Ambições: Romance
Ana de Castro Osório
AmbiçõEs
Obras de ANNA DE CASTRO OSORIO
INFELIZES (_historias vividas_)—Livro de contos.
PARA AS CRIANÇAS (_bibliotheca infantil_)—Publicação mensal illustrada:
Contos tradicionaes portuguezes—7 volumes.
Contos originaes, educativos—2 volumes, (_Alma Infantil_ e _As boas crianças_).
HOMENAGEM A GARRETT (_de collaboração com_ =Paulino de Oliveira=)—Opusculo commemorativo do centenario garretteano, edição de luxo.
A BEM DA PATRIA (folhetos de propaganda, distribuição gratuita):
_I As mães devem amamentar seus filhos._
UMA MISSÃO DO PADRE GRAINHA, por =Alberto Osorio de Vasconcellos=—_Edição em livro, feita e apreciada por_ =Anna de Castro Osorio= _e_ =Paulino de Oliveira=.
AMBIÇÕES (_romance de costumes_).
A Publicar
A VICTIMA (romance em continuação do AMBIÇÕES).
HOJE E AMANHÃ (revista mensal illustrada, litteraria, scientifica e educativa, sob a direcção de =Anna de Castro Osorio=)—A sahir em fevereiro d’este anno.
OS ANIMAES (10.º volume da publicação: _Para as crianças_)—contos originaes, já em publicação.
_Anna De Castro Osorio_
AmbiçõEs
Romance
[Illustration]
1903 _LIVRARIA EDITORA_ GUIMARÃES, LIBANIO & C.IA _108, Rua de S. Roque, 110_ LISBOA
I
É na botica d’uma villa de provincia, velho burgo acastellado, orgulhoso dos seus foraes e brazões como da nobreza que em tempos d’alli sahiu e se espalhou pelo reino, deixando fortes raizes na terra, que ainda exporta fidalgos como podia exportar qualquer mercadoria.
Despoetizada pela moda que tudo confunde e baralha e pela turba de veraneadores que a procuram para refazerem os pulmões e os nervos, a que os invernos de Lisboa esgotam a energia, é ainda assim das mais typicas e formosas da provincia.
Afóra dos muros, os campos estendem-se verdes—do verde escuro dos pinheiros, do verde cinzento das oliveiras, do verde brilhante dos castanheiros... de longe em longe, manchas risonhas de pomares, salpicadas de casaes brancos, com recortes de velhos campanarios, fachadas ennegrecidas dos antigos solares, e as ermidas caiadas nos cimos dos montes cobrindo com um leve e translucido véo de mysticismo pagão a hilariante festa da natureza.
Nada mais proprio, em verdade, para uma villegiatura alegre, do que esse recanto de provincia,—valle ameno entre montanhas, com o rio cachoando ao fundo, deslisando mais adeante entre salgueiraes, como assustado da sua propria fúria.
Ha alli de tudo para deleite dos ociosos que no verão passeiam pelas provincias os tedios e as _toilettes_ da moda.
Para os _pic-nics_, a sombra de velhas arvores em quintas senhoreaes; o rio, com as madrugadas de pescarias alegres; e lá para setembro a caça a rôdos pelos matagaes da serra; e para cúmulo as estradas bem conservadas pelo interesse que a gente da villa mostra em dar boa conta de si perante a civilisação dos _pur-sangs_ e dos cocheiros inglezes.
Mas estamos no inverno, n’uma fria tarde de fins de janeiro. Ora o que se hade fazer no inverno n’uma terra de provincia, quando a neve cobre o cimo das serras e o vento corta as carnes como vergastadas? Procura-se então um bocado de sociedade para encurtar as noites sempre grandes para os preguiçosos e os paroleiros.
Vae-se para a botica, pois para onde se hade ir?...
Aquillo é o club, o centro onde tudo se reúne e as novidades se sabem e commentam, primeiro que em parte alguma.
Toda a gente tem entrado n’uma pharmacia e conhece mais ou menos o cheiro especial dos remedios, o feitio classico dos boiões das pomadas, os frascos bojudos com tampas de vidro e letreiros em grossas lettras sábias, os passaros empalhados entre o aquario com peixesinhos vermelhos e a balança na sua maquineta de mogno polido.
Em coisa alguma sahia dos antigos moldes consagrados a propriedade do sr. Domingos José da Silva, chamada a _botica velha_, para se distinguir da _nova_: envernizada de fresco, com mobilia de casquinha folheada em mogno, fabricado n’uma marcenaria do Porto.
Comtudo, a velha pharmacia rotineira e modesta não perdêra os freguezes antigos, como se não cançava de o apregoar o seu feliz dôno, que não soffria sem verdes olhares d’inveja o luxo sybarita do competidor.
Por largos annos fôra o unico pharmaceutico n’umas poucas de leguas em redor e gabava-se que não havia quem lhe levasse a palma na confecção d’umas certas pastilhas contra os vermes. Essa e a dos cães damnados eram muito suas e a ninguem as daria senão no ultimo arranco.
Mas um dia—questões de politica, infamias, invejas!...—eis que lhe surge pela prôa a nova pharmacia, com proprietario rapaz a modos litterato e suas vistas altas de quem tem um curso e faz os rótulos em latim.
Ia tendo uma apoplexia o sr. Domingos! A cada innovação que o seu rival trazia ás velhas costumeiras de botica provinciana, elle desabafava em murros no mostrador e furioso sorver de rapé.
Andou atrapalhado uns tempos. O filho aconselhava que mandasse dar uma pintadella ás portas, comprasse estantes e livros encadernados, e lá emquanto aos letreiros mandava-se ao mano, que estudava no seminario, que os escrevesse.
—Que não!—berrava o velho em vermelhas guinadas d’orgulho—que assim tinha vivido sempre e assim queria morrer; que levasse o diabo os modernismos!
N’estes sentimentos era appoiado pela mana Joaquina, resmungando sempre encatharroada contra as novidades e contra o rheumatismo que mal lhe deixava arrastar as pernas trôpegas.
Mas o caso é que a botica nova não lhe tirou freguezia, apezar dos fumos de sabichão do pharmaceutico, porque a boa gente da provincia gosta sempre de andar pelo seguro:—_ná_, diziam elles, temo-nos governado com o _sô Domingos_, e com as suas drogas nos iremos medicando; nada de venenos, que são os remedios novos!
E batiam familiarmente nas costas do velhote, que esfregava as mãos triumphante.
Passára-lhe já a maior furia, mas o rancor ficára latente e resmungão, como cachorro mal acostumado ao canil. Pessoa que, por acaso, ou propositadamente, entrasse na _nova_—como dizia com ironico despreso—era certo incorrer para sempre no desagrado geral da familia.
Mas, isto era ao accender dos candieiros de petroleo,—não chegou ainda a civilisação do gaz a todos os cantos de Portugal—por um fim de dia de frigido janeiro.
Lá fóra a escuridão fazia-se rapidamente, com um tremôr d’estrellas que annunciavam muita geada por essa noite fóra.
O sr. Domingos José da Silva, _matriculado_ pharmaceutico no largo da Fonte, (como de si proprio dizia com grossa voz fanhosa e expedimentos de perdigotos por demais explicativos para quem lhe ficava em frente) estava nos seus momentos felizes.
Era á hora a que os parceiros do _solo_ e da má lingua começavam a chegar, e toda a sua grossa pessoa rejubilava festiva.
Não que elle fosse positivamente um mau homem, que não era! Mas aquelle fraco por saber o que se passava na terra, fazia-o esperar pela noite como pelo melhor bocadinho da sua estupida vida, partilhada entre as tizanas, as descomposturas aos freguezes pobres, e o desvanecimento pela esperteza propria e a da familia.
Não era raro ouvir-lhe contar os adeantamentos e habilidades da sua prole, n’estes e n’outros discursos por igual demonstrativos.
—«O meu filho _Antoino, cabalidade, cabalidade_!... Deu os riscos p’ró chafariz novo. Ainda os pintava melhor, a _cambra_ é que não quiz gastar dinheiro. Mas deixem-me ser _vérador_ que o caso é _oitro_...»
Tinha ferrado no bestunto esse ideal supremo de labrego, que ao acaso de muito pontapé da sorte conseguira largar o cabo da enxada pela mão do almofariz.
Passeava, pois, o sr. Domingos José da Silva ao longo e largo da pharmacia, para melhor aquecer os pés mettidos em tamancos forrados; esfregava as mãos vermelhas e enfrieiradas vestidas de _mitenes_ d’algodão verde salsa; tossia para o _cache-nez_ enrolado ao pescoço, e esperava os parceiros emquanto o filho _Antoino_ accendia as luzes e preparava as cartas para a partida.
N’uma das voltas do passeio, que o poz em frente da porta, deu de cara com a Engracia da Luz, a velha criada, quasi da familia, de casa dos Mellos.
Estacando deante d’aquella visita inesperada, onde farejou um principio d’intriga para o serão do padre cura e mais freguezes, perguntou solicito:
—«Que é lá isso, _nhora_ Engracia? Está alguem doente lá por casa?! Parece que a vejo assim a modos assarapantada!...
—«Ai! deixe-me aqui _sô_ Domingos. Eu vinha em busca do sr. dr. Ramalho. Disse o Zé Leandro que vira chegar umas malas grandes no carro da estação, que talvez fosse o senhor doutor... E vae eu vim em cata d’elle, porque a minha menina está muito mal, muito mal!...—puxando a ponta do avental, n’um arremesso á desgraça, limpou as lagrimas que lhe corriam em fio.
—«Olha que _lanzudo_ aquelle! Essas malas que diz são do caixeiro das amostras, que até está em casa do Brito. O bruto não sabe _cabriram_ as _cambras_ e o dr. Ramalho é deputado? Que eu _tamem_, não sei o que alli anda!... Elle não pára cá em chegando o inverno...—piscava os olhos ao filho com ar de finura laponia, o que escancarava n’um regosijo a bocca do rapazola. Mas, reparando no ar desinteressado da Engracia que se voltava já para a porta, tornou:
—«Olhe cá, então o dr. Viegas, o doutor _novo_, não está lá sempre mettido em casa, não é até o noivo da Pillarsinha?
—«Pois é, é!... E não sei que lhe diga, _sô_ Domingos, mas aquelle casamento foi a nossa desgraça. Nem elle se faz, que a minha menina morre!...
—«Elle que é medico hade curá-la, e com remedios da _nova_ a sua menina irá a melhor, verá!...
Ria n’um pigarro escarninho, que arrepiava.
—«Olhe, _sô_ Domingos, eu não sei d’essas coisas. Os senhores é que lá entendem d’essas guerras! Só cá me consolava o coração que o sr. dr. Ramalho visse agora a minha menina. Está _finadinha_ de todo. Aquillo é uma fraqueza de peito, uma canceira que nem parece a mesma! _Decoadinha_ como a senhora da _Solidade_! Valha-me o _Senhor dos Afflictos_ da egreja, que só a elle a gente se póde apegar!...
—«E os paes!?...
—«Ora, os paes?!... A mãe chora dia e noite e o pae anda assim como maluco, nem toma tento no que se lhe diz.
—«Mas porque não mandaram vir o dr. Ramalho?
—«Todos os dias fallâmos n’isso, mas a menina não quer, diz que está melhor e se o mandam vir é porque a acham muito mal. Até disse que se escondia, que lhe não fallava. Não se hade contrafazer uma doentinha. O dr. Vilhegas tambem diz que não é preciso!... Ai, não estar cá o Joãosinho!...
—«E a prima, a Candidita, o que faz?
—«Está uma boa delambida, essa!... Aquillo nem parece prima da minha menina, uma soberbona, uma tola... Emfim... vou me que tenho pressa. Adeus, _sô_ Domingos, recados á _sora_ Joaquina.
—«Obrigada. Até outra vez, _nhora_ Engracia!
Deixou-a partir sem mais conversa, por lobrigar o gabão do padre cura que atravessava o largo.
—«Boa noite, meus senhores,—entrou dizendo e deitando para baixo a golla de pelles, o padre, novo ainda, espadaúdo, cacete nas unhas, cigarro nos beiços, e grossas botas tamancos.
—«Então como vae isso, _mestre_ Domingos, rijo e fero, hein? Isto por cá está hoje muito só. Estes senhores teem medo do frio, que está de rachar. Não temos parceiros para o _sólo_, aposto!—escarrava para o chão, raspando com o pé.
—«Ainda não é tarde, ainda não é tarde. O Neves não tarda por _hi_.
—«Aquella que sahiu não era a Engracia dos Mellos?
—«Era, vinha em busca do dr. Ramalho; imaginava que tinha vindo, porque, _plos_ modos a Pillarsita está a _espichar_.
—«Ora adeus! A você o que o faz fallar é a inveja.
—«Inveja, eu?! Agora de que havia eu de ter inveja? Pois qu’é o _Antoino_ de Mello mais _camim_? A mulher sim, não digo nada, agora elle!... Olha a grande _jaração_!
—«Não é lá d’isso que você tem inveja, _sô_ Domingos; deixe-se de cantigas! O que a você o rala é a pequena ser tratada pelo Vilhegas que os levou para a _nova_.
—«Quê?!...—rouco de furia contida, recomeçava o Domingos o passeio n’uns impetos de fera, vendo o padre torcer-se ás gargalhadas.
Era o pratinho do cura metter ferro ao pharmaceutico; e este, sabendo isso, não queria responder para não dizerem que dava o cavaco.
O padre cura era o unico a quem elle desculpava umas certas graçolas e o unico que acceitava na sociedade depois de o saber frequentador da _nova_. Um pouco por medo, porque o padre tinha genio de varrer uma feira e não raro se fallava de romarias em que o seu cacete se cruzára com o dos mais _pimpões_, e um pouco, tambem, por curiosidade de saber o que se passava no campo inimigo.
Ainda o padre se torcia com riso quando entraram o Braga uzurario e o recebedor, que, só de o verem rir, começaram tambem a rir, comprehendendo logo do que se tratava pela cara apopletica do boticario.
O recebedor—muito vermelho, quasi cego, atarracado e obeso—interveio, conciliador!
Lá está o Domingos _a dar a casca_; deixe lá, homem, não faça caso. Ó sr. padre Mathias, deixe-o lá!
—«Eu pego-lhe?! Só lhe digo as verdades, e vae elle põe-se que nem uma barata.
—«Podéra não! Vem cá dizer que tenho inveja da _nova_...
—«Pois não tem, não!...—recomeçava o riso que endoidecia o outro.
—«Ó padre!...—avançava irado.
—«Deixe lá, deixe lá, aquillo é graça—amansou o Braga, lambendo-se por novidades... Vamos a saber a que veio a historia?
—«Conta lá homem, desembucha.
—«É a pequena do Mello que está doente—explicou o cura, levantando-se para ir contar as cartas em cima do mostrador—e cá o mestre Domingos diz que são venenos da _nova_...
—«Ó sr. padre Mathias! O senhor põe-me doido, olhe que me póde metter em trabalhos. Eu disse lá semelhante coisa, crédo, que _home_ este, como as inventa!...
—«Ora, se o não disse pensou.
—«Não pensei, não senhor!
—«Então hade pensar.
—«Ora isto, isto! Mas que mal fiz eu a Deus, para aturar este _home_!
—«Pois sim, diga-lhe d’essas. Venham os senhores jogar uma partida emquanto elle desabafa.
—Mas conte sempre—acudiu o Braga, muito curioso.
—«Não é mais nada. A pequena está doente: nem ella melhorou em termos desde a pneumonia, pleurosia ou lá o que foi...
—«Aquillo foi doença do diabo, foi—commentou o recebedor.
—«E depois?—apressou o uzurario.
—«Depois, o medico é o Vilhegas que vae á _nova_. E o Domingos desespera-se porque não está o Ramalho, que é cá da _velha_. Vae pelo _antigo regimen_...
—«Não, o Ramalho não tem preferencias, e lá bom medico é elle.
—«Ó recebedor, você está sempre a defender todos, sem que ninguem lhe pague o sermão. Não digo que seja mau, mas muito adiantado não está, não se póde comparar com um rapaz sahido da escola, conhecedor de todos os processos mais modernos.
—«Não sei. Eu cá só me quero com elle. O Vilhegas será muito bom, não contesto, mas cheira-me a intrujão.
—«Pois não é, fique sabendo que é um talento!
—«Será!...
—«Mas o que tem a pequena?—perguntou o Braga, que não estava ainda satisfeito.
—«Não sabem ao certo. Dizem que é nervoso. O nervoso agora serve para tudo. Ella é fraquita. O João é que fica um bom partido, para mais de quinhentos contos!...
—«Hum! Não lhe hãode durar muito, acostumado a viver no estrangeiro...
—«Deixe lá, amigo Braga, um estudante lá fóra não gasta mais do que gasta por cá; e sempre trazem outro lustro—contradictou o cura todo de ideias avançadas e amigo do progresso.
—«Ha o perigo de se não darem cá depois, como succedeu ao Pedro d’Athayde da casa da Fradosa. Veio lá de Paris com taes ideias que não podia tolerar a familia—ponderou o recebedor.
—«Não, esse caso foi outro. Sei-o eu melhor do que ninguem, porque fui amigo do Pedro desde a escola do padre _Zé_. Era um bom rapaz! Generoso, franco, não podia ver uma desgraça que não a alliviasse com dinheiro, conselhos e favores, tudo! Era uma joia. Mataram-n’o os beatos que se metteram lá em casa e que elle não podia supportar. Com as suas ideias livres, a sua consciencia clara, era um escandalo na casa que se tornou um asylo de quantas irmãsinhas, frades e freiras, apparecem por ahi. O rapaz dizia, e dizia bem, que não se importava que rezassem e jejuassem sempre que lhes appetecesse, mas que o não quizessem converter a elle, que o deixassem em paz ir para o inferno ou para o céo á sua vontade. Houve questões horrorosas entre elle e o pae, que é o verdadeiro beato da casa. Por fim descoroçoou e partiu outra vez para França. Lá morreu, ou se matou. Viram-se livre d’elle e agora resam-lhe por alma. Eu sou padre, mas não gosto de beaterios. Tambem tenho tanta vocação para isto como para fiar na roca.
—«Ora, deixe se de contos, homem! Aquillo são tolices do Mello que perdeu o juizo com o dinheiro do Brazil. Metteu-se a fidalgo, casou com a prima da viscondessa, já quer os filhos educados como principes.
—«E soberbo!...—começou o Domingos, já serenado, visto que a _critica_ principiava—não ha quem lhe chegue! E quer fazer _lordes_ de toda a familia. Ao Vilhegas, lá porque era primo em decimo grau, emprestou-lhe o dinheiro _p’rós estudios_. Já se viu assim uma coisa?!
—«Quem os conheceu!...—grunhiu o Braga entre uma baforada de cigarro e um _solo_ resmungado a _mezza voce_.
—«Deixem lá, que elle é bom homem—terminou o cura, com a ultima carta que lhe sahiu das mãos. Só o que elle tem feito á sobrinha, que a tem em casa como filha!
—«Hum! Uma boa prenda a tal menina, segundo diz a Engracia—informou o Domingos.
—«Bonita a valer. Se a vissem no verão passado, nos annos da viscondessa!
—«Então eu não estava lá? É muito bonitinha, é!
—«Bonitinha! Onde tem você visto melhor, _seu_ Braga?! É uma bella mulher!
—«Ó cura, você parece que se lhe não dava de casar com ella.
—«Se não fosse este diabo da batina, não lhes digo nada. Ainda que mulheres d’aquellas não são boas para pobres.
—«E parece que não tem namorado—lembrou o recebedor, sempre comezinho nos commentarios.
—«Pois quem ha por ahi capaz de a tentar?! Você imagina que ella é parva, que se não conhece? Ó Braga, você é que podia casar com ella. Levava uma mulher que muitos lhe invejariam.
—«Eu?!... Na minha idade, uma rapariga bonita, que hade querer luxos... Você vê-me algum _t_ na testa?!
—«Não sei; ella é de fazer perder a cabeça... e você é rico... Sabe o que é ser rico? É ter tudo quanto se deseja. Se eu fosse rico como você, deixava crescer a corôa e ia até Roma para que me livrassem das ordens; depois casava com a pequena, olá se casava!...—estendia as pernas e cantarolava, esperando as cartas que o recebedor muito myope a custo despegava das mãos.
—«Hum! Ella hade pentear se para o primo.
—«O João, sim! Quer lá agora a Candida sem vintem e sem educação!...—acudiu o recebedor—Que isso lá, verdade, verdade, eu não quero nenhuma; sou casado, não ha que desconfiar, mas a Pillar é _outra fazenda_. É muito fina, muito boa, não se compara...
—«Pois sim, mas a Candida é uma mulher a valer! Depois, a Pillar está noiva do Vilhegas, não ha que pensar n’ella.
—«Casar?... Se não morrer primeiro, intrometteu-se o boticario.
—«Lá torna você, homem; olhe que já é mania!
—«_Nan sei!_ Elle lá está de dentro, vê as duas; talvez se arrependesse e...
—«Calle-se ahi, homem de Deus, não diga _barbarismos_. Lá vem o Neves.
O Neves, ainda rapaz, entrou tossindo a sua asthma, magrizella, sem emprego certo, mas cheio sempre d’affazeres, muito prestavel e comprimentador para os _grandes_, risonho no seu ar de pobre diabo.
—«Vivam, meus senhores!
—«Adeus, Neves, então o que ha lá por fóra?
—«Não sei nada—respondeu sacudido, como se as phrases lhe sahissem aos pedaços, aos arrancos, da bocca embrulhada.
—«Dizem que a Pillarsita está doente. É verdade?—interrogou o cura.
—«Verdade, é; mas o meu primo disse-me hoje—não perdia occasião de referir-se ao parentesco que o engrandecia, com a grandeza do Vilhegas—que não era coisa para as afflicções dos paes. Noivo é elle e não vê motivo para tanta apoquentação.
—«Talvez não veja bem... disse entre dentes o pharmaceutico.
—«Que é lá isso, ó _sô_ Domingos? Você parece que me traz _quesilha_ desde que veio o meu primo. Olhe que eu não tenho nada com as suas zangas...
—«Quem diz isso? É que hãode ver muita coisa!... Eu cá sei!...
—«Sabe o quê? Diga aos amigos, desembuche.
—«Nada, nada!...
—«Está doido—rematou o cura, ainda preoccupado com a belleza da Candida.
II
Era verdade. A Pillarsita havia uns tempos—depois d’uma pleurezia que a tivera entre a vida e a morte—puzera-se n’um esmorecimento de flôr que se estiola.
Não se queixava, que a doença não lhe pedia remedios nem desejos de melhorar—só os que ainda teem esperança de felicidade se apegam á vida e querem convencer-se de que o queixar-se lhes traz allivio.
A pequena, dantes tão alegre, d’uma vivacidade gárrula d’avesinha amorosa, entristecêra subitamente, e, taciturna, aborrecida, ninguem diria que era a mesma. De bondosa e tolerante que era, tornára-se impertinente e irritavel, como se os nervos lhe andassem desorientados sob a pressão d’um grande mal.
Essa mesma susceptibilidade morbida, que transformára a rapariga d’outr’ora, alegre, boa e egual, n’uma nevrotica, minada de desejos e caprichos que logo se convertiam em saciamentos de vontade doente, dava-lhe por vezes tambem dias de tanta meiguice e passividade que o seu espirito não parecia ter mais energia do que o d’uma criança recemnascida.
O noivo, o Emygdio Vilhegas, tinha para desculpar estes caprichos e phases, discursos e theorias sobre as doenças nervosas, que deixavam os paes, senão satisfeitos, ao menos mais socegados sobre a gravidade do estranho mal.
Elle e a prima da Pillar, a Candida, que fôra a sua companheira e amiga intima desde a infancia, não podiam comprehender a quasi aversão com que a enferma os olhava e por vezes até repellia.
No principio da doença, quando a pleurezia se apresentára dupla e d’uma violencia mortal, elles arvoraram-se em enfermeiros solícitos e era impossivel exigir aos seus affectos maior vigilancia e cuidados. Mas desde que a febre cedêra e a doente começára a reconhecê-los, affastára-os systhematicamente, com uma friesa de maneiras que mais se evidenciava pelo contraste com a mãe, a quem desejava sempre ao pé do leito, sem uma hora de repouso que não fosse substituida pela velha Engracia.
—«Porquê?!...» os dois, no vão d’uma janella, n’um fugitivo momento de solidão, olhavam-se apavorados e trocavam rapidamente essa pergunta.
—«Porquê?!—dizia o Emygdio—terá acaso desconfiado alguma coisa?
—«Parece!...
—«E se diz aos paes?!
—«Que importa? Não o devem saber mais dia menos dia?...—murmurou a Candida, fitando os seus olhos carregados de duvidas nos olhos que o Emygdio desviava intencionalmente, ao mesmo tempo que respondia:—«Ah, mas por emquanto não... Bem vês!... Devemos-lhes tanto!... É urgente saber, custe o que custar, o que ella sabe de nós.
A conversa, cheia de reticencias e sub-entendidos, foi interrompida pelo arrastar de passos trôpegos no soalho do corredor. Era a Engracia que entrava para levar um caldo á doente, que no quarto ao lado se ia finando. Olhou os dois com severa desconfiança, emquanto o medico n’uma voz de perfeito socego fingia dar as ultimas recommendações á inferma:
—«Logo que venha o remedio da pharmacia dê-lho d’hora a hora, até que eu volte.
A Candida affastou-se silenciosamente, emquanto o rapaz a ficava olhando embevecido. Era na verdade linda, mulher de fascinar e não d’encantar, talvez, de uma belleza cheia, fria, e esculptural, que se impunha.
Branca como um lirio e tão branca que o seu busto triumphal mais parecia talhado no marmore de que se fizeram as maravilhas da estatuaria grega. Cabeça alta e pequena levemente inclinada para traz, como que vergando ao peso dos fartos cabellos d’um castanho que á luz toma reflexos d’oiro; a bocca delgada, sempre aberta n’um sorriso frouxo de contemplação propria; e nos olhos negros, velados d’uma placidez funda d’abysmo, nada se poderia lêr do que lhe ia na alma. Muito alta e direita, nobremente lançadas todas as linhas do seu corpo—era uma verdadeira maravilha da carne.
Nada parecida com a Pillar, que fôra sempre d’uma graciosidade fina de intellectual; alta apenas para ser elegante; magra, sem o aspecto quebradiço dos doentes; d’uma pallidez moreno-perola: era em tudo o contraste da prima.
Criadas juntas, mas desemelhantes, tanto physica como moralmente, tinham-se feito mulheres e seguiam os seus gostos e inclinações, que os paes da Pillar não contrariavam na filha, que adoravam, e menos ainda na sobrinha orphã e pobre, que a bondade d’elles agasalhára e criára como egual aos seus.
Antonio de Mello, o pae da Pillar, fôra uma criança ainda para o Brazil, chamado por um tio que, como elle, partira havia muitos annos, deixando com lagrimas d’amarga saudade os amigos e companheiros de jogos e romarias, o seu rebanho, a terra amada, que era a sua patria.
Voltára annos depois—quando a morte do tio lhe déra liberdade para liquidar a fortuna—um pouco abatido pela nostalgia, mas ainda vigoroso de corpo e são d’alma, como fôra. Um bom coração de rapaz que adormecêra na trabalheira mercantil, acordando já quando os outros, os que passam a mocidade em folgança, se sentem sem energia para amar sã e nobremente.
Como viera bastante rico e tinha uma finura natural, de temperamento delicado, na maneira de apresentar-se, conseguiu captar as boas graças d’um velho fidalgo da terra, que tinha ao tempo uma filha para casar. Tinha a filha, o velho original, e uma pequena mas solida fortuna ajuizadamente administrada, e uma e outra, as paixões dos ultimos annos, elle queria entregar em mãos de homem capaz de asestimar.
—«Emquanto a fidalguia—dizia a quem fallava na humildade do nascimento do Antonio de Mello—era coisa de que nunca lográra comer...
Era bonita a joven Josephina, bonita e sadia de corpo e d’alma, como quem fôra criada nas serras e com a natureza aprendêra a bondade natural e humana dos fortes.
Mal que a viu alegre e moça, como arbustosinho agreste que em seu tempo proprio se reveste de perfumadas flores, sem complicações de tracto, nem agasalhos de estufa, amou a Antonio de Mello apaixonadamente. Doía-lhe no entanto recebê-la acompanhada d’um valioso dote, elle que a amava com a simplicidade primitiva d’uma alma e d’um corpo que se dão em troca de outro corpo e de outra alma por egual amante.
O homem que sahira do povo mais humilde, que arrastára uma vida trabalhosa luctando pela fortuna, encontrava ainda, no seu coração de trinta e oito annos, um crepitar de paixão e um desinteresse verdadeiramente juvenis.
Confessára-lho; e tão simples, tão honestamente, que a rapariga o ficára amando toda a vida.
Foram felizes como o podem ser dois espiritos que se ligam sem se absorver, que se estimam e comprehendem, desculpando-se mutuamente.
Com a felicidade inesperada do coração, Antonio de Mello tornára-se alegre, quasi criança; era a phantasia alada que doira a existencia e que um bom casal não pode dispensar, sob pena de cahir na realidade banal que mata o amôr.
Josephina, a boa e resignada alma, com a sua maneira serena e pacificante de encarar a vida, trazia áquella felicidade um não sei quê de intimamente religioso, que infundia respeito ainda aos mais familiares.
D’essa união tão completa nasceram dois filhos. Primeiro, o João, que fôra sempre uma bella e forte criança de boas côres e moderada phantasia, como a mãe. Alegre, prompto a defender os mais fracos, o seu espirito não se perdia nas nebulosidades dos sonhos, que atormentam as crianças precocemente, doentiamente emotivas.
Oito annos depois, quando o pequeno já bocejava sobre os livros das primeiras letras, nasceu a Pillar, de uma finura, de uma graça de estatueta. O irmãosito adorava-a e ria perdidamente, quando a via nos braços da mãe procurando o seio como um animalsinho voraz, e de farta deixá-lo depois e adormecer como um anjo. Mal entrava em casa, lá ia elle, pé ante pé, se a criança estava a dormir no bercinho, afogada em rendas e cambraias, contemplá-la com um affecto que mais parecia d’uma pequena mamã. E já quando maiorsinha, João servia-lhe de protector e amigo, de promotor de todos os festejos e brincadeiras que distrahissem a irmã. E assim, ella criou-se sob o affecto carinhoso dos que a rodeavam, como avesita fragil que um nada pode matar.
Talvez mesmo por isso, desde pequenina que os nervos lhe vibravam intensamente todas as alegrias e tristezas da alma. Intelligente e com uma grande vivacidade, a imaginação, como a do pae, viajava sempre pelos caprichosos trilhos do ideal. Não sendo positivamente bella, as suas feições eram tão finamente desenhadas, que o perfil esbatido em sombra sob a cabelleira revolta fazia-lhe uma verdadeira cabeça de modelo. Depois, quando fallava e ria, os olhos castanhos irradiavam um tal fulgor de intelligencia que, incondicionalmente, a diziam bonita.
Um dia, quando ella era ainda muito criança, o pae levára-a, e ao João, a uma quinta arredada onde deixava viver um irmão, que viera encontrar na miseria, apezar do muito que do Brazil lhe mandára. Um mandrião, um vicioso, que para alli ia morrendo aos encontrões da mulher e dos filhos que o não estimavam. Só o irmão não se esquecia do desgraçado, visitando-o amiúdadamente e dando-lhe tudo que elle necessitava.
Quando n’essa tarde chegaram á quinta encontraram a familia em gritaria confusa, porque o homem, n’um phrenesi de bebedo, cahira do patamar da escada de pedra e o sangue sahia-lhe ás golphadas pela bocca.
Assim morreu, sem dar mais accordo de si, apezar de todos os remedios ordenados pelo medico, que o irmão mandára buscar immediatamente.
A Pillar sentiu uma impressão tão forte, que os seus frageis nervos de precoce e feminil sentir conservaram eternamente a lembrança de aquella espantosa scena. Chorou muito, abraçada á primita, a Candida, que era a mais nova dos filhos do morto, mas apezar d’isso tres annos mais velha do que ella.
D’uma friesa quasi hostil, a pequena torcia na bocca a ponta do bibe de riscado, contemplando, com admiração inconsciente de pequena selvagem, o vestido bordado, d’alvura deslumbrante, que a Pillar trazia com a indifferença do habito.
Não querendo prolongar o espectaculo doloroso, que o acaso dera ás crianças, Antonio de Mello quiz mandá-las na carruagem, emquanto elle ficava até ao fim, mas a filha, muito enthusiasta e affectiva, é que já não quiz partir sem levar a prima.
E foi desde essa hora amargurada que as duas ficaram inseparaveis—mais do que duas amigas, irmãs.
Os sobrinhos, empregados; a cunhada e uma filha mais velha partiram para a terra, deixando-lhe naturalmente, sem quasi o agradecer, o cuidado da pequena Candida, que era um estorvo para todos, sendo na verdade «_formosa de mais para pobre_», como dizia a mãe.
Ficaram juntas, dormindo no mesmo quarto, tendo os mesmos professores e criados, os mesmos brinquedos e alegrias.
Diziam-nas as melhores amigas, apezar da profunda desemelhança dos caracteres; mas se da parte da Pillar havia sinceridade no affecto, o mesmo não succedia á Candida, que invejava a prima por tudo em que lhe era inferior.
A vaidade enchera-lhe a alma d’ambições e ruins invejas e a belleza physica não correspondia ao desenvolvimento das faculdades intellectuaes.
D’uma passividade infermiça para tudo quanto não fosse o seu prazer, desde criança que o tempo que a prima levava a lêr e a estudar o passava ella a contemplar-se ao espelho, a ataviar-se, ou a entregar-se a pensamentos de que ninguem podéra nunca conhecer o fito.
Orgulhosa, d’uma susceptibilidade irritante, filha d’esse mesmo orgulho que a dilacerava, supportava mal a posição que a sorte lhe destinára.
Se os primos e os tios a tratavam com a confiança que dá a amizade, ella lia nas suas maneiras sómente o dó. Soffria porque os criados, que adoravam os filhos dos patrões, tinham sorrisos e ápartes de despreso pelos seus modos de rainha de emprestimo; soffria porque a Pillar tinha a graça e o espirito, que traz a intelligencia cultivada; mas soffria principalmente e desesperadoramente pela falta de fortuna que a punha n’aquella dependencia.
E calava-se, comprimindo sob a frialdade do sorriso um fundo de entranhadas cobiças. Incapaz de procurar a independencia pelo trabalho, incapaz mesmo de considerá-lo uma coisa possivel para naturezas excepcionaes como a si mesma se considerava, ia continuando a receber tudo d’aquelles que no seu intimo odiava, por isso mesmo que tudo lhes devia.
Não tendo sido nunca uma criança ingenua, porque o convivio d’uma familia em que o pae era bebedo e a mãe e os irmãos mal educados lhe tinha feito muito cedo conhecer da vida tudo quanto ella tem de inferior e baixo; foi muito precoce no desejo de agradar e no convencimento de que só um marido rico lhe daria a superioridade que ambicionava sobre todas, a do luxo e dos faceis triumphos que o dinheiro traz a uma mulher bella.
Por isso, ainda de vestidos curtos e tranças cahidas, começára a olhar para o João, já então um rapaz que entrava na vida com todo o enthusiasmo dos vinte annos.
Mas elle, ou porque realmente não gostasse da prima, ou porque a achasse criança, ou talvez por ter a cabeça cheia d’outros sonhos, o que é certo é que a tratava com mais indiferença do que affecto.
A Candida soffria com isso, tanto mais que os rapazes ricos não abundavam por alli e aos pobres não queria dar nem sequer a sombra d’uma esperança; consentia-lhes apenas que a admirassem, de longe...
A Pillar, é que parecia querer fazer-lhe esquecer, á força de bondades e delicadezas, a desegualdade das suas fortunas. Enchia a prima de presentes, queria-a sempre egualmente bem vestida, e muitas vezes puzera de parte joias de valor para não maguar a amiga. E dizia-lhe ingenuamente, não vendo que irritava uma ferida que o despeito fizera:—que seria o seu maior prazer vê-la casada com o irmão.
—«Porque razão não gostam vocês um do outro? Seria tão bom sermos irmãs a valer!...
—«Não é preciso, querida! Pois não somos nós irmãs pela amizade?...—respondia-lhe a Candida sorridente e beijando-a.
Como Antonio de Mello era muito bom para a familia, os parentes, ainda os mais arredados, vinham sollicitar-lhe os maiores e mais abusivos favores. Foi assim que o pequeno Emygdio, companheiro de João em instrucção primaria, se valêra d’um affastado parentesco para pedir o seu auxilio e continuar a estudar.
Conhecendo-lhe sagacidade e uma grande e tenaz vontade de subir, sympathisou com o rapaz e mandou-o para o collegio onde o filho fazia os preparatorios na mais alegre despreoccupações.
Quando vinham a férias, João apresentava o companheiro como modelo dos estudantes, não lhe regateando elogios, apesar de lhe não seguir o exemplo.
Macambuzio como um aldeão espantado, humilde, mal vestido, não despertava senão despreso á Candida. Emquanto a prima o tratava com a affabilidade que merece o companheiro e amigo d’um irmão, ella olhava-o desdenhosa, com o despreso com que tratava os inferiores em posição, vingando-se n’elles da sua propria inferioridade.
Mas o Emygdio não ligava importancia a tal coisa; tinha, como ella, um só desejo, um unico horizonte se abria á sua pesada imaginativa de ambicioso vulgar—_subir_, ser _alguem_. Para isso estudava, que não para saber. Agarrara-se aos livros com a persistencia estreita e contumaz d’um homem que por aquelle caminho intentou trepar para o futuro de gosos e de vaidades satisfeitas de que a pobresa e a humildade de posição o tinham affastado até ahi. Com os olhos fitos na futura grandeza pouco se lhe dava com as humilhações da hora presente.
Assim, que lhe importava o despreso da Candida, tão rica como elle? O que o tentava, o que o fazia rojar-se no pó para um dia se poder erguer triumphante, era o dote da Pillar.
Teimosamente, com a paciencia d’um colleccionador, sem descançar nem se desviar do seu fim, começára, desde os primeiros annos de intimidade com João, um cerco muito habil á meiga criatura que lhe levaria a posição e a fortuna almejadas.
Ella que primeiro o estimára como a um bom rapaz, companheiro do irmão e a quem este fazia os mais rasgados elogios, que o admirára depois pela fama de talento que a applicação persistente ás aulas lhe trouxe, n’um paiz em que os rapazes geralmente pouca energia de vontade dispensam ao estudo, começára por fim a enlear-se na rede invisivel que elle lhe tecêra e ia armando, com a sua calculada timidez de caracter probo, mal encobrindo um irresistivel affecto, que a ingenua acreditou muito puro.
Amou-o então, sinceramente, cegamente, com tudo quanto na sua alma havia de enthusiastico e nobre.
Era tão feliz na embriaguez d’aquelle primeiro amôr, que desabrochava n’um esbanjamento de força e perfume como na primavera as flores nascem e crescem espontaneamente, que não soube occultar de ninguem o absorvente anseio em que toda a sua pessoa se prendia.
Os paes, sabedores do desejo da filha, annuiram logo ao casamento—para quando o Vilhegas acabasse a formatura em medicina e ella completasse os vinte e um annos.
Porque não? Se a filha o amava tanto, e elle parecia tão bom, tão sincero, tão intelligente; porque razão se opporiam?
—Ser pobre não era motivo para recusas, pois que a pequena tinha, graças a Deus, o bastante para os dois...—dizia o pae satisfeito por ver na escolha da filha uma sinceridade e desinteresse que toda lhe transmittira com o seu sangue salubre de generoso plebeu.
De maneira que a Pillar passára do desejo á realidade, n’um deslumbramento de sonho, que a tornava a mais ditosa das mulheres.
A alegria radiosa d’um grande amôr que se julga correspondido e não tem preoccupação que lhe empane o fulgor, fazia d’ella a noiva mais adoravel que um homem de espirito e de coração poderia desejar. O Emygdio mostrava-se d’uma correcção e d’um enthusiasmo, que talvez fossem sinceros, no seu papel de noivo feliz e enamorado.
Porque, se era verdade que intimamente não sentia a paixão que aparentava, tambem lhe não era indifferente a rapariga, que alem de rica e bem educada tinha a intelligencia e a graça que conveem á mulher d’um grande politico, que ambicionava vir a ser.
Não sentia por ella impetos de paixão, como ainda os não sentira por outra qualquer. A ambição de subir, aspiração exclusivista e absorvente, parecia ter-lhe embotado toda a affectividade do seu ser.
III
«Porquê?—perguntára o Emygdio. Porque razão os despresava a Pillar, ella que os tinha amado tão ardentemente, que fundira a amizade pela prima e o amôr pelo noivo em tão intima communhão, que não sabia bem como destrinçar qual occupava maior e melhor logar em sua alma?!...
Presentia que os seus sonhos de grandeza desabavam, que toda a sua ambição de subir baqueava ante aquelle estupido amôr que o enlouquecêra. Amar a Candida—que loucura!... Como fôra que isso se lhe mettêra em cabeça? Como se deixára vencer pelo capricho d’uma rapariga leviana, enlear ingenuamente n’uma intriga perigosa, quando se julgava superior a bagatellas de sentimento?!...
—«Oh que estupido—que estupido e que fraco!—dizia a meia voz, levando os punhos á fronte na ansia de arrancar do cerebro aquella ideia mortificante.
Dava-se uma situação d’estas quando já se via formado, quando apenas esperava que a noiva completasse os vinte e um annos para encetar a vida de prazeres que de criança vinha ambicionando com tão feroz egoismo! Quando o triumpho lhe estava assegurado é que esbarrára n’esse escolho imprevisto—a paixão por uma rapariga pobre.
Que ironia da sorte! E não poder fugir ao imperio que a belleza material da Candida exercia despoticamente sobre o seu organismo, mortificava-o, por deprimente para o seu orgulho de forte. Elle, que unicamente amára o seu sonho de grandeza, vergára todo inteiro ao primeiro olhar em que essa soberba mulher o envolvêra.
Soffria no cachoar de paixões, em que se sentia tão outro; escravo d’um sentimento imprevisto, quem fôra sempre tão senhor dos seus desejos, quem soubera guiar os seus mais insignificantes actos com a pericia e sangue frio d’um habil _sportman_ guiando os cavallos de fina raça por entre o turbilhão da multidão que se acotovella. Parecia-lhe uma illusão da sua cabeça enfebrecida; nem comprehendia como isso lhe viera só agora, tendo conhecido a Candida desde pequena.
Não comprehendia, mas o problema era de facil solução. Criados juntos, era verdade, mas affastados moralmente como se os separassem milhares de leguas, tinham-se visto sem se vêr, empolgados um e outro pelos seus aureos devaneios.
Quando o João partira para a Belgica, n’um subito desejo de sérios estudos, sem ter manifestado á prima a mais leve sombra sequer de amoroso interesse, teve ella uma decepção fundissima. O seu orgulho de mulher bonita fê-la sentir, como um insulto, a indifferença d’um homem que tinha desejado conquistar. Julgou-se victima de injustificavel perseguição do destino e o seu fundo invejoso de egoista azedou se mais ainda.
Despresára o Emygdio, achára o vulgar e desageitado; quando a prima lhe confessára o seu amôr, tivera mesmo um mordente risinho de troça, mas agora que o via com uma posição bastante para a tirar da dependencia que a torturava, embora para viver modestamente, começára a notar que não era de todo feio aquelle solido rapaz de hombros largos, cabeça loira e rosto imberbe e rosado, agora, desde que ganhava dinheiro, sempre enfiado em collarinhos da ultima moda e gravatas espectaculosas. Convenceu-se de que o casamento da Pillar seria mais uma injustiça revoltante. Era um medico, afinal! Não teria sido melhor ter pensado antes n’elle do que no João?...
Desde que esta ideia se lhe fixára na cabeça, foi d’uma provocante e tenaz amabilidade, dando-se um ar quasi ingenuo de fraternal carinho, a que o rapaz não soube resistir. Conhecia pouco a vida para se poder esquivar ao dominio d’uma formosa mulher que ia ao seu encontro, o requestava quasi.
Conquistado, julgou-se conquistador—o que o envaideceu e lhe fez perder o sangue frio.
—«Talvez fosse ella quem lh’o dissesse—pensava o rapaz passeando inquieto pelo quarto onde se encontrára com a Candida.
Mas não fôra. Não estimava por certo a prima, odiava a mais do que a estimava, mas tinha habilidade bastante para não comprometter o presente sem ter a certeza do futuro. Ora a certeza de que o Emygdio se resolvesse a desmanchar o auspicioso casamento que tinha contractado, para a tomar como esposa, não a tinha; porque, se em conversas de amôr o achava de uma eloquencia de que até o julgára incapaz, logo que se tratasse de interesses e de futuro encontrava-o d’uma frialdade e d’um mutismo muito para desconfiar. Se não era d’uma intelligencia excepcional, era bastante fina para comprehender até onde chegava o dominio exercido sobre os seus adoradores—o que de resto não é prova de talento, antes de preoccupação mesquinha de quem se occupa sómente com a sua pessoa e funda as mais caras esperanças no agrado dos outros.
Não fôra pois ella, mas um simples acaso que tudo revelára á Pillar.
Uma noite já fria do ultimo outomno, acordára altas horas, muito contra o costume dos seus bons somnos de saudavel e feliz. Voltara-se na cama, aconchegando a roupa, enterrando mais a cabeça na almofada macia, mas uma pallida claridade que vinha do quarto de vestir sobresaltou-a pelo inesperado. Abriu muito os olhos para se convencer de que não sonhava, sentou-se na cama e chamou a prima. Como lhe não respondesse, chamou mais alto, n’uma voz entrecortada de sobresalto, e só ouviu o bater do proprio coração de encontro ás paredes do peito.
Não sabendo como explicar somno tão pesado em quem de ordinario pouco dormia, saltou ao chão e foi á cama acordá-la. A cama estava vazia.
Não poderia explicar o que pensou, porque ha momentos em que o instincto, de ordinario emudecido pelas conveniencias, pela educação e pelo sentimento, se insurge, apodera-se de todo o nosso ser animal, impelle-nos com a força bruta da natureza que se vinga, para a frente, para a verdade, para o abysmo muitas vezes...
Correu ao quarto de vestir e viu que a claridade que tanto a intrigára era a do luar que entrava a jorros por essa mesma porta de vidros a que o Emygdio ora se encostava, e era sahida para o jardim.
Um ligeiro sussurrar de vozes veio morrer ao seu ouvido sobreexcitado.
Estaria a Candida no jardim? E com quem?
Perguntava a si mesma, sem poder adivinhar a resposta... Talvez que n’esse rapido instante de incerteza ella presentisse o derruir de todos os sonhos de ventura, architectados com tão amoroso enthusiasmo, talvez...
Abriu a porta de vidros mal encostada, com a cautella, o susto de quem pratica o primeiro crime, e, de subito, encostou-se á hombreira para não cahir, e alli ficou por instantes, trémula, tiritante, como assombrada.
Viu-os de costas, affastarem-se enlaçados; ouviu a voz, que sempre aos seus ouvidos tinha chegado como symbolo do amôr e da verdade, murmurar blandicias aos ouvidos de outra mulher; toda a vida se lhe concentrou nos olhos e nos ouvidos, que n’esse esforço de vontade adquiriram uma acuidade suprema.
Conhecia-os bem; a imagem d’elle, principalmente, estava gravada tão funda na sua retina de apaixonada, que o reconheceria logo, ainda mesmo que o som das suas vozes não lhe viesse bater no ouvido como enxadadas de coveiro que lhe estivesse abrindo a cova sob os olhos apavorados.
A decepção foi d’uma surpresa tão triturante, tão esmagadora, que para alli se ficou como empedrada, encostando-se á parede branca de cal, como ella immovel e livida. Envolta em luar, a cabeça descahida, a bocca entreaberta n’um estorcer de angustioso espasmo, apenas vestida pela camisa fluctuante que só lhe descobria os pés nús, as mãos finas e a cabeça que a surpresa desvairava—era a verdadeira encarnação do desespero.
Voltavam; já as vozes se aproximavam, n’um murmurio que se confundia com o tremor das folhas emurchecidas que se desprendiam das arvores que o outomno amarellecêra e com o cahir da agua nos tanques.
A Pillar estremeceu; voltar para traz, esconder-se, fugir, foi o pensamento que a assaltou, logo seguido de outro, de muitos outros, d’um tumultuar de desejos desencontrados, que a deixavam indecisa, esbogalhando os olhos para a mancha empastada das arvores onde os dois se escondiam.
A noite muito clara, n’uma cheia de luar, estava fria, d’essa algidez penetrante que dá a proximidade das montanhas coroadas de neve.
Um estremecimento prolongado e doloroso lhe sacudiu o corpo. O sangue batia-lhe na cabeça e punha-lhe nos ouvidos uma zoeira de atordoamento, cascalhavam os dentes uns contra os outros, todo o seu fragil organismo se debatia n’uma crise de nervos assustadora.
Teve medo de morrer alli, e sob o esforço, pela pressão violenta da propria dôr, conseguiu entrar e fechar a porta como a encontrára, e depois, aos solavancos, desequilibrando-se, esbarrando nos moveis, chegou á cama onde se metteu mais por habito do que pelo claro juizo do que fazia.
Quando a Candida recolheu já não estava em estado de a sentir; e ella, nada ouvindo de anormal, julgou que mais uma vez a aventura passaria despercebida.
De manhã a febre era intensa e o delirio hallucinado. O dr. Ramalho e o Vilhegas, chamados a pressa, olharam se preoccupados, n’uma clara demonstração de desânimo. Ambos os pulmões estavam atacados e a pleuresia manifestava-se com a violencia d’aquellas de que só um prodigio póde salvar a doente.
Salvaram-na com effeito, á força de cuidados e desvelos; como que a arrancaram á morte, n’uma lucta braço a braço travada.
O Vilhegas foi o mais cuidadoso enfermeiro, não se deitando, não comendo senão de pé ao canto d’uma meza, alli mesmo no quarto de vestir.
A Candida, presentindo que a doença era mortal, teve um momento de orgulhoso triumpho, mas calára-se, fingindo esquecer o Emygdio, affectando um enorme interesse pela doente. Não queria escutar os tios que a mandavam repousar e despresava os conselhos que a velha Engracia lhe dava, n’um modo arreliento de desconfiança.
—«Não, minha tia, não me obrigue a desobedecer-lhe—porque eu não deixo a Pillar, dizia, abraçando a pobre mãe lavada em lagrimas de reconhecimento.
Não a deixava de facto, nem de dia nem de noite, como expiando a morte bemfeitora que lhe arredaria aquelle unico estorvo ao seu sonho supremo.
Mas a morte foi vencida d’esta vez.
Quando o dr. Ramalho e o Vilhegas participaram aos paes que o grande perigo passára, elles não souberam senão chorar, tão verdade é ser o grande contentamento quasi doloroso pela intensidade do sentir.
Começou a melhorar devagarinho, n’um ateamento de vida que vem aos poucos, preenchendo as lacunas da memoria; mas á proporção que a luz se fazia no cerebro abalado da doente, um desespero sem nome se lhe ia pintando no rosto. Os olhos tinham uma expressão de desvairamento quando se fixavam na prima e no Emygdio pelos quaes manifestára uma subita aversão, que parecia desolá-los. Só os consentia no quarto, quando de todo não encontrava pretexto para os affastar. A Candida, principalmente, causava-lhe uma irritação profunda, que roçava pela repugnancia.
Os nervos, n’aquelle organismo depauperado pela doença, tornaram-se senhores absolutos e d’uma susceptibilidade que lhe chamava lagrimas aos olhos a cada momento.
Infantil por vezes, muito tolerante para os paes e para a velha Engracia que a acompanhava sempre como pessoa da familia, que quasi já o era pela quantidade d’annos que servia a casa, deixava que a boa velha a entretivesse como em criança a contar historias, visto que o dr. Ramalho a prohibira de todo o trabalho intellectual—nada que a emocionasse!...
—«Conta lá, Engracia—dizia a sorrir vagamente, os olhos esquecidos a fixar qualquer coisa—conta aquella historia d’uma princeza que morreu d’amôr...
—«Ora, ora! Sempre a mesma não tem graça, menina! Agora hade ser a do «Bernal Francez».
—«Pois sim, a que tu quizeres...—No fim do _rimance_, que a velha entoava com modalidades de voz apropriadas:
—«Filhos que d’ella tiveres Ensina-lhe melhor que a mi. Que se não percam por homens, Como eu me perdi por ti...»
Ella sorria ainda, com o mesmo vago sorriso e o mesmo olhar fixo, enternecidos de tantissima tristeza...
IV
O dr. Ramalho—homem de trinta e oito annos, mais insinuante do que bello—fôra para alli logo ao sahir da Universidade, era a Pillar ainda uma criancita a quem beijava e contava contos. Vira-a crescer com o desvanecimento d’um pae ou irmão mais velho, não a considerando mulher senão quando ella lhe confessou, n’um impeto de franqueza, o seu enthusiastico amôr pelo Emygdio. Um d’estes amôres romanticos de rapariga, que sente um prazer morbido de sacrificada em offerecer ao homem, julgado infeliz, todas as alegrias e felicidades da terra. O dr. Ramalho tentára então tratá-la com ceremoniosas excellencias, o que a fazia rir perdidamente, terminando por lh’o prohibir.
É que a intimidade acarreta mais vezes affeições assim ternas e simples do que traz o amôr—paixão.
N’esta altura abriram-se as camaras e o dr. Ramalho, que era deputado, teve que sahir para Lisboa.
Á despedida animára os paes, dizendo lhes que, a pleuresia aguda estando vencida, ella ficava livre de perigo e bem entregue aos cuidados do collega; mas se sobreviesse qualquer imprevista recahida o chamassem logo. E terminava em confidencia—«o abalo physico foi tão forte e a fraqueza é tanta que ha muito a recear um desequilibrio nervoso, que temperamentos como o d’ella teem sempre mais ou menos latentes. Que era urgente uma radical mudança em toda a sua vida... Que apressassem o casamento. A realisação d’esse ardente desejo do seu coração havia de a curar.
Os paes concordaram de boa vontade em apressar o casamento; tudo quanto a filha desejasse elles fariam para a melhorar. Mas a doente sorrindo desdenhosa á proposta e olhando o Emygdio que a fitava ansiado e a Candida que se fingia desinteressada da conversa, respondeu que não tinha pressa, que havia muito tempo... queria que o João assistisse, queria melhorar de todo...
Desde esse dia é que o Vilhegas se mortificava a procurar o motivo d’aquella mudança da noiva, que lhe roubava assim a fortuna ambicionada quando elle já estava de mãos estendidas para a agarrar.
Redobrou de cuidados e de medicamentos, mas a Pillar, em vez de melhorar, de dia para dia se mostrava mais enfraquecida, mais desanimada e perto da morte. Quando os paes, cheios de dôr, fallavam em mandar vir o dr. Ramalho, ella oppunha-se, chorava, dizia que estava melhor, e que se elles o queriam chamar é porque a julgavam muito mal, em estado desesperado...
Sabia-se condemnada, e comprazia-se em ver o Vilhegas soffrer sósinho, na impossibilidade de a curar; e elle, vaidoso, preferia tambem ser o unico a tratá-la para assim ganhar o terreno que sentia esboroar-se-lhe sob os pés. Queria illudir-se, não vendo que a noiva tinha na face, quasi cadaverica, um sorriso torturado de quem tudo comprehendia; e morria vingada porque a sua morte era o castigo d’elle. Á Candida sabia bem que o não deixava; conhecia-o agora ambicioso e vulgar tal qual era, incapaz de se sacrificar por uma mulher ou por um interesse que não fosse exclusivamente seu.
Morria, a pobre, mais por ter visto morrer o seu ideal do que pela doença que lhe consumia o corpo.
Não lhes dizia nada, sentindo um mortal prazer em vê-los estorcer-se na incerteza e no pavor. Crueldade verdadeiramente humana e bem desculpavel a quem soffrera esse despedaçar de illusões em que corpo e alma se lhe caem esphacelados.
Tinha dias d’uma passividade dolorosa em que era impossivel, mesmo á propria mãe, arrancar-lhe uma palavra ou um gemido; outros em que fallava e ria, mas de tal maneira confrangida e amarga, que antes a preferiam nos dias de maior tristeza.
Tudo n’ella se transformára ou modificára. O proprio affecto pela mãe, que era d’antes mais respeitoso do que carinhoso, tornára-se n’um grande amôr apaixonado de quem se refugia, mortalmente ferido, no logar em que a acolhida é mais amoravel e certa. Queria-a ao seu lado, sem fazer nada, toda embebida a olhá-la, enchia-a de caricias, e atormentava a com as palavras de mais desconsolador desânimo.
—«Oh mãesinha,—dizia lhe um dia—se não fosse o João, pedia-te, e ao papá tambem, para morrerem commigo. Querias?!...
—«Oh meu anjo, mas tu não hasde morrer. Para que pensas n’essas tolices? Não vês o que diz o Vilhegas? A tua doença tem muito de nervoso, hade passar, verás!...
—«Pois é, eu sei... mas dize: gostarias de morrer commigo?
—«Oh se gostava! Que maior felicidade pode haver para uma pobre mãe?!... Não deixar n’este mundo egoista e mau os filhos do seu coração, não os vêr partir levando-lhes a alma?!...
—«Pensas como eu, somos bem irmãs no sentir! Se tivesse filhos... Oh! se tivesse um filho!...—os olhos enchiam-se-lhe de lagrimas, com uma grande magua de virgem que sente que todo o seu ser se revolta vendo-se privada injustamente da mais alta, nobre e bella das alegrias femininas, o orgulho de ser mãe.—Olha, se eu tivesse um filho havia de amá-lo assim.
Ficava-se horas esquecidas deitada sobre os joelhos da mãe, não podendo sentir nem o barulho d’um relogio sem gritar que lhe espetavam alfinetes no cerebro. De dia para dia peorava e a irritabilidade nervosa augmentava a ponto de a pôr a cada instante em crises de soluços e lagrimas que lhe avermelhavam a bocca com o sangue que os pulmões não comportavam já.
Emygdio, desanimado scientificamente, queria conservar a todo o custo uma illudidora esperança; d’essa esperança sem base que está no intimo de todos os seres humanos, inferiores ou superiores, eternas crianças que somos, só fortes á custa de raciocinio e vontade consciente e educada.
Mas n’essa manhã desconsoladora de inverno, vira-a tão desmudada e cadaverica, que desanimára de todo. A correr se dirigira ao telegrapho para chamar o dr. Ramalho e para alli voltára logo e alli se conservava na espectativa do grande desastre.
Os paes encaravam-se espavoridos, sem manifestação de sentimento, porque a dôr quando assim forte é como anesthesico para o espirito que se concentra no ultimo reducto da esperança, no impossivel, no milagre...
A noite cahia com a lentidão pastosa das tardes de chuva, que se afogam em lama silenciosamente. Os criados, em bicos de pés, accendiam as luzes indispensaveis para o serviço, trocando phrases a meia voz em que a palavra morte se repetia já como um dobre de sinos, e soluços abafados se suffocavam. Por toda a casa pesava o mesmo silencio funebre que se presentia cheio de gritos prestes a explodir...
O Emygdio, junto da janella, olhava inconsciente a sombra rapida que crescia no jardim, as arvores encharcadas pingando no chão já empoçado, as hastes despidas de folhagem enlaçando n’uma alliança macabra aquellas que o inverno não pode desnudar nas suas furias loucas. Como era differente o aspecto do jardim, n’essa amorosa noite de outomno, a ultima em que estivera com a Candida, aquella em que a Pillar adoecêra!...
Do quarto da doente vinha um murmurio de vozes, que se differençavam. Todas as vezes que a da Pillar, um pouco rouca, já estortorosa, se ouvia, elle enterrava as unhas nas palmas das mãos, n’um desespero de vencido.
Ella soluçava n’esse momento, deitando os braços ao pescoço da mãe como se quizesse agarrar-se ainda á vida que lhe fugia:
—«Soffro, soffro muito!... Vão chamar o papá! Quero ver o João... Tenho medo, mãe, tenho medo!...
—«Medo de quê, filhinha? Estou eu aqui, não vês?...—respondia-lhe estrangulando os soluços a triste mãe.
—«Não sei!... Tenho medo de tudo!... Queria morrer sem ver chegar a morte!...
—«Não hasde morrer, meu anjo! Deus terá piedade de nós!...
Hallucinada, reerguendo-se da cama, respondeu arquejante:
—«Não lh’o peças, ouviste? Podia attender-te, e eu não quero viver, não quero!...
Vendo a angustia da mãe cahiu em si, e rouquejou um soluço de perdão.
—«A Candida?—inquiriu n’um cicio, d’ahi a momentos.
—«Está lá dentro. Tráta-la tão mal, que a pobre menina não se cança de chorar.
—«É da doença,... Trato mal todos, a ti tambem.
—«Não digas isso.
—«Trato, bem sei... Mas tudo vae mudar em breve... Serei tão bôa... Vae chamá-la, que venha, que pode vir... Não lhe farei mal...—Tão amarga ironia resumbravam estas palavras que mais pareciam o riso funebre d’uma caveira.
A Candida entrou sob a gelida impressão de quem entra como réo avergado á culpa, n’um tribunal em que a consciencia é juiz inilludivel e implacavel.
Presentia que o momento solemne das explicações chegára inappelavelmente e não podia avaliar o resultado final d’aquella entrevista que a podia atirar para a miseria mais desoladora, a dos incapazes para o trabalho.
A doente entreabriu os olhos, acenou á mãe e á Engracia para sahirem, e ficou só com a prima. Fixou-a em silencio, com os grandes olhos pasmados dos moribundos, vendo-a estorcer-se n’um supplicio sem ousar avançar nem recuar, querendo fugir á suggestão d’aquelle olhar que a condemnava mais do que a sentença d’um juiz.
—«Vem...—murmurou por fim a inferma.
Deu dois passos cambaleando e foi cahir de joelhos junto do leito onde a Pillar arquejava, levantando-se n’um esforço supremo de vontade, fincando o cotovello direito nas almofadas.
Vendo-a tão proxima de si, teve um instinctivo movimento de repulsa, mas, vencendo-se logo, poude agarrar-lhe o pulso com tudo quanto lhe restava de vida:
—«Mataste-me, lembra-te d’isto... Sei tudo!... Vi tudo!
N’um arranco tragico, gaguejava palavras entrecortadas, que nada diziam, nada do que ella queria talvez dizer. N’um esforço prodigioso de energia, empurrou a prima, sentou-se na cama, e estendeu os braços no vacuo; logo a seguir retezou-se toda, cahindo sobre a ruma d’almofadas que lhe tinham feito supportavel a cama.
O aspecto da pobresita era terrificante, olhos escancarados como se procurassem a luz que lhes fugia, a camisa desabotoada descobrindo as claviculas descarnadas, a bocca augmentada pela emaciação contrahida n’um rictus doloroso, e a pelle a que a luz da lamparina dava um tom azulado enrugada como velho pergaminho. Os braços descahiram-lhe ao longo do corpo e as pequenas mãos transparentes arrepanhavam a roupa...
A Candida levantou os olhos que baixára para fugir á obcessão d’aquelle olhar condemnatorio, e a impressão de horror foi tal que d’um salto se pôz á porta, clamando pelo Emygdio, que vira no quarto proximo.
—«Perdidos, perdidos—murmurou n’uma voz que o terror fazia trémula e soluçante como se um frio intenso a sacudisse.—Diz que a matámos, sabe tudo... vae dizer aos paes!...
O rapaz recuou tambem aterrorisado, até á porta, poz-se a considerar o pequeno volume que o corpo, que fôra uma tão harmonica conjugação de linhas graceis, reduzido á miseria d’um esqueleto sem fórma, fazia sob a cobertura.
Rodeada de luxo e mimos, cheia de esperança e de alegria, intelligente, boa, educada; um pequeno nada bastára para a matar—uma traição tão grosseira e vil, que n’esse instante duvidava até que a tivessem praticado...
Matára-a, bem certo que a matára, com o seu procedimento d’uma maldade e estupidez revoltante e com a covardia de não querer ver o mal quando talvez fosse ainda tempo de o remediar...
Tudo quanto na sua alma havia ainda de honesto estremecia de pavor e remorso; depois todos os seus sonhos de grandeza se evolavam n’uma debandada de desânimo: Tanto sacrificio pela Candida... se valia a pena! Olhou a, pareceu-lhe como nunca formosa, d’uma imponente formosura dramatica de Magdalena de Rubens, mas como nunca tambem a ideia de não a esposar se apresentou nitida no seu cerebro.
Foi ella quem primeiro readquiriu todo o seu sangue frio, abeirou-se da cama para tocar na mão que a prima conservava fóra do leito, na esperança talvez de a sentir enregelada pela morte, incapaz de se levantar para a apontar como traidora.
A moribunda, como se áquelle contacto fosse chamada á vida, abriu os olhos desmedidamente, que eram já como janellas rasgadas para o mysterio; conheceu os dois rostos lividos de medo que a fitavam, e sorriu, com um despreso tão fundo, tão vincado nas pregas d’essa ultima mascara de vida, que mais parecia petrificada.
Os dois recuaram espavoridos, apertando-se um contra o outro, procurando-se para se protegerem mutuamente d’esses olhos de moribunda que os fitavam, que os perseguiam como se quizessem levar para a terra a imagem dos assassinos, bem juntos no mesmo crime, bem apavorados e martyrisados por essa suprema vingança da morte.
Então, ao mesmo tempo que o corpo se lhe dobrava para traz e o queixo descahia já sem vida, soltou um gemido tão estortoroso, tão rouco e tão espantosamente exprobatorio, que a Candida fugiu a gritar, com a cabeça perdida, pondo em toda a casa o desespero que o respeito pela moribunda tinha contido até ahi.
O Emygdio foi cahir de joelhos junto da morta, e tentava fechar esses olhos que o endoideciam.
Mas as palpebras oppunham aos seus dedos trémulos uma resistencia fria de coisa morta. Carregava com força, brutalmente, com risco de estoirar as pupilas, mas quando levantava os dedos elles lá estavam envidraçados, n’um espanto tragico e vasio.
Era uma preoccupação independente da sua vontade, uma infantilidade quasi, parecia-lhe que se ficasse assim de olhos abertos toda a gente n’elles poderia ler o seu crime. Não ouvira tantas vezes contar, quando criança, que assim se vingavam as victimas dos seus algozes?!... E que extraordinaria vingança aquella! Conservar eternamente nas pupilas sem vida a imagem de quem lh’a tirára!...
Não era o medico, o homem de sciencia que alli estava, hesitante, enraivecido, todo em lagrimas; era um criminoso vulgar cheio de sustos e preconceitos.
V
O sol fôra inclemente em todo esse dia de julho.
Anoitecia, e, apezar d’isso, nem a mais leve viração se levantára consoladora a arrepiar, n’um trémulo de caricia, a folhagem das arvores, que tinham o banal aspecto de plantas de folha pintada a que o tempo e a poeira debotára a côr.
Na paysagem de serras e fraguedos, que o homem conseguiu cultivar e esplanar em sucalcos successivos, os restolhos punham manchas de oiro no verde sombrio de agreste vegetação; e o céo, d’um azul que o proprio calôr velára, tornára-se vermelho sanguineo, agora, que o sol desfallecia no poente.
Os jornaleiros recolhiam silenciosos aos casebres, sem riso ou cantiga que alliviasse penas, mortificados pela trabalheira rude das ceifas e malhas sob a rudeza d’um sol impiedoso. Nem as raparigas na fonte gargalhavam, como de costume, emquanto a agua, correndo muito lenta e diminuida, lhes enchia os cantaros de barro.
Só muito ao longe, pelas quebradas da serra, resoavam os chocalhos dos rebanhos indo para o pasto e a flauta do pastor a guiá-los até á madrugada,—que depois a calma aperta e os pobres animaes, de agoniados, nem podem comer. Mais longe ainda, o chiar rangente dos carros de bois, como um longo gemido angustioso... Dir-se-hia que todas as coisas soffriam do calor asphyxiante e cahiam n’uma invencivel preguiça de viver.
É pequeno o verão nas montanhas—alguns dias de julho e agosto, quando muito os primeiros de setembro—mas esses são pezados, infernalmente longos e ardentes, sem nenhuma compensação e consolo de leve aragem pelas tardinhas. Em casa abafa-se, não ha sombra que resista á subida do thermometro quando o mercurio chega á linha do Senegal, n’um escarneo a paizes temperados. Na rua, noite alta mesmo, não se sente nenhum allivio; da terra sóbe uma baforada quente de fornalha, que afflige.
Abafa-se... mas é moda ir-se em julho para lá, não obstante ser infinitamente mais agradavel um canto de praia—onde o mar põe levezas de ar salino e um frescôr de permanente banho de espumas, as gaivotas veem á babugem da agua gritar as sonoras alegrias das coisas simples e humanas, e os olhos navegam longe, com a amplidão suggestiva das azas e das velas.
E passam na cidade,—n’aquelle afadigamento de distracções e afazeres, que chegam a ser monotonos á força de repetidos—os que obedecem á moda por preguiça intellectual de pensar e querer, os dias criadores de primavera—quando os caminhos lá das serras se alcatifam de musgos velludosos, as arvores se cobrem de flôres e verduras tenras, e as nascentes correm mais abundantes e limpidas da rocha viva; quando as andorinhas se acasalam e toda a natureza canta o grande hymno magnifico da vida é que a montanha se torna acolhedora e falla ás almas, como uma bôa e amorosa mãe.
Mas... não está decretado pelo habito dos que dão a nota de elegancia em todos os actos da vida ainda os mais intimos e graves, e por isso a villa estava radiante com os seus hospedes de verão.
João de Mello atravessou melancholico e vagaroso o largo da Fonte e dirigiu-se á botica velha, onde o sr. Domingos José da Silva se debatia contra o calor e distillava suor em mangas de camisa, como se tivesse sobre as costas pezada armadura medieva. Soprava em bochechas de affrontado, limpava a cara ao tabaqueiro de ramagens, escancarava os braços como a arejálos, e cahia esfalfado n’uma cadeira para se levantar incontinente como se tivesse por assento um brazeiro inquisitorial em vez de innocente palhinha.
—«Oh meu querido sr. João de Mello—berrou descompassado, mal viu assomar á porta a figura melancholica do rapaz—quanto folgo, quanto folgo de o ver! Cuidámos que não queria nada _cô a gente_.
Abraçou-o expansivo e correu dentro a chamar o filho para accender as luzes. Estava radiante com a visita do feliz herdeiro de quinhentos contos, a melhor casa da comarca em dinheirinho de contado e bôas terras livres, sem fallar nos fóros que se recebiam sem conto pelo S. Miguel de cada anno. Era bôa, talvez mais extensa em propriedades, a casa do Visconde, mas a politica como as demandas e o jogo onde entram fazem largo rombo... Estas e outras considerações expunha elle á mana Joaquina, sentados á fresca, sob a parreira do quintal.
—«Muito bôas noites, sr. Domingos; eu venho...—tentou dizer o João.
—«Espere, espere que já o attendo. Deixe-me cá chamar a mana _qu’ella_ está morta por o ver! _Inda honte_ tinhamos fallado, ora a graça! Ó _Jêquina_!...—gritou para cima, para o primeiro andar, e voltou logo a reprehender o filho porque a torcida mal cortada enegrecia a manga do candieiro de latão.
—«Nós cá sabiamos que chegou na segunda feira. Não se pode fazer moeda falsa, tudo se cá sabe...—Estrondosa gargalhada completava a phrase. E depois, sem interrupção—disseram que ninguem lhe punha a vista em cima, _qu’anda_ assim como amalucado, macambuzio... Então que vem a ser, _soidades, soidades_, hein?!...
—«Olha o sr. Joãosinho, o meu _Janequinho_!—entrou dizendo e arrastando a sua perna trôpega a sr.ᵃ Joaquina Ritta—uma sua criada, para os servir e louvar a Deus Nosso Senhor, continuava ella a dizer para se apresentar.
—«Vê lá que _home_ ahi tens, a fazer a gente velha!—dizia emphatico o boticario.
—«Pois está um _homezarrão_, está! Quem o conheceu e quem o vê! Faz uma pessôa velha, nem já se lembra da gente, nem das tardes que passava a cavallar no quintal com os rapazes?! Sempre era um diabrete! Mais traquinas inda não vi! A mana é que não, sempre foi um _peringalhinho_ que não prestava para nada. O que ella queria era sentar-se ao pé de mim a costurar ou a ler aquelle meu livro da _Felor de Maria_, do _Renhónhó_ e da _Cúrúja_. Não se lembra, ás vezes ao serão ao pé da brazeira? Um botãosinho d’aquelles tinha uma pausa na leitura _caté_ a gente chorava com as fallas do principe _Rodolpho_.
Os _Mysterios de Paris_, com suas gravuras baratas, e a cartilha do _Mestre Ignacio_ eram toda a bibliotheca da sr.ᵃ Joaquina Ritta. A muita leitura de romances e casos sentimentaes, parece que embota o coração, pois a bôa mulher possuia sómente aquella enredada historia que relia amiudadas vezes com a alma confrangida e os olhos distillando amargo pranto pela desgraçada Flor de Maria. Alli havia conhecimentos e tirava maximas para todos os casos da vida.
Já disse, não sei quem, que um só livro bem meditado é thezoiro inexgotavel.
—«Lembro me de tudo, lembro-me!... E com saudades, sr.ᵃ Joaquina, que só eu sei!... e os olhos de João velaram se de lagrimas.
—«Não falles n’essas coisas—reprehendeu o Domingos. Isto de mulheres estão sempre a dar _co’a_ lingua nos dentes.
—«Tens razão, tens, mano. É que sempre foi uma _disgracia_!... Nem me vai d’aqui, até se me dá um nó na _greganta_ quando penso n’aquella menina!... Mas tem razão, não fallêmos em coisas tristes. Ora diga-me, menino João, a mãesinha como vae, bôa, sim?
—«Vae indo, bôa não.
—«_Dês_ que la fui dar pesames que não a tornei a vêr. Nem tornou a sahir, aquillo teve um sentimento! _Tamem_, não houve na terra grande nem pequeno que não chorasse.
—«Lá tornas á mesma! As mulheres sempre são!...
—«É verdade, tem razão, esta minha cabeça! Olhe cá, menino, então gosta de lá estar _pr’os estrangeiros_?
—«Muito. São melhores terras do que as nossas, e a gente é mais bem educada. Olhe que não ha por lá muito quem não saiba ler nem escrever, como cá.
—«O quê? Mesmo os _travalhadores_ de enxada e as criadas de servir?
—«Mesmo esses. As criadas então, não ha nenhuma que não leia e escreva menos mal.
—«Ai, não sei que me lembra. Criadas tão _doutoras_ como as amas... Não _hadem_ prestar, não ha nada como as nossas terrinhas e cá a nossa gente.
—«Calla-te ahi! Aquillo nem é para _acomparar_! As mulheres não percebem nada cá no mundo. Em as tirando do canto da casa já nada lhes presta—sentenciou o boticario.
João, no meio d’aquelle turbilhão de palavras que lhe cahiam em cima como graniso, conseguiu dizer:
—«Isto hoje não é visita.
—«Ai não?! Ainda o diz, olha que ingrato!
—«Não era hoje, mas hade ser breve, sr.ᵃ Joaquina. Heide ir lá cima para o quintal e conversaremos como d’antes.
—«Ah! Cuidei que nos esquecia...
—«Não, eu vinha aqui á pharmacia para o sr. Domingos me fazer duas hostias de antipyrina?
—«Anti, anti, quê?!...—abria a bocca e os olhos de espanto, o boticario.
—«Antipyrina. Não tem cá? É remedio para a dôr de cabeça; não tem, não conhece?—volveu João impacientado.
—«Talvez tenha, talvez. Mas é que esses remedios _estrambolicos_, quem os arranja é o sr. dr. Ramalho. Como elle é que os receita!... Eu cá não me criei com esses venenos.
—«São venenos, são, mas a gente já se não sabe curar com outra coisa e então é melhor o sr. Domingos arranjar um praticante.
—«Tem razão, já pensámos n’isso, por isso é que o meu _Dóminguinhos_ anda nos _estudios_.
—«Ai, é tão esperto!—acudiu a sr.ᵃ Joaquina—fez _inzâme oitro dia_.
—«Ficou bem?—perguntou João por delicadeza, sem nenhum interesse.
O velho respondeu logo:
—«Olhe que não sei, menino João. Elle mandou-me dizer que sim, mas cá o _mê Antoino disse me logo «mê pae não infinte em estudantes, olhe que são todos, com perdão de Vossa Senhoria, uns tratantes_!» E vae eu escrevi ao meu _cômrrespondente_ e disse-lhe assim: «eu, Domingos José da Silva, _phramaceutico matriculado_ no largo da Fonte, quero saber se meu filho Domingos José da Silva _Juniór_ fez os _inzâmes_ que disse e se ficou approvado ou reprovado.» E o _cômrrespondente_ mandou dizer «que o estudo que fôra _bô_ mas que a respeito de _inzâmes_ se lhe tapou a _falla nas góllas_ que não disse nem uma nem duas.
João olhou-o estupefacto, apezar de ha muito conhecer as bernardices do boticario, não sabendo verdadeiramente se lhe devia dar os parabens se os sentimentos, perdido de riso como estava. Livrou-o de maior maçada e do compromettimento d’uma resposta, o dr. Ramalho que entrou na occasião.
—«Inda bem que chegou o senhor doutor,—disse o Domingos esfregando as mãos e empurrando a irmã para dentro, sem a deixar despedir, ao que ella oppunha séria resistencia.
—«Está alguem doente lá em casa?—perguntou o Ramalho, cuidadoso.
—«Não!... Ou sim... doentes estamos todos.
—«E bem doentes... incuravelmente doentes, meu pobre amigo.
—Apertaram-se as mãos affectuosamente, e o medico continuou:
—«Mas essa doença não se cura com remedio de botica. O que vinhas buscar?
—«Umas hostias de antipyrina. Este calor endoidece-me.
—«Ah sim... O Domingos não sabia dar-te esses remedios _novos_.
Sorrindo tirou as luvas, que poz com o chapéo e a bengala sobre uma cadeira, e foi elle mesmo escolher, pezar e metter nas capsulas o medicamento desejado, que entregou ao João.
—«Vaes já para casa?
—«Vou, não me interessa nada andar cá por fóra; detesto tudo isto, aborrece-me.
—«Acompanho-te; hontem não pude lá ir porque tive uma visita longe, amanhã vem tua prima, naturalmente tambem de lá vão á estação, e é provavel que não tenha tempo de ir até lá antes da noite...
Despediram se do Domingos e sahiram conversando.
—«Ainda bem que vae! Acho a minha mãe tão mudada, tão triste!...
—«Não admira. A dôr de teu pae foi mais violenta; quando cheguei tinha tua irmã acabado de expirar, vi-o perdido, convenci me que endoidecia. Depois resignou se um pouco... Tua mãe não! Não perdeu aquella serenidade mortificada, que não ha meio de consolar, só sendo tu que o possas fazer.
—«Pobre mãe! Eu consolá-la não poderei, sabe? Quando penso que a minha irmã, a Pillar, aquelle encanto de graça e intelligencia é já a esta hora um punhado de ossos ou, peor, uma horrivel podridão que nos causaria nauseas a nós mesmos que a adorámos em vida e que a não podemos esquecer em morta!... É horrivel, é para endoidecer, doutor!
—«Ó João, vê lá, sê rasoavel. Um desespero d’esses não é para uma intelligencia culta como a tua, para uma razão clara.
—«Não ha intelligencia para o soffrimento, meu amigo! Eu sei que ella já não existe, que da sua pessôa que tanto nos encantou já nada vive senão a lembrança na nossa alma; mas vejo-a em toda a parte tal qual me dizem que ella viveu nos ultimos tempos; oiço-lhe a voz arquejante, que chamou por mim; segue-me, vive commigo, porque a tenho dentro do coração... Consolar minha mãe, como o poderei fazer, se ella é mais feliz do que eu porque espera uma outra vida melhor em que tornará a ver a filha querida... e eu, e nós?... De que temos a certeza? De que o corpo é materia e a materia se transforma... E que mais? E a parte superior do nosso ser, aquillo que nos faz amar e querer, que nós amâmos nos outros porque é a parte mais essencial do nosso ser... onde está? Em que se torna? Tanto saber para se chegar á triste convicção de que a sciencia que não traz comsigo uma porção de indifferença a couraçar a alma, é um martyrio superior á intelligencia humana. Felizes os ignorantes e os ingenuos...
—«Oh! Estás n’uma excitação doentia. Não te levo assim para casa. Entremos aqui no meu escriptorio e vamos conversar um pouco com mais tranquilidade.
João deixou-se conduzir passivamente, sentou-se junto á meza, emquanto o doutor accendia a luz e se ia sentar do outro lado, no logar onde costumava trabalhar.
—«Mas o que eu não posso comprehender—disse o João bruscamente d’ahi a momentos—é o motivo porque me não chamaram logo que ella adoeceu. Foi uma barbaridade, foi até um crime. Pois será justo que lhe recebessem o ultimo suspiro, precisamente aquelles que foram, talvez, a causa da sua morte?!...
—«Ó meu amigo, pelo amor de Deus!...
—«Não me diga que não—e levantou-se agitado, n’um passear febril,—houve qualquer coisa de anormal, isso houve, tenho a certeza.
—«Parece impossivel! Então tu, João, um rapaz intelligente e culto, estás fallando pela bocca da Engracia?!...
—«E o doutor jura-me pela sua honra de que está convencido que a pobre velha desvaira?—dizia apertando-lhe o braço com força.—Diga, jura, jura?... Diga, tire-me d’esta duvida, que é medonha.
—«Tem sangue frio, homem, não sejas criança!...
—«Ah, não jura?!... A duvida tambem lhe entrou no espirito, confesse.
—«Anda cá, João, vamos fallar com socego, como homens. Primeiro, factos: o que sabes, o que desconfias?
—«Que a Pillar morreu victima d’um crime ou, pelo menos, de desgosto... que quasi o fosse.
—«Mas que crime, que desgosto?
—«Não sei! E isso é que eu saberia se aqui estivesse. Lembra-se bem de todas as particularidades com que se apresentou a pleuresia, que foi o principio da doença? O doutor esteve lá a passar a noite, achou-a como sempre alegre e bem disposta. Vão deitar-se, e de manhã estava cheia de febre, com um delirio terrivel... A causa?
—«As doenças nem sempre se apresentam da mesma fórma; podia bem ser que ella estivesse já atacada, sem nenhuma manifestação externa.
—«Pode ser... Tudo pode ser n’essa infame sciencia que não nos dá nunca uma certeza senão a da morte.
—«Não ha mais horrorosa profissão, você tem razão—respondeu sorrindo com bonhomia o medico.
—«Pois sim, mas supponhâmos por um instante que estava bôa como parecia, até aos seus olhos perspicazes de profissional. O que temos? Uma pessôa que se deita sã e accorda com uma pleuresia dupla. Estou fallando com serenidade, bem vê. É crivel que a apanhasse mettida na cama?
—«Não é natural que chegasse á janella, que apanhasse uma corrente de ar, que se descobrisse!?...
—«É possivel que a Candida dormindo no mesmo quarto não sentisse nada?
—«Gente nova, sem cuidados, tem o somno pezado.
—«Não é isso que ella diz. E depois, o que me diz você a essa pulseira da Candida que a Engracia encontrou no caramanchão na manhã seguinte? Já não quero dar ouvidos á opinião da velha, que diz tê-la visto córar como lacre quando lh’a entregou.
—«Ora, coisas da Engracia; nada mais natural do que a rapariga tê-la perdido de tarde...
—«Pode ser... Pois se eu tivesse a certeza! Mas o que o doutor não sabe, é que o Manuel lavrador, que sahiu de noite para amanhecer na matta do rio onde ia buscar lenha, disse ter visto saltar a grade do jardim um homem com um varino. Sabe que o Emygdio trouxe um de Coimbra e usa-o muitas vezes, principalmente á noite. E se fosse ratoneiro, sabe que a Favorita não é para brincadeiras...
—«Tudo isso são supposições...
—«E o odio que manifestou nos ultimos tempos ao Emygdio e á Candida, a minha irmãsinha que os amava tanto?!...
—«Ora! As doenças trazem por vezes taes desequilibrios, uns pensamentos tão desvairados...
—«Sim... e tambem uma lucidez mais aguda... a minha irmã estaria louca? Não o creio, nem o doutor tambem. Alli houve qualquer coisa de anormal, e não a conhecer é o que me tortura.
—«Eu nem digo que creio nem que descreio. Não sei nada.
—«Mas heide eu sabê-lo. Os acontecimentos seguem sempre uma logica fatal, que não illudem por muito tempo um espirito investigador. Diga-me como as coisas se passaram tal qual as viu e observou que eu preciso juntar ás minhas as suas informações. Recusa fazê-lo?
—«Não, pelo contrario, julgo que é até o meu dever, visto que no teu espirito se levanta uma duvida. Fá-lo-ia com um indifferente, quanto mais comtigo que estimo como irmão; tratando-se sobre tudo da morte da Pillar, que é uma saudade vivissima para o meu coração.
O medico concentrou-se um instante e depois começou pausadamente, como quem faz um relatorio, sob os olhares ansiosos do rapaz.
—«Quando cheguei de Lisboa, chamado por um telegramma do Emygdio, fui directamente a tua casa. A Candida sahiu do quarto aos gritos, apavorada, como louca. Eu nem reparei que teu pae desvairado se debatia nos braços dos criados que lhe não deixavam despedaçar a cabeça pelas paredes, e que tua mãe cahira como fulminada com os sentidos perdidos. Não vi nada! Corri ao quarto na vaga e disparatada esperança de a salvar ainda...
—«E a desditosa criança estava já morta?!...
—«Ouve. A Pillar fallecêra n’esse instante; ainda não estava completamente fria. O Vilhegas, junto d’ella, parecia idiotisado pelo soffrimento...
—«Ou pelo remorso?!...
—«Não sei; já te disse que não avento opiniões, conto-te o que vi. Tentava fechar-lhe os olhos, n’uma preoccupação de doido, que me impressionou bastante...
—«D’ahi para deante já eu sei, nem tão poucas vezes m’o tem contado a pobre Engracia. Foi ella quem vestiu a morta; nem quiz ninguem para a ajudar, que a sua menina só a ella a queria...
O João escondeu a cabeça nos braços cruzados sobre a meza, n’um soluçar de angustia.
—«Então que tolice é essa, João?!...—ralhou amigavelmente o Ramalho.
—«Tem razão, isto não é proprio d’um homem... Continúe, mas deixe-me antes agradecer-lhe os cuidados e carinhos que n’essa occasião dispensou aos meus pobres paes.
—«Não falles n’isso, deixa-me continuar. Quando vi que não havia alli nada a fazer, corri para junto dos que mais soffriam. Nunca vi uma dôr egual, e tenho assistido a bastantes!... Cheguei a pensar em mandar-te chamar, mas, perdôa se pensei mal, vi-os tão sentidos com o desgosto que julguei perigoso todo e qualquer abalo. Ver repentinamente o filho que ficava quando a outra lhe fugia para sempre, era exacerbar a dôr. A Natureza tem em si mesma o unico calmante para as grandes maguas, o tempo. A vida, meu caro, tem-me ensinado estas coisas. Quando o soffrimento é sincero, a propria distracção o irrita e faz maior.
—«Ah, mas o que eu soffri sósinho quando o soube! O que eu curti só, longe dos meus, sem um amigo que bastante o fosse para soffrer commigo!... Sem uma pessôa que ao menos me lamentasse na linguagem que o meu coração melhor podia entender n’uma situação d’aquellas, a minha! Ah meu amigo, que eu não sei como não enlouqueci!...
—«Pois sim, lá soffrias o mesmo, ou talvez mais, mas não tinhas a brutalidade d’estas scenas mortuarias que forçam a dôr até á revolta. Elles cá ir-se-hiam habituando... que a resignação é habito, filho.
—«Sim, convenço-me que fez bem, mas o que me tresvaría é a desconfiança de que _elles_ a matassem!
—«Mas com que fim? Não era o interesse do Emygdio casar com tua irmã?
—«Seria o d’elle, mas não era o da Candida.
—«Hum!...—rosnou o doutor estendendo os beiços incredulo.—Convences-te de que tua prima quizesse o Vilhegas emquanto te visse solteiro?
—«O que podia ella esperar de mim, que nunca a cortejei?
—«As mulheres, quando são bellas e ambiciosas como a Candida, não se prendem com essas frioleiras...
—«Não sei, digo eu agora. O que sei é que a Engracia os surprehendeu por mais d’uma vez conversando em voz baixa pelos cantos.
—«Lá voltas com os ditos da Engracia...
—«A Pillar aborreceu-os a ambos. Elle parece evitar-me, acanhado... A Candida ficou despeitada, parece, pela minha sahida para a Belgica sem lhe declarar amôr... Isto, meu amigo, são factos. Lá em casa não se pode fallar em tal, que para meus paes a Candida é um anjo. Eu é que desconfio muito d’aquella bondade sonsa. Desde pequena que me persegue, e, confesso, nunca mulher nenhuma me repugnou tanto como ella, sendo aliás bonita.
—«Formosissima, dize, que não lhe fazes favor.
—«Não acho, não a tolero. Ha n’aquella passividade, que quer fazer passar por bondade, uma tão grande vaidade e não sei o quê de falso que me irritou e affastou sempre.
Levantou-se inquieto e começou a passear pelo escriptorio, murmurando palavras, como se estivesse só. De repente estacou em frente do medico:
—«Só queria saber a verdade! Mas como?! Ah, que se elles se namoram, se casam!... Mato-os como cães damnados, percebe?
—«Ora deixa-te d’isso, casam lá!...
—«Juro-lhe que os matava por minhas mãos. É a unica prova que aguardo. Até já pensei em namorar a Candida para descobrir alguma coisa, mas quando lhe fallo... estou como a Engracia, parece que vejo a sombra da Pillar a prohibir-mo!... Se ella era tão pura, como poderia querer uma mentira?!...
—«Não te sabia _espiritista_...
—«Não sou, não era! Que eu já nem sei o que sou! Não posso com a ideia de que minha irmã não é mais do que uma pouca de materia que se transforma estupidamente, immundamente, na terra!...
VI
Na botica velha, apezar do excessivo calor, iam-se já reunindo os frequentadores do costume.
Mas não entravam, porque o pequeno recinto a que os remedios davam um cheiro enjoante era pouco convidativo, por uma noite assim quente, para tantos pulmões que reclamavam ar.
Cada um que chegava ia dentro buscar cadeira, e, formando circulo, sentava-se fóra da porta, abanando-se com o chapéo n’um desabafo de asphixiados.
Apezar d’isso, a palestra corria animada porque eram muitos os assumptos a discutir, e não ha temperatura, por mais alta que seja, que possa fazer morrer o microbio da _má lingua_.
O Padre Mathias, de quinzena curta, escanhoado de fresco, e, por excepção, de collarinhos engommados e gravata limpa, dizia para o Braga:
—«Você quer vir d’ahi jogar uma partida a casa do Maximiano?
—«Eu não, homem; elle não faz nada do que se lhe pede... Veja lá se arranjou pôr em praça a casa do _Barnabé_, uma coisa que era mesmo uma justiça!
—«Pois compre-a você ao Bernabé, que elle vendê-lha.
—«Pois sim, mas que _dinheirama_ elle não pedirá?!
—«Você quer ter as coisas e não as quer pagar, é bôa!... Eu cá, se fosse rico, é que me ralava bem com taes miserias—em querendo uma coisa, comprava-a.
—«Se fosse rico, se fosse rico!... É com o que lhe dão. O que tenho custou muito a ganhar ao meu pae e a mim tambem, não é para agora o _esbaratar_ sem mais nem menos.
—«Não está mau ganho aquelle,—commentou o Neves ao ouvido do Domingos—se não fosse o roubo da casa do Olival queria ver o que elles tinham!...
—«E o juro a cem por cento?...—respondeu o outro na mesma—quem lhe sabe da _caronica_!...
—«Oh homem, não diga tal—continuava o cura. Se o Maximiano lhe não fizer ir a casa á praça, por expropriação, ninguem lho faz.
—«O Visconde está agora de cima e com elle me entenderei.
—«Você verá se o Visconde assigna essa trapalhada! Hade tratá lo com muito bons modos, mas não lho faz, tenha a certeza.
—«Veremos!
—«Pois veremos.
—«Amanhã vou esperar o Visconde e se calhar fallo-lhe logo.
—«Vae feliz. O Visconde tem escrupulos de mais para politico; se o Maximiano possuisse o dinheiro d’elle, com a cabeça que tem! Ainda o havemos de ver, quem sabe?!... Talvez presidente da republica!
—«Pois elle está agora republicano?!
—«Não, por emquanto não, mas se ella viesse!... E você não quer vir a casa do Maximiano, oh Neves?—terminou, desviando a conversa que lhe não agradava com o teimoso do Braga.
—«Vou lá um bocadito.
—«Então vamos, que são horas. Vendo o relogio de ferro oxidado—já nove! Irra, estas noites de verão são uns _nicos_!
—«Eu tambem vou—disse o recebedor.
—«E eu tambem—acudiu o Móttasinho escrevente do pae tabellião, imberbe, voz aflautada e ares importantes de janota provinciano.—Estou com curiosidade de ver como vem este anno a Hortensia—e puxou uma fumaça do cigarro, que ainda o engasgava.
—«Talvez imagine que ella fica apaixonada—casquinou ironico o escrivão de fazenda, secco e triste como um arenque fumado, apertando o estomago que a dyspepsia assaltava.
—«Bem podia ser, sem ser milagre!...
—«Aquella não é para o seu dente, Móttasinho—veio dizer do lado o cura, batendo lhe no hombro familiarmente.
—«Não sei porque não, tem se visto coisas mais impossiveis; lá pela riqueza, tambem ella não tem muita—respondeu enrubecido como timido menino o pobre do Móttasinho.
—«Rica não é, lá isso é verdade; mas a protecção do pae vale bem a fortuna aqui do sr. Braga. E olhe que é uma rapariga educada na alta—só falla em francez!
—«Pois eu ainda conheci a avó a nem saber fallar portuguez.
Uma gargalhada geral abafou o dito que o velho dr. Pinto atirou lá do seu grupo. O advogado, de barbas brancas e ondeantes, apezar de não ser ainda um velho, com os seus olhos negros e inquietos de pouco fiel e desconfiado, gosava todas as regalias de commentador ironico da vida provinciana.
—«A pequena não tem nada com a ignorancia da avó—respingou azedo o Padre Mathias.
—«Oh homem, não se escandalise, que isto é graça, não é fallar em desabono da _sua gente_—e sublinhava com uma gargalhada que lhe fazia tremer a barba sobre o peito, como n’um soluço.
—«Fallem, fallem, que ainda os heide ver lá todos cahidos... Quando se convencerem que os homens ricos como o Visconde, que não faz da politica modo de vida, não são capazes de fazer um favor a um amigo!...
—«Sim, o Maximiano para fazer favores á custa do estado é um _barra_! Mas ainda tem tanto parente pobre que primeiro que chegue aos estranhos ainda levará tempo—tornou, rindo sempre, o advogado.
—«Oh Neves, para onde vae você?—desviou o cura, na sua febre de movimento, vendo passar o professor.
—«Vou fallar ao meu primo.
Effectivamente dirigiu-se para o Vilhegas, que passava de largo, affectando não ver a gente da _velha_.
O cura foi ter com elle, aproveitando o ensejo de deixar airosamente a roda.
—«Então para onde vae, doutor?
—«Um bocado até á botica nova conversar com o Telles.
—«Está lá um calor de todos os diabos; porque não vem antes a casa do Maximiano? Olhe que se passa lá bem.
—«Não tenho quasi nenhumas relações com elle.
—«Não faz mal; vae commigo, é o bastante.
—«Outro dia qualquer.
—«Porque não hade ser hoje? Venha d’ahi.
—«Hoje não, nem estou vestido...
—«Deixe-se d’isso. Aquillo não tem as ceremonias da Viscondessa. Está-se á vontade. Venha d’ahi, ande!...—Vendo-o irresoluto, lá o foi arrastando até casa do conselheiro, seguido pelo Neves, o recebedor, o Móttasinho e mais uns poucos.
—«Olha o Padre Cura a arrebanhar as rezes para o sacrificio—casquinou para o grupo o dr. Pinto.
—«Aquillo sempre é um _typo_!...—resmungou o Braga.
Em casa do Maximiano as portas e janellas abriam-se de par em par illuminando a rua da villa, pouco abundante de candieiros municipaes. As vozes que vinham de lá, o vulto do conselheiro que por momentos se debruçou na varanda atirando fóra a ponta do charuto meio acceso, a aproximação emfim d’essa gente que mal conhecia, fizeram recuar o Emygdio, que, no fundo, era um acanhado. Mas o reverendo é que o não largou senão dentro da sala, pondo-o mesmo em frente do Maximiano.
—«Sr. Conselheiro, este senhor não queria cá vir por não estar vestido convenientemente, e não o conhecer e não sei que mais...
—«E o _Padre Cura_ deu-lhe ordem de prisão?! Fez muitissimo bem.
—«Oh, sr. Conselheiro, eu tinha o maior gosto em vir, mas, na verdade, para uma primeira visita, não venho em _toilette_ competente.
—«Oh, meu caro, nada de ceremonias. Esteja como em sua casa. Gosta de jogar?
—«Não sei. Quasi não conheço as cartas.
—«Então vamos a uma partida de bilhar, que o bilhar é como o vinho: aquece no inverno e refresca no verão.
E, conversando animadamente, seguiram á sala de bilhar, d’onde vinham vozes alegres de gente moça.
A filha do conselheiro, acompanhada por uma velha _bonne_ e meia duzia de rapazes e raparigas, que a ouviam enlevados, fazia traquinada com as bolas, ria alto, rodava sobre os calcanhares, puxava o cinto bem abaixo para salientar a incrivel cintura, e papagueava em francez com a _mademoiselle_, voltando-se logo a vêr o effeito, para a roda embasbacada dos admiradores.
Quando o pae lhe apresentou o Vilhegas, curvou a cabecinha frisada em pôpa e murmurou com a ponta dos beiços um cumprimento inintelligivel. Depois, simulando indifferença, foi para a janella arrastando os companheiros. De ahi a pouco a sua voz esganiçada sobresahia a todas as outras, e as rendas brancas que enfeitavam o vestido muito justo de _piquet_ azul pallido andavam n’um rodopio.
—«Quem é aquelle rapaz?—perguntou á Aurora Costa, uma vesga e morena, que abria em bico a blusa verde-couve.
—«Aquelle? É o doutor novo, o medico que estava para casar com a Pillar de Mello.
—«A pequena que morreu tysica?!... Ah, bem sei!... Agora a quem faz elle a côrte?
—«Agora?! Então ainda o outro dia lhe morreu a noiva...
—«E por isso não hade namorar mais? Ora adeus! Bem se vê que és da provincia. Quantos _flirts_ tens tu?
—«Não sei o que é...
—«_Flirt_ é como agora se chama ao namôro, que é uma palavra muito baixa.
—«Eu?!... Nenhum.
—«Nenhum?! Isso é uma vergonha, positivamente.
—«Costumas ter mais do que um?
—«Sempre és muito parva! Este inverno cheguei a ter vinte e cinco ao mesmo tempo—mas a gente chama-lhe _flirtar_. É _plus distingué_, e sabe ao mesmo.
—«E se te chamam namoradeira?
—«_Ça m’est égal_...—cantarolou, voltando-se a meio para o Móttasinho, que se curvava ceremonioso:
—«_Oh mr. Móttá, comment vous portez-vous?_
—«Ganhou. Agora, visto que não gosta de outro jogo—disse o Maximiano muito amavel para o Vilhegas, ao mesmo tempo que punha o taco sobre o bilhar—aqui o deixo entre a gente nova. Esteja á sua vontade, meu caro. Gosto que venham a minha casa, mas não posso ver ninguem contrafeito. Eu vou até lá dentro molhar a minha sôpa—terminou em ar de graça.
Quando já ia a cruzar a porta, encontrou o juiz que se encostava gottoso a uma forte bengala de bambú, atarracado, grosseiro, de barba sal e pimenta, e dois olhinhos de porco incertos e máus. Trauteando sempre, brutal com os inferiores, mettendo-se a gracioso com as senhoras, a quem dizia insolencias por amabilidades, queria dar-se uns ares de honrada isempção que muito faziam rir o dr. Pinto.
—«Olá! Então hoje por aqui?—cumprimentou expansivo o conselheiro.
—«Venho vê-lo.
—«Ámanhã não pode decerto, seu maganão!... Já sei que vem o visconde.
—«Não é por isso, é que ha dois dias que o não via...
—«Então não vae á estação?
—«Naturalmente não posso deixar d’ir. A viscondessa é d’uma amabilidade extrema para minha mulher; mal parece não ir, pelo menos eu, esperá-la.
—«Sim, a viscondessa é muito amavel e o visconde tem tanta influencia no ministerio da justiça!...
—«Eu não mendigo empenhos, senhor Conselheiro. Lá em cima conhecem bem a integridade do meu caracter e sabem que eu não me vendo por...
—«Quem falla em tal, meu caro! Isto era brincadeira. Tambem eu sou amigo do visconde, apesar de adversario politico; lá por Lisboa não se levam as coisas a sério como cá na Parvonia. Muito a sério, ninguem conhece tão bem como eu a sua honestidade e desinteresse, por isso desejaria vê-lo collocar na vaga que se vae dar com a aposentação do Dr. Saavedra.
—«Sério?! Elle aposenta-se?
—«Mandaram me hoje dizer.
—«Que logarzão!... Em Lisboa, e fazendo quanto quizer!...
Pulso livre, claro—e a meia voz lá foram conversando até á sala d’entrada, onde, em volta d’uma grande meza, se reuniam os jogadores de _polis banque_. Aos lados, em mezitas pequenas, estavam os caturras do _voltarete_, do _whist_, do _boston_ ou do _sólo_.
Mal o conselheiro appareceu, quasi todos os logares do _polis_ se lhe offereceram amavelmente; logo elle, unctuoso, sempre risonho, com maciezas de voz e de phrase muito estudadas:
—Oh, meus amigos, por quem são! Eu fico bem de pé, não se encommodem... mas, ante o protesto geral, foi sentar-se á direita do banqueiro, o Motta tabellião, um bilioso de cabello e bigode pintado e lunetas brilhantes á força de as limpar nas circumstancias graves. Sómente a face se lhe distendia em riso de satisfação quando, como agora, as notas, as moedas de prata e as marcas d’osso que substituiam o cobre, se lhe amontoavam diante dos olhos avaros.
Vendo o Maximiano acceitar o logar da direita, estremeceu. Era uma honra, na verdade, mas tambem um perigo, porque ninguem como elle, acostumado ao grande jogo de Lisboa e Cascaes, para abafar uma banca logo á primeira. O baralho tremeu-lhe entre os dedos ao dar cartas ao visinho.
Mas o conselheiro não jogou e um sorrisinho de alivio veio desfranzir-lhe os beiços e mostrar os dentes apodrecidos. Já fallava, já ria dos _pontos_ que iam perdendo pequenas paradas, e pagava sem regatear ás senhoras.
—«Jógo!—disse do outro lado da meza a mulher do Maximiano, que estendia sobre o panno verde as mãos cheias d’anneis de brilhantes.
—«O sr. conselheiro não jóga no jogo da sr.ᵃ D. Maria Adelaide? perguntou o Motta, cortez.
—«Eu tópo—insistiu ella seccamente—tire carta.
O banqueiro mordeu os beiços despeitado e começou a puxar as cartas, vagaroso, muito molle, como se lhe estivessem colladas aos dedos.
—«Perdi, quanto é?—disse atirando o seu jogo á meza e olhando com simulada indifferença para as mãos lampejantes que se entretinha a revirar para mostrar o brilho dos anneis.
—«São vinte e cinco mil réis, fóra estes miudos que não vale a pena contar.
O tabellião fazia de generoso, não cabendo na pelle de regosijo.
—«Conte tudo—ordenou orgulhosamente, para mostrar á pelintrice provinciana como se joga no _grande mundo_.
A não ser o conselheiro, que conversava com a maior naturalidade para as outras mezas, todos os que estavam a meza do _polis_ e os que de pé jogavam de fóra ou, meros _mirones_, simplesmente viam e commentavam, tinham seguido ansiosamente a partida arrojada da conselheira.—O Motta estava com uma sorte! Já não faltava senão dar mais uma vez; se passasse d’essa já não se desforravam com elle. Asneira tinha elle feito em retirar metade da banca logo no principio.
Pensavam todos o mesmo, invejosos, seguindo em silencio o movimento do baralho.
—«Falta a ultima, amigo Motta, e ahi é que a porca torce o rabo—disse o padre Mathias, de pé, com os tentos apertados na mão de mistura com cédulas já de ganho.
Quando o Maximiano tornou a receber cartas olhou-as indifferente, pô las em cima da meza diante de si e continuou meio voltado a conversar com o juiz.
O Motta, esperançado de que elle não jogasse, deu confiadamente o resto das cartas.
—«Oh, doutor—disse o conselheiro para o juiz, que, a cantarolar um estribilho muito da sua cabeça desafinada, ia já a voltar para outro lado—você não joga?
—«Não senhor! O jogo é uma ladroeira.
—«Parece-lhe?
—«Pois pudéra! Então parece-lhe bem que alli aquelle senhor ganhasse vinte e cinco mil reis a sua esposa d’um instante para o outro?
—«O dinheiro fez-se para girar, meu caro. Quer que todos façam tulha de libras como o senhor?
—«Eu, sim!? Sou um _pobretana_.
—«Todos os honestos dizem o mesmo. Devia jogar para enriquecer. Eu gosto do jogo porque é a imagem da vida. Os pacatos, os que seguem sómente o caminho trilhado por outras pessoas mais experientes, esses não arruinam os banqueiros nem perdem as casas, quando muito perdem... a linha. Os que são capazes de arrojar uma fortuna sobre uma carta, são tambem capazes de tudo arriscar para chegar onde a ambição lhes pôz os olhos...
—«Jóga, senhor Conselheiro?—perguntou, officioso, o tabellião.
—«Tópo.
E a carta voltada fez-lhe passar para a mão todo o dinheiro que estava sendo a cubiça dos outros.
O Motta, a pretexto de cansaço, levantou-se a tomar ar. Estava desesperado.
Com o seu eterno sorriso de bonhomia, começava o Maximiano a contar o dinheiro para pôr na banca, quando a filha entrou pelo braço do Vilhegas, dizendo com a sua vózinha aguda atirada com petulancia:
—«Oh papá, não imagina como o sr. Vilhegas e eu nos entendemos bem! Sabe historias deliciosas e lindos versos para a guitarra.—Chegando ao pé da meza e mudando de tom:—O papá é que faz banca? Hade ser _vacca_, sim?—E para o Emygdio, torcendo-se risonha: aposto que tambem não sabe o que é fazer uma _vacca_?
—«Ah, isso sei por experiencia... de perder. Muitas vezes em Coimbra me pediram dinheiro para ellas.
—«E não ganhou nunca?
—«Creio que não, porque nunca mo deram.—Respondeu já senhor de si, vaidoso por se ver recebido com tanta expansão pela filha do grande politico, cujo lendario talento era ainda ponto de fé, até para os adversarios.
—«Parece incrivel que não saiba jogo algum. _Je ne crois pas!_
—«É tão completa a minha ignorancia que até me parece que serei incapaz de vir a aprender.
—«Nem o _bluff_?
—«Esse menos do que nenhum, nem mesmo sei o que é.
—«_C’est incroyable!_ É um jogo d’enganos; só pelas cartas serem differentes já tem graça. Pode ganhar-se sem ter jogo nenhum, é questão de finura. Olhe, o papá ganha sempre e com jogos ordinarissimos. Engana toda a gente.
—«Realmente sou um grande ignorante. Preciso aprender algum d’esses jogos, já não digo todos...
—«Deveras? Então eu ensino-o...
—«Pois desde já prometto ser o mais submisso dos discipulos.
—«A sério?
—«Muito a sério.
—«Oh, mas é delicioso!... Aprenderá comigo todos os jogos, sim!?...
—«Todos que V. Ex.ᵃ souber.
—«Mas se eu sei todos! Vamos já hoje começar a lição?
—«Com todo o gosto.
—«Mas... por qual? Oh papá, o que heide ensinar primeiro?
—«O burro, que é o que tu sabes melhor.
Toda a sala riu da graça do conselheiro.
—«Bom, lá está o Papá a fazer troça... Imagina que eu não sei jogo nenhum porque não tenho a prática que o Papá tem?!... Ora espere, venha cá,—e correu ao fundo onde estava uma pequena meza de pé de gallo.—Oh sr. Motta, dê me cá esses castiçaes.—O Móttasinho, que ia a entrar, correu a executar a ordem.—Accenda-os, faça favor. _Merci._ Agora os marcadores, as cartas do _bézigue_, bom! Sente-se aqui, sr. Vilhegas, vou ensinar-lhe um jogo engraçadissimo, por ser só de duas pessoas—um verdadeiro _tête à tête_.
—«Um encanto, principalmente quando uma d’ellas é V. Ex.ᵃ.
—«_Comme vous êtes aimable, merci bien._
—«Não digo mais de que V. Ex.ᵃ merece.
—Sabe uma coisa? Eu gosto mais que me tratem por Mademoiselle Hortense. É assim que todos me tratam e eu estou tão habituada a fallar francez desde o collegio, que ás vezes dou ordens aos criados e só quando os vejo olhar para mim com caras de parvos, é que percebo que elles não comprehenderam porque fallei francez. É quasi a minha lingua...
—«Pois se Mademoiselle deseja, fallaremos tambem em francez.
—«Pois falla?
—«Alguma coisa.
—«Oh, mas o que me espanta é que sendo um homem tão educado e intelligente possa viver n’uma terra da provincia como esta. Viver toda a vida n’uma aldeia, oh que horror!—e deitava a cabeça para traz n’um gesto verdadeiramente de horrorizada.
—«Vamos ao nosso jogo?—desviou a conversa o Emygdio, vendo que todos o observavam e que no dia seguinte os proprios partidarios invejosos espalhariam pela terra o acolhimento que elle tivera em casa do chefe da opposição.
—«_C’est vrai. J’avais oublié! Ma pauvre tête!_ Repare bem, pega-se na primeira dama e no primeiro rei que nos veem á mão e faz-se um casamento.
—«O que se chama aqui um casamento?
—«É apresentar os dois juntos, é uma especie de casamento civil...
—«Que é lá isso, que é lá isso, perguntou da roda do _polis_ o padre cura.—Já fallam em casamento, sem me ouvirem em confissão?!...—e riu da graçola, a que o Móttasinho achou muito chiste.
—«Não são d’esses casamentos—respondeu com imperturbavel serenidade mademoiselle Hortense—são casamentos sem padres. Duram apenas o tempo da partida e dispensam bençãos papaes. Casamentos _nouveau style_. É um jogo delicioso, não acha mr. Vilhegas?
—«Divino, minha senhora!...
VII
Primeiro do que ninguem tinha o dr. José Ramalho chegado á estação para esperar os viscondes, que vinham no ultimo comboio.
Mal se começavam a reunir os empregados, bocejantes, e os guardas tinham apenas accendido os candieiros de petroleo, com as torcidas em bicos fumarentos, que mal alumiavam a sala de espera.
—«Uma bôa estafa este comboio das onze da noite!
—«E hoje então que a Viscondessa hade trazer _pr’a-hi_ um _rôr_ de bagagens!
—«Ficam _p’rá manhã_.
—«Isso ficam ellas!... O chefe, _antão_... Se fosse _cô oitros_, não digo menos, mas _cô estes_ é todo _politicas_...—Conversavam dois carregadores, encostados á hombreira da porta, na espera ociosa e enfastiada que precede a hora da tabella, cortada a espaços pelo resoar da campainha electrica que nos sobresalta alegremente como voz amiga que já nos falla dos que esperâmos, dizendo-nos a sua aproximação.
O doutor estava, contra o costume, n’uma disposição de espirito arrelienta, nervoso, maldisposto, com vontade de implicar e dizer mal.
Aproveitando a liberdade que o seu logar de medico da companhia lhe dava, levantou o balcão e pela casa das bagagens atravessou para a gare, que estava ainda em profunda treva.
—«Então o que é isto!? Hoje não accendem as luzes?—perguntou mal humorado aos homens que o tinham seguido.
—«Ainda não deu a partida, senhor doutor.
—«Ora adeus! Accendam isso que são horas—commandou energico, emquanto os outros, vencidos, iam de má vontade buscar um caixote para chegar aos candieiros.
Começou de passear para acalmar os nervos, e de momento a momento parava, olhava o mostrador de duas faces do relogio da estação, puxava da algibeira o seu _remontoir_, e confrontava-os, achando sempre que ambos deviam estar atrazados.
Chegava a Viscondessa, causa unica e involuntaria d’aquella agitação... Para que negá-lo? Era um sonho de muitos annos, a porção incorporea e ingenua do seu sentir, o ideal que lhe tornava supportavel a vida trabalhosa, solteira de affectos. Julgavam-no egoista, solteirão incorrigivel, todo avesso a phantasias amorosas, e afinal... Desde muito novo que esbarrára n’aquelle sonhar impossiveis que lhe fechára olhos e coração a qualquer outro sentimento.
Nunca sentira necessidade de confessar-lhe, nem a si proprio, mesmo, quanto havia de profundo amôr no interesse que ella lhe inspirava.
Para quê, afinal? Era tão feliz na doçura tépida e confiante d’aquella amizade fraternal, que nem mesmo queria averiguar o que de vulgar e humano ella continha.
Para que perturbar esse enlevo com a materialisação d’um sonho, que na realidade não passaria d’uma vulgar intriga?
Depois, a Viscondessa era d’uma honestidade tão simples e consciente, e com tanta graça e tanta nobreza sustentada, que nem a sombra de uma suspeita impura ousaria roçar-lhe pela alma. E era ainda por isso que mais a estimava, que a adorava, quasi—porque era adoração o que sentia ao vê-la tão serena e tão bôa, tão intellectual e distincta! Tinha vontade de ajoelhar, silencioso, resignado, e até feliz na passividade do extasi.
Elle, que era um tanto rude na franqueza do dizer, achava, para as suas intimas conversas de bons amigos, phrases d’uma tão carinhosa ternura como só as sabe ter um coração de mãe.
Tão pouco humano, tão desinteressado era aquelle affecto, que não sentia pelo Visconde a mais leve repulsão. Se não eram amigos, como era natural que o não fossem, sendo tão fundamentalmente dispares, era-lhe todavia dedicado bastante para o auxiliar politicamente, e para lhe ser até agradavel a sua intima convivencia. Invejava-lhe um pouco, talvez,—criancices de amoroso—a delicadeza do seu perfil aristocratico, a maneira requintada de vestir, a simplicidade suprema com que punha o alfinete de perola na gravata de setim preto, collocava uma flôr na botoeira, guiava um carro ou fallava sobre arte.
Amá-lo-ia a Viscondessa por essas miudas preoccupações que tornam certos homens tão queridos á maioria das mulheres?
Mas o Visconde não era sómente isso, e decerto a mulher, cujo espirito adquirira com a convivencia vibratilidades d’artista, amava muito esse homem, _dilletante_ na politica como na arte, colleccionador por moda, um pouco litterato e um pouco _sportsman_; sempre distincto, invejado e imitado.
Casados por paixão, era evidente que se amariam como no principio. E era tão natural—pensava por vezes o doutor—primos chegados, a mesma educação e tradição de familia, fortunas eguaes, não tendo uma recordação que pelos dois não fosse partilhada, deviam amar-se e ser felizes como pareciam, como toda a gente queria, apezar da delicada reserva com que se abordavam.
Pensava incoherentemente todas essas coisas, percorrendo em largas passadas regulares o restricto espaço da plataforma onde chegava a luz. Toda a tensão de nervos se lhe conhecia no mordiscar febril do charuto e no franzir da testa a cada momento.
Assim se conservava ainda, quando a _gare_ foi invadida pelas pessôas importantes da terra, que vinham, como elle, esperar os viscondes. O Braga, azafamado, empurrando todos, grosseirão e bruto, n’uma grande preoccupação de ser sempre o primeiro. O Neves, o Domingos, as meninas Souzas e as Costas, com vestidos d’um exagero que pretendiam ser a moda, olhando-se invejosas por cada fita ou flor a mais que qualquer d’ellas pozesse.
Até as sr.ᵃˢ Rebellos, com chapéos de repolhudas flores vermelhas atados ás velhas caras rugosas, que o pó d’arroz tentava amaciar; o juiz, arrastando a perna gottosa encostado ao chapéo de chuva e á bengala, tencionando já pedir desculpa pela falta da mulher, motivada por doença, diria, mas em verdade porque não quizera alugar carro, e assim, a meias com o delegado, o dr. Pinto e o escrivão sahia-lhe mais barato. Não, que era preciso fazer economias, desde que os emolumentos do crime se iam pela agua abaixo e era uma raridade um bom inventario...
Depois, ainda, os partidarios certos do visconde e aquelles que não sabiam ainda para onde se virar.
O doutor, que estava sempre disposto a aturar aquella gente com a inestancavel paciencia de medico e de politico, não poude n’essa noite vê-los sem que o espirito se lhe confrangesse n’uma repulsão instinctiva, que o fez affastar para a sombra, propositadamente, com vontade de criticar, de ter alguem com quem podesse fallar, alguem de muita confiança que o desculpasse sem tentar comprehender aquelle estado de espirito, que torna os homens, mais do que as mulheres, intractaveis em questões de amôr.
Quando por fim o João appareceu, foi-lhe ao encontro, de mão estendida, sem se importar com os outros.
—«Já cá estava, e eu fui por sua casa para o trazer no carro—disse-lhe logo o João.
—«Obrigado pela lembrança; não tinha que fazer, vim a pé por ahi abaixo. Se soubesse que tinha tão bôa companhia, esperava, decerto. Mas o agradecimento é o mesmo.
—«Não tem nada a agradecer, o favor era para mim. A mamã pediu-me para acompanhar a Candida e como o _tête-à-tête_ me não é agradavel ia procurar o meu amigo para o trazer comnosco.
—«E vieram juntos? Desculpa a curiosidade.
—«Vim a governar, e ella dentro. Espere... Venha cá,—levados naturalmente por egual desejo de solidão, tinham-se refugiado na sombra, e d’ahi vira o João chegar o Vilhegas junto da Candida, que se endireitava soberba, em plena luz—repare com que intimidade elles se fallam!... E ainda o doutor diz que não ha nada! Dava tudo por os ouvir!...—Agitadissimo apertava o braço do medico, como se quizesse com a poderosa tensão do seu espirito aprehender as palavras que os outros a distancia trocavam.
A Candida, ainda de preto,—que teimava em usar porque descobrira que lhe adelgaçava o busto cheio, e lhe fazia sobresahir o brancomate da pelle e o castanho loiro dos cabellos,—estava formosissima.
Alta, silenciosa e grave entre a multidão remexida das pequenas provincianas, com um grande chapéo de rendas e plumas todo preto a completar a _toilette_ muito leve e custosamente simples, e com o seu glorioso ar de desdem, ella era na verdade a soberba materia que avassalla as almas.
O Emygdio curvou-se rendido.
—«Onde esteve hontem?—murmurou incisiva, irritante, tratando-o propositadamente por senhor.
—«Hontem, hontem...
—«Não se canse a procurar mentiras. Sei que foi a casa do Maximiano. Fallou com M.ᵉˡˡᵉ Hortense?...—frisou, ironica.
—«Quem t’o disse?
—«Que te importa? Sei que foste; se lá voltas acabarei com tudo.
—«Mas isso é um desproposito; fui lá, é verdade, mas só vi o Conselheiro, juro-te!—tentava convencer, afflicto, temendo que n’um d’esses ataques de ciumes ella o compromettesse escandalosa e irremediavelmente.
Perdê-la, quasi o não incommodava já. Era formosa na verdade, mas d’uma exigencia tão absorvente que ha muito o desgostára, a elle que não era um artista que pozesse na belleza a aspiração suprema da sua idiosyncrasia.
Desde a morte da Pillar que tentava fugir-lhe, mas, sem um pretexto que o desculpasse, agarrara-se agora áquelle da vinda do João e á necessidade de por isso espaçar as visitas para fugir um pouco áquella pressão esmagadora.
A sua intelligencia inferiorisada pela ambição obscurecia-se por completo n’um pavor de tortura, quando assim a via imperiosa e enygmatica, fascinando-o apezar de tudo.
—«O que dizes?—perguntou com ironia, olhando-o d’alto.
—«Decerto não irei sempre, mas...
—«Ah!... Oh sr. Braga—chamou ella o velho, que a contemplava embasbacado havia momentos, coisa que lhe não escapára—quer acompanhar-me até junto de meu primo?
—«Oh, minha senhora!—gaguejou o ricaço, offerecendo presuroso o braço onde ella mal tocou com a ponta dos dedos enluvados.
Com a sua grossa mão vermelhuça puxou-lhe o braço para cima e não soube senão dizer com uma ternura bruta:
—«Que felicidade, que felicidade!...
—«O quê, sr. Braga, acha felicidade que eu lhe peça um favor?
—«Se acho! Dava contos de réis para que fosse toda a vida assim!—córado até ao extremo violaceo da apoplexia, esforçava-se por dizer alguma coisa que podesse agradar áquella mulher, que havia uns tempos, desde que o Padre Mathias na botica velha dissera aquellas coisas, lhe andava a pôr doida a cabeça; que d’antes só as cifras enchiam.
—«Tanto dinheiro por uma coisa tão insignificante e tão natural!... Não valia a pena, sr. Braga!—respondeu meiga, com uma voz quebrada que acabou de atordoar o homem.
—«Lá isso valia, até tudo o que tenho! E olhe que é _p’ra_ mais de duzentos contos—regougou o animal.
—«E vive aqui!...
Um apito prolongado do comboio ao longe terminou as conversas, na mesma curiosidade de todos que aguardavam os Viscondes, trazidos por desencontrados desejos e interesses.
—«Como viria vestida a Viscondessa?—perguntavam as mulheres.
—«Como os receberia o Visconde—a si mesmos perguntavam os homens que na politica punham a sua ambição.
A machina avançava, cuspindo brazas, offegante, deixando fugir a força com o vapor que se lhe ennovelava em cabelleira. As lanternas vermelha e amarella furavam a noite como dois olhos de monstro phantastico que avançava esbaforido, chocando-se em traquinada de molas e correntes.
Na plataforma todos se agitavam, adiantando-se, querendo ser vistos primeiro. O chefe empertigou-se com a bandeirinha verde na mão, obrigando com o seu gesto imperioso a retirar os mais atrevidos. Atraz da machina seguiram os wagons carregados de saccos fedorentos de guano para as terras, depois as bagagens, a terceira classe com soldados e maltezes que vinham das ceifas do Alemtejo, estremunhados, espreguiçando-se ás janellas... E o comboio, que mal se arrastava já sob a pressão dos travões, parou por fim n’um choque que se prolongou até ás ultimas carruagens.
O wagon-leito ficou um pouco acima e todos correram açodados a cumprimentar o Visconde, que se apeou logo, esbelto ainda, mesmo bonito homem apezar dos cabellos que iam branqueando na aproximação dos quarenta. Mal puzera pé em terra e logo os vigorosos braços do Domingos o apertavam n’uma expansão perdoavel a um partidario tão intransigente.
O Visconde deixava-se abraçar por todos, tendo uma palavra para cada um, sorrisonho e amavel, apezar d’uma vaga sombra de cansaço, sustentando com distincção o difficil papel de politico acclamado pelo seu burgo.
Logo a seguir appareceu a Viscondessa, á portinhola, vestida de azul escuro, gravata de seda branca, chapéo que uma simples fita enfeitava, sorrindo bondosa, recebendo com egual deferencia todos os cumprimentos. Só quando o dr. Ramalho e o João conseguiram aproximar-se é que a sua physionomia muito movel se abriu n’um lampejo de sincero contentamento.
Acceitando as mãos que ambos lhe offereceram saltou para o chão, dizendo n’um sorriso de intimidade que raro prodigalisava:
—«Já me tardavam!... Como tem passado, doutor?... Como está tua mãe, João?
—«Como a prima pode imaginar!...
—«Sim, faço ideia! Se ámanhã a mamã não estiver muito fatigada irei abraçar a minha pobre Josephina.
—«Como é bôa e como lho agradeço—murmurou o João commovido.
—«A sr.ᵃ D. Genoveva fez bem a jornada?—interrogou o medico cuidadoso.
—«É muito longa, deixa-a fatigada por uns dias, mas apezar d’isso não está mal. Para se não incommodar com cumprimentos, pedi-lhe que ficasse na carruagem com a D. Luzia até nós retirarmos.
—«Foi bem pensado. É preciso a maior cautella com aquelles nervos—respondeu o dr. Ramalho.
—«Nervos?!... Emfim, pode ser!... Mas venham cá; vem cá, João, que te quero apresentar uma pessôa que muito estimo.
—«E que eu não conheço?—«Nem eu tambem?—inquiriram os dois a um tempo.
—«O doutor conhece, tu é que não—e voltando-se chamou para dentro da carruagem—«oh Bella!»
—«Estava a procurar a minha malinha na confusão das vossas malas, malinhas, embrulhos, cabazes... Sei lá o que para ahi vem!—veio dizendo, ao mesmo tempo que saltava da carruagem, uma delicada figura de mulher, vestida de flanella branca riscada de azul, chapéo remador de palha branca, collarinho e gravata, e no bolso do casaco o lenço de linho fito, n’um geito um tanto masculino.
—«Oh meu caro doutor, como está, como tem passado desde o inverno?!...—dirigiu-se ao medico, n’uma grande expansão de amizade, a que elle correspondia affectuoso.
—«Minha filha—sorriu a Viscondessa—guarda para logo os teus comprimentos ao doutor, que já é conhecido velho, agora deixa-me apresentar-te o meu primo João de Mello.
—«Escusas de dizer mais, conheço-o perfeitamente—respondeu séria, estendendo-lhe a mão, para um _shake-hands_, á ingleza, e dizendo com uma naturalidade encantadora.—A Maria Helena descreveu-mo de tal maneira que o reconheceria em qualquer parte.
—«Se tu o conheces—acudiu a Viscondessa, rindo—não te conhece elle, que não teve quem, tão bem como eu, te descrevesse. É preciso apresentar-te:—Isabella Burns, a minha maior e melhor amiga.
—«_Certainly_—terminou rindo Isabella.
—«Podemos partir—veio dizer o Visconde.
—«Quando quizeres.
—«Entrega a relação das bagagens ao Bernardo. Como o comboio não passa hoje d’aqui, não haverá confusão.
—«Pois sim.—Abrindo a carteira de coiro da Russia onde brilhava o oiro do monogramma e a corôa, tirou um papel que entregou ao administrador, curvado para receber as ordens e comprimentar Sua Ex.ᵃ:—Veio o _coupé_ para minha mãe?
—«Sim, sr.ᵃ Viscondessa.
—«Tenha cautella, Bernardo, olhe se os cavallos estão folgados que vão muito depressa...
—«V. Ex.ᵃ pode confiar em mim.
—«Bem sei, tenho toda a confiança no seu juizo, mas por isso mesmo não quero que entregue esta obrigação a ninguem.
—«V. Ex.ᵃ pode ir descançada.
—«Bem, bem—e voltou ainda á carruagem, a fazer as mesmas recommendações.
—«Quem é aquella senhora que o Visconde cumprimentou?—perguntava Izabella, acceitando o braço de João.
—«É minha prima.
—«Apresenta-ma?
—«Da melhor vontade, mas... perdôa-me a indiscrição d’uma pergunta? Para que deseja essa apresentação?
—«Ora para quê!? Porque é muito bonita e quero admirá-la de perto. Ri-se?
—«Não rio; é que acho um pouco estranho esse desejo.
—«Estranho em quê? Eu admiro a belleza, e onde quer que a encontro gosto de a contemplar.
—«É que, em geral, as senhoras não costumam fallar com essa justiça da belleza das outras.
—«Que me importa o que as outras fazem, se eu não sou como ellas?!...
—«Tem cautella, João, olha que a Bella faz da vida um paradoxo e a maior parte das vezes não pensa exactamente o que diz—disse a Viscondessa, que vinha logo atraz pelo braço do doutor.
—«Agora é sómente o que penso, sem exaggero nenhum. Desejar vêr de perto uma mulher bonita, parece-me que não é nada extraordinario. Vá, venha apresentar-nos.
Como se tornava impossivel alcançar o Visconde e a Candida, apertados e embaraçados por toda aquella gente que queria sahir a um tempo, chamou alto o Visconde, que se voltou logo e esperou com o seu amavel sorriso de homem galante. E foi alli, entre o gargalhar de toda aquella gente que se sentia feliz da sua propria importancia, que o João apresentou a Candida, um pouco contrafeita sob o claro olhar perscrutador de Izabella.
—«A sr.ᵃ D. Candida quer dar-nos a honra de ir na tua carruagem—disse o Visconde á mulher.
—«Com o maior prazer.
—«A sua carruagem é fechada, Visconde?—Bella interrogou.
—«É esta _victoria_, que trouxeram fechada, não sei para quê.
—«Que pena, com uma noite d’estas!—sahindo para fóra, continuou—mas de quem é então aquelle _phaeton_ tão bonitinho?
—«É meu, e se me atrevesse punha-o á disposição de V. Ex.ᵃ—respondeu João.
—«Mas porque se não hade atrever?! Ah!...—E, como fallando comsigo,—que sensaboria!
—«O que dizias?—perguntou a Viscondessa.
—«Nada!... Olha lá, parecerá mal ir no carro de teu primo—disse a meia voz, n’uma resposta que era uma pergunta.
—«Sósinha, não... Mas pode ir mais alguem, parece me que são poucos os carros para tanta gente.
—«Pode ir o doutor...
—«O doutor, não—emendou o João apressado—como V. Ex.ᵃ prefere o meu carro, vae o dr. Ramalho com os primos e eu vou convidar as sr.ᵃˢ Rebellos e o Domingos que vieram a pé.
—«As manas Rebellos e o boticario, não é? Já conheço tudo por tradição; chame-os depressa, olhe que fogem,—apressou Izabella, batendo as palmas satisfeitissima, empurrando-o quasi para o lado onde o Domingos e as cunhadas já estavam fazendo as suas despedidas ao Visconde.
Pouco depois, todos acamados como foi possivel, puzeram-se as carruagens em marcha com a gravidade ceremoniosa d’um casamento pomposo.
VIII
A tarde alongava-se n’um crepusculo aguarellado em leves tintas doiradas, com longes de porcelana japoneza e recortes miudinhos nos primeiros planos.
No terraço, illuminado pela luz do poente sem agonias, as rosas-chá abriam-se aromaticas e dôces.
A viscondessa, reclinada n’uma cadeira da Ilha com baldaquinos bordados, fitava os olhos na _Vesper_,—que era um ponto mais brilhante no oiro em que o sol se fundia—n’um alheamento, n’um abandono de si mesma, que a puzera triste, d’essa inexplicavel tristeza que infiltram na alma as tardes assim bellas e silenciosas.
O vestido leve de seda escura, com enfeites de renda preta, contrastava fortemente com a pallidez marfinea do rosto. O cabello castanho simplesmente penteado descobria-lhe a fronte alta de intelligencia e juizo claro. A bocca, d’um córte rasgado, trazia-a franzida n’um sorriso de paciente melancolia, que ás vezes se azedava n’um leve sarcasmo de quem muito conhece, e de muito a conhecer se irrita, com as mentiras da sociedade. Alta e elegante, o seu corpo tinha ficado delgado, de mulher que nunca tivera filhos, apezar dos trinta e cinco annos que ia contando. Mas o que sobre tudo agradava n’ella era a maneira senhoril, nobre e consciente e ao mesmo tempo desafectada de andar, de sorrir, de fallar para todos e em qualquer assumpto com as palavras precisas, sem um gesto a mais nem uma pausa de menos, como se toda a sua pessoa tivesse sido harmonicamente feita n’um mundo superior de materia differente da dos outros.
O creado, que chegára á porta, perguntava pela terceira ou quarta vez—se sua ex.ᵃ poderia receber o sr. dr. João Ramalho.
—«Mande entrar para aqui—respondeu como que acordando.
Emquanto o creado ia transmittir a ordem, ella endireitava-se na cadeira para receber o doutor, a quem estendeu a mão branca de dedos afusados, e disse alegremente, n’um afugentar de maus pensamentos que a alliviava:
—«Ainda bem que veiu, doutor, principiava a entristecer, com esta luz, este céo, esta solidão...
—«Como era só principio, ainda venho a tempo de evitar maior tristeza—respondeu a sorrir, ao mesmo tempo que se sentava na cadeira defronte. Se é que a minha companhia póde distrahir alguem!...
—«Aquelles que sinceramente nos estimam, são sempre a companhia que mais nos deve distrahir. Não é verdade?
—«Assim deve ser.
—«E quantas vezes não é!...
—«Não admira, o que não deve ser é o que mais acontece cá por este mundo.
—«É verdade...
—«O Visconde?
—«Deve ter sahido a cavallo, como costuma, antes de jantar. Talvez esteja na bibliotheca, ou tenha visitas... Não lho posso dizer ao certo. Só nos reunimos ao jantar, e para isso é ainda cedo—concluiu, olhando para o cinto onde, preso a uma _agrafe_ d’oiro esmaltado, trazia um pequenino relogio de crystal.
—«Em Lisboa sei que é esse o costume, pelos muitos affazeres do Visconde, mas julguei que aqui lhe pertencesse mais, n’esta liberdade de férias no campo.
—«Não, para nós é já um habito. Depois, aqui tem a politica que o absorve e distrahe: ouvir um influente, attender a outro, escrever cartas e fazer combinações... Toda essa embrulhada, a que sou perfeitamente estranha.
—«Não se interessa então nada pela politica?—respondendo ao signal de negativa que ella fez com a cabeça, continuou—Imaginei que sim. Tenho-a tido sempre como um poderoso elemento na influencia partidaria do Visconde.
—«Porquê?
—«Porque a vejo sempre amavel para os influentes, conhecendo-lhes os fracos e os interesses...
—«Sómente para fazer a vontade ao Duarte, que é a unica coisa que me pede com interesse. Mas é contra minha vontade que elle se mette n’esta vergonha da politica. Os de _cá_, os _pequenos_, como os de _lá_, os _grandes_, é tudo afinal a mesma coisa. Egoistas, ambiciosos, interesseiros, não ha um unico que queira vêr a miseria em que a patria agonisa e se sacrifique para a salvar. E se algum apparecesse, os outros affastá-lo-iam como um perigo para as suas bolsas que o thezoiro enche... Debaixo a cima, a lucta furiosa d’ambições para chegar ao poder; depois... ninguem se salva... O que me desgosta é vêr o Duarte viver com elles, ter os mesmos ideaes estreitos, acceitar os mesmos compromissos para identicos fins. Elle, que é pessoalmente honesto, politicamente iguala-se ao Maximiano Carneiro—porque é igualar-se tê-lo como adversario.
—«Não diga tal, Viscondessa! Pois não a consola que seu marido seja apontado entre os partidos da rotação como um dos raros honestos?
—«Sim, nada do que nós temos nos veiu com a politica, mas isso, meu amigo, é a honradez vulgar do creado de servir que não tira o dinheiro ao patrão mas vê sem protestos os outros encherem as algibeiras.
—«Não crê que em volta do nome honrado do visconde se forme um partido novo a que se juntem as almas ainda impollutas dos moços, cheios de coragem para luctar, resignação para a miseria, e esperança no futuro?
—«Não creio n’esse dôce sonho côr de rosa. Em primeiro logar porque os novos já não são como ha vinte annos os depositarios dos enthusiasmos e das grandes ideias altruistas. Tem-se educado a mocidade para politicos e empregados publicos. Os independentes são uma pequena minoria, que os proprios companheiros alcunham de doidos... Os homens práticos n’este paiz são os que aos vinte annos só teem confiança... nos empenhos.
—«Como está descrente! O Visconde ainda fará alguma coisa, verá...
—«Não creio, o Duarte transige com os meios, e para salvar isto seria preciso não haver transigencias de qualidade alguma. Seria preciso cortar fundo e a direito, sem olhar absolutamente a conveniencias pessoaes.
—«Quer então um novo Pombal?!...—perguntou o medico, rindo.
—«Sem as barbaridades que deslustraram a sua bella obra de resurgimento patrio. Viesse elle!...
—«É então por esse ideal... sebastianico, que lhe não interessa a politica contemporanea?!
—«Decerto! A não ser que o doutor me explique o que o paiz ganha e o que póde advir de grande e compensador para a collectividade portugueza, com a entrada do sr. _Domingos da botica_ para a vereação da camara municipal, ou com a realisação do empenho do Braga, em fazer expropriar a casa do Bernabé, porque affronta o seu _chalet_ mirabolante de burguez endinheirado e estupido. Sim, o meu bom amigo, que é tambem politico, poderá explicar-me essas _vantagens_...
—«Eu sou um politico... d’agua morna. Auxilio o Visconde por amizade, e acceitei, como sabe, ser deputado por um circulo qualquer para que elle tenha mais um voto na camara... Nunca me encommodei com os meus constituintes, que teem tido o bom senso de não pensarem tambem no seu representante.
—«Quer isso dizer que o doutor, que em toda a sua vida particular não tem uma mancha a enodoar lhe o nome, acha que é natural ser representante d’um povo porque o governo lhe disse que o fosse?! Acceita isso, e acha até muito natural que se faça, o que n’um paiz civicamente bem educado se não faria; e porquê? Porque é politica. Triste palavra que tanta coisa má faz desculpar! Os senhores não creem nos homens que seguem; não teem partido porque não teem convicções!...
—«Mas isso é quasi uma descompostura...—disse de bom humor o medico.
—«Talvez, mas justa, confesse. Um de meus avós recusou representar uma das nossas colonias nas famosas côrtes da regencia de Izabel Maria, porque era impossivel, materialmente impossivel por falta de tempo, apresentar-se eleito pelos seus constituintes com legalidade, visto que as viagens duravam seis mezes e as côrtes constituiram-se em dois... Então, um homem cheio de filhos e responsabilidades, não se importou de desobedecer a uma ordem que ia de encontro á sua consciencia, e agora? Os mais honestos teem a philosophia do doutor. Os homens teem uma consciencia mais lata...
—«E as mulheres fariam outra coisa, minha senhora feminista?
—«Oh, as mulheres não são melhores, porque nem mesmo querem dar-se ao trabalho de pensar. Se ellas pozessem no bem da patria e da familia a energia que dispendem em futilidades, alguma coisa poderiam fazer...
—«Se todas fossem como a Viscondessa decerto que o melhor que teriamos a fazer era ser governados...
—«Não perca os seus madrigaes commigo, meu caro.
—«Mas é sinceramente que digo isto, tenha a certeza.
—«Pois então digo-lhe que está enganado. Quanto mais banal e frivola é a mulher, mais influencia tem no espirito do homem, até ás vezes os mais intelligentes. Na nossa sociedade, que se apregôa a ultima palavra da civilisação, raramente a mulher é a companheira do homem. Elle quer ser senhor; ella, como todo o escravo, corrompe-o. Ora esse papel é baixo e uma alma superior de mulher nunca se sujeita a elle, prefere a sombra da sua modestia...
—«Mas, se a Viscondessa me permitte uma observação...
—«Diga.
—«Parece-me que V. Ex.ᵃ não poderá queixar-se nunca porque é, felizmente, uma excepção a essa regra; o seu lucidissimo espirito deve exercer no do visconde uma salutar influencia.
—«Está enganado; meu marido, como a maior parte dos homens, dispensa o espirito... caseiro.
—«É d’uma ironia pungente—respondeu o doutor, admirado do que ouvia, tão differente do que imaginára. Depois d’um instante de silencio, em que as suas almas se comprehenderam talvez, melhor do que em annos de convivencia, elle perguntou:
—«Ha quanto tempo casaram?
—«O que lhe diz o thermometro?
—«Que o mercurio ainda não gelou...
—«Nem gelará, descance!—respondeu sorrindo e encostando o cotovello a uma pequena meza de jardim.—Temos uma temperatura de estufa, elegante, cuidadosa e sabiamente entretida. Estamos livres das grandes temperaturas tropicaes como dos resfriamentos polares.
—«Permitta-me que duvide um pouco d’essa theoria de velhos egoistas em gente tão moça?!
—«Moços?! Não é tanto assim, sabe que idade tenho?
—«Cálculo trinta... creio que não se importa que o diga.
—«Engana se, tenho trinta e cinco.
—«Somos quasi da mesma idade, eu tenho trinta e oito.
—«Tem graça que só hoje fizessemos esta _descoberta_.
—«Quando eu vim para aqui era a Viscondessa quasi uma criança.
—«E o doutor outra, pois que somos quasi da mesma idade.
—«Eu sempre fui mais velho que os meus annos. Isto foi ha treze...
—«Tinha eu vinte e dois; estava casada havia cinco...
—«Estão casados ha vinte?!...
—«É muito, não acha, para um homem gostar d’uma mulher?
—«Pelo contrario, parece-me pouco quando ella é... o que deve ser. Casaram muito novos.
—«Eramos primos e noivos desde crianças...
Calaram-se ambos, como admirados de dizerem tanto; é que a tarde, cahindo pacificante e bella, trouxera-lhes aos labios phrases de confidencia que o tumultuar do mundo lhes não deixára nunca sahir do recesso mais intimo dos seus corações.
—«Como sou distrahido... ainda não perguntei pela senhora D. Genoveva!?—disse o doutor d’ahi a minutos, para dizer alguma coisa.
—«Hoje está muito rasoavelmente; estes quinze dias de socego têm-lhe feito bem.
—«O socego é para ella a melhor medicina. E a sua amiga?
—«Bella? Foi passear á quinta. Gosta de andar muito e não se cança. Tem aquella boa educação ingleza que faz homens e mulheres sadios, resolutos, fortes, coisas que eu tanto admiro...
—«E no emtanto a Viscondessa nada tem de ingleza...
—«Nem de inglezada. Admiro a Inglaterra como educadora, mas detesto-a como nação alliada. É mesmo por eu ser uma incorrigivel meridional, cheia de mollezas e desânimos, que admiro e aprecio os que fazem da vida uma coisa simples, alegre e boa. Compare o meu espirito cheio d’amargas duvidas e incertezas crueis com a saudavel e boa razão de Bella!... E ainda o doutor não conhece bem o fundo de probidade e inteireza do seu caracter. Alli onde a vê, é a cabecinha de mais juizo que eu conheço; sem falsas ingenuidades nem descaramentos de _demi vierge_, tem uma clara noção da vida e acceita a tal qual é, sem covardias nem tristezas.
—«Parece ser sinceramente sua amiga...
—«Se é! Tenho a certeza d’isso. Creio n’ella como em mim mesma. É a minha unica amiga intima, a unica com quem fallo sem reservas, com uma franqueza que não poderia ter com outra que vivesse n’um meio differente. A prima Josephina, por exemplo, é minha amiga, eu tambem a estimo immenso, mas, comprehende, é um espirito completamente alheio ao meu. Tendo vivido sempre n’este meio restricto da provincia, toda absorvida no santo egoismo de esposa feliz e de mãe, não é, nem podia ser, a grande amiga intellectual que é Bella.
—«E agora, com a morte de Pillar, a pobre senhora está n’uma tal depressão moral, que nem sei o que lhe possa interessar!...
—«Com toda a razão; ter uma filha como aquella e vê-la morrer, deve ser para endoidecer! Só pensar n’isso me arrepia!—nervosamente levou a mão á fronte arredando algum cabello mais teimoso.—Sabe o que me disse a Engracia?...
—«Deu-lhe attenção? Olhe que está quasi maluca desde a morte da Pillar.
—«Será tudo imaginação d’ella? O João tambem vagamente me fallou em quaesquer desconfianças...
—«Sim, esse tambem desconfia coisas pavorosamente romanticas; parece que o consola mais a ideia de que a pobre criança não morreu d’uma simples doença para que estava predisposta... Ha n’isso uma especie de vaidade, creia. Na minha vida de medico é frequente deparar com estes exemplares: pessoas que querem ter doenças extraordinarias, que dizem soffrer e sentir coisas espantosas, que querem por força que se lhes diga um nome scientifico para baptizarem a mais ligeira dôr de cabeça, e que ficam radiantes quando se lhes diz que é um caso desconhecido ou raro... Poucas são as pessoas que não sentem como que uma certa vaidade dolorosa, mas que é consoladora ao mesmo tempo, em constatar que alguem da sua amizade morreu de uma doença com um terrivel nome na medicina.
—«Pois sim, será, mas o doutor não desconfia de nada?!...
—«Eu nada desconfiei e nada vi que authorisasse tal supposição.
—«O Vilhegas parece-me um ambicioso sem escrupulos, talvez mau...
—«Não, mais ambicioso do que outra coisa. Agora é todo M.ᵉˡˡᵉ Maximiano, dizem.
—«Mas essa não é rica, o pae deve tres vezes mais do que tem. Apezar do estadão que apresenta, creio que está mettido em tanta negociata que impossivel será sahir-se de todas.
—«Homens como elle nunca vão ao fundo, boiam sempre nas aguas turvas como se fôssem o seu elemento. Elle fará subir o genro, puxando o a si...
—«Pelas orelhas, bem póde...
—«Tenho notado que os Maximianos este anno veem cá muito menos.
—«Visitaram-me durante os primeiros oito dias, como é da etiqueta... São abominaveis! Agora heide ir visita-los antes dos meus annos, para depois se convidarem para o baile. Não imagina o que me irrita esta maneira de vêr do Duarte! Ora se são adversarios, se não se podem tolerar, para que será conservar esta apparencia de relações?!
—«Porque assim mais facilmente se vigiam...
—«Mentiras sobre mentiras para esse ignobil fim?
—«Quer dizer que é um usurpador dos direitos de suzerania do Maximiano cá no burgo?!...—disse o doutor a rir.
—«Deixemos esse assumpto, que me irrita os nervos. O que me diz da Candida?
—«É muito formosa e um tanto incomprehensivel.
—«Eu não sympathiso muito com ella... Estou em crêr no que diz o João...
—«Fallavam em mim?—perguntou este, que tinha entrado sem se fazer annunciar, com toda a liberdade de parente proximo que era dos viscondes, pela mãe.
—«Ora não tinhamos nada mais interessante em que fallar...—respondeu a prima gracejando para não ter que explicar-se mais claramente.
—«Pois é uma ingratidão que tenho a registar, tanto maior quanto é certo ter passado a tarde a ouvir o seu elogio.
—«Estiveste lá em cima com minha mãe?
—«Nem só a tia Genoveva a elogia, minha senhora.
—«Então, quem mais?
—«Adivinhe.
—«A não ser a mamã, só em tua casa ou Bella; mas essa foi para a quinta, e decerto não a procuraste lá por palpite.
—«Pois foi ella mesma quem encontrei, não á beira de poetica fonte desfolhando rosas como Ophelia, mas em plena serra, em caminho da Senhora do Monte.
—«Deveras?! Aquillo é que são pernas!
—«E combinámos voltar no dia da romaria.
—«Juntaram-se os andarilhos; temos desafio como n’aquelle conto da princeza que ia á fonte buscar uma bilha d’agua emquanto os admiradores não tinham tempo de chegar a meio caminho...—observou com paternal bonhomia o doutor.
—«O que mais admira é andarem por este calor na serra e apparecer-me este n’uma frescura de _toilette_ branca de verdadeiro anglo-maniaco...
Elle córou como uma menina sob o sorriso dos dois, que olhavam o seu irreprehensivel fato de flanella branca, a flôr na botoeira, os sapatos de salto raso e a gravata preta, ultimo signal de lucto.
—«Mas, prima, lá em cima não estava calor—respondeu apressado.
—«Ó filho, não me digas isso, que mudo para lá a casa...
—«Sério, prima, na mina estava até fresco...
—«Tens a certeza de teres reparado bem se estava frio ou calor?...—E ria como poucas vezes, assim despreoccupada e feliz.
—«Estava fresquissimo, minha querida—entrou dizendo Bella, vestida de seda crua, já preparada para o jantar.—Adeus doutor, como está? não se resolve a vir um dia dar a volta ao mundo?—Apertava a mão ao medico com amistosa franqueza e continuava para a amiga:—Acredita, Maria Helena, estava tão deliciosamente fresco que encontrei lá as mais bellas avencas que tenho visto.
—«Que exagero! E diz isto uma creatura que tem uma estufa com os mais lindos exemplares que existem em Portugal!...
—«Que barbaridade, queridinha!—e inclinava-se por traz da cadeira a beijar a viscondessa com ternura.—Pois ha nada que iguale o que a natureza nos dá espontaneamente, sem artificios nem cuidados?
—«Preferes então a rosa dos vallados á _Marechal Niel_?
—«Talvez que sim, vê tu que a rosa vulgar tem mais e melhor perfume do que aquella que a civilisação apenas poude alindar...
—«Sempre o paradoxo!
—«Olha; e apresentava-lhe um pequeno ramo feito de botões de rosas singelas rodeados de avenca muito fresca—queres dizer que é feio este ramo que te trouxe?
—«Este é lindissimo, principalmente pela intenção.
Beijou-a n’um agradecimento commovido.
A noite tinha vindo, entretanto, mas tão claramente illuminada pela lua cheia que mais parecia o continuar d’esse crepusculo doce de verão que as roseiras perfumavam...
O criado que annunciára o doutor veio dizer, n’uma reverencia,—que a sr.ᵃ D. Candida e o tio estavam com o senhor Visconde na casa de jantar, esperando-os.
—«Porque não mandaste entrar para aqui?
—«Como o jantar vae ser servido, o sr. Visconde deu ordem para vir prevenir v. ex.ᵃ
—«Vamos!—disse ella, voltando-se para os tres, que promptamente se levantaram.
Na espaçosa sala de jantar, aberta sobre um terraço sobranceiro ao jardim, as luzes estavam acezas e dispostas de maneira a illuminar a casa sem lhe tirar de todo o encanto um pouco sombrio das antigas habitações, de tecto apainelado e pintado a fresco e de paredes revestidas de azulejos até meia altura.
Sobre o linho alvissimo da toalha, os crystaes lavrados e as porcelanas marcadas, harmonisavam-se com os fructos e as flores espalhadas um pouco por toda a parte, em pequeninas jarras, em cestos, em ramos, ao lado de cada conviva, n’uma prodigalidade que a riqueza do jardim authorisava. Nos aparadores de rica talha Renascença, a baixella de prata, que um artista cinzelara e de Italia fôra trazida para aquelle palacio por um avô dos viscondes, dava um forte destaque de luz junto ao severo mobiliario.
Na parede do fundo, entre as duas portas da bibliotheca, que pesados reposteiros com o brazão d’armas vedavam, um quadro a oleo tomava toda a altura. Era simples a scena e palpitante de vida: um cavalleiro, imberbe ainda, segurava pelo freio um cavallo que se empinava soberbo, espumando, o pello luzidio de suor.
O ar energico e sereno do retratado era de tal maneira humano, que ninguem duvidaria que o pintor tirara do original essa figura, decidida a tudo, antes do que a abdicar. O calção branco e a casaca encarnada do cavalleiro, moço fidalgo e rico homem, destacava-se sangrentamente no fundo plumbeo da tela. Em pé, diante do quadro, o Visconde e a Candida conversavam, emquanto Antonio de Mello, filado pelo Braga, agora seu companheiro insacudivel por causa da sobrinha, e do visconde por causa da casa do Bernabé, estava no vão d’uma janella ouvindo pela millesima vez a pretensão do homensinho.
—«Quando em pequena aqui vinha—dizia entretanto a Candida—nada me interessava como este quadro.
—«Porquê? Não é, apezar de bem feito, uma obra prima que merecesse a attenção de V. Ex.ᵃ
—«Não é isso, que eu pouco conheço de pintura para o apreciar como artista, era a historia do cavalleiro que me fazia scismar!
—«É uma historia romanesca, na verdade, uma lenda d’amôr que não admira que tivesse fallado á imaginação d’uma formosa criança como V. Ex.ᵃ era.
—«Não é certo que foi amado por uma rainha aquelle cavalleiro?
—«É certo! Amado por uma rainha que desprezou para casar com a menina que amava desde a infancia.
—«E por isso foi desterrado para este palacio, não é verdade? O que lhe era elle, sr. Visconde?
—«Meu decimo quinto avô e tambem da Maria Helena e da Josephina, porque descendemos todos do mesmo ramo.
—«Como o sr. Visconde deve ter orgulho em ser neto d’um homem que foi amado por uma rainha!
—«O que vale uma rainha impudíca ao pé do meigo e ideal typo de Griselia, a honesta pastora que torna ditoso o seu senhor á força de resignação e amôr?!...—respondeu a voz clara e insinuante de Bella, que vinha pelo braço de João e estava atraz d’elles.
—«Estou d’accordo—retorquio o visconde, emquanto as duas se cumprimentavam com expansão desusada por parte da Candida e polida frieza em Izabella.—É sempre rainha a mulher que amâmos. Mais do que rainha, porque a pômos alta como as estrellas. E rainhas são todas que dominam pela formosura e pelo espirito como V. Ex.ᵃˢ, minhas senhoras—disse para as duas, mas voltando se intencionalmente para a Candida.
—«Eu, por mim, sou uma rainha sem throno—respondeu ella com sorriso d’amargo desdem.
—«Oh não diga tal, minha senhora: V. Ex.ᵃ possue o triplice throno da belleza, da juventude e da bondade.
—«Por isso procura o do oiro para ficar com quatro pés... muito mais segura—murmurou a viscondessa para o Ramalho, apontando o Braga, n’um tom sacudido, pouco natural na sua costumada frieza.
—«É cruel, viscondessa.
—«Não ouve e nem que ouvisse percebia...
—«Ou fingia não perceber?...
—«Qualquer das coisas me é bem indifferente.
Chegando ao grupo cumprimentou a Candida que se desfazia em amabilidades e desculpas por a não ter logo visto.
—«Não admira, estavamos no terraço...
Voltando se logo, cumprimentou o Antonio de Mello com affabilidade e o Braga com um ligeiro inclinar de cabeça.
—«A sr.ᵃ viscondessa está servida—disse o mordomo de pé, ao cimo da meza.
—«Preveniram minha mãe?
—«A sr.ᵃ D. Genoveva mandou dizer que não esperassem, que descia já.
Effectivamente appareceu logo á porta a mãe da viscondessa pelo braço da dama de companhia. Alta como a filha, apezar de já se dobrar ao peso dos annos, a sua cabeça, como a d’ella, tinha uma dôce expressão que a fazia venerada por todos. A mais do que a filha tinha, não obstante a sua velhice adoentada, um aberto sorriso de quem fruia os ultimos annos d’uma velhice sem desejos nem sobresaltos, n’uma atmosphera confortavel de respeito e grandeza.
A filha correu para ella e carinhosamente a fez sentar no primeiro logar, onde todos depois lhe foram fazer os seus cumprimentos.
—«Aos seus logares!—clamou o visconde estranhamente animado.
Silenciosos, os criados começaram a servir o jantar.
IX
—«Visto isso, as festas encadeiam-se agora brilhantemente!? N’este diabo de terra é sempre assim. Passa a gente um inverno inteiro sem uma distracção que nos traga ao espirito refulgencias de luz, e depois vem as festas todas juntas, mal a elegancia da capital arriba a estas paragens...—dizia arrebicado, puxando os punhos engommados e estendendo o pé pequeno, calçado em botas de _chagrin_ côr de tijolo, o Telles da botica nova.
D’um moreno terroso, magrinho, as orelhas a fugirem-lhe para a nuca, a pelle borbulhenta e quasi sem barba, fallando muito e depressa n’uma verbosidade saltante de nevrotico que se orgulhava de ser, assim como poeta incomprehendido, devorado pela Arte,—com A grande—e conquistador irresistivel.
—«É verdade, hoje e amanhã temos a romaria da Senhora do Monte, depois o _pic-nic_ na Matta, e no fim, a coroar a série, o baile da viscondessa. Já tiveste convite?—respondeu o Vilhegas cavalgando uma cadeira, o chapéo molle deitado para a nuca e embrulhando um cigarro entre os dedos com minuciosa attenção.
—«Os Viscondes convidam me sempre, mas ainda não sei se os meus nervos me deixarão tolerar esse ruido.
Passava a mão pelos cabellos, encostando-se, nostalgico e sentimental, á secretária onde costumava escrever.
—«Homem, essa constante preoccupação é que te adoenta! Tens nervos como toda a gente; tens saude por sete, deixa te de manias.
—«Se eu não sentisse os terriveis symptomas que sinto!? O que quer dizer então este desespero de tudo e de todos, este odio ao banal que me torturiza e me distanceia da multidão, esta febre de movimento logo seguida das crises de passividade mais completa e absoluta?! Sou um neurasthenico, tenho a certeza.
—«Tanto pensas em sê-lo que te hasde tornar, isso é corrente. Mas eu não te largo, porque sem ti não vou ás festas.
—«Obrigadissimo por esse desejo, mas se eu não poder ir não vás tambem.
—«Isso é que é impossivel. A Hortensia vae e eu não quero faltar.
—«Não sei o que tu fazes com essa coisa! Casar com a Pillar, comprehendia-se, era a fortuna, era um futuro sem sobresaltos que preparavas; approvei a ideia desde que em Coimbra me contaste os teus sonhos de ambição.
—«Lembras te d’esse tempo, oh Telles?—perguntou o outro, a sério.
—«Se me lembro! Quando tu entraste pela porta dentro e me disseste que te matarias se te não emprestasse o dinheiro para a matricula!...
—«Era verdade. No ultimo anno, era a minha vida inteira que perdia! Quando penso!...
—«E afinal nunca se descobriu quem te roubou o dinheiro, pois não?
—«Nunca! O que diria o Antonio de Mello e meu pae e todos!?... Que eu tinha jogado, naturalmente. Ficava desacreditado! Salvaste-me a vida, crê.
—«Ora que ideia! Fiz o que tu ou outro qualquer faria no meu logar.
—«Fizeste o que poucos seriam capazes de fazer: pôr a tua casa, a tua bolsa, tudo quanto tinhas á minha disposição...
—«E tu não me pagas com amizade?!
—«E sincera que ella é: a unica grande amizade que tenho. A prova está em que não guardo um segredo para ti, não tenho pensamento que te não confie.
—«Ahi está o que desejo: como não tenho grandes ambições com as tuas me contento. E a proposito—que tolice é essa agora da Hortensia?
—«Então que queres? A Pillar era uma escada d’oiro para subir, esta é uma escada de corda, mas tambem por ella se trepa... Questão de tempo e de vontade. Metteu-se o diabo com aquelle negocio e foi um desastre!... Este é de mais trabalho, mas n’um paiz como o nosso tem tambem maiores vantagens.
—«Isso está muito bem, mas o que dirá a Candida? Não tencionas casar com ella?
—«Com ella, eu?!... Se a prima lhe tivesse deixado a fortuna, não digo que não.
—«Vê lá em que te mettes! Olha que essas mentiras e enganos não pódem dar bom resultado. Suppõe que a Candida falla...
—«O que hade ella dizer que a não comprometta mais do que a mim? Deixa, que ella não é tola e tem um medo ao João que a não deixa abrir bico. Além d’isso creio bem que desistiu da minha pessoa em favor da fortuna do Braga.
—«Pobre Braga! Paga na velhice todos os crimes da sua vida de avarento. Ella não tem escrupulos... Como tu cahiste na asneira de
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