher da Fervença, que, dizia elle, por nome não perca.
A carta da mãe dizia simplesmente:
«Não era digna de ti, meu filho, Deus bem m'o tinha dito, e o coração estalava-me em ancia de t'o dizer. Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.» E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizel-as as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.
A carta de Fernão de Teive era mais prolixa versando quasi toda sobre o casamento de Theodora com Eleuterio.
Parecem-me dignos de extracto uns relanços d'esta carta, que eu copiei do original. Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estylo picaresco do folhetim:
«....... Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcellos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as eguas de albardão e rabicho na parte equestre do prestito, que era luzido, por que os arreios brilhavam, principalmente as barbellas. O noivo ia desencabrestado, visto que tirára bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada, com cara relamboria, levava ares fulos; e procurava as estrellas ao pino do meio dia, pasmada de vêr que ellas não vinham á janella admiral-a. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus, e parabens aos nossos antepassados!............................................................. ..........................................................................
«Perguntei quem eram os figurões do prestito. O meu sapateiro conhecia quatro. Varreram-se-me da memoria os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum á saude da noiva. O lapuz do noivo queria montar á Marialva; mas o ginete, quando chegou á Cárcova, festejou a suciata com quatro couces que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ella ha-de levar do marido................................ ..........................................................................
«Tinhas a côrte celestial a pedir por ti, Affonso! Quando te deu na venêta ser marido de Theodora, em quanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai ás arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Theodora por Theodora, antes a do papel de mata-borrão, que est'outra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo ha-de gastar......................... ..........................................................................
«Agora é tempo de te dizer que tens uma prima, e eu tenho uma filha. Se a queres esposar, vem quando estiveres farto da capital. Está senhora, e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pae, Mafalda parece-me gentil e esvelta. Em palavras é discreta como se os cabellos, em vez de puro ouro, lh'os tivesse embranquecido a experiencia. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bemdizer a mãe que a educou, e o sangue illustre que lhe fórma o coração.
«Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras d'uma mocidade bem encaminhada, e recebe a benção de teu tio
_Fernão de Teive_.»
Lidas estas cartas, Affonso levou o lenço ao suor da testa e ás lagrimas, que lhe cahiram a quatro. O tio, já avisado do successo de Braga, discursou largamente de pitada no dedo, e os oculos montados na mais grave das attitudes. Affonso diz que o não ouvira longo tempo, e o abominára depois que o ouvira.
Quizera o desembargador leval-o comsigo na traquitana; mas o moço rebellou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinacia do sobrinho em ficar, terceira noite, fóra de casa. Affonso internou-se de corrida entre o arvoredo, n'um impeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o, e foi para Lisboa, d'onde participou á irmã o resultado das cartas, e aproveitou o ensejo para vaticinar que Affonso ia caminho da demencia a passos de gigante.
Disse-me Affonso que, n'aquella noite, fôra ter a Mafra; e repousára, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do sol, quiz agitar-se em nova caminhada; mas o cavallo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassivel á espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Affonso. A mais tragica desventura tem uma physionomia comica, se bem lh'a procuramos. Escusavel seria o riso de quem observasse o cavalleiro, roxo de febre e colera, esporeando os ilhaes do esbuxado cavallo, decepado de jejuns, e correrias arabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer póde questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!
Em quanto o cavallo reparava as forças na manjadoura, Affonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal, e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Theodora. Escreveu tambem ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.
Feito o proposito de viajar, o phrenesi descahiu em sombria, mas serena tristeza.
O céo negro abria-se-lhe, a instantes, em relampagos de luz. Atirava elle com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineavel, e retrahia-se com ella a uns rapidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas dos dezoito annos! Viajar era-lhe já uma ancia; cria-se resgatado assim das penas, e só assim que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.
Embebecido n'esta esperança, voltou para Lisboa, e recolheu-se tranquillo a casa do desembargador. Ninguem fallou em Theodora. As primas forcejavam por distrahil-o sem mostrarem proposito d'isso. O velho proferia maximas umas de Seneca, outras d'elle ácerca das paixões; abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Affonso, n'aquelles oito dias, podera recopilar maximas e proverbios com que, no decurso de longa existencia, regesse as suas acções, e repartisse sciencia de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inattento sobrinho do apotegmatico desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as maximas de Seneca, e quasi latinas as do tio em virtude do estylo graudo e philintiniano em que as compozera. O certo foi que Affonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.
Mais vernaculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.
N'um dos dias em que Affonso estava esperando recursos para se expatriar com a sua dôr, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Affonso, desgostoso da surpreza, bem que as lagrimas o consolassem ao vêr sua mãe, receiou que ella viesse apostada, com o imperio dos prantos ou da authoridade, a demovel-o de viajar. A santa senhora, entrando-lhe na alma, sorriu benignamente, e disse-lhe:
--Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sahir de tua patria, não quizeste ir abraçar tua velha mãe, e abraçal-a talvez para nunca mais a tornares a vêr. Vim eu, sabe nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Affonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca sahirem da patria para as guerras contra a Hespanha os militares ainda mancebos e os generaes já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e orarem em commum diante da cruz a que suas mães tinham orado com elles tenrinhos nos braços. Este era o uso da nossa familia antiga, meu filho, e não sei por que não ha-de continuar comnosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que elles oravam, tambem eu orei comtigo em meu seio, e lá aprendeste de minha bocca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos--nome dôce de mãe que te estremece--seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Affonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a sua pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com anticipação o abraço, que eu lhe pediria nos ultimos instantes da vida. Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar, e ficar pedindo a Jesus Nosso Pae que te guie, e ampare, e restitua aos que te ficam chorando. Em quanto a dinheiro, Affonso, tu dirás o que queres, que prompto está. Prasa a Deus que elle te não sirva de ruina ou deshonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta affectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no hombro com severidade, e clamou:
--Acorda, coração de pedra!... Córa de pejo, e dôa-te o arrependimento, filho mau!
--Meu mano--disse a senhora--o nosso Affonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que elle tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou n'esta má vereda fui eu.
--Tu, Eulalia?! Como assim?--perguntou o desembargador interdicto.
--Eu, eu fui, quem primeiro lhe fallou em Theodora, e lhe preparou o coração para captivar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Theodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ella fosse excellente esposa de meu filho, e digna de o ser do filho da mais illustre mãe. Eu enganei-me, e elle foi enganado por mim. Affonso apaixonou-se; quando lhe quizemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco ha, lhe chamei fraco.
Affonso lançou-se em pranto desfeito, aos braços de D. Eulalia; e, após curtos instantes de offegante silencio, exclamou:
--Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um thesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é a sua vida!
--Graças vos dou, meu Creador e Redemptor!--clamou a senhora, muito commovida, com as mãos postas--Grande é o poder que daes ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus! mas a vossa misericordia não mede os merecimentos pela afflicção com que as mães vos chamam!
E, volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos, e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infancia.
O magistrado e as filhas solemnisavam o espectaculo chorando e rindo de contentamento.
IX
Verei se posso repetir, sem inexactidão sensivel, o que Affonso de Teive me contou, com seguimento aos successos descriptos.
«Nenhum rapaz dos meus annos--dizia elle--exerceria tão dolorosa violencia sobre o seu espirito. Jurei commigo de nunca mais proferir o nome de Theodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido d'ella. Eu não sabia a que porta do inferno fôra bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade, que homem nenhum de annos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha familia, atava com arames em brasa a mascara da minha agonia, contra a qual minha propria mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ella me dizia: «Estás esquecido d'aquella louca, meu filho! as minhas orações foram ouvidas no céo» ou quando meu tio, com alegres gargalhadas me applaudia, dizendo: «Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!» então a minha angustia exacerbava-se, e eu, assim que as attenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, d'este inutil rogar á piedade divina, erguia-me para escrever a Theodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquellas!...
«Minha mãe deteve-se um mez em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer comsigo para a provincia; mas a obediencia não podia levar tão longe a abnegação. Recordar estes sitios, vêr além os horisontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar, fortuitamente, Theodora, ou alguem que me fallasse das felicidades d'ella, isto apertava-me tanto a alma, que eu sentia em mim um desfallecimento de coragem, uma quasi precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.
«Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapazes de todas as condições e feitios me arrancariam de mim proprio, e levariam em suas folias, ou me habituariam o espirito ás consoladoras occupações do estudo.
«Minha mãe accedeu promptamente á minha vontade.
«Fui para a universidade, muito escasso de preparatorios, e por isso me matriculei em philosophia. Logo aos primeiros dias conheci que fôra um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços-velhos, gente ridicula; mas d'uma ridiculez que não distrahe ninguem. Cada um parecia que trazia dous oraculos na cabeça: antes de expenderem os seus dogmas, punham-se á escuta da inspiração; e, ao abrirem a bocca, a propria Minerva das escadas latinas cuidavam elles que se apeava do sóco para escutal-os. Zanguei d'estas creaturas infestas, e fui-me inscrever na fila dos litteratos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravalhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, emfim, futuras esperanças da patria, que bem sabiam que uma diminuta sciencia, com muita ousadia, basta para attingir os pinaculos sociaes. Tinham estes rapazes um jornal. Publiquei sem assignatura uma das muitas poesias que eu tinha escripto nos arvoredos de Bellas, nos tempos em que a imagem lagrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá commigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da terra. A poesia tinha a religiosa suavidade d'um amor que se alliava aos santos enlevos do coração virgem. Os litteratos disseram que eu imitava Lamartine, e que mesmo o traduzia quasi litteralmente em algumas strophes. Ora, eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lêl-o, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado commigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus collegas por se darem uns ares de tolice muito por ahi fóra dos limites rasoaveis. Passados tempos dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, vertiginosa, escripta depois do meu desastre. Os meus collegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode, declarára que eu traduzira Victor Hugo. Fui lêr depois Victor Hugo, e lastimei que os soberanos do genio estivessem sujeitos ás chufas de todo o mundo, sem excepção dos litteratos meus contemporaneos da universidade.
«Enfadado d'uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os _trossistas_, iniciando-me para isso nas libações homericas da genebra e cognac do Troni. Á primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou-me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus socios de delirio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcastico, ironico, eloquente, e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra côr, e de haver idealisado formosas chimeras douradas por novas e esplendidas auroras d'outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acommettiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, odio mesmo á luz que me amostrava os espectaculos da natureza, em que n'outro tempo a minha alma, toda oração, toda absorvida, se evolava em effluvios de admiração para o Altissimo.
«N'este perdimento de dignidade terminei o primeiro anno, com approvação plena, e resolvi passar as ferias em Lisboa.
--Com approvação plena!--atalhára eu Affonso de Teive.
«Por que não?--respondeu elle--As minhas noites eram quasi todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e disturbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Theodora sentava-se em frente da minha mesa, e dialogava commigo, ella no tom escarnicador da mulher ovante da sua deshonra, e eu no accento supplicante de quem já não tem que pedir senão piedade. A refugir d'este supplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, lia-os, e relia-os sem comprehendel-os; mas, esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar, e expôr com clareza, uma ou outra vez, as idéas dos compendios. Os meus creditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente n'uma lição.
«Pediu-me minha mãe que a visitasse em ferias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ella fosse ao Porto passar commigo a estação dos banhos de mar. Annuiu a santa senhora.
«Os meus dias corriam magoados, mas serenos em Lessa da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas mui distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pae me tinha desenhado sem encarecimento. Fôra a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois á verdadeira luz. Era bella, e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua innocencia. «Se eu podesse amal-a!» dizia eu a minha mãe, que se tornára para mim, n'aquelles dias menos opprimidos, uma segunda consciencia. E minha mãe, com a summa delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a fallar, que me fizesse lêr alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da _Noite do Castello ou os Ciumes do Bardo_. Comecei a lêr pelo livro; porém, á segunda pagina, dei de mão insensivelmente ao livro, e declamei de côr com tamanho enthusiasmo, e com a voz tão vibrante de lagrimas, que minha mãe rompeu em soluços, e minha prima empallideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto d'aqui, do alto dos meus tamancos, e através d'estes oculos de tres graus!
«Minha mãe impediu a continuação da leitura, e Mafalda nunca mais desejou ouvir-me. Observei mais arrefecida, e muito menos attenciosa, minha prima, desde aquella explosão de ciumes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve, que nem a vaidade me magoou.
«Estavamos em Setembro, e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sitios, onde as horas me tinham sido mais tranquillas, na soledade. Velejei n'um barquinho rio acima, e aproei á ribanceira, d'onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extinctos franciscanos. Á sombra d'um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrazado templo, meditei nos frades, no convento, no refugio dos desamparados do mundo, nas lapides profanadas que mãos impias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extinctos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilisação, que fechára os aditos da paz, quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexoravel; maldisse a illustração, que aluira a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angustia era ainda immensa, por que eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho de melhor mundo.
«Descendo o rio, lá me ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ella pelo braço, e a referir-lhe as minhas idéas sobre os conventos. A virtuosa rejubilava-se ouvindo-me, e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor, e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestigios de meus religiosos avós, alguns dos quaes tinham morrido martyres da fé nas pelejas dos soldados de Christo contra os mahometanos. Ouvia eu aprazivelmente a chronica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na Africa e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do Porto, á sahida de Matosinhos, com direcção á ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavallo, ao lado d'um cavalleiro menos cuidadoso das arremettidas garbosas do seu.
«Minha mãe assestou a luneta, e murmurou:--Valha-me Nossa Senhora dos Remedios!... Se me não engano...
«Quem é?--atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavalleiros, no entanto, avisinharam-se a galope. Antes de conhecel-a, adivinhou-a o coração, que me repuxou á cabeça uma onda de sangue... Era Theodora, Theodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas chimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades d'esta vida... Não te espante o ardor d'esta linguagem. Eu fiz agora pé atraz vinte e quatro annos da minha vida, e senti-me reviver n'aquelle momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego, recordando minha mulher e meus filhinhos.
X
Affonso, passados dous minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade com que principiára.
«Theodora reconheceu-me. A turbação do meu animo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances de olhos, todas as linhas alteradas d'aquelle adoravel rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quasi paragem convulsiva que fez o cavallo. E eu busquei o apoio do hombro de minha mãe, e senti-me comprimido nos braços d'ella. E a magia satanica do olhar da bella mulher empederniu-me; arrefeci; d'ahi a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ella tinha passado. Puz então a mão sobre o meu coração, e já lá encontrei a de minha mãe.
«Caminhamos para casa, e não trocamos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas, e vinguei-me do meu infortunio a chorar. Chorei, e senti-me desopprimido. Fui ao quarto de minha mãe, e achei-a de joelhos orando. Quaes lagrimas me deram allivio? seriam as d'ella ou as minhas? As d'ella, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão, e abafa n'outra: a do odio. Prantos que salvam são os da dôr immerecida, os apêllos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providencia. E eu, quando chorava, amaldiçoava, e pedia vingança.
«No dia seguinte, fui para Coimbra.
«Concentrei-me com a visão da ponte de Lessa. Não me deixou aquelle adorado demonio recahir na minha miseria da embriaguez. Para que?--dizia eu--Se tenho de voltar á razão para encontral-a com a tenaz ardente da tortura?
«Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscillaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dôr que eu não sei se é commum de todas as organisações, dôr que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguineos. A carta era de Theodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: «Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Affonso. Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessaria a fatalidade do amor, da paixão. D'aqui por diante ha-de rasgar-me o peito a desesperação dos reprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir-te perdão. Não me amaldiçôes tu d'hoje em diante. Se tens padecido, perdôa, e Deus te dê o triumpho na bemaventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegra-te, que eu desejo a morte, e ella virá salvar minha pobre alma d'este miseravel corpo.»
«Que lucta, meu amigo! As horas d'aquelle dia e d'aquella noite foram uma continuada alternativa de alegria douda e de excruciante agonia! Começava a escrever-lhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha propria consciencia. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajal-a e adoral-a era então a despotica necessidade da minha cabeça allucinada.
«Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dôres, que escondera de todos. Tive ancias de uma alma, que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido commigo. Sem excepção d'um só, eram todos futeis, e incapazes de me pouparem á sua zombaria, se me vissem chorar. Suffoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz phantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridiculo em nenhuma das minhas desgraças.
«Passaram tres dias. Na minha banca estavam tres cartas fechadas, e os fragmentos d'outras, que eu destinára a Theodora. Abri as cartas, reli-as, tive pejo e tedio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.
«Porque? porque não havia de ser eu o que seria todo o homem, abrazado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguem se rira de mim abandonado d'ella, que maior victoria queria eu, senão a de fazer risivel o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta philosophia hedionda, com que se pavonea a philaucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração d'outros miseraveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar n'um caso da vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade do meu caracter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexivel pundonor dos dezenove annos. Era uma feroz vingança que eu me infligia á conta do covarde quebranto em que me deixára a apparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.
«O meu segundo anno de Coimbra foi um continuado suicidio. Desbaratei a saude em toda a especie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, n'aquelle anno de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espiritos alvorotados dos academicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insomnias e empeçonhado de bebidas estimulantes, cahi de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.
«Escondi de minha mãe aquelle estado em quanto me não assalteou o remorso de a não chamar ao meu leito, e confessar-me da vileza de alma que me levára a destruir a minha vida por meios tão ignominosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ancia e lagrimas aos medicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor, e viajasse depois um anno nos paizes temperados e arborisados. A meu vêr, a sciencia queria dizer no seu receituario que eu estava em vesperas de encetar uma viagem barreiras a dentro da eternidade.
«Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Sahi de Coimbra para o Porto. Tenteei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheiraes de Ruivães, os regatos crystallinos, orlados de verduras em que minha mãe me via creança, a colher boninas para lh'as entretecer nos cabellos. A minha alma amava então estas cousas com o transporte arrobado e sereno dos tisicos: é que o envolucro já lhe não empecia o filtrar-se n'ella o calor da luz ideal, aquelle calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.
«Venceu o desejo da vida. Isto que, um anno antes se me antolhou feio e inhabitavel, aformoseou-m'o então o anhelo de viver. Até a côr do céo, d'onde me choveram as alegrias dos dezeseis annos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Theodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essencia, captiva do amor d'ella, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, d'onde eu sahira refundido, e mui estranho ao homem do outro tempo.
«Surprehendi minha mãe, sentada á sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas ultimas cartas, escriptas com a ternura da alma alumiada pela alva d'um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberancia de saude, de alegria, e de uncção religiosa. Então me considerei estreado em nova existencia.
«Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o segundo anno, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no index dos compendios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessaria a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ella. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessario recolher idéas que ao depois me aligeirassem no estudo os annos de toda a vida, que eu designára passar na casa, onde meu pae tinha vivido a sua, com todas as ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A dôce creatura, accusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigára-se a expiar pela abnegação e condescendencia. E de mais, ella temia que, alguma hora, me reapparecesse a visão de Lessa.
«Que presentimento!
«Dias antes da minha destinada partida, fui ás Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer sahi com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro, quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alamêda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado n'uma capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse n'um tom ironico:--Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados.
«Reconheci a voz de Theodora. Mafalda sentiu o tremor do meu braço, e reconheceu-a tambem de instincto.
«Desviei-me do caminho trilhado para seguir ávante. Theodora deixou cahir a dobra da capa, em que occultava meio rosto, e disse n'um tom arrogante:--Veja, snr. Affonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua.
«Deteve-se alguns segundos arquejante: eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no fremito da sêda do corpete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume, e afastou-se a passo rapido.
«Levantei o objecto arremessado, e conheci que eram papeis e um objecto de mais solidez, deviam de ser as minhas cartas. O restante que seria?!
«Mafalda ia murmurando:--Que mulher, santo Deus! que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ella. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma creatura, assim encapotada sobre um grande cavallo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Lessa, e meu pae descreveu-m'a tão pelo miudo que a adivinhei. Não t'o disse, e pedi a Deus que te levasse depressa d'aqui...--Não receies, minha boa prima--disse eu a Mafalda--que esta mulher na minha vida, já agora, apenas póde ser um estorvo de tres minutos, quando eu passeio nas Caldas--Minha prima replicou:--Não te illudas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita.
«Sorri-me, e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e d'esta fita pendia uma pequena chave; era tambem uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia á caixa. Abri-a, e vi uma trança de cabellos, com tres flôres resequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as tres flôres: tinha-lh'as eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus annos.
«Tirei a trança, e insensivelmente, a contemplal-a, achei que a tinha perto dos labios. Circumvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sosinho, e fechado... Beijei os cabellos de Theodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora; consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta historia, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e poderes, ácerca da miseria do bruto que chora, e beija tranças de cabellos, do bruto que ri de seu mesmo vilipendio, do bruto, em fim, chamado _homem_. «Ia depôr as madeixas no cofre, receioso de alguma surpreza, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma carta. Escondi-a sofregamente, fechei os cabellos, escondi o cofre e as minhas cartas no sacco de noite, e palpitante de commoção sahi do meu quarto, e fui respirar no escuro d'uma varanda, onde presumia não encontrar alguem.
«Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsamicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente. Fui á extrema da varanda, e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com anciada violencia. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a comprehendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Cahiram-me nas mãos as lagrimas de Mafalda... Perguntei-lhe por que chorava. Respondeu-me:--São as primeiras lagrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixa-te perder... Não ha ninguem que te possa salvar d'aquella mulher.--E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
«Eu levantei olhos ao céo, e disse, em meu espirito, com terror quasi infantil:
--Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abysmo, d'onde a vossa misericordia não tem querido salvar-me!
«E cuidei que o céo, se abrira á minha oração com um milagre.
«A imagem de Theodora passou ante mim; vi-a repulsiva, abjecta, vilissima, e prostituida. Subito, n'um disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lagrimas, humilde como uma santa, e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nodoa.
«Amei então minha prima; todas as estrellas do céo m'a estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam commigo um hymno ao Senhor que me descaptivára das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo de sua audacia me fascinára, e com aquelles cabellos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
«Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a á cabeceira do leito de seu pae. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquella distincta angustia que lacera a alma sorrindo, por que as lagrimas só servem para exprimir os soffrimentos communs.
«Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a benção, e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez soffria, depois que eu a surprehendêra chorando provavelmente. Este resguardo augmentou a divinisação de Mafalda.
«Fechado na minha alcôva, abri a carta de Theodora. Está n'este masso lacrado, ha quatorze annos. Quebre-se o lacre, por amor da authenticidade da historia... Aqui a tens. Lê tu, em quanto eu dou folga aos pulmões. Ha muito anno que não fallei tanto tempo!
Li a carta de Theodora, cujo traslado segue:
«Quem te disse a ti que eu tinha cahido diante de mim mesma, Affonso?
«Quando te dei eu direito de suppôr que o teu silencio, em resposta a um grito do coração, me esmagaria os brios de mulher, que, d'um sopro, faz saltar de suas vestes a lama do teu desprezo?
«Quando eu te appareci magnifica de dedicação, fizeste-te mesquinho tu. As minhas lagrimas figuraram-se-te o pus d'um coração corrompido; e eram soro do mais nobre sangue.
«Não podeste chegar com a fronte á altura da minha, e apedrejaste-m'a!
«Quem cuidas tu que és, soberbo senhor, que voltas o rosto da tua escrava, e não sabes sequer usar a misericordia de dizer á mulher, que te ama, que não seja infame, amando-te?!»
N'este ponto suspendi eu a leitura, tomei a respiração, e disse:
--Esta senhora tem estylo, ou eu não entendo nada de estylos! Que interrogatorio!
«Podes rir, que eu tambem cá estou mordendo os beiços para não espirrar uma casquinada na cara do antigo Affonso de Teive--disse o meu amigo.
--Mas o estylo--tornei eu sinceramente agradado da leitura--o estylo aqui não póde ser a mulher: aqui, ha, pelo menos, a triple intelligencia de tres escriptores de melenas sacudidas aos quatro ventos da inspiração! Por Hercules! Isto sim que é mulher... e «aqui ha que vêr» como diz o Garrett.
--E que lêr--ajuntou Affonso de Teive--continúa, se queres.
Perfilei as minhas faculdades intelligentes, e segui a leitura:
«A contas, homem de ferro, que endureceste o teu fragil barro d'outro tempo ao fogo de baixas paixões, a contas com a mulher desprezivel!
«Que fazias tu, quando eu me estorcia de saudades de ti, e dôres do meu captiveiro, dentro das grades das Ursulinas?
«Quando soubeste que a tyrannia me fechava a sete chaves n'uma cella, e me media os atomos de ar, que eu respirava a furto, que fazias tu para resgatar os quinze annos d'uma mulher que queria o sol das flôres, das aves, dos mendigos, do ultimo verme que se arrasta e cumpre o seu destino debaixo dos olhos de Deus?»
--Parece-me, reflecti eu, que esta senhora arredonda ambiciosamente os periodos, meu caro Affonso; e, se me dás licença, direi que ha estylo de mais n'este periodo!... Estou morto por te perguntar que impressão te fazia isto ha quinze annos!...
«Lê, e no fim fallaremos--disse Affonso. E eu li:
«Não respondas. A vil, a abjecta, a desgraçada é generosa. Não respondas. Ri, e escuta.
«Abandonada por ti, enganada, não sei por que nem com que fim, por tua mãe, achei-me fraca para cruzar os braços, e esperar a morte. Á borda do abysmo, vi uma tabua de salvação. Sabia que, segurando-me n'ella, as mãos se rasgariam em chagas incuraveis. Sabia-o; mas agarrei-me á tabua de salvação. Escutei a desgraça; que não tinha outro anjo, nem outro demonio que me aconselhasse. Escutei-a, e aceitei o marido que ella me deu. Perdi-me para a vida da alma; mas encontrei a vida dos olhos e dos ouvidos, e do seio, onde me roia a serpente da soledade e do desabrigo.
«Vi arvores, vi estrellas, ouvi os canticos da terra e os amorosos murmurios da natureza festiva. No centro do mundo era eu a unica mulher sem mãe, sem pae, sem amigo, sem coração que se abrisse ás cinzas do meu. Não importa. Via o sol no firmamento; e para além do sol, a infinita luz dos que bem-disseram a mão do Senhor que, á sua vontade, desdobra um crepe de trevas sobre os corações, que, em sua innocencia, não ousam interrogal-o como Job!»
--De mais a mais--reflecti eu--lida nos livros sagrados!... Posso, sem indiscrição, perguntar se a authora d'esta carta morreu ou vive escorreitamente?
«Espera que a concatenação dos factos te elucide--respondeu Affonso.
Prosegui, lendo, com espanto maior que o meu costume, se acerto de topar cousas escriptas por pessoas de juizo duvidoso:
«Trasbordou um dia a amargura de minha alma. Não sabia onde me levava a vertigem. Corri leguas. As arvores, que gemiam um som, as fontes que tinham uma voz, os trovões que estalavam do céo de bronze, as catadupas que bramiam no despinhadeiro, tudo me dizia o teu nome. Corri as montanhas que nos viram meninos; reconheci a fraga onde nossas mães se sentavam; orei á cruz de pedra, que está na quebrada da serra. E não te vi. Dous mezes te procurei, sem balbuciar o teu nome. E, quando ha um anno te avistei encostado ao hombro de tua mãe, a voz do meu orgulho de desgraçada disse-me: Se elle quizer que tu te percas por elle, amanhã não terás honra, nem familia, nem marido, nem creatura sobre a terra que te não insulte.
«E escrevi-te, Affonso! Aquelle papel era uma renunciação, aquellas palavras queriam dizer:--Dá-me a perdição como salvamento; dá-me a infamia como gloria; o mundo vai apedrejar-me, e eu cuidarei que elle me acclama virtuosa; todas as devassas me julgarão indignas d'ellas; e eu, contente da minha deshonra, estenderei benignamente a mão a todas as miseraveis, que m'a cuspirem.
«E tu, Affonso? Como me julgaste morta para a virtude, aproximaste-te do cadaver, pozeste-lhe sobre o peito um pé, calcaste, viste-lhe nos labios o sangue do coração, e escarraste-lhe!
«Voltei do outro mundo. A mulher, que viste ha pouco, era um phantasma. Os cabellos negros, que adornastes com tres flôres n'aquelles formosos quinze annos, cahiram-te aos pés. As flôres vem aradas do fogo do inferno. O phantasma voltou ás suas labaredas, para nunca mais te crestar o riso dos labios com as chammas dos seus olhos. Vai tu ao céo, e pede a Deus que me deixe adorar-te na eternidade das penas. Pede-lhe que me dê eternidade para a expiação, e eternidade para o amor. Adeus.»
Não sei bem dizer d'onde me vieram as lagrimas. Sei que terminei a leitura da carta, já quando os olhos mal discriminavam as letras.
Como a gente, ás vezes, chora?...
Era o estylo!
XI
Sorriu Affonso do meu melindroso sentimentalismo, retorceu destrahidamente os longos bigodes por sobre a barba listrada de fasciculos brancos, afogueou o seu cachimbo de barro negro, e continuou:
«Eu é que verdadeiramente chorava, quando acabei de lêr esse papel. Ficas sabendo a impressão que em mim fez a carta de Theodora. Não ha vergonha que eu omitta n'esta confissão geral. Sou o juiz do homem que fui. Julguei-me e condemnei-me ao opprobrio de levantar da lama o coração velho, e mostral-o com nausea ao enojo dos que vão passando...
--Mas eu não vejo ahi cousa indecorosa de que te envergonhes!...--atalhei.
«Vês, pelo menos, a baixeza do meu espirito, senão antes a crassa sandice de pensar que as accusações de Theodora estavam justificadas por essa frandulagem de palavras sonoras, e apostrophes melo-dramaticas. O castigo da minha miserrima estupidez virá depois... Lá chegaremos.
«Li terceira vez a carta, e abri a janella do meu quarto. O vento ramalhava nas carvalheiras, e o céo d'aquella noite não tinha uma estrella. Appeteci embrenhar-me na escuridão do arvoredo. Abri de manso a porta do meu quarto, e, pé ante pé, ganhei a varanda d'onde era facil o salto á rua. Acabava eu de saltar, quando do escuro de uma janella contigua á varanda, me surdiu a voz de Mafalda.--Não tinhas necessidade de saltar, primo--disse ella--Chamasses que se te abriam as portas.
«--Estás a pé ainda, minha prima?--perguntei eu, corrido da surpreza, e algum tanto contrariado da espionagem.--Nunca me deito mais cedo--respondeu ella com brandura--Quando as noites são assim tristes, gosto de as vêr... Está vento, primo;--continuou retirando-se--não estejas ahi ao ar desamparado. Boas noites.»
«E fechou rapidamente a janella.
«Encaminhei-me á alamêda dos banhos, na inepta esperança de vêr alli vestigios de Theodora, ou não sei se ella mesma. Não sei ao que ia. É impossivel explicar o intento que nos impelle em casos semelhantes, quando a gente, alguns annos depois, inquire de si mesmo o sentido das suas intenções: são actos estranhos á razão, dos quaes só póde desculpar-se o delírio. A verdade é que eu fui á alamêda, e andei, palmo a palmo, recordando-me do local em que ella me sahiu, e a direcção que tomára na retirada. Sentei-me n'um dos bancos de pedra, e conjecturei se ella teria estado alli sentada. Cerrei ouvidos a todos os rumores para escutar o som das palavras de Theodora, que me ecoavam do intimo coração. Atirei com a alma supplicante e desesperada áquelle céo de bronze, negro como ella. Pedia a Deus o esquecimento da mulher, com a vehemencia do justo atribulado que pede a corôa do triumpho.
«Levantei-me, e andei por as trevas, esbarrando nas arvores, e refrigerando o fogo da testa e mãos nas fontes e charcos que topava. Ao arraiar da manhã, estava eu nas raizes da Falperra. Senhoreou-me então um somno lethargico e invencivel. Adormeci com a face encostada á raiz d'uma arvore, e acordei, coberto de camarinhas de orvalho, ao calor dos primeiros raios do sol. Retrocedi pela estrada das Taipas, e entrei em casa, quando meu tio Fernão, admirado de minha falta, andava indagando dos criados, se eu sahira de madrugada.
«Mafalda appareceu-me com o semblante pallido, os olhos raiados do muito chorar, e o azul-violeta das olheiras carregado e distendido até meia-face. Meu tio ligeiramente alludiu á minha falta, na presença da filha. Sahimos da mesa de almoço, e entramos na sala, onde Mafalda recordava as suas musicas ao piano, e, algumas vezes, se acompanhava cantando. N'este dia, a adoravel penitente sentou-se ao piano; e, com uma só das mãos, dedilhou umas toadas monotonas, mas celestialmente saudosas e melancolicas. O velho acenou-me, a occultas da filha. Segui-o; sahimos, e caminhamos a pé na direcção das ruinas de Citania. A meio caminho estava uma casa alagada, com uns lanços de muro ainda em pé. O velho avisinhou-se das ruinas, estendeu o braço com o indicador apontado, e disse: Aquelles pardieiros pertenceram a teu tio-avô Christovão de Teive. N'aquelle tempo, os homens de vida infamada, quando os ultimos invernos lhe geavam na cabeça, e os sinos, dobrando a finados, lhes attrahiam os olhos para a sepultura, o remorso penetrava-os até ao amago, e estorcia-os nas roscas das suas mil viboras, até que Deus se amerceava d'elles, e os tomava para o seu tribunal. Teu tio-avô foi um mau desgraçado. O amor de uma mulher da côrte entrou-lhe no coração, e apodreceu-lh'o á força de lhe derrancar o sangue com as torturas da perfidia. O moço empestado veio para a provincia, e sevou o seu odio em quantas victimas pôde surprehender adormecidas no regaço do seu anjo de innocencia. Aos quarenta annos, pesou sobre elle a maldição de Deus. Desde a raiz dos cabellos até á raiz das unhas chagou-se-lhe o corpo de lepra. De repente, em redor d'elle fez-se uma solidão horrenda. Desampararam-no todos. Nem os engeitadinhos, indigitados como filhos d'elle, ousavam chegar-lhe um pucaro de agua. Christovão de Teive tinha esta casa, aqui afastada de visinhos, construida não sei para que fim ha tres seculos. Aqui se encerrou e viveu quinze annos aquelle vivo amortalhado nas ulceras da sua pelle. A sua companhia era a ama, que o amamentára, e que Deus, em recompensa, preservou da terribilissima enfermidade. Morreu o desamparado, legando esta casa á mulher que lhe cerrára as palpebras. A enfermeira foi depós elle, devolvendo a casa aos herdeiros de seu amo. Cincoenta annos depois, quando eu aqui vim, encontrei estes pardieiros. Dos nossos parentes ninguem poz pé a dentro das soleiras, que alli estão, onde existiram as portas...
«Deteve-se meu tio breves instantes, e concluiu:--Affonso, o divino Mestre doutrinava com parabolas: o homem d'estes calamitosos tempos moralisa com exemplos. Teu tio-avô começou como tu: vê tu, meu sobrinho, se vingas um correr de vida melhor que o d'elle. Se uma mulher te cancerou o peito, esconde-te, depura-te, faz-te bom, e depois volve ao mundo a procurar a felicidade do coração. Em quanto esse dia de regeneração não chegar, foge das mulheres puras. Eu tenho uma filha unica, um thesouro que Deus me confiou. Minha filha chora por ti. Affonso, se as lagrimas d'ella te não resgatam das presas d'uma mulher perdida, foge, e foge hoje mesmo. Agora, silencio, Affonso...
«Na madrugada do dia seguinte, sahi das Taipas, e fui para Ruivães. Dias depois, desisti do plano de me formar, e fui para o Porto. Sahia um vapor para Liverpool: embarquei, e estive na Inglaterra; passei a França; e de França fui residir na Suissa uns seis mezes. O arrependimento de deixar minha mãe e a minha terra seguiu-me sempre. Resolvi regressar por muitas vezes; mas, fatalmente, a primeira imagem que eu via, voando em espirito á patria, não era a de minha mãe. Ella sempre, Theodora sempre!
«Ao cabo de um anno de expatriação, voltei para o Porto. Dava-me então como curado. A memoria d'ella era já fria: o pulso não se accelerava, nem do coração me subia á cabeça um golfo ardente de sangue. Fui alegrar minha mãe, ao lado da qual encontrei Mafalda, que lhe assistia á convalescença d'uma perigosa enfermidade. Notei sensivel mudança no rosto de minha prima. Os risos do anjo tinham ascendido ao céo no perfume de suas orações. A coruscante luz d'aquelles olhos tinham-na apagado os prantos. As madeixas cahiam-lhe soltas sem flôres, sem ornatos, como dons de quem os esquece, ou não sabe de que elles valham ás venturas da existencia. Porém, formosa da aureola santa da dôr sem culpa. Que paixão me avassallou n'aquelles primeiros dias! com que religiosidade eu beijava a mão de minha mãe aquecida pelos labios d'ella! Recordo-me de a encontrar sosinha no pomar. Sentei-me ao lado da mulher purissima. Tomei-lhe com subita sofreguidão os dedos que me offereciam um pomo. Não ousei beijar-lh'os... apenas balbuciei: minha querida irmã!... Mafalda respondeu--Deves assim chamar-me, por que eu já me afiz a chamar minha mãe á tua, meu primo.
«A paz dos primeiros dias, aquelle suave repousar do espirito, entre as duas carinhosas almas, que m'o distrahiam com as indiziveis doçuras da domesticidade, durou menos de tres semanas. Ao sentir-me fatigado da igualdade de todas as horas, angustiei-me, e cobrei horror do meu futuro. «Que abominavel homem sou!» dizia eu no meu intimo senso, repellindo-me a mim proprio com uma restante força de virtude--Se me repugna o crime, por que a não esqueço? Se a não posso esquecer, para que me devoro n'estas covardes tentativas de lhe fugir? Odeio-a, e, em minha alma lhe exoro perdão d'este odio. Se me doe o coração saudoso d'ella, abomino-me, e recurvo sobre mim proprio as unhas d'esta feroz paixão.
«A fugir de mim mesmo, ia abrigar-me sob os olhos de Mafalda. Ella via nos meus olhares a submissão imploradora, e não entendia a covarde procedencia d'aquelle fital-a com tanta brandura. Apreciou-me erradamente. Teve-se em conta de amada. E, quando eu mais atormentado pelejava com a visão de Lessa e da lamêda das Caldas, Mafalda rehavia do céo os jubilos de outros dias, e a purpura do rosto. A compadecida amargura, com que eu a fitava, afigurava-se á ingenua menina a expressão do amor contemplativo, como ella o sentira e escondera sempre de todos, salvo de seu pae.
«Minha mãe, a occultas da sobrinha, perguntava-me a respeito d'ella cousas, cujo fito estava posto no casamento. Eu respondia a verdade, como se Deus necessitasse interrogar a minha consciencia. Mostrava receios de ter desbaratado as flôres do coração, ao apuro de não ter já virtudes que me fizessem um digno esposo d'ella. Minha mãe não podia entender-me; obrigava-me suavemente a explicações, e, ouvindo-me, dizia soluçante: «Não se quebrou ainda o fatal encantamento!... Deus te salve, meu desgraçado filho!»
«A quarenta passos de distancia de minha casa está uma cruz de pedra tosca, sobre uma peanha de cantaria. A esta cruz se referia Theodora, na carta que lêste. Quando ella tinha seis annos, esteve com sua mãe uma temporada em nossa casa, e voltou alli aos nove. Algumas vezes nossas mães se sentaram nos degraus do cruzeiro, em quanto nós, com vergonteas floridas de acacias e arvores de fructa, teciamos uns desageitados festões que dependuravamos dos braços da cruz.
«Levou-me para lá o coração dez annos depois. Sentei-me na peanha da cruz. Acaso relanceei os olhos pela pedra, que lhe formava o sôcco, e vi letras. Reparei, e reconheci os caracteres de Theodora. Eram duas datas: _5 de Julho de 1848_, com a assignatura inicial _T. P._ Seguia-se a outra, em letras mais de fresco: _10 de Setembro de 1849_, com as mesmas iniciaes, e as seguintes palavras: _Aqui veio orar a alma penada._ Eu estava então em 15 de Setembro d'aquelle anno. Cinco dias antes, pois, alli tinha estado Theodora.
«Recolhi-me com febre. Á celestial graça de Mafalda, que me sahiu ao tope da escada, respondi com uma affectuosidade falsa. Importunava-me o anjo. Eu queria então uma orgia infernal. Queria arder e palpitar no deleite sequioso, que zomba dos deveres, e insulta o espantalho da moral, impassivel carrasco das organisações ardentes. O aspecto mavioso de Mafalda era uma lança que me traspassava. Fugi-lhe, e, por alguns dias, raras horas nos encontramos.
«Voltei novamente ao cruzeiro. Do braço esquerdo da cruz pendia uma corôa de flôres do campo; e, na base, inscripta outra data: _20 de Setembro de 1849--Meia noite--O sol de amanhã queimará as flôres; mas o braço da cruz redemptora permanecerá aberto para os desgraçados. T. P._
«Eu queria esconder de minha mãe estas inscripções, feitas a lapis. Embebi um lenço em agua, e desfil-as. Hei-de agora confessar-te que a pertinacia de Theodora, por algumas horas, me pareceu ridicula.
--Tambem a mim me está parecendo isso, ainda agora--observei eu, animado pela confissão da pessoa, menos idonea para embicar no irrisorio romanticismo da esposa de Eleuterio Romão dos Santos.
«Mas, proseguiu Affonso de Teive--esta judiciosa critica, no dia seguinte, converteu-se em piedade...
--Em amor--atalhei.
«Amor, sim, amor indomavel, amor faminto de vêl-a e de ouvil-a, de chorar com ella, de arrebatal-a ao marido, e insultar a sociedade e Deus na posse d'ella.
«Esporeava-me este designio, quando entrei em casa. Minha prima estava na primeira sala. Ergueu-se. Tomou-me com brandura a mão, levou-a ao coração arquejante, e disse-me:--_Os braços da cruz redemptora estão sempre abertos para os desgraçados._ As palavras, embora escriptas por mão criminosa, são santas. Meu pobre Affonso, já que ella te deu a desgraça, aceita-lhe tambem o conselho.--Beijou-me a palma da mão, e sahiu da sala.
«Mafalda tinha visto, primeiro que eu, as palavras de Theodora. Comprehendera o mysterio, resistira ao impeto de as tirar, e, desde aquella hora, promettera a Deus exercitar todos os recursos de seu coração para me acautelar das cavillações da mulher ardilosa.
«Que poderia fazer a simples creatura? O infinito das forças humanas fez ella em meu resgate; mas muito já por noite dentro de minha vida lhe havia de conceder o céo um pleno dominio em minha razão.
«Logo, ao outro dia, Mafalda pediu-me que sahisse com ella a um passeio longe por esses pinhaes fóra até ao mosteiro de Landim.
«Sosinhos?--lhe perguntei--Por que não! sosinhos, com os nossos anjos da guarda, e o coração de tua mãe comnosco, meu querido Affonso.
«Sahimos. Mafalda ia taciturna. De encontro ao meu braço direito batia-lhe o coração com celeridade irregular. E eu sentia um enleio, uma constricção de alma, que não atinava com os termos communs d'uma palestra entre dous primos. No alto d'um sêrro, d'onde haviamos de descer para umas veigas, Mafalda sentou-se, e abrangeu com os olhos lagrimosos a redondeza dos horisontes. Perguntei-lhe que razão tinha para chorar. Respondeu-me que a mortificava a idéa de me vêr ir talvez para sempre do lado de minha mãe e dos parentes que me estremeciam.
«Quem te disse que eu deixo minha mãe e parentes?--redargui--Dizes-m'o tu, se eu t'o perguntar com as mãos postas--respondeu ella, pondo as mãos em supplica.
«Tartamudiei confusamente. As minhas palavras vinham falsificadas do espirito. Aqueceram-se-me as faces, porque eu não estava afeito a mentir. O coração teve quinhão d'este pejo: a meiga creatura, que me interrogava, tinha uns ares de divinisação, que me incutiam uma especie de escrupulo religioso.
«--Vejo que te afflijo, meu primo--interrompeu Mafalda--És ainda bom, que não podes mentir á tua amiga. Queres ir ao teu destino... Vai, mas... escuta-me...
«Seguiu-se um longo silencio, que ella mesma interrompeu, exclamando, em pranto desfeito:--Não posso!... A Virgem do céo não ouviu os meus rogos!...
«Acariciei-a com o melindre de irmão, instando-a a que fallasse. Articulou ainda algumas palavras desatadas, faceis, porém, de se ligarem em meu espirito prevenido. Atalhei-a muito commovido, n'estes termos: «Deves ter directo instincto do céo, minha prima, por que a tua alma virginal é pura de toda a falsidade, e não póde ser enganada. Sabes que eu vou fugir, sem eu ter annunciado a nossa mãe este novo golpe. Fujo, minha irmã, por que entre a tua celestial dedicação e as minhas desvairadas paixões está o infinito. Tu és a creatura que ainda não sonhou o mal, sedenta d'uma alma cheia das crenças da juventude. Vês a minha vida, posta em assedio pelas tentativas da mulher unica do meu amor, da mulher perdida para mim e para si propria perdida... observas isto com teus olhos inexperientes, e pasmas do poder infernal d'esta mulher. Oh! que Deus te livre de ainda veres o mundo, despido das vestes que a tua candura lhe empresta! Deus te poupe a debruçares-te sobre o abysmo d'onde se tira a luz, ao clarão da qual se observam as chagas da sociedade. Esconde-te de mim, e de todo homem que viu o mundo; esconde-te, anjo do paraiso, para que nenhum homem te diga o que viu. Eu não sei como ousaria contar-te as minhas desventuras, Mafalda. A tua linguagem perdi-a, quando sahi d'estas florestas, onde nós nos entendiamos como as avesinhas do céo se entendem. Que hei-de eu dizer-te hoje? Com que termos te mostrarei a minha indignidade!
«Mafalda poz-me com muita suavidade a mão na bocca, e disse:--Não digas mais nada, meu irmão, que já disseste tudo... _A mulher unica do teu amor_... _a mulher unica do teu amor_ é... ella!...--Os soluços embargaram-lhe a voz. Falleceram-me a mim espiritos com que tentasse consolal-a. Todas as palavras, sem vehemencia de dentro, seriam pallidas e vans. Mentir, bem que eu podesse, de que serviria?... O meu silencio era angustioso. Recriminava-me por me ter exposto áquelle dialogo...»
«Com satisfação a vi erguer-se, e dizer-me:--Voltemos, primo?... Vamos para casa. Não percas instantes da companhia de tua mãe. Vamos...»
«N'este momento, á raiz da serra, onde ia a estrada de Landim, passava uma mulher cavalgando a galope. Ia sósinha. Eu não a tinha visto ainda, quando Mafalda, apontando-a com o braço tremulo disse:--_A mulher unica do teu amor_...
«N'este instante, esqueci o anjo, que me estava alli chorando, não sei mesmo se desejei que Deus o chamasse para a sua patria; e adorei o demonio, que passava lá em baixo, com o véo esvoaçante, por entre nuvens de pó, sacudidas das patas do arremessado cavallo.
XII
Cerravam-se cada dia mais espessas as trevas em volta do perplexo animo de Affonso de Teive. A obsessão de Theodora não lhe dava treguas. Nas circumvisinhanças de Ruivães já se fazia reparada a amazona, umas vezes sósinha, outras seguida do lacaio, e algumas vezes ao lado do marido, a quem ella não prestava mais attenção que ao lacaio. Affonso, em quanto a mim, resistindo á tentação, iniciava-se para consociar-se no reino celestial com os santos da sua familia, mortos sob o estandarte da cruz; mas, a juizo de muita gente, muito menos benemeritos da auréola da santidade. Morrer com o céo a abrir-se além no horisonte, ouvindo já os hymnos dos anjos, é glorioso e exultante; porém, morrer gotejando em lagrimas o sangue do coração, sem visões bemaventuradas, sem estimulo de predestinado, morrer do amor de uma mulher que se arrasta submissa aos pés do triumphador que a despreza e adora... sublime extravagancia, se querem que lhe eu não chame santissimo martyrio!
A mãe do lastimavel moço, antes de avisada da intentada partida d'elle, resolveu impôr-lhe o seu arbitrio de mãe com severidade. Informada por Fernão de Teive, sabia que Theodora fazia miudas investidas ás redondezas de Ruivães, e que Affonso não era estranho, bem que a não houvesse encontrado, aos planos da impudente mulher. A palavra «adulterio», no espirito de D. Eulalia, tinha uma significação de horror, como se o crime não tivesse exemplo na humanidade, nem remorso que o contrapesasse na balança da misericordia divina. O pavor de que um filho seu, um descendente de santos, e, pelo menos honrados varões, podesse dar ao mundo o escandalo de tamanha perversidade, accendeu-a em louvavel indignação. Inesperadamente é chamado Affonso ao quarto de sua mãe para ouvir estas pesadas e se
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